O democrata Abdul El-Sayed venceu o republicano Mike Rogers em Michigan nas eleições de meio de mandato e se tornou o primeiro muçulmano eleito para ocupar uma cadeira no Senado dos Estados Unidos, em janeiro, quando o novo Congresso tomar posse. El-Sayed, que chegou à disputa pela ala esquerda do partido, obteve 52,4% dos votos, contra 45,6% do adversário, conforme projeção da Associated Press.
Nos Estados Unidos não há um órgão central eleitoral. A contagem de votos é feita em nível local (condados, cidades), e a certificação dos votos é feita por um órgão estadual. Além disso, como o voto não é eletrônico, a contagem leva dias. Assim, tradicionalmente são as mídias que enviam pessoas para monitorar a contagem nos locais de votação.
“Vocês apostaram no candidato mais improvável. A vitória é toda de vocês”, disse El-Sayed a apoiadores ao declarar vitória por volta de 1h30 do horário local.
El-Sayed tem 42 anos, é filho de imigrantes egípcios e foi diretor de saúde do condado de Wayne e da cidade de Detroit, depois de se formar em medicina pela Universidade de Michigan. Sua plataforma de campanha foi “Dinheiro fora da política, dinheiro no seu bolso e Medicare para Todos”. O Medicare é um sistema público de seguro de saúde criado em 1965 para idosos e pessoas com algumas deficiências ou doenças raras.
Durante a campanha, El-Sayed pediu a suspensão da ajuda militar a Israel e, à diferença da grande maioria dos congressistas estadunidenses, chamou de “genocídio” as ações cometidas por Israel em Gaza.
À medida que crescia nas pesquisas, o senador eleito passou a sofrer crescente islamofobia. O próprio presidente estadunidense, Donald Trump, caçoou diversas vezes do seu nome, chamando-o de “Mohammed” durante a campanha. O senador republicano Ted Cruz, do Texas, o chamou de “jihadista” que tentaria implantar a lei islâmica no país e disse que vidas estadunidenses estariam em risco se ele tivesse acesso a informações sigilosas. Seu adversário, Rogers, e aliados tentaram vinculá-lo à Irmandade Muçulmana, grupo que El-Sayed renegou publicamente e do qual disse nunca ter participado.
No último comício, o democrata respondeu ao presidente. “Não me importo se [Trump] sabe qual é o meu nome, porque depois de amanhã, vamos fazer com que ele passe a me chamar de senador”, disse.
Embora nenhuma pessoa de religião muçulmana tenha chegado ao Senado, na Câmara, em 2007, Keith Ellison, de Minnesota, se tornou o primeiro congressista muçulmano e também o primeiro deputado negro desse estado. Logo, foram eleitos André Carson, de Indiana, em 2008; Rashida Tlaib, de Michigan, filha de palestinos, e Ilhan Omar, de Minnesota, nascida na Somália e refugiada nos EUA, ambas em 2019; Lateefah Simon, da Califórnia, em 2025; e Aisha Wahab, também da Califórnia e primeira descendente de afegãos a chegar ao Congresso, em setembro. Todos eles pertencem ao Partido Democrata.
Nas primárias, grupos pró-Israel, entre eles os ligados ao Aipac (Comitê de Assuntos Públicos dos EUA e Israel), gastaram mais de US$ 30 milhões em favor da democrata Haley Stevens, que venceu a disputa em Detroit (maior cidade de Michigan), mas perdeu a indicação estadual ao Senado para El-Sayed. Dias antes da eleição, Stevens anunciou que passaria a apoiar o adversário de El-Sayed, motivo pelo qual democratas estão pedindo sua expulsão do partido.
Pelas projeções, os democratas também viraram cadeiras republicanas em Iowa, Kansas, Maine, Carolina do Norte, Ohio, Carolina do Sul e Texas, e reconquistaram a Câmara, que vai cobrir os dois últimos anos do governo Donald Trump.


