A virada eleitoral foi histórica. É importante reconhecer o papel da comunicação digital, sem deixar de apontar aprendizados que considero importantes. O exército de Janones foi fundamental para a vitória. Mas isso não significa que a esquerda não estivesse presente nas redes sociais, como ouvi por aí. Pelo contrário. Há mais de uma década, a atuação nas redes sociais ocupa lugar central em muitas organizações de esquerda, nos sindicatos e nos movimentos sociais.
Estive dentro de algumas dessas organizações e perto de outras. Vi sindicatos, movimentos e partidos abandonarem jornais, teatro, boca a boca e outras formas de comunicação para concentrar esforços nas redes. A linguagem também mudou: de uma linguagem popular e de classe para a linguagem das redes. Em vez de mobilização, engajamento. Em vez de agitador, influencer; no lugar de discurso, narrativa.
Os governos progressistas também apostaram nessa transformação. Em 2012, 2013, havia a expectativa de que a internet finalmente democratizaria a comunicação. Apostamos nossas fichas antes de compreender que as ferramentas estariam nas mãos das big techs.
Para mim, o primeiro aprendizado dessas eleições é que o problema da esquerda não foi a ausência de atuação nas redes. Foi ter atuado nas redes sociais sem política de comunicação.
Há mais de dez anos, a esquerda tenta correr atrás da direita nesse espaço virtual, muitas vezes copiando suas estratégias e gramáticas. A direita investia na difusão de mensagens em massa; a esquerda criava sua própria central. A direita fazia determinada ação, e nós tentávamos reproduzi-la.
O que Janones trouxe foi um uso pontualmente diferenciado da ferramenta. Dessa vez, não corremos tanto atrás da direita: desenhou-se uma estratégia própria. E isso não é pouca coisa, mas é raso, frágil e insuficiente.
O que vimos ali foi uma leitura de como funciona a ferramenta digital e uma maneira própria de utilizá-la. Não se tratava simplesmente de produzir conteúdo ou atacar as ações bolsonaristas. Havia o objetivo de dar coesão. Muitos no canal não tinham certeza de como aquilo iria virar voto. Por isso, cada ação precisava desaguar em uma consequência material, prática e real, para além do digital: cada pessoa mobilizada deveria levar alguém à urna.
Mas precisamos ficar em alerta. As ferramentas continuam nas mãos de pouquíssimos sobrenomes globais. As big techs podem impedir essa estratégia ou transformar as possibilidades de atuação. Estamos construindo estratégias em plataformas que não controlamos. A esquerda vai precisar enfrentar esse problema, sem se deslumbrar.
Fiquei muito feliz quando Lula disse, em sua primeira fala após ser eleito, que vamos ter que regular as redes sociais. Não há democratização da comunicação enquanto a circulação de informações e a organização política estiverem submetidas a poucas empresas. Nós mesmos estamos viciados em vídeos curtos e rasos, influenciados pela mesma lógica de consumo (só que com estética progressista). Não estamos ilesos. Mas regular não é suficiente: precisamos ter soberania também na comunicação.
Por isso, não acho que o ensinamento seja que a esquerda precisa se voltar para a comunicação via redes sociais. Ela já está lá, com prioridade, há mais de uma década. Precisamos utilizar esse ambiente de maneira nova, sem abrir mão da nossa capacidade de criar.
Durante muito tempo, a esquerda era imbatível em criar formas próprias de dialogar com a sociedade: rádios comunitárias, zines, rádios-poste nos assentamentos, jornais sindicais recheados de charges, teatro e plebiscitos populares. Experiências que não dependiam das grandes estruturas midiáticas. Mas abandonamos boa parte desse repertório quando decidimos ir totalmente para o digital.
O que me leva ao segundo aprendizado que é que redes sociais, por si só, não bastam. Erramos ao abandonarmos nossas próprias formas de comunicação e de educação pela comunicação para nos tornarmos reféns de um ambiente controlado por poucos e gigantescos oligopólios globais.
Não basta receber um meme, compartilhar uma manchete ou produzir muito conteúdo acreditando que isso vai gerar consciência política ou mobilização. Talvez o excesso de informação sem formação atrapalhe mais do que ajude.
A virada não foi resultado apenas das redes. Houve também a disposição de recuperar outros ferramentais: gente que foi à rua panfletar, conversar e perguntar por que as pessoas estavam em dúvida ou não iriam votar. Gente que segurou placas criativas em escadas rolantes, fez esquetes nos metrôs e produziu panfletos sobre o que sabia argumentar. E isso fez diferença.
Uma conversa consistente, que considera as dúvidas e experiências das pessoas, pode ser mais efetiva do que mensagens que chegam à sua bolha. A comunicação pode ter dimensão educativa, algo que esteve presente pontualmente no canal de Janones: não apenas mobilizar para compartilhar conteúdos, mas preparar as pessoas para compreender e atuar naquele espaço.

Essa reflexão precisa orientar nossa atuação política cotidiana. Não estou negando o papel da internet. Pelo contrário. Reduzimos uma jornada de trabalho com uma luta de três anos. A redução anterior havia levado mais de 50 anos. Isso só foi possível pela internet? Não. Mas ela foi fundamental para acelerar o processo, ampliar a mobilização e permitir novas formas de organização.
A internet potencializa essas possibilidades, mas a finalidade continua sendo a mobilização social, a organização política e o pé na rua. A pressão popular produz consequências concretas, inclusive sobre um Congresso que não está nada favorável.
Essa mobilização vai precisar de criatividade e estratégia própria. Aliás, acredito que o que será capaz de derrotar o fascismo é a criatividade.
Durante as três semanas entre o primeiro e o segundo turno, Janones repetiu algo que deveríamos levar a sério: nós possuímos as mentes mais brilhantes do país. Os maiores artistas, cientistas e filósofos se posicionaram contra o fascismo nessas eleições. Eu acredito que podemos criar alternativas.
Não tem bala de prata.
A esquerda não precisa descobrir a comunicação digital. Precisa compreender que estar nas redes não é o mesmo que saber se comunicar. Precisa inventar, criar ferramentas próprias, ocupar as ruas e construir uma comunicação que não se encerre na tela, mas produza consequências concretas na vida e na organização das pessoas.
*Fernanda Targa é formada em Comunicação Popular e Comunitária pela UEL e atualmente é Relações Públicas da Uerj
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.



