quarta-feira, junho 10, 2026
spot_img
InícioPOLITICALavagem do Bonfim mobiliza caravanas do interior da Bahia para reafirmar fé,...

Lavagem do Bonfim mobiliza caravanas do interior da Bahia para reafirmar fé, política e ancestralidade negra

0:00

Nesta quarta-feira (14), uma das maiores manifestações culturais da Bahia cumprirá por mais um ano o ritual de reunir milhões de pessoas em Salvador (BA) para percorrer o cortejo de oito quilômetros que começa na Basílica da Conceição da Praia, tendo como destino a Colina Sagrada, no Bonfim.  Neste ano, a Lavagem do Bonfim propõe o tema “Dai-nos paz, justiça e concórdia” e relembra os 281 anos da chegada da imagem original do Senhor do Bonfim à Bahia, vinda de Lisboa em abril de 1745.

Após a caminhada, a multidão vestida de branco testemunha a lavagem das escadarias, ato que as pessoas negras passaram a associar ao culto de Oxalá, orixá relacionado à criação do mundo e símbolo da paz nas religiões de matriz africana.

A festa, que se repete todos os anos desde 1754, atrai milhares de fiéis não apenas da capital baiana, mas de todo o estado, assim como de outras partes do país. Grupos de pessoas se organizam com grande expectativa ano após ano, seja para pedir, seja para agradecer pelas graças alcançadas.

É o caso de Marinalda Soares, coordenadora do Núcleo Feira de Santana da Rede Nacional de Mulheres no Combate à Violência, que há seis anos se articula em caravanas para ir à celebração, em uma retomada da tradição de família da qual acabou se afastando depois que se tornou mãe.

“Comecei a participar muito menina. Assim que o período escolar terminava, eu ia para a casa das minhas tias em Salvador com a minha mãe. Quando ela parou de ir, eu dei continuidade. Mas depois que eu tive filhos, não fui mais.”

Essa história mudou a partir da iniciativa da Moviafro Feira de Santana, um movimento político, cultural, artístico e educacional, que resolveu mostrar que quem tem fé vai a pé, mas também pode ir de ônibus. O grupo passou a organizar caravanas para levar pessoas da cidade, toda segunda quinta-feira após o Dia de Reis.

“A gente lota sempre os ônibus, saindo cedo daqui. Lá nós vamos para a concentração, e depois vamos dispersando. Mas no caminho vamos brincando, conversando, reencontrando amigos que não víamos há muito tempo”, conta.

Para a ativista, estar em coletividade é uma forma de manter vivos os laços sociais. “A gente passa o ano todo militando, e quando aquele contexto termina, cada um vai para um canto. Mas quando a gente se junta para estar nesses espaços, construídos pelo povo preto, para ir à festa do Bonfim, retomamos esses laços.”

Dona Mari, como é conhecida, se refere ao fato de que muitos historiadores apontam a lavagem como um dos exemplos do sincretismo religioso que, em essência, representa uma estratégia de resistência das pessoas escravizadas para manter a sua fé mesmo num cenário de extrema opressão.

Em 2026, ela marcará presença na festa popular mais uma vez, mas agora participando de uma outra caravana: o Bando da Negona. O grupo pega a estrada às 5h, levando não apenas moradores de Feira de Santana, mas também de distritos e de municípios vizinhos, a exemplo de Antônio Cardoso.

O grupo nasceu como uma articulação política pensada e organizada por mulheres negras, para ocupar outra festa de largo, o Bando Anunciador, um cortejo profano realizado desde o século 19 e retomado em 2007, para anunciar as festividades da padroeira de Feira de Santana: Senhora Sant’Ana.

“Tem um tom muito festivo, mas principalmente político. A gente queria desmascarar a política da extrema direita de Feira de Santana, mostrar a falta de projeto para o povo negro. Levamos placas, pirulitos, denunciando como ainda é uma cidade racista, que em 192 anos nunca teve uma vereadora negra”, explica Urânia Santa Bárbara, uma das idealizadoras, professora e militante Partido dos Trabalhadores (PT) na cidade, onde já concorreu a vereança.

Cortejo do Bando da Negona durante as festividades do Bonfim | Crédito: Imagem: Reprodução Redes Sociais

Embora organizado por mulheres negras, com o tempo o Bando da Negona alcançou muitas outras pessoas, inclusive não negras, que acreditavam no projeto político ali defendido. O que começou como festa, culminou em diversas reuniões para pensar propostas culturais e de intervenções políticas para a cidade. A partir daí, nasce a ideia de levar o Bando da Negona também para a lavagem mais famosa da Bahia.

Para Urânia, estar presente na Lavagem do Bonfim é a garantia da diversidade de corpos, cores e territórios na capital baiana. “Apesar de ser uma cidade muito próxima de Feira de Santana, muitas pessoas não têm esse acesso tão fácil. Além disso, a gente entende que a Festa do Bonfim ainda é carregada de sentido político, porque fala de muita fé, mas também da impossibilidade de certos corpos professarem sua fé”, pondera.

Ela lembra que a história da Lavagem do Bonfim é sobre as restrições impostas à população negra nos espaços religiosos durante o período colonial e imperial, quando pessoas negras, especialmente escravizadas, eram impedidas de participar plenamente dos ritos católicos, sendo empurradas para os trabalhos de limpeza e para os rituais realizados do lado de fora das igrejas, e que, por isso, estar presente é também uma forma de marcar politicamente o espaço.

“É uma forma estratégica de mostrar que estamos atentas à proibição dos nossos corpos em territórios em que somos invisibilizados. Mas significa também um momento de alegria, é ir para a ‘Bahia Grande’, como se diz no interior. É uma oportunidade de festejar as nossas vidas e conhecer o sentido político da lavagem. Sair em coletividade significa que eu não estou só nessa luta por um projeto político para o povo negro, levantando a bandeira da reparação e do bem viver”, completa.

Para Dona Mari, a mobilização de pessoas dos diversos territórios e idades para chegar à Colina Sagrada, diz muito sobre a importância de dar continuidade às manifestações populares e religiosas ancestrais.

“É sobre manter a tradição secular, é uma forma de reverenciar nossos ancestrais e dar continuidade a tudo que eles construíram. A cada ano a festa só aumenta, as pessoas vão para conhecer, se emocionar, e sentir os braços abertos do Senhor do Bonfim”, finaliza.

Google search engine

Fonte Original

Conceição do Mato Dentro reforça debate sobre diversificação econômica com segundo fórum em seis meses

Quando uma cidade realiza dois fóruns sobre diversificação econômica com apenas seis meses de intervalo entre eles, o recado é claro: o futuro não...
ARTIGOS RELACIONADOS
Anúncio
Google search engine

MAIS POPULAR