O Brasil figura como um dos últimos locais de resistência ao imperialismo estadunidense, retomado com força na era do presidente Donald Trump. Os EUA têm grande interesse na vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no próximo domingo (25), justamente por isso. Lula já se comprometeu com a soberania do país e representa um freio aos anseios de Trump de dominar as riquezas brasileiras.
No cenário da América Latina, o Brasil é um dos poucos países que não foi dominado pela extrema direita. Mas vive eleições muito disputadas e Lula e a parcela da população que o apoia estão precisando enfrentar, além da própria figura de Trump e do Escudo das Américas, a interferência das redes sociais com ação direta da Meta.
Já Flávio Bolsonaro tem se alinhado cada vez mais, não apenas a Trump, mas a Javier Milei, presidente da Argentina, e Naiyb Bukele, presidente de El Salvador, inclusive afirmando que irá aplicar políticas semelhantes às dos países no Brasil.
Ao podcast de política internacional do Brasil de Fato, O Estrangeiro, o analista Hugo Albuquerque avalia que a estabilidade e a orientação do Brasil são decisivas para o rumo de toda a região. “Sem o Brasil, esses governos de direita não vão durar muito tempo. Mas eu entendo que o Brasil tem de mudar a relação dele com esses países vizinhos, porque a aliança tem de ser feita pelos povos”, pontua.
Albuquerque aponta que a comunicação digital é, atualmente, um dos pontos mais nevrálgicos da interferência estrangeira no Brasil e avalia que o campo progressista, de forma geral, “subestimou” e “falhou em normalizar a situação nas últimas décadas”, como se YouTube, Instagram e Facebook fossem plataformas neutras.
“A gente até aportuguesou a pronúncia, teve aquela onda de todo mundo estar no Instagram. Veja: hoje, o WhatsApp controla a comunicação brasileira”, afirma. “Como é que a gente permitiu isso? As televisões, por exemplo, nunca puderam ser estrangeiras; a gente tinha que dublar conteúdo”, aponta, em referência aos filmes e programas da TV aberta.
O analista também cita o exemplo da China, que não apenas regulou a atuação de plataformas estrangeiras, como criou as suas próprias redes comunicacionais, dando uma lição de soberania digital. “E muita gente, na época, criticou: ‘isso é um problema de autoritarismo da China’. Agora, a gente está sentindo na nossa pele. Não era autoritarismo coisa nenhuma. Simplesmente, a China, assim como o Brasil, são países soberanos”, defende.
Para Hugo Albuquerque, o enfrentamento a esse cenário exige romper com tentativas de conciliação geopolítica que mascaram a atuação agressiva do capital e do Estado estadunidense sobre os países em desenvolvimento. O analista geopolítico afirma que Washington utiliza governos aliados na região como “bucha de canhão contra o Brasil”, impondo uma dinâmica de exploração e perda de autonomia nacional.
Diante desse cerco, Albuquerque defende que a política externa brasileira não deve buscar uma falsa neutralidade, mas, sim, liderar abertamente a resistência anti-imperialista na região.
“A gente tem que fazer uma defesa do direito dos países em desenvolvimento, denunciar esse imperialismo. Porque esse imperialismo estava mascarado com o Biden, mas estava operando. O Javier Milei não foi eleito no governo Trump, foi eleito no governo de Joe Biden com apoio e articulação do embaixador americano em Buenos Aires. E o primeiro ex-presidente americano que Javier Milei encontrou em eventos nos Estados Unidos foi Bill Clinton, não foi Trump. Então, a gente também está sendo cúmplice de um certo falseamento da realidade que nos ameaça existencialmente”, alerta.
Confira o programa completo abaixo:
Para ouvir e assistir
O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras, às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.


