quinta-feira, setembro 10, 2026
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Ferida aberta: por que a Guerra do Paraguai ecoa de formas tão distintas no Brasil e no país vizinho?

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A Guerra do Paraguai voltou ao debate público após declarações do presidente Lula sobre o conflito que aniquilou 70% da população paraguaia. “A gente não pode esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil”, disse o presidente ao defender investimentos em defesa. Mas foi isso mesmo que aconteceu?

O historiador Rodrigo Goyena conta que a Guerra do Paraguai, ou Guerra da Tríplice Aliança, deve ser compreendida para além de gatilhos imediatos, como a invasão do Mato Grosso em 1864. Segundo o historiador, o conflito foi maturado por interesses estruturais de longo prazo ligados à formação dos estados nacionais platinos, sendo a livre navegação dos rios da Bacia do Prata um ponto “absolutamente inegociável para o Império do Brasil”.

“É um interesse que dizia respeito à livre navegação dos rios da Bacia do Prata, especialmente, então, os principais caudais da Bacia do Prata, o Rio da Prata, o Rio Uruguai, o Paraná e o Paraguai, efetivamente. Isso por uma razão muito simples: todo o equivalente ao atual Centro-Oeste brasileiro somente era acessível por via fluvial”, explica ao BdF Entrevista.

Goyena contesta enfaticamente a visão revisionista das décadas de 1960 e 1970, que retratava o Paraguai como uma potência industrial e a Inglaterra como a articuladora oculta do conflito. O pesquisador afirma que essa interpretação “carece de fundamentos materiais históricos”, pois o Paraguai era ainda rudimentar e o Brasil estava com relações diplomáticas rompidas com Londres na época.

Em vez de uma conspiração britânica, o que explica a guerra é a dinâmica da “balança de poder” regional e as tensões internas de cada nação, como a consolidação do Estado argentino e as disputas civis entre blancos e colorados, partidos políticos no Uruguai. “O Brasil havia sido muito agressivo com o Uruguai. Os blancos haviam sido derrotados. O Brasil impingiu ao Uruguai uma série de tratados desiguais, poderíamos dizer, que virtualmente transformaram o Uruguai em uma espécie de semiprotetorado”, destaca.

O professor analisa o saldo social e a memória contrastante da guerra, que, para o Paraguai, resultou em um desastre demográfico e econômico de proporções colossais. Ele observa que, enquanto no Brasil a memória do conflito é muitas vezes remota, no Paraguai ela é uma “ferida aberta” e central para a identidade nacional.

“Uma população masculina dizimada, o custo econômico altíssimo, a infraestrutura que havia sido constituída, destruída, custo de uma resistência a ferro e fogo”, resume sobre os impactos da guerra para a nação paraguaia.

Em relação à polêmica a partir da declaração de Lula, Rodrigo Goyena não hesita: a história é vista e formada completamente diferente para paraguaios e brasileiros. “A memória da guerra tem um peso completamente diferente para o Paraguai do que para o Brasil. Por isso, uma declaração como essa causa tanto rebuliço.”

Especificamente no cenário brasileiro, a guerra marcou ainda o início da derrocada do Segundo Reinado, gerando uma dívida pública massiva e um profundo descontentamento no Exército pelo “não reconhecimento civil do esforço militar”, o que pavimentou o caminho para veteranos do conflito liderarem a Proclamação da República.

Apesar das cicatrizes do conflito para a nação paraguaia, o especialista destaca que há também um contexto político atual na repercussão da fala de Lula. “O Peña [Santiago Penã, presidente do Paraguai] está jogando para o seu time, está pensando nos efeitos dessa declaração internamente, é claro. Agora, por outro lado, evidentemente, o Paraguai tem um alinhamento com os Estados Unidos. E o cenário das relações Brasil-Estados Unidos pesa nessa equação também, ou seja, pesa nas possibilidades de uma reação que foi ríspida e um pouco fora do tom”, avalia o historiador.

Confira abaixo a entrevista completa:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Fonte Original

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