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Festa da Colheita fortalece economia solidária e aproxima campo e cidade no Rio Grande do Sul

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A sede da Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita voltou a concentrar milhares de pessoas nesta sexta-feira (20) durante a 23ª Festa da Colheita do Arroz Agroecológico. Mais do que marcar o início da retirada do grão cultivado em 2.800 hectares por cerca de 290 famílias assentadas, o evento consolidou a Feira da Reforma Agrária como um dos espaços centrais da atividade, articulando produção, cultura e debate político.

Ao longo de cerca de 40 metros de bancas, 35 grupos entre cooperativas, associações e famílias apresentaram alimentos e produtos vindos de diferentes regiões do estado, evidenciando a diversidade produtiva construída nos territórios da reforma agrária.

Festa da Colheita reafirma o compromisso com a soberania alimentar e a produção sustentável no campo | Foto: Clarissa Londero

A dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Lara Rodrigues, destacou o sentido político e simbólico da atividade ao afirmar que o evento permite “compartilhar a nossa colheita, compartilhar aquilo que o movimento tem de melhor, que é a luta, nossos alimentos saudáveis e essa alegria da cultura popular também das nossas famílias assentadas”. A fala sintetiza o papel da feira dentro da Festa da Colheita, não apenas como espaço de comercialização, mas como vitrine de um modelo de produção e organização social.

Feira como expressão da economia solidária

A Feira da Reforma Agrária foi organizada de forma coletiva, reunindo diferentes experiências produtivas que vão do arroz agroecológico a alimentos processados, hortaliças, panificados e artesanato. A diversidade apresentada foi destacada por Sandra Nunes Rodrigues, da Cooperativa Regional dos Trabalhadores Assentados, que coordenou o espaço.

Sandra Nunes Rodrigues ressalta a feira como espaço de cooperação e diversidade da produção da reforma agrária | Foto: Fabiana Reinholz

Segundo ela, a feira cumpre um papel estratégico ao apresentar a amplitude da produção dos assentamentos. Sandra afirmou que o espaço não se limita à comercialização, mas expressa um modo de organização baseado na cooperação, destacando que “fica uma relação de cooperação, que é o nosso objetivo”. A fala aponta para uma lógica distinta da concorrência de mercado, baseada na articulação entre grupos e na construção coletiva de preços e estratégias.

Essa dinâmica também foi ressaltada por Brenda Santos Tose, da Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre, que levou à feira produtos como diferentes tipos de arroz e geleias. Para ela, o contato direto com o público urbano ajuda a enfrentar estigmas construídos sobre a reforma agrária. “A gente traz alimentação, a gente quer trabalhar pela terra, lutar pela terra, viver do que ela pode nos proporcionar”, afirmou, ao comentar o papel da feira na aproximação entre campo e cidade.

Brenda Santos Tose defende a produção dos assentamentos e o direito de viver da terra com dignidade | Foto: Fabiana Reinholz

Produção diversificada e base familiar

A diversidade produtiva apresentada na feira reflete um modelo baseado na agricultura familiar e na organização coletiva. Mesmo quando há escala de produção, como no caso do arroz, representantes das cooperativas ressaltaram que a base continua sendo o trabalho das famílias.

Brenda Santos Tose destacou esse aspecto ao afirmar que “tudo começa sempre pelas famílias, tudo tem um início lá. Então é um negócio que consegue escalonar tanto, mas sempre tendo a base da agricultura”. A fala evidencia como a expansão da produção ocorre sem romper com a lógica familiar, elemento central para o modelo defendido pelos assentamentos.

A feira também contou com a participação de grupos que atuam na transformação de alimentos. A Cooperativa Mãos na Massa, formada por mulheres assentadas, apresentou pães e cucas produzidos para abastecer a merenda escolar em municípios da região. A integrante Noeli Salet Costa descreveu a participação no evento como um momento de encontro e troca, afirmando que é “maravilhosa, muito bom. A gente vê as pessoas amigas, conhecidos de tempo e também vende, né? Encontrar companheiros. É por aí”.

Noeli Salet Costa (direita) valoriza a feira como momento de encontro, troca e fortalecimento entre os trabalhadores do campo | Foto:

Mulheres, autonomia e trabalho coletivo

A presença de grupos organizados por mulheres foi um dos elementos marcantes da feira. Além da produção de alimentos, o artesanato apareceu como estratégia de geração de renda e autonomia.

Eomara Soraes, assentada desde a origem do movimento na Fazenda Annoni, apresentou peças artesanais e destacou o impacto desse trabalho na vida das mulheres. Segundo ela, a atividade contribui para a independência financeira e para o enfrentamento de situações de vulnerabilidade.

“Se a mulher tiver uma independência, ela não precisa baixar a cabeça para homem nenhum. A partir do momento que nós temos a nossa independência, a gente decide o que a gente não quer para a nossa vida e não podemos mais aceitar isso”, afirmou.

Eomara Soares destaca o artesanato como ferramenta de autonomia e independência para as mulheres | Foto: Fabiana Reinholtz

Do campo às periferias urbanas

A produção apresentada na feira também está diretamente conectada às políticas públicas de segurança alimentar. Parte dos alimentos produzidos nos assentamentos é destinada a programas governamentais que abastecem escolas e cozinhas solidárias.

Naiara Bitencourt, da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social, explicou que a produção será incorporada ao Programa de Aquisição de Alimentos. Segundo ela, a experiência demonstra que é possível garantir acesso a “comida livre de veneno, livre de transgênico, que chega de forma sustentável e saudável na mesa do povo brasileiro”.

Lúcia Rodrigues da Rosa reforça a importância da produção do campo no combate à fome nas cidades | Foto: Fabiana Reinholtz

Na ponta desse processo estão iniciativas como a Cozinha Comunitária Cando Daru, localizada em Porto Alegre. A coordenadora Lúcia Rodrigues da Rosa destacou a dependência das cidades em relação à produção do campo. “Se o campo não planta, não tem como nós comer, porque a gente vive no asfalto e no asfalto não tem comida, só tem miséria. Então nós dependemos deles para poder combater a miséria lá fora”, afirmou.

Convênios e continuidade da produção

Além da feira, a Festa da Colheita também foi espaço para a formalização de parcerias voltadas ao fortalecimento da agroecologia. Foram anunciados convênios no âmbito de programas federais que apoiam a produção sustentável e o desenvolvimento de bioinsumos.

Ao comentar o futuro da produção, Lara Rodrigues destacou que o ciclo não se encerra com a colheita. Segundo ela, o trabalho nos assentamentos é contínuo e envolve planejamento para as próximas safras. A dirigente afirmou que a organização segue mobilizada para garantir a continuidade da produção e da cooperação entre as famílias.

A 23ª Festa da Colheita do Arroz Agroecológico, ao reunir produção, feira, política pública e articulação social, evidenciou como a economia solidária se estrutura como eixo central da experiência dos assentamentos. Ao conectar campo e cidade, produção e consumo, o evento reafirma o papel da organização coletiva na construção de alternativas para o abastecimento alimentar e o desenvolvimento rural.

Confira mais fotos:

Foto: Clarissa Londero
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Fonte Original

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