quarta-feira, junho 10, 2026
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Frei Sérgio e Paulo Freire: uma pedagogia libertadora

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Na celebração da passagem de Frei Sérgio em Daltro Filho várias vezes foram feitas menções sobre as semelhanças e as inspirações que ele buscava em Paulo Freire. Gostaria de sublinhar essas profundas e estratégicas convergências, pois elas podem muito nos ajudar e inspirar nossas lutas e projetos.

Numa carta que Freire escreveu a quatro jovens seminaristas, em 1977, após colocar no início do texto a citação do Evangelho de João, “Vós sereis meus amigos se fizerdes o que vos peço”, ele comenta: “Cristo é para mim o melhor exemplo de pedagogo”. E fundamenta: “É impossível separar nele o que ele dizia, do que ele fazia”. E logo à frente: “Ele não dizia a verdade, era a verdade. Não ensinava o caminho, era o caminho!” E comenta a seguir que muitos de nós, educadores e até mesmo padres, arriscamos nos transformar em burocratas da palavra: somos os que mais falamos, mas nossa fala é como um som que voa, um som oco; não é palavração, um termo que ele criou para expressar o que entendia por práxis, a indissolubilidade entre o que se diz e o que se pratica!

Isso foi tão marcante em Freire que no último livro que estava escrevendo, Cartas Pedagógicas, na última Carta, nas duas últimas linhas, ele escreveu: “…para que cada vez mais o que nós fazemos corresponda ao que nós dizemos”. Escreveu isso e nos deixou… Mas essa sua fala continua a nos perseguir em toda nossa caminhada em busca de justiça e fraternidade.

Vejamos agora nosso autêntico e corajoso Frei Sérgio. Não conheço alguém, nos últimos tempos, que tenha colocado tanto, e tão profundamente em sua prática concreta, essa provocação de Freire:

– Ele não falava em Igreja em saída e incarnada. Saiu e foi morar nos acampamentos, nos assentamentos, nas ocupações. Foi morar no meio deles.

– Ele não falava em dar de comer a quem tem fome: fazia greve de fome em solidariedade e defesa dos que têm fome e sede de justiça!

– Ele não dizia que devemos defender os perseguidos e oprimidos: ocupava a linha de frente, recebia as primeiras agressões, até físicas. Levou consigo a cicatriz duma coronhada que recebeu em sua face dum brigadiano, da qual se orgulhava: foi a única marca física que carregou até sua última morada!

– Ele não falava de suas convicções e fé: escreveu essas convicções em páginas de fogo, para que acalentassem e incendiassem os ânimos de quem está na luta.

Estou pensando em tudo isso e deixo esse desafio a cada um de nós: o único argumento que convence, e que não pode ser contestado, negado, é a prática!

* O livro Paulo Freire e…além: Desafios de uma pedagogia crítica, Porto Alegre: Evangraf, de 2024, já está na 8ª Edição.

** Padre, filósofo, sociólogo, pós-doutor em psicologia e ciências sociais e professor aposentado.

*** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Fonte Original

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