“Se o corpo pode ser arte, pode ser tudo”. Este é o mote da exposição Transfigurações em cartaz no Museu de Arte do Paço, no Centro Histórico, em Porto Alegre (RS). Inaugurada no dia 29/1, a mostra vai até 6 de março. Tem tempo de sobra até lá para visitar uma série de trabalhos do artista pelotense, nascido em Piratini, Edu Devens, em 1971, Ele consegue cativar o visitante pela sua inventividade e criatividade em obras que atravessam a psicanálise e a medicina para encontrar nas artes visuais a potência dos corpos dissidentes.
O curador é o artista visual e gestor cultural André Venzon (1976, em Porto Alegre), formado pela Universidade de Girona, na Espanha, e mestre em Poéticas Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Dedica-se à pesquisa dos tapumes na paisagem urbana, de elemento arquitetônico a significante de operações poéticas. Apresenta os resultados de seus estudos e criações em exposições, congressos, seminários, palestras e curadorias.
É membro da Comissão Técnica Permanente de Avaliação de Projetos de Obras de Arte, Monumentos e Marcos Comemorativos (Comarp) da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre e integra o Comitê de Curadoria do Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, em Pelotas.
A exposição que montou para Devens causa impacto. Sala toda branca com elementos pretos e dividida em etapas, ele propõe relações e reflexões entre vulnerabilidade e resistência, entre o que é íntimo e o que é público, entre o corpo que é visto e o corpo que sente. O artista busca ampliar a expressão e o reconhecimento de quem se identifica como diferente, diverso, em transformação contínua. Sua obra não apenas identifica diferenças, mas amplia possibilidades expressivas, dando vida emergente aos objetos e ampliando seus significados.
Artista e pesquisador
Devens, um artista visual e pesquisador, graduando em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), desenvolve uma produção que investiga corpos dissidentes e a fragmentação dos modelos normativos da masculinidade. Por meio da fotografia expandida, transferência de imagem, escultura e instalação, sua obra tensiona os regimes de visibilidade do corpo e os dispositivos simbólicos que sustentam suas representações.
O artista já fez exposições individuais, entre as quais se destacam Encaixotando Desencaixados (Fundação Ecarta, Porto Alegre, 2025) e Sugar – Reflexões Amargas (UFCSPA, Porto Alegre, 2023), e participou de salões e exposições coletivas em instituições no Brasil e no exterior. Recebeu o Prêmio Crítico de Arte Antônio Santoro Júnior (2025) e premiações no Salão de Artes Plásticas de Arceburgo – Minas Gerais. Seus trabalhos integram acervos institucionais no Brasil e na Espanha, conforme relata a jornalista Ivani Schutz.

A mostra tem etapas: Fragmentos do Masculino em mármore, com fotos bem delineadas e de profundidade; Experimentações Clandestinas sobre serras de corte em todos os tamanhos e pás; Álbum de Família e a Escultura Transmutar. A mostra parte da premissa de que a arte pode ser caminho para compreender-se, reconhecer fronteiras e abrir-se à transformação, mesmo diante de violências e preconceitos que ainda persistem. As obras demonstram a prática de transferência fotográfica manual de retratos e nus artísticos para suportes de pedra, metal e isopor, criando uma interlocução entre pele, memória e matéria.
Também destaca os diálogos que o artista evidencia entre as peças em pedra, metal, isopor com a fotografia, buscando uma experiência sensorial que evoque memória, presença e transformação. A mostra foi inaugurada no dia 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans, lembrado desde 2004.
Neste dia militantes transgênero foram ao Congresso Nacional para se manifestar em favor da Campanha Travesti e Respeito, num ato político de afirmação da diversidade de identidade de gênero, no país. O 29 de janeiro agora é um marco no orgulho, a existência, a conscientização e a resistência da comunidade trans e travesti dentro do movimento LGBTQI+.
Assim, a exposição propõe que objetos inertes ganhem rosto e presença, abrindo espaço para reflexões sobre coragem, resistência e vidas.
Serviço:
Onde: Sala da Fonte, Museu de Arte do Paço, Praça Montevidéu, 10, Centro Histórico, antiga sede da Prefeitura, também conhecida como Paço dos Açorianos ou Prefeitura Velha.
Visitação: até 6 de março, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h.
Museu de Arte do Paço (MAPA): Criado em 2024 para preservar a história das artes visuais da cidade, o museu centraliza a gestão da Pinacoteca Aldo Locatelli.
Acervo: A Pinacoteca Aldo Locatelli, situada no local, possui mais de mil obras de arte.
Patrimônio: O edifício, de estilo eclético, foi tombado em 1979 e passou por reformas para se tornar um espaço de exposições.
Visitação: O local oferece visitação gratuita, incluindo exposições temporárias e permanentes nos porões e andares superiores.



