terça-feira, dezembro 9, 2025
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Ela vendeu açaí para chegar à COP30 e defender seu território: ‘De dentro de escritório, não chega em nós’

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Quando soube que a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) seria realizada em Belém (PA), Luane Savelarinho decidiu que estaria presente.

No entanto, para chegar até a capital paraense, ela precisava de um dinheiro que ainda não tinha. A solução foi chamar o irmão e, juntos, fazerem o que sabem fazer desde pequenos: colher e debulhar o açaí.

“A gente saía por volta das 6h da manhã, levava a comida para comer lá e retornava às cinco da tarde”, conta. Em três dias de trabalho intenso, a extrativista conseguiu o valor necessário para custear a viagem.

Ela mora na zona rural de Muaná, no arquipélago do Marajó, no Pará. Da sua casa, em um assentamento agroextrativista, até Belém, são cerca de 80 quilômetros, divididos em dois trechos, ambos por via fluvial.

Primeiro, ela saiu da sua comunidade em uma voadeira pequena — embarcação que permite trafegar em alta velocidade — até a cidade de Muaná. De lá, embarcou em outra voadeira, desta vez maior, até a capital.

No total, foram cinco horas de viagem para trazer à COP o pedido de respeito aos povos da floresta. “Que o povo da floresta seja visto de um modo diferenciado, porque nós preservamos esse meio ambiente. Nós lutamos para manter a floresta viva e com gente dentro”, diz.

A COP no Brasil tem um movimento inédito, do qual Savelarinho faz parte. Longe das áreas oficiais do evento da ONU, divididas entre Zona Azul e Verde, milhares de pessoas se organizam em espaços alternativos para apresentar suas denúncias e elaborar cartas que serão entregues ao presidente da conferência, André Corrêa do Lago.

“Desse encontro, nós vamos se reunir em grupo de trabalhos para colocar nossas demandas, o que realmente a gente precisa dentro do território e de que forma tem que chegar. De dentro do escritório, não chega até a gente”, diz Savelarinho.

O Espaço Chico Mendes, uma homenagem ao líder seringueiro e ambientalista assassinado em 1988, é uma das áreas alternativas, onde estão reunidos cerca de mil extrativistas, entre seringueiros e outros povos da floresta. Na Cúpula dos Povos, outro local com programação alternativa à COP30, milhares se reúnem até domingo (16), para reivindicar maior inclusão nas decisões sobre os territórios onde vivem.

São pessoas que enfrentam, há anos, as consequências da crise climática, além de ameaças aos seus territórios, como a grilagem e os incêndios criminosos.

‘Morte da floresta é o fim das nossas vidas’

Na noite de quinta-feira (13), mil extrativistas iluminaram as ruas de Belém com suas porongas — antiga ferramenta de trabalho dos seringueiros — sobre as cabeças, em um protesto que alertava: a morte da floresta é o fim das nossas vidas. Savelarinho estava lá.

Com suas porongas, extrativistas iluminaram suas de Belém durante a COP30 – Emanuelle Araújo/Comitê Chico Mendes

Em Muaná, ela percebe o nível da água subindo ao redor das ilhas, enquanto o rio que abastece uma parte da comunidade, o Atuá, está cada vez mais sujo.

“Na parte do alto Atuá, as pessoas estão tomando lama. É muito ruim isso. Somos ricos em água, mas a gente não tem acesso a água potável”, diz, com os olhos cheios de lágrimas.

Líder comunitária e extrativista desde a infância, ela tem uma lista de reivindicações para apresentar aos governantes que tomam decisões sobre o futuro do planeta. A começar, pelo básico: que as mulheres tenham acesso a maquinários de auxílio na extração dos óleos vegetais.

“Ia ser muito importante, ia facilitar a nossa vida enquanto mulher, porque a gente é mãe, de tudo a gente faz um pouco”, diz Savelarinho, mãe de duas meninas. Além disso, ela espera que as mulheres conquistem o título das terras onde vivem. “As mulheres são mais sensíveis, elas não vão vender e vão pensar no futuro da nossa juventude, das nossas crianças”, diz.

Para ela, o suporte às atividades extrativistas é uma forma de manter as pessoas trabalhando nas matas e cuidando delas. “A gente não polui, a gente cuida, a gente dá a nossa vida pela floresta, porque ela é o nosso sustento”, diz.

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