Todo fim de semana, o noticiário se repete como uma triste rotina: capotamentos, batidas, vidas interrompidas. A cada novo balanço da Polícia Rodoviária, aumenta a sensação de que o asfalto das rodovias se transformou em uma roleta russa. São curvas que engolem famílias inteiras, pistas esburacadas, sinalização precária — e, no meio disso tudo, condutores que insistem em acreditar que a imprudência não cobra seu preço.
Os números e as histórias não mentem. Em apenas um fim de semana, a região somou acidentes de todos os tipos. Em Divinópolis, um motociclista perdeu a vida após colidir com búfalos soltos na MG-050. Próximo a Pitangui, um jovem sem habilitação invadiu a contramão e deixou cinco pessoas gravemente feridas. Um carro capotou após o motorista perder o controle em Formiga. Já na BR-494, uma motorista sem CNH capotou o veículo, e outro condutor, em situação irregular, recusou-se a soprar o bafômetro. Uma sucessão de descuidos, irregularidades e, em alguns casos, desrespeito às regras mais básicas de trânsito.
Sim, é verdade: o Estado tem sua parcela de culpa. As estradas mineiras, em boa parte, estão longe de oferecer segurança mínima. Buracos, sinalização apagada, falta de acostamento e animais soltos ainda são problemas crônicos, especialmente nas rodovias estaduais. A fiscalização é insuficiente e a manutenção, irregular. Mas seria um erro — e uma comodidade — atribuir toda responsabilidade à omissão pública. Há algo mais profundo, que passa pela cultura da direção e pela forma como encaramos o volante.
A pressa, o excesso de confiança, o costume de “dar um jeitinho” e a crença de que “nada vai acontecer comigo” continuam sendo combustíveis letais nas estradas. Muitos ainda enxergam as regras de trânsito como sugestões, não como deveres. Beber e dirigir, acelerar em ultrapassagens perigosas, trafegar sem habilitação ou com o veículo irregular são escolhas individuais, conscientes, tomadas a despeito do risco evidente. E, quando o pior acontece, a culpa se dilui em justificativas: o buraco na pista, o animal na estrada, o outro motorista que “fechou”. A verdade é que falta a cada um de nós reconhecer o papel que tem nessa tragédia silenciosa e repetitiva.
O trânsito não é apenas um espaço de deslocamento — é um pacto coletivo. E como todo pacto, depende da responsabilidade de todos. Enquanto continuarmos tratando o volante como extensão do ego, e não como instrumento de convivência, seguiremos empilhando estatísticas e manchetes iguais. A cada curva mal calculada, a cada ultrapassagem inconsequente, a cada copo de bebida antes de dirigir, reforçamos o ciclo de dor que se renova a cada sábado e domingo nas estradas mineiras.
A segurança no trânsito não virá de decretos isolados nem de operações pontuais de feriado. Ela começa no gesto individual: respeitar limites, revisar o veículo, manter a prudência, denunciar riscos, cobrar melhorias — mas, acima de tudo, fazer a própria parte. O asfalto pode até ser público, mas a consciência é pessoal. E enquanto o motorista continuar acreditando que o problema é sempre o outro, o próximo acidente já estará a caminho.


