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‘Festa do agro’: entenda como guerra comercial de Trump com a China pode aumentar preço dos alimentos no Brasil

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A decisão do presidente Donald Trump de elevar as tarifas dos EUA para a importação de produtos vindos da China pode acabar aumentando o preço dos alimentos no Brasil. Em resposta a Trump, o governo chinês já elevou as tarifas de produtos agropecuários estadunidenses. Isso tende a aumentar a procura de chineses por carnes, frango, soja e milho produzidos no Brasil, empurrando para cima o preço da comida vendida no país.

Trump anunciou o aumento de tarifas para importação de produtos chineses logo que assumiu a presidência dos EUA, em janeiro. A tarifação extra entrou em vigor no início deste mês, elevando o custo de produtos chineses no mercado estadunidense para, segundo a tese de Trump, estimular a economia local.

A China respondeu. Desde o último dia 10, a importação de carne de frango, trigo, milho e algodão dos EUA passaram ser taxadas em 15% no país asiático. Já a entrada de soja, sorgo e carne bovina vinda dos EUA terá de pagar uma tarifa extra de 10%.

Com essa taxação, a competitividade das commodities agropecuárias dos EUA na China diminui, o que abre espaço para o agronegócio brasileiro, que já concorre com os estadunidenses para suprir a demanda chinesa.

Economistas já estimam que as exportações agropecuárias do Brasil para a China aumente com a guerra comercial aberta por Trump. Com isso, o agronegócio brasileiro pode cobrar mais pelo que ele vende para fora do país. Acontece que esse aumento também tende a elevar o preço da comida no Brasil.

“O agronegócio fará a festa, exportará mais para a China. Mas a tendência é aumentar os preços aqui”, resumiu Giorgio Schutte, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) e coordenador do Observatório da Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB).

Efeito exportação

José Giacomo Baccarin, professor de economia e política agrícola da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e diretor do Instituto Fome Zero (IFZ), tem se dedicado a estudar a dinâmica de preços da comida no Brasil há anos. Para ele, a inflação dos alimentos está cada vez mais ligada às exportações agropecuárias porque o agronegócio está cada vez mais voltado às exportações.

Isso se intensificou a partir dos anos 2000, segundo Baccarin. O setor agropecuário brasileiro se especializou em atender demandas externas por commoditites. Ao mesmo tempo, os alimentos passaram a ser cada vez mais relevante na inflação nacional.

De 2015 a 2024, a inflação da comida foi maior que a inflação média no país em sete anos. Já de 1994 a 2005, isso só ocorreu em três anos.

Considerando essa relação entre exportações e alta da comida, ele também acha que o “tarifaço” de Trump tende aumentar o preços no Brasil. “Para o negócio pecuário brasileiro, as barreiras impostas pela China, como retaliação aos produtos dos EUA, tendem a reforçar os preços recebidos nas nossas exportações. Em consequência os preços internos podem aumentar”, disse.

Baccarin disse que a queda do dólar pode compensar o crescimento da demanda chinesa por produtos agropecuários brasileiros e conter a inflação. A tensão entre EUA e China, entretanto, pode vir a ter impacto sobre a cotação do dólar no Brasil.

No final do ano passado, após a eleição de Trump, o dólar chegou a valer mais de R$ 6,25. Isso tornou as exportações mais lucrativas para o agronegócio. O preço de alguns produtos subiu no país como consequência disso.

As carnes, por exemplo, subiram 20,8% durante 2024. Isso aconteceu enquanto os frigoríficos aumentaram em cerca de 30% suas vendas para o exterior.

O aumento da carne pesou sobre a inflação de alimentos no Brasil. No ano passado, a comida subiu 7,69%, empurrando para cima o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que chegou a 4,83%.

Como evitar?

Baccarin já disse não ser contra a exportação, mas alertou que é preciso considerar limites para que elas não tragam problemas para a economia nacional e a população. “Precisamos ter alguma capacidade de arbitrar publicamente entre o abastecimento do mercado interno e a exportação.”

Schutte acrescenta que, para que o debate público sobre eventuais medidas seja feito, é preciso explicitar as consequências do ganho do agronegócio. “Não se pode dizer que o aumento das exportações é bom. Bom para quem?”, questionou.

Diante do aumento dos alimentos, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reduziu impostos para a importação de comida. Eventuais barreiras já foram descartadas pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa (PT), que disse que elas poderiam ser vistas como uma “intervenção” no mercado.

O governo também espera que a safra recorde de grão projetada para este no ano Brasil ajuda reduzir o preço dos alimentos. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima o Brasil colha 328,3 milhões de toneladas de grão entre 2024 e 2025, 10,3% a mais do que na safra anterior.

Baccarin explicou que soja e milho, as duas principais culturas nacionais, são usados como ingredientes de vários produtos alimentícios. Servem também como base de ração animal, o que pode derrubar preços de frango, suínos e do ovo. Contudo, para que isso aconteça, esses grão precisam ficar no mercado nacional e não terem seus preços afetados pela demanda externa.

Walter Belik, professor aposentado de economia agrícola do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e cofundador do IFZ, argumenta que o “tarifaço” pode atrapalhar esse cenário.

“Com tarifas impostas a produtos americanos, os EUA deixam de exportar para eles. O Brasil tende a entrar nesses mercados. O principal caso deve ser a China, mas também alguns países latinos”, previu ele.

Fonte Original

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