quarta-feira, junho 10, 2026
spot_img
InícioSAÚDEo acolhimento não vem da moral conservadora — Brasil de Fato

o acolhimento não vem da moral conservadora — Brasil de Fato

0:00

A entrevista entre Cíntia Chagas, influenciadora digital conhecida por seu discurso conservador e críticas ao feminismo, e Manuela d’Ávila, ativista feminista e política de esquerda, evidencia as fissuras do antifeminismo contemporâneo. O episódio, aliado à trajetória pública de Cíntia e de outras influenciadoras, como, por exemplo, Gabriella Jacinto, revela como o discurso da “mulher tradicional” se fragiliza diante da materialidade da violência de gênero. O fato é: essa entrevista é rica em contradições e revelações que nos ajuda a entender alguns pontos do antifeminismo. 

A partir do diálogo entre feminismo e teoria crítica, argumenta-se que o antifeminismo digital, ao estetizar a submissão feminina e a domesticidade, transforma a opressão em valor simbólico. Contudo, as rupturas discursivas e vivenciais dessas influenciadoras revelam o colapso do projeto neoconservador de feminilidade, reafirmando o papel indispensável do feminismo como rede concreta de proteção, solidariedade e emancipação.

Como analisa Melinda Cooper (2017), o neoconservadorismo reatualiza a família tradicional como mecanismo de contenção das crises geradas pelo neoliberalismo, deslocando às mulheres a responsabilidade pela reprodução social. No Brasil, essa pedagogia da submissão reaparece nas narrativas de influenciadoras digitais como Cíntia Chagas, que muitas vezes combinam religiosidade, luxo e disciplina moral para compor o ideal da “esposa-troféu”.

Contudo, a entrevista de Cíntia Chagas com Manuela d’Ávila, realizada após Cíntia ter denunciado o ex-marido por violência doméstica, revela a falência simbólica desse projeto. Ao declarar ter “feito as pazes com o feminismo” e recebido mais apoio da esquerda do que da direita”, Cíntia rompe (ainda que parcialmente) com a gramática antifeminista que antes defendia. Essa virada expõe as contradições do discurso neoconservador, cuja promessa de segurança e felicidade conjugal colapsa diante da materialidade da violência e das relações de poder. E também da falta de informações de como lidar com as inúmeras violências de gênero. 

A entrevista entre Cíntia Chagas e Manuela d’Ávila é paradigmática por revelar o limite do antifeminismo quando confrontado com a realidade da violência de gênero. Cíntia, que antes exaltava a submissão e criticava o feminismo, reconhece. Essas afirmações deslocam o antifeminismo de um terreno abstrato para o campo da experiência.

O que se sustenta como ideologia, a ideia de que o feminismo “vitimiza as mulheres”, entra em colapso diante da vivência concreta da violência doméstica. 

A contradição é evidente: quem de fato acolhe, orienta e protege mulheres em situação de violência são as redes feministas e as políticas públicas resultantes da luta de movimentos de mulheres. O discurso de que a violência “transcende partidos” funciona como tentativa de neutralização política, mas ignora que a própria existência da Lei Maria da Penha, das casas de acolhimento e dos serviços de proteção é produto direto da mobilização feminista. 

O antifeminismo, portanto, se mostra como construção frágil, incapaz de oferecer resposta material à violência. Ele opera como discurso moralizador e despolitizador, enquanto o feminismo se mantém como ferramenta concreta de sobrevivência e solidariedade. Nesse sentido, o caso de Cíntia Chagas ilustra o que bell hooks (2013) denomina de “política do amor e do cuidado”: o feminismo não é ideologia de esquerda, mas uma prática de reconstrução da dignidade e da segurança das mulheres. 

Ao afirmar que “a pauta da violência transcende ideologias”, Cíntia busca despolitizar a própria experiência. Essa operação de neutralização é típica do antifeminismo contemporâneo: transformar questões estruturais e latentes como violência e desigualdade em dilemas individuais ou morais. No entanto, como argumenta o próprio diálogo com Manuela d’Ávila, não há neutralidade possível diante da violência de gênero. As políticas públicas de proteção, o acolhimento coletivo e a possibilidade de denúncia são frutos de disputas políticas, de enfrentamentos diretos entre projetos de sociedade.

Submissão performática

A gramática da feminilidade, nesse contexto, torna-se um campo de batalha simbólico. De um lado, o antifeminismo reivindica a “mulher de verdade”, dócil e devota ao lar; de outro, o feminismo interseccional afirma a pluralidade das experiências e a autonomia dos corpos. Quando Cíntia rompe publicamente com parte de seu discurso anterior, essa fissura abre espaço para visibilizar o colapso da “feminilidade disciplinada” que o neoconservadorismo tenta reimpor juntamente com a ascensão da extrema direita nos últimos anos pelo mundo.  

A promessa da “esposa-troféu” ou das tradwives é apresentada nas redes como escolha individual e empoderadora: cuidar do lar, servir ao marido e abdicar da vida pública em nome da harmonia familiar. Contudo, como mostra Cooper (2017), esse retorno ao lar não é espontâneo: é um dispositivo de governamentalidade que privatiza o cuidado e transfere às mulheres o ônus da crise da reprodução social. Nas redes, essas influenciadoras transformam a domesticidade em espetáculo. A beleza, a devoção e a vida conjugal tornam-se produtos monetizáveis, convertendo a submissão em capital simbólico.

A feminilidade é gerida como um empreendimento, no qual o corpo, o tempo e o afeto são recursos econômicos. Entretanto, a contradição é central: enquanto pregam a dependência financeira como caminho de “segurança emocional”, essas influenciadoras lucram com o próprio discurso, convertendo a submissão em fonte de renda. A figura da “esposa-troféu” sintetiza, portanto, a fusão entre moral neoconservadora e racionalidade neoliberal: um ideal de docilidade mercantilizada e que produz inúmeras violências. Como afirma Brown (2015), o neoliberalismo transforma sujeitos em empreendedores de si mesmos; nesse caso, mulheres empreendedoras de sua feminilidade. A submissão torna-se performativa, calculada e rentável. 

Além disso, o ideal da “mulher tradicional” é racializado e classista. As influenciadoras que ocupam esse espaço, em sua maioria mulheres brancas e de classe média, performam uma feminilidade eurocêntrica, inacessível à maioria das mulheres. O antifeminismo, nesse sentido, oferece uma ilusão elitista de estabilidade, uma promessa de pertencimento que se sustenta sobre a exploração de outras mulheres. Ele reforça as hierarquias raciais e de classe, travestindo a desigualdade em virtude moral. 

Ponto de ruptura

O antifeminismo digital e o ideal da “esposa-troféu” não representam um simples retorno à tradição, mas uma mutação do conservadorismo em sintonia com o neoliberalismo. Ao transformar a submissão em performance e a domesticidade em mercadoria, esse projeto reconfigura o controle sobre os corpos femininos, mantendo a ordem patriarcal sob o verniz da escolha individual. O caso de Cíntia Chagas, contudo, mostra o ponto de ruptura desse discurso. Diante da violência, o antifeminismo se desfaz: o acolhimento vem do feminismo, não da moral conservadora.

Essa fissura revela que, por trás da estética do lar e da obediência, há uma estrutura de dominação que só pode ser enfrentada coletivamente. A narrativa de Cíntia Chagas expõe o colapso das promessas neoconservadoras: a submissão não protege, o amor heteronormativo não salva, e a família idealizada não impede a violência. O feminismo, por sua vez, se reafirma como prática de vida: um movimento que, mais do que ideologia, é rede de apoio, ética do cuidado e horizonte de emancipação.

Talvez seja possível afirmar que o antifeminismo cai quando a vida real entra em cena. 

:: Receba notícias do Brasil de Fato DF no seu Whatsapp ::

*Camila Galetti é pós-doutoranda em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), doutora pela mesma instituição e professora de sociologia no Instituto Federal de Brasília.

**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.

Fonte Original

Conceição do Mato Dentro reforça debate sobre diversificação econômica com segundo fórum em seis meses

Quando uma cidade realiza dois fóruns sobre diversificação econômica com apenas seis meses de intervalo entre eles, o recado é claro: o futuro não...

Construir a nova Ásia de nossos sonhos

O crescimento econômico por si só não garante a soberania genuína na Ásia; uma plataforma regional de coordenação continua sendo uma necessidade material vital...
ARTIGOS RELACIONADOS
Anúncio
Google search engine

MAIS POPULAR