A entrevista entre Cíntia Chagas, influenciadora digital conhecida por seu discurso conservador e críticas ao feminismo, e Manuela d’Ávila, ativista feminista e política de esquerda, evidencia as fissuras do antifeminismo contemporâneo. O episódio, aliado à trajetória pública de Cíntia e de outras influenciadoras, como, por exemplo, Gabriella Jacinto, revela como o discurso da “mulher tradicional” se fragiliza diante da materialidade da violência de gênero. O fato é: essa entrevista é rica em contradições e revelações que nos ajuda a entender alguns pontos do antifeminismo.
A partir do diálogo entre feminismo e teoria crítica, argumenta-se que o antifeminismo digital, ao estetizar a submissão feminina e a domesticidade, transforma a opressão em valor simbólico. Contudo, as rupturas discursivas e vivenciais dessas influenciadoras revelam o colapso do projeto neoconservador de feminilidade, reafirmando o papel indispensável do feminismo como rede concreta de proteção, solidariedade e emancipação.
Como analisa Melinda Cooper (2017), o neoconservadorismo reatualiza a família tradicional como mecanismo de contenção das crises geradas pelo neoliberalismo, deslocando às mulheres a responsabilidade pela reprodução social. No Brasil, essa pedagogia da submissão reaparece nas narrativas de influenciadoras digitais como Cíntia Chagas, que muitas vezes combinam religiosidade, luxo e disciplina moral para compor o ideal da “esposa-troféu”.
Contudo, a entrevista de Cíntia Chagas com Manuela d’Ávila, realizada após Cíntia ter denunciado o ex-marido por violência doméstica, revela a falência simbólica desse projeto. Ao declarar ter “feito as pazes com o feminismo” e recebido “mais apoio da esquerda do que da direita”, Cíntia rompe (ainda que parcialmente) com a gramática antifeminista que antes defendia. Essa virada expõe as contradições do discurso neoconservador, cuja promessa de segurança e felicidade conjugal colapsa diante da materialidade da violência e das relações de poder. E também da falta de informações de como lidar com as inúmeras violências de gênero.
A entrevista entre Cíntia Chagas e Manuela d’Ávila é paradigmática por revelar o limite do antifeminismo quando confrontado com a realidade da violência de gênero. Cíntia, que antes exaltava a submissão e criticava o feminismo, reconhece. Essas afirmações deslocam o antifeminismo de um terreno abstrato para o campo da experiência.
O que se sustenta como ideologia, a ideia de que o feminismo “vitimiza as mulheres”, entra em colapso diante da vivência concreta da violência doméstica.
A contradição é evidente: quem de fato acolhe, orienta e protege mulheres em situação de violência são as redes feministas e as políticas públicas resultantes da luta de movimentos de mulheres. O discurso de que a violência “transcende partidos” funciona como tentativa de neutralização política, mas ignora que a própria existência da Lei Maria da Penha, das casas de acolhimento e dos serviços de proteção é produto direto da mobilização feminista.
O antifeminismo, portanto, se mostra como construção frágil, incapaz de oferecer resposta material à violência. Ele opera como discurso moralizador e despolitizador, enquanto o feminismo se mantém como ferramenta concreta de sobrevivência e solidariedade. Nesse sentido, o caso de Cíntia Chagas ilustra o que bell hooks (2013) denomina de “política do amor e do cuidado”: o feminismo não é ideologia de esquerda, mas uma prática de reconstrução da dignidade e da segurança das mulheres.
Ao afirmar que “a pauta da violência transcende ideologias”, Cíntia busca despolitizar a própria experiência. Essa operação de neutralização é típica do antifeminismo contemporâneo: transformar questões estruturais e latentes como violência e desigualdade em dilemas individuais ou morais. No entanto, como argumenta o próprio diálogo com Manuela d’Ávila, não há neutralidade possível diante da violência de gênero. As políticas públicas de proteção, o acolhimento coletivo e a possibilidade de denúncia são frutos de disputas políticas, de enfrentamentos diretos entre projetos de sociedade.
Submissão performática
A gramática da feminilidade, nesse contexto, torna-se um campo de batalha simbólico. De um lado, o antifeminismo reivindica a “mulher de verdade”, dócil e devota ao lar; de outro, o feminismo interseccional afirma a pluralidade das experiências e a autonomia dos corpos. Quando Cíntia rompe publicamente com parte de seu discurso anterior, essa fissura abre espaço para visibilizar o colapso da “feminilidade disciplinada” que o neoconservadorismo tenta reimpor juntamente com a ascensão da extrema direita nos últimos anos pelo mundo.
A promessa da “esposa-troféu” ou das tradwives é apresentada nas redes como escolha individual e empoderadora: cuidar do lar, servir ao marido e abdicar da vida pública em nome da harmonia familiar. Contudo, como mostra Cooper (2017), esse retorno ao lar não é espontâneo: é um dispositivo de governamentalidade que privatiza o cuidado e transfere às mulheres o ônus da crise da reprodução social. Nas redes, essas influenciadoras transformam a domesticidade em espetáculo. A beleza, a devoção e a vida conjugal tornam-se produtos monetizáveis, convertendo a submissão em capital simbólico.
A feminilidade é gerida como um empreendimento, no qual o corpo, o tempo e o afeto são recursos econômicos. Entretanto, a contradição é central: enquanto pregam a dependência financeira como caminho de “segurança emocional”, essas influenciadoras lucram com o próprio discurso, convertendo a submissão em fonte de renda. A figura da “esposa-troféu” sintetiza, portanto, a fusão entre moral neoconservadora e racionalidade neoliberal: um ideal de docilidade mercantilizada e que produz inúmeras violências. Como afirma Brown (2015), o neoliberalismo transforma sujeitos em empreendedores de si mesmos; nesse caso, mulheres empreendedoras de sua feminilidade. A submissão torna-se performativa, calculada e rentável.
Além disso, o ideal da “mulher tradicional” é racializado e classista. As influenciadoras que ocupam esse espaço, em sua maioria mulheres brancas e de classe média, performam uma feminilidade eurocêntrica, inacessível à maioria das mulheres. O antifeminismo, nesse sentido, oferece uma ilusão elitista de estabilidade, uma promessa de pertencimento que se sustenta sobre a exploração de outras mulheres. Ele reforça as hierarquias raciais e de classe, travestindo a desigualdade em virtude moral.
Ponto de ruptura
O antifeminismo digital e o ideal da “esposa-troféu” não representam um simples retorno à tradição, mas uma mutação do conservadorismo em sintonia com o neoliberalismo. Ao transformar a submissão em performance e a domesticidade em mercadoria, esse projeto reconfigura o controle sobre os corpos femininos, mantendo a ordem patriarcal sob o verniz da escolha individual. O caso de Cíntia Chagas, contudo, mostra o ponto de ruptura desse discurso. Diante da violência, o antifeminismo se desfaz: o acolhimento vem do feminismo, não da moral conservadora.
Essa fissura revela que, por trás da estética do lar e da obediência, há uma estrutura de dominação que só pode ser enfrentada coletivamente. A narrativa de Cíntia Chagas expõe o colapso das promessas neoconservadoras: a submissão não protege, o amor heteronormativo não salva, e a família idealizada não impede a violência. O feminismo, por sua vez, se reafirma como prática de vida: um movimento que, mais do que ideologia, é rede de apoio, ética do cuidado e horizonte de emancipação.
Talvez seja possível afirmar que o antifeminismo cai quando a vida real entra em cena.
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*Camila Galetti é pós-doutoranda em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), doutora pela mesma instituição e professora de sociologia no Instituto Federal de Brasília.
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.


