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Niterói: a cidade que abraça as ciências e outras formas de conhecer. Crônicas de Viagem XVI

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Por Luciano Mendes 

Sabemos que, em boa parte, o que nos trouxe até aqui, à beira do colapso planetário, foram as ciências. Não uma ciência qualquer, mas a ciência-mercadoria mobilizada como forma de dominar e acumular, e capaz de destruir tudo aquilo que se opõe ao movimento do capital. 

Do mesmo modo, sabemos que não há saída para o perigo em que nos metemos sem o concurso das ciências. Não uma ciência qualquer, mas a ciência-conhecimento mobilizada como esforço de solidariedade e proteção de todas as formas de vida que habitam o planeta.

Em tempos em que o obscurantismo e o negacionismo são mobilizados como forma e conteúdo da política, é necessário saudar com entusiasmo quando uma cidade, por meio de sua administração, abraça e acolhe as ciências de forma crítica e criativa. 

Foi isto, a meu ver, que ocorreu ao longo de toda a última semana de julho, quando a cidade de Niterói acolheu a 78ª Reunião Anual da SBPC. Realizada no campus da Universidade Federal Fluminense, a mais tradicional e numerosa reunião científica da América Latina teve na administração municipal uma de suas mais importantes parceiras. 

Na cerimônia de abertura, o prefeito Rodrigo Neves Barreto,  depois de relatar emocionado as perseguições de que foi alvo pelos poderes discricionários instalados no Rio de Janeiro durante a intervenção militar no Estado em tempos recentes, chamou a atenção para várias iniciativas estabelecidas pela prefeitura com órgão de ciência e tecnologia. E concluiu que, na cidade, as políticas públicas são realizadas com base em evidências, o que teria trazido o município à posição de destaque que ele ocupa, hoje, no estado do Rio de Janeiro em termos de desenvolvimento e qualidade de vida da população.

Mas não foi apenas isto que chamou a nossa atenção. Muito antes da abertura oficial da reunião, a prefeitura já vinha participando ativamente da organização do evento. Além do apoio logístico e financeiro, os cartazes, as placas, outdoors e outras peças, comunicavam à cidade sobre a realização da reunião científica e conclamavam a população a participar e usufruir.

Mas, como sabemos, não só de ciência se faz a boa política e, muito menos, não podemos acreditar que as ciências são as únicas formas de conhecer e transmitir que nos permitirão cuidar do planeta e de todas as populações que nele habitam e, assim, evitar o colapso da nossa casa-mãe. 

Por isto, imagino que as “evidências” citadas, acima, pelo prefeito de Niterói, não sejam apenas científicas, mas também aquelas advindas da experiência daqueles e daquelas que fazem a política pública no seu dia-a-dia, das lutas dos movimentos sociais e das decisões éticas e políticas que são tomadas, inclusive pelos próprios cientistas que realizam as pesquisas de que resultam as “evidências científicas”. 

Beleza e solidariedade

Passear por Niterói por estes dias foi, também, uma forma de encontrar o belo, a leveza e outras formas de existir solidárias e disruptivas das artes em diálogo com as mais refinadas ciências tanto na reunião da SBPC quando na pulsação da cidade.  Foi tempo, portanto, de colher “outras evidências” que a cidade nos oferece!

No mais importante e conhecido lugar de memória da cidade, o Museu de Arte Contemporânea, a exposição Ohpeko Dihtara_Travessias da Guanabara – Daiara Tukano e curadoria de Denilson Baniwa e Priscila Danny – nos fala também  sobre a Abá anama sy tekobé,  “a mãe de muitos povos, a vida”. Expressão de Renata Tupinambá referindo-se à Baia de Guanabara como o útero dos encantados, como a  dizer que a baia seja o útero de todos os úteros, ou seja, a origem da vida.  

Num dos textos que acompanham a exposição, afirma-se que “o Ocidente, ao tentar catalogar e racionalizar tudo, rompeu com outras formas de existência e percepção, perdendo a capacidade mágica de imaginar mundos que não sejam concretos, frios e monocromáticos”. 

É do colorido da vida, dos muitos seres que se reúnem para manter e transmitir a vida e a memória, que trata, também, a exposição Coisas Vivas, sob a curadoria de Bianca Bernardo e Catarina Duncan e textos de Denilson Baniwa e Danniel Tostes. No passeio pela mostra, que “reúne produções desenvolvidas durante residências artísticas realizadas no estaleiro Mac Laren, em Niterói”, a gente se surpreende, em cada obra, pela perspicácia e acuidade dos olhares sobre o mundo das coisas, tornando-as coisas vivas participantes de outras vidas.

Chamou minha atenção, particularmente, a obra de Yaka Huni Kuin, Kapawê Pukêni – travessia do conhecimento. Nela, os elementos se fundem e se (con)fundem sem, no entanto, perder sua aura própria. Onde há vidas, há caminhos, há travessias, há memórias, há transmissão. É o grande jacaré-ponte que faz a ligação entre territórios e pessoas; que, situado num entre-lugar, permite a travessia do conhecimento e o jorrar da vida.

Foi este chamado para o entrelaçamento que pude ouvir, também, numa das mesas redondas da SBPC Afro, Indígena e Comunidades Tradicionais intitulada Experiências indígenas e quilombolas nas universidades produzindo ciência e tecnologia. Nela, o professor Gersem Baniwa (da UNB, do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena e da Universidade Indígena), ao mesmo tempo em que fazia uma crítica contundente às ciências de raiz europeia dos brancos e às suas sanhas imperialistas em relação às demais formas de conhecer, transmitir e cuidar do mundo, advogava um diálogo crítico e generoso entre todas estas formas para acharmos o melhor caminho para cuidar das vidas, de todas as vidas do planeta. Ciências, artes e conhecimentos ancestrais.

Hoje, mais do que nunca, é preciso lembrar que “vamos precisar de todo mundo, pra banir do mundo a opressão” ou, lembrando Ailton Krenak, pelo menos para adiar o fim do mundo.

Luciano Mendes de Faria Filho é pedagogo, doutor em Educação e professor titular da UFMG. Publicou, dentre outros, “Uma brasiliana para a América Hispânica – a editora Fondo de Cultura Econômica e a intelectualidade brasileira” (Paco Editorial, 2021)

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

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