Em 2018, durante uma conferência sobre cannabis e cânhamo em Vancouver, vi oito pessoas subirem ao palco para contar suas histórias com cannabis e câncer. Entre elas, uma criança de cinco anos e um senhor de 90. Eram pessoas que, em algum momento, tinham sido empurradas para o limite da medicina convencional e estavam ali, vivas, diante de uma plateia inteira, narrando não uma promessa milagrosa, mas uma experiência concreta de cuidado, alívio e esperança.
Saí daquela conferência atravessada. Liguei para os meus pais e disse que estava feliz porque talvez eu não precisasse vê-los sofrer sem acesso a uma ferramenta que já ajudava tantas famílias. Naquele dia, tive certeza de que queria trabalhar para espalhar um conhecimento que segue sendo negado à maior parte da sociedade. Eu só não sabia que, oito anos depois, essa história voltaria para dentro da minha própria casa. Mas, antes de voltar para minha casa, essa história já era um problema coletivo.
A proibição da cannabis produz efeitos colaterais muito mais amplos e cruéis do que se costuma imaginar. Um deles é a falta de acesso à informação. Outro, ainda mais silencioso, são as décadas de ciência interrompida, pesquisa atrasada e cuidado negado a centenas de milhares de pessoas que poderiam ter se beneficiado da planta em algum momento da vida.
Vivemos uma onda global de legalização. Dezenas de países já permitem algum tipo de uso medicinal da cannabis, mas esse é apenas o primeiro passo. Legalizar o acesso não significa, automaticamente, transformar conhecimento científico em prática clínica, formação profissional, política pública e cuidado real para a população.
Hoje, nenhum profissional de saúde comprometido com evidências sérias deveria negar que a cannabis pode ajudar pacientes durante o tratamento do câncer. Ainda assim, seu uso na oncologia segue longe de fazer parte dos protocolos oficiais de cuidado. Entre o que a ciência já reconhece, o que os pacientes relatam e o que o sistema de saúde incorpora, existe um abismo. E o que sobra é insegurança, abandono e descaso com quem está sofrendo em uma situação delicada.
A cannabis não substitui quimioterapia, cirurgia, radioterapia ou acompanhamento médico. Isso precisa ser dito, porque promessas irreais e enganosas também matam. Mas a cannabis pode tornar esse caminho menos doloroso, menos solitário e menos desumano, especialmente no manejo de efeitos colaterais comuns da quimioterapia, como náusea, vômito, perda de apetite, insônia, dor, ansiedade e sofrimento emocional.
Para além do manejo dos efeitos colaterais do tratamento, também é inegável o avanço das pesquisas sobre cannabis e câncer. Há anos, cientistas investigam, sobretudo em estudos pré-clínicos e laboratoriais, como compostos presentes na planta podem interagir com células tumorais e com processos relacionados ao crescimento, à morte e à proliferação dessas células.
Esses estudos indicam caminhos promissores para novas pesquisas e abrem possibilidades importantes de investigação. Mas isso está longe de permitir a afirmação de que “cannabis cura câncer”. O que existe hoje é um campo científico em expansão, com evidências relevantes, hipóteses fortes e muito trabalho ainda pela frente.
O que grande parte dos profissionais de saúde alega é falta de segurança e de evidências suficientes. Mas o que falta, muitas vezes, é formação, protocolo, prática clínica e coragem institucional. Enquanto o negacionismo médico se mantém, tanto em profissionais quanto em entidades, os pacientes ficam entre dois caminhos ruins: não acessam a cannabis ou recorrem à automedicação, sem acompanhamento adequado e sem segurança.
O resultado é previsível. Em vez de orientação qualificada, dose ajustada, produto adequado e monitoramento, muitas famílias são obrigadas a improvisar. Com isso, perdem-se benefícios possíveis, aumentam-se os riscos e se desperdiça uma ferramenta que poderia melhorar a qualidade de vida de muitos pacientes.
O proibicionismo clínico acontece quando a cannabis já pode ser acessada legalmente, mas segue barrada na prática médica.
A planta não é mais proibida, mas também não é incorporada como ferramenta legítima de cuidado. O problema do acesso parece abrandado, mas o resultado prático continua o mesmo: pacientes desassistidos, famílias improvisando e profissionais de saúde ausentes no momento em que mais deveriam orientar.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028. A doença se consolida como uma das principais causas de adoecimento e morte no país. Esses números demonstram a urgência de avançar no debate sobre todas as ferramentas possíveis de cuidado, alívio e qualidade de vida para pacientes oncológicos.
Um estudo publicado em 2025 na revista Frontiers in Oncology fez uma análise ampla da literatura de mais de 10 mil artigos científicos sobre cannabis e câncer e identificou que 71,4% apresentavam uma tendência favorável ao uso medicinal da cannabis em temas relacionados à oncologia. O que ele mostra é que existe um campo científico robusto, em expansão, com evidências importantes para o uso da cannabis como tratamento adjuvante, especialmente no manejo de sintomas e efeitos colaterais, além de pesquisas pré-clínicas que investigam possíveis efeitos de canabinoides, como CBD e THC, sobre crescimento tumoral em determinados tipos de câncer.
O Brasil criou um modelo em que a cannabis medicinal existe, mas o cuidado não acompanha a possibilidade de acesso. Famílias descobrem sozinhas, pagam caro, importam produtos, imploram por receita, entram na Justiça e ainda precisam justificar por que querem aliviar a dor de alguém que está em tratamento. Enquanto isso, parte da medicina se esconde atrás da prudência, o Estado se esconde atrás da burocracia e o mercado avança onde a política pública não chega.
O resultado é perverso. A dor do paciente continua sendo tratada como destino individual, quando deveria ser entendida como falha coletiva de acesso, formação dos profissionais de saúde e cuidado. O problema não é apenas a ausência da cannabis nos protocolos. É a naturalização de que famílias inteiras tenham que virar pesquisadoras, advogadas, farmacêuticas e cuidadoras ao mesmo tempo, porque as instituições que deveriam orientar preferem lavar as mãos.
Oito anos depois daquela conferência em Vancouver, levei uma rasteira que não pude prever. A frase que eu disse aos meus pais pelo telefone voltou para mim de outro jeito. Nunca tinha passado pelo meu imaginário que a doença pudesse chegar pelo corpo do meu irmão. Ele foi diagnosticado com câncer no intestino no Natal de 2025. A cannabis, que eu tinha visto no palco como relato de outras famílias, felizmente, entrou na minha casa como cuidado possível.
Mas ela só entrou porque eu trabalho com a planta, tenho conhecimento, segurança, amigos médicos que prescrevem e contato com associações de pacientes. Em outras palavras, porque tive acesso a uma rede que a maioria das famílias brasileiras não tem. Isso não deveria ser privilégio.
Meu irmão usou cannabis durante a quimioterapia, e ela vem sendo uma ferramenta importante para atravessarmos o tratamento com menos sofrimento. Inclusive o meu próprio. Talvez seja por isso que este texto exista: porque nenhuma família deveria descobrir a cannabis tarde demais para cuidar de quem ama.
Cuidado não pode depender de sorte, rede de contatos ou privilégio. Tem que ser política pública, formação profissional e protocolo.
*Luna Vargas é mestra em Antropologia pela EHESS (Paris). Fundadora e educadora da Inflore, projeto pioneira na formação de profissionais para o mercado canábico. Pesquisa mercado e regulamentação da cannabis em diferentes países. Atua como comunicadora, palestrante e consultora. Instagram: @lunavargas
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


