A doação de órgãos e tecidos volta ao centro do debate público em Porto Alegre (RS) com a realização de uma formação gratuita promovida pela Fundação Ecarta nesta sexta-feira (15), das 8h30 às 17h. A atividade integra o projeto Cultura Doadora e propõe reunir especialistas da saúde, profissionais da linha de frente e pessoas que vivenciam o processo de transplante para ampliar o acesso à informação e estimular o diálogo com a população.
Ao longo de um dia inteiro de programação, o encontro aborda etapas centrais do processo de doação e transplante, incluindo identificação de potenciais doadores, diagnóstico de morte encefálica, abordagem familiar e logística do sistema de transplantes. A iniciativa também inclui relatos de pacientes e pessoas transplantadas, trazendo experiências diretas sobre o impacto da doação.
De acordo com a gestora do projeto Cultura Doadora, Glaci Salusse Borges, a proposta é contribuir para que o tema seja compreendido de forma mais ampla pela sociedade. Segundo ela, a atividade busca esclarecer dúvidas e incentivar uma reflexão coletiva sobre solidariedade e responsabilidade social, especialmente em um contexto de alta demanda por transplantes no país.
Sistema de transplantes e desafios estruturais
O Brasil possui um dos maiores programas públicos de transplantes do mundo, organizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que financia a maior parte dos procedimentos realizados. Apesar disso, a demanda segue elevada e revela desafios persistentes na efetivação das doações.
Dados mais recentes da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos indicam que, em 2025, mais de 80 mil pessoas aguardavam por um transplante no país, considerando órgãos sólidos e córneas. Entre esses pacientes, cerca de 47 mil estavam na fila por órgãos como rim, fígado, coração, pulmão e pâncreas, enquanto mais de 33 mil aguardavam transplante de córnea. O transplante renal concentra a maior parte da demanda nacional.
Um dos principais entraves apontados por especialistas é a recusa familiar. Em 2024, aproximadamente 46% das famílias brasileiras abordadas não autorizaram a doação de órgãos de seus parentes. Profissionais da área indicam que a negativa está frequentemente associada à falta de informação prévia sobre o desejo do potencial doador e a dúvidas sobre o processo.
A formação realizada na Ecarta inclui justamente a discussão sobre a entrevista familiar, considerada uma etapa sensível e decisiva. Profissionais que atuam em Organizações de Procura de Órgãos (OPOs) participam do encontro para compartilhar práticas e desafios enfrentados no contato com familiares em momentos de luto.

Realidade no Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, o cenário combina avanços recentes com a manutenção de uma fila significativa de espera. Dados da Central Estadual de Transplantes indicavam, no início de 2026, cerca de 2,9 mil pacientes aguardando por um órgão ou tecido no estado.
Em 2025, foram realizados 2.446 transplantes, o maior número registrado nos últimos quatro anos. O dado é apontado por gestores como resultado de melhorias na organização do sistema e na atuação integrada entre hospitais, equipes médicas e centrais de regulação.
Participam da formação nomes como o coordenador da Central de Transplantes do Rio Grande do Sul, Rogério Caruso, e o cirurgião torácico e transplantador Spencer Camargo, além de coordenadoras de OPOs e outros profissionais envolvidos diretamente no processo. As falas abordam desde aspectos técnicos até desafios operacionais e éticos relacionados à doação.
Cultura doadora e mobilização social
Criado em 2011, o projeto Cultura Doadora já realizou mais de 500 atividades com foco na disseminação de informações sobre doação e transplantes. A proposta é contribuir para a formação de uma rede articulada entre profissionais da saúde e instituições, com o objetivo de fortalecer os serviços existentes e ampliar o alcance do tema.
A estratégia, segundo a organização, passa pela educação continuada e pela aproximação com a população, buscando tornar o assunto mais presente no cotidiano. A informação é apontada por profissionais da área como um fator decisivo para reduzir a recusa familiar e aumentar o número de doações efetivadas.
Ao reunir diferentes atores envolvidos no processo, da captação ao transplante, a atividade desta sexta-feira (15) busca integrar perspectivas técnicas e experiências pessoais, consolidando um espaço de formação e troca voltado tanto a profissionais quanto à comunidade.
Serviço
Data: 15 de maio de 2026, das 8h30 às 17h
Local: Fundação Ecarta (Avenida João Pessoa, 943, em Porto Alegre)
A entrada é gratuita, e as inscrições podem ser realizadas por telefone: (51) 4009.2970



