Por Juracy Dayse Delfino Soares*
Celebrado em 19 de abril, o Dia dos Povos Indígenas é, no território Potiguara, no litoral norte da Paraíba, um momento de encontro, fortalecimento cultural e reafirmação da identidade indígena. A data reúne indígenas de diferentes aldeias na comunidade São Francisco, considerada a aldeia mãe, onde acontece um dos principais rituais coletivos do povo.
Logo nas primeiras horas da manhã, por volta das 8h, tem início o toré, ritual sagrado que mobiliza homens, mulheres, jovens e crianças. Sem horário definido para terminar, a celebração segue de acordo com o envolvimento dos participantes, em um movimento contínuo de espiritualidade, tradição e coletividade.
O encontro acontece no terreiro sagrado, espaço simbólico e de acolhimento, onde todas as aldeias se reúnem. Mais do que um local ritualístico, o terreiro representa união, pertencimento e fortalecimento dos laços comunitários, reunindo os Potiguara em torno de sua ancestralidade.
A celebração também atrai visitantes de cidades vizinhas e da capital, João Pessoa, ampliando a visibilidade da cultura indígena e promovendo o diálogo com a sociedade não indígena. Esse intercâmbio contribui para o reconhecimento das tradições e para o combate a estereótipos historicamente construídos sobre os
povos originários.
Mais do que uma data comemorativa, o 19 de abril se configura como um momento de conscientização e luta. Em um país marcado por conflitos territoriais e negação de direitos, a celebração reafirma a presença indígena no território e evidencia a continuidade histórica desses povos.
No campo da educação, o mês de abril ganha destaque com a realização da Semana de Consciência Indígena nas escolas. Na Escola Indígena Pedro Poti, por exemplo, estudantes participam de atividades pedagógicas que valorizam a cultura e a história indígena, como apresentações, estudos de biografias de lideranças e
debates sobre identidade, território e tradição.
Essas ações contribuem para a formação de uma consciência crítica e fortalecem o reconhecimento das identidades originárias desde a educação básica.
Além das atividades locais, o período também é marcado por mobilizações nacionais, como o Acampamento Terra Livre, realizado em Brasília, que reúne povos indígenas de todo o país na luta por direitos. Em 2026, o território Potiguara também sediou os Jogos Indígenas, promovendo integração entre as aldeias por meio de práticas tradicionais e esportivas, como arco e flecha, corrida de tora, futebol e futsal.
A celebração do Dia dos Povos Indígenas, portanto, vai além do simbolismo. É um ato coletivo de resistência, memória e afirmação. No território Potiguara, cada canto, cada ritual e cada encontro reafirmam que os povos indígenas seguem vivos, organizados e em luta por seus direitos, sua cultura e seu território.
*Juracy Dayse Delfino Soares é indígena Potiguara, professora da rede pública e estudante de letras – Língua Portuguesa, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
**A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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