quarta-feira, junho 10, 2026
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‘No conflito no Irã, quem ceder perde’, observa analista sobre o jogo de forças no Oriente Médio

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Após quatro semanas de guerra no Oriente Médio, o mundo assiste a um vai e vem de declarações e ameaças que têm deixado o cenário ainda mais imprevisível. O presidente dos EUA, Donald Trump, prometeu um ultimato de 48 horas para que o Irã abrisse o Estreito de Ormuz, ameaçando um “ataque sem precedentes”. Menos de dois dias depois, recuou e falou em cinco dias para negociações. Enquanto isso, o Irã endurece o tom e mantém o controle da rota por onde passa 20% do petróleo mundial.

O analista internacional Henrique Gomes, doutorando da Universidade Federal de Minas Gerais, aponta o equívoco fundamental dos EUA. “Os Estados Unidos cometeram um grande erro estratégico ao iniciar esse conflito. Subestimaram muito a capacidade militar e a resiliência do Irã.” Ele lembra no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, que o ataque foi motivado pela pressão de Israel e por fatores domésticos estadunidenses, como a tentativa de abafar escândalos envolvendo a administração Trump.

“O fato desse vai e vem de Trump é consequência da falta de planejamento estratégico. Acharam que seria algo muito simples — que assassinando o aiatolá derrubariam o regime, que destruindo refinarias tomariam o Estreito de Ormuz com facilidade. Isso se provou irreal”, destaca.

Gomes explica a dinâmica do conflito como um “jogo da galinha” (chicken game), metáfora da teoria dos jogos em que duas partes caminham uma contra a outra e quem desvia primeiro perde. “O Irã está apostando muito ao controlar o estreito. Sabe que as consequências são globais, mas também sabe que se ceder agora, sai como perdedor.”

O analista aponta que, até o momento, quem cedeu foram os Estados Unidos. “Trump disse que ia destruir o país se o Irã não reabrisse o estreito em 48 horas. O Irã não cedeu, e agora Trump cedeu. Nesse modelo, os EUA, vendo que tinham muito a perder, tiveram que fazer uma concessão.”

Gomes também chama atenção para os recentes ataques do Irã à cidade velha de Jerusalém. “Isso me impressionou bastante, porque Jerusalém sempre foi poupada. É a cidade sagrada para as três religiões abraâmicas. Atingir locais como o Domo da Rocha ou o Santo Sepulcro poderia causar um estremecimento sem precedentes.”

Ele pondera que foi uma estratégia arriscada do Irã. “Não sei se foi proposital ou se o míssil se desviou, mas atingir Jerusalém vai além da estratégia militar. É perigoso para o próprio Irã, porque pode realmente fazer o conflito atingir níveis globais.”

Em relação ao risco de uma guerra de proporções globais, Gomes aposta na cautela de Rússia e China: “Moscou está muito ocupado com o conflito na Ucrânia. Já Pequim pensa no longo prazo, é o oposto do que os EUA fizeram. A China não toma decisões precipitadas. Eles estão sempre pensando na grande estratégia de mudança da ordem mundial. Não têm interesse em comprar essa briga.”

Sobre o prazo de cinco 5 dias para negociações anunciado por Trump, Gomes acredita que uma trégua é possível, mas não um cessar-fogo definitivo. “O motivo da trégua é o jogo da galinha: o Irã saiu como o adversário viril, o que ganha o respeito dos pares. Agora, se essa trégua vai gerar uma negociação de paz, um cessar-fogo efetivo, eu duvido por agora. O Irã está muito disposto a mostrar sua força, mostrar que não vai abaixar a cabeça.”

“Talvez o Irã entre nessa trégua de cinco dias, mas que esse conflito vá de fato entrar no cenário de paz, eu acredito que não”, destaca.

O papel de Lula na Celac

Sobre o discurso do presidente Lula na Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), Gomes destaca o tom assertivo. “Essas falas estão alinhadas à tradição da política externa brasileira, mas com um adendo: um tom muito mais assertivo. Lula 3 tem menos ‘papa na língua’, fala o que vem à cabeça, mas ainda de forma alinhada com os princípios históricos — respeito à soberania, não ingerência, luta contra o colonialismo.”

Ele lembra que Lula retomou o episódio em que Bush convidou o Brasil para a guerra do Iraque e respondeu que sua guerra era contra a fome. “Ele usa isso para defender que cada país tem sua soberania respeitada e para contrapor o imperialismo dos Estados Unidos.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

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