quarta-feira, junho 10, 2026
spot_img
InícioCIDADESMulheres marcham em defesa da agroecologia e contra ‘falsas soluções’ para o...

Mulheres marcham em defesa da agroecologia e contra ‘falsas soluções’ para o Semiárido

0:00

Mais de seis mil mulheres ocuparam as ruas de Remígio, no agreste da Paraíba, durante a 17ª Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia nesta sexta-feira (13). A mobilização é organizada pelo Polo da Borborema, que reúne agricultoras, lideranças comunitárias e organizações populares do Semiárido. Realizado com o lema Mulheres em defesa da Borborema Agroecológica, contra as falsas soluções para o clima, o ato denunciou impactos de grandes projetos energéticos na região e propôs soluções para democratizar a produção de energia.

A programação começou pela manhã, com feira agroecológica e apresentações culturais, seguida de caminhada pelas ruas da cidade. Durante o ato também foi lançado o Programa Um Milhão de Tetos Solares, iniciativa da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) em parceria com a Fundação Banco do Brasil. O evento terminou com apresentação da cirandeira Lia de Itamaracá.

Mantendo suas origens, a mobilização destacou a luta por direitos das agricultoras do território da Borborema. A agricultora Roselita Vitor, conhecida como Rose, integrante da organização da marcha, afirma que o movimento nasce das experiências agroecológicas das mulheres e da necessidade de tornar públicas desigualdades e violências historicamente invisibilizadas no campo. “A marcha nasce para afirmar a agroecologia como um projeto político e também para denunciar todo tipo de violência contra as mulheres camponesas”, explica.

Os modelos de desenvolvimento no território, segundo relatos, têm provocado impactos sociais e ambientais nas comunidades rurais. Nos últimos anos, por exemplo, todo o debate feminista da mobilização se tornou inseparável da pauta climática. De acordo com Rose, o avanço de grandes empreendimentos de energia renovável no Semiárido tem sido acompanhado de conflitos territoriais e impactos nas comunidades. “Eu vi torre eólica quase na porta da casa das famílias, com aerogeradores girando 24 horas e pessoas adoecendo”, relata. 

Para ela, a marcha busca discutir as mudanças climáticas a partir da realidade dos territórios. “A gente quer discutir as mudanças climáticas a partir dos territórios, e não apenas a partir do debate global.” Neste sentido, a Marcha denuncia as chamadas “falsas soluções”, com as empresas que vendem a imagem de limpas, mas ameaçam práticas camponesas e agroecológicas na região.

Mulheres criticam as estratégias das empresas para se instalarem nos terrórios | Crédito: Túlio Martins/ AS-PTA

Energia descentralizada como alternativa

Uma das principais propostas apresentadas na Marcha foi o Programa Um Milhão de Tetos Solares. A iniciativa pretende ampliar o acesso à energia solar nas casas de famílias agricultoras, com sistemas instalados nos telhados das residências.

Segundo o coordenador da ASA, Giovanne Xenofonte, o programa se inspira em experiências anteriores de convivência com o Semiárido, como o Programa Um Milhão de Cisternas. “Na época [início da década de 2000] também se falava da concentração da água. Hoje acontece algo parecido com a energia”, explica.

A proposta é estimular uma geração descentralizada, em que as próprias famílias possam produzir e utilizar energia. “O programa Um Milhão de Tetos Solares nasce como uma alternativa para produção de energia descentralizada.”

De acordo com Xenofonte, a energia solar poderá trazer benefícios diretos para o cotidiano das comunidades rurais. “O primeiro objetivo é promover conforto doméstico. O segundo é fortalecer a produção de alimentos. E o terceiro é permitir que as famílias comercializem o excedente de energia.”

A iniciativa também prevê formação de jovens em escolas-fábricas solares, responsáveis pela produção, instalação e manutenção dos equipamentos. “Queremos desenvolver capacidades nos territórios, principalmente com a juventude, para produzir, instalar e fazer a manutenção dos sistemas.”

Organização das mulheres transforma vidas

Para muitas agricultoras, a marcha representa um momento de encontro e fortalecimento de uma organização que acontece ao longo de todo o ano. Moradora da comunidade Mata Redonda, em Remígio, a agricultora Maria Eliane participa da mobilização desde 2016, quando passou a integrar a associação comunitária e o sindicato rural. “A primeira vez que eu participei foi em 2016 mesmo e amei”, conta.

Segundo Eliane, a mobilização ajuda a ampliar o debate sobre direitos das mulheres e a enfrentar situações de violência. “Hoje a gente marcha, mas a marcha se prolonga por todo o ano.” 

Ela relata que muitas agricultoras passaram a participar mais  da vida pública após o contato com o movimento. “Muitas mulheres viviam em casa no seu canto, e o marido não deixava sair nem para vir para a marcha.”

Com o tempo, diz ela, o processo de organização coletiva tem contribuído para ampliar a consciência sobre direitos.“A gente conversando, elas vão abrindo a mente e vendo que têm direitos.”

A ciranda de Lia de Itamaracá está presente há dez anos na Marcha | Crédito: Túlio Martins/ AS-PTA

Cultura popular e resistência

Além das pautas políticas, a marcha também celebra a cultura popular. Há dez anos participando do evento, a cirandeira Lia de Itamaracá diz que considera uma honra estar ao lado das agricultoras da Borborema. “Isso aí é uma honra minha estar no meio dessa marcha, no meio dessas mulheres guerreiras”, afirma.

Para a artista, a ciranda — dança coletiva típica do litoral nordestino — dialoga com o espírito comunitário camponês da mobilização. “Ciranda é uma dança de roda que começa com as crianças e vai até os adultos. É uma cultura que não se acaba.”

Ao final do evento, a artista conduziu o público em roda de ciranda, celebrando a união entre cultura popular, luta social e defesa do território, como uma celebração conjunta da conquista popular de direitos.

Território, agroecologia e futuro do Semiárido

Ao reunir milhares de mulheres nas ruas de Remígio, a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia reafirma a centralidade das agricultoras na construção de práticas e saberes para a boa convivência com a região semiárida do país.

Para Rose, a mobilização representa não apenas um momento de denúncia, mas também de anúncio de novos caminhos para o território. “Quando a gente fala em um milhão de tetos solares, estamos dizendo que as famílias podem produzir sua própria energia.”

A expectativa das participantes é que iniciativas desse tipo fortaleçam a autonomia das comunidades rurais e ampliem as condições de permanência das famílias no campo. “Eu quero ver nossas mulheres sendo livres e bem aceitas na sociedade como um ser humano”, resume Maria Eliane.

Google search engine

Fonte Original

Conceição do Mato Dentro reforça debate sobre diversificação econômica com segundo fórum em seis meses

Quando uma cidade realiza dois fóruns sobre diversificação econômica com apenas seis meses de intervalo entre eles, o recado é claro: o futuro não...
ARTIGOS RELACIONADOS
Anúncio
Google search engine

MAIS POPULAR