Chegamos até a caverna de Chibichiri, no sul de Okinawa, com a sensação estranha de que aquele não era apenas o palco da história distante da ilha, e sim um alerta. A caverna tem sua entrada baixa, obrigando quem entra a se curvar. O ar é úmido, a luz desaparece rapidamente e o ambiente se torna sufocante. Em abril de 1945, quando as forças dos Estados Unidos desembarcaram na ilha, 140 civis okinawanos – em sua maioria idosos, mulheres e crianças – se esconderam aqui. Oitenta e cinco deles morreram pelas próprias mãos. Pais mataram primeiro os filhos, depois a si mesmos.
Aquilo não foi um ato de loucura coletiva nem a concretização de uma suposta predisposição cultural ao suicídio. O que aconteceu ali foi produzido. Foi a consequência da desinformação usada como arma de guerra.
Em Chibichiri, civis okinawanos foram avisados pelo Exército Imperial Japonês que os soldados dos Estados Unidos eram “demônios vermelhos” prontos para estuprá-los e torturá-los. Foram ensinados a acreditar que a captura era vergonhosa e que, como súditos do imperador, jamais deveriam se render. Aterrorizadas, isoladas e privadas de informações confiáveis, as famílias agiram com base em mentiras que se provaram fatais. Em uma caverna vizinha, todos sobreviveram, já que duas pessoas haviam morado no Havaí e retinham conhecimento direto sobre os Estados Unidos que contradizia a educação japonesa, e conseguiram se comunicar com os soldados norte-americanos.
Takamatsu Gushiken, conhecido localmente como o “escavador de ossos”, nos guiou pela caverna. Ele é também um dos principais integrantes do grupo ativista local No More Battles de Okinawa. Há décadas, ajuda a recuperar os restos mortais de centenas de pessoas mortas durante a Batalha de Okinawa. Logo antes de entrarmos, ele nos fez uma pergunta simples: por que estamos entrando nesta caverna? E com uma resposta foi igualmente direta, nos disse: porque não queremos que isso volte a acontecer. Nem em Okinawa, nem na Ásia, nem em lugar algum.
Okinawa representa apenas 0,6% do território japonês, mas abriga cerca de 70% de todas as instalações militares dos Estados Unidos no Japão, tornando-se uma das colônias mais militarizadas do império norte-americano. Ao ver isso de perto, fica claro que não se trata de bases isoladas, mas de um cerco militar esmagador. Cercas bloqueiam o acesso ao litoral, caças sobrevoam comunidades, e bairros inteiros são comprimidos por uma infraestrutura pensada para a guerra. Chamar essas instalações de “bases” é um engano — elas funcionam como uma ocupação permanente incorporada à vida cotidiana.
Atualmente, no contexto da nova Guerra Fria intensificada pelos Estados Unidos contra a China, vemos essa infraestrutura sendo ampliada. A mesma ilha sacrificada como campo de batalha em 1945 está sendo preparada para o sacrifício novamente.
Em Henoko, uma área costeira antes preservada, conhecida localmente como “ponto de esperança”, uma nova base militar está sendo construída sobre terra aterrada, apesar da oposição reiterada da população local, registrada pelo governo da província de Okinawa e por observadores internacionais. Há quase três décadas, okinawanos resistem a esse projeto por meio de eleições, referendos, ações judiciais e atos cotidianos de desobediência civil. Todos foram ignorados.
Desde 2014, manifestantes idosos — muitos com mais de 70 ou 80 anos — se reúnem todos os dias nos portões do Campo Schwab, sustentando uma resistência diária há mais de uma década. Sentados em cadeiras de camping, bloqueiam caminhões que transportam material de aterro e são removidos à força por seguranças e policiais. Enquanto são arrastados por membros da própria comunidade, homens da idade de seus filhos, netos, estudantes e vizinhos, eles cantam: “Não à guerra”. “Protejam a natureza”. “Não entreguem o futuro de nossas crianças”.
Centenas de caminhões atravessam a região diariamente, levando areia e pedras para preencher o mar. Parte desse material vem de áreas onde ainda estão sendo encontrados restos mortais de vítimas da Batalha de Okinawa. “Isso é como matar os mortos pela segunda vez”, nos diz Gushiken.
Para entender por que Okinawa carrega esse fardo, é preciso olhar além do presente. O antigo Reino de Ryukyu, que governou essas ilhas, manteve por séculos relações diplomáticas e comerciais com o Leste e o Sudeste Asiático. Foi anexado à força pelo Japão em 1879 e submetido a uma repressão cultural sistemática. As línguas okinawanas foram proibidas nas escolas, o desenvolvimento econômico foi deliberadamente limitado e a discriminação tornou-se institucionalizada.
Durante a Batalha de Okinawa, em 1945, cerca de um quarto da população civil foi morta — dado consolidado por pesquisas históricas do pós-guerra e registros oficiais de memória da província. Tropas japonesas usaram civis como escudos humanos e coagiram suicídios em massa, especialmente em Okinawa — um padrão que não se repetiu no território continental japonês.
Após a derrota do Japão, Okinawa permaneceu sob administração direta do Exército dos Estados Unidos por 27 anos, até 1972. Mesmo após a chamada “reversão” ao Japão, as bases permaneceram. Expropriações de terras, contaminação ambiental e crimes cometidos por militares estadunidenses — muitas vezes protegidos da justiça local — tornaram-se características permanentes da vida na ilha.
Hoje, Okinawa volta a ser transformada em uma plataforma avançada de operações militares, conforme documentos estratégicos e simulações de guerra dos Estados Unidos que dependem explicitamente das bases instaladas no arquipélago. Novos mísseis, expansão de instalações e exercícios militares conjuntos são realizados em nome da “segurança”, enquanto a oposição democrática local é tratada como um incômodo. Todos os canais possíveis — eleições, referendos, ações judiciais — já foram esgotados. Quando o voto de Okinawa entra em conflito com prioridades militares, ele simplesmente é ignorado.
Ainda assim, a resistência okinawana permanece contínua e profundamente enraizada. Organizações de mulheres documentaram décadas de violência sexual associada à presença militar, com destaque para o grupo Mulheres de Okinawa Contra a Violência Militar, que mantém registros detalhados desde os anos 1990. Sindicatos de professores, agricultores, artistas e grupos religiosos também desempenham papéis centrais no movimento contra as bases.
O escultor Kinjo Minoru dedicou dez anos à criação de obras que retratam a vida antes, durante e depois da guerra, insistindo que a memória em si é uma forma de resistência. Artistas, músicos e educadores seguem defendendo que a educação para a paz não é opcional — é uma questão de sobrevivência.
Um guia nos contou que, por 30 anos após a guerra, famílias de uma mesma vila não conseguiam falar entre si sobre o que aconteceu nas cavernas. O trauma era profundo demais. Só mais tarde começaram a fazer a pergunta mais difícil: por que isso aconteceu aqui? A resposta leva, repetidamente, à dominação colonial, à educação militarizada e ao controle da informação por aqueles que preparavam a guerra.
A caverna de Chibichiri é um alerta do passado. Ela nos lembra que os que morreram ali não eram irracionais, mas vítimas trágicas do medo fabricado. A desinformação não foi um elemento secundário da guerra — ela fez parte de sua engrenagem.
Em um momento de escalada do hiperimperialismo militar dos Estados Unidos — de Okinawa a Gaza, do Irã à Venezuela — a desinformação volta a ocupar um papel central na construção do consentimento para a guerra.
Okinawa nos lembra que a guerra não começa com bombas. Começa com narrativas — sobre inimigos, ameaças, inevitabilidade. E nos ensina que resistir à guerra exige mais do que palavras de ordem. Exige enfrentar campanhas de desinformação na nova Guerra Fria com solidariedade, comunicação, circulação de informações confiáveis e recusa às narrativas de desumanização.
Ao sair da caverna, a pergunta de Gushiken voltou à tona: por que entramos ali? Entramos porque lembrar é assumir responsabilidade. Okinawa é pequena, como diz um ditado local, mas ninguém consegue engolir uma agulha. Apesar de décadas de ocupação e sacrifícios impostos por outros, os okinawanos seguem resistindo a serem usados como campo de batalha — da Segunda Guerra Mundial à nova Guerra Fria.
Lembrar Okinawa não é olhar para o passado. É recusar a preparação da guerra no presente.
Como disse Gushiken, de forma direta, antes de deixarmos a caverna: “Os problemas que vemos hoje em Okinawa, envolvendo os Estados Unidos e o Japão, são resultado dos problemas não resolvidos de 1945 e da Batalha de Okinawa.”
Essa afirmação — de que a guerra nunca terminou de fato ali — é o núcleo político e moral da reivindicação e do movimento do qual ele faz parte: No More Battles de Okinawa.
*Tings Chak e Atul Chandra são co-coordenadores de conteúdos sobre Ásia do Instituto Tricontinental de Pesquisa.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


