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Embrapa celebra agroecologia e consolida abordagem de diálogo e construção coletiva em Pelotas (RS)

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Já faz tempo que agroecologia não é apenas ideia, mas sim alternativa concreta para um futuro sustentável, vide as 20 edições do evento que iniciou como um simples dia de campo e hoje estrutura-se como a principal referência sobre o tema no RS. O evento Agroecologia 2025, realizado através da Embrapa Clima Temperado, na Estação Experimental Cascata, em Pelotas (RS), na última semana, celebrou a consolidação de um modelo que nos últimos anos foi além da transferência de tecnologias.

O evento transformou áreas de pesquisa em salas de aula a céu aberto, atraindo agricultores familiares e camponeses, representantes de povos originários e tradicionais, técnicos, professores, estudantes, militantes populares e sociais, bem como pesquisadores interessados em ver de perto o funcionamento de sistemas que conciliam produtividade, preservação ambiental e desenvolvimento social.

Além da 20ª edição do Dia de Campo da Agroecologia, o encontro contou com atividades simultâneas como a 4ª Feira da Agroecologia, 3ª Ciranda Agroecológica, 3ª Mostra Cultural e Artística, 2ª Feira de Sementes Crioulas e 2ª Exposição de Máquinas para a Agricultura Familiar. As novidades deste ano ficaram por conta do evento “Mulheres e Agroecologia” e do projeto Pátio do Bem-Viver.

Cada espaço esta repleto de cores e sensibilidades características de quem vive a essência da Agroecologia | Crédito: Corbari

Segundo o pesquisador da Embrapa, José Ernani Schwengber, o novo perfil do evento reflete a necessidade de abordar a agroecologia em suas dimensões tecnológica, social e cultural. “A agroecologia se constrói a muitas mãos. Hoje ela é diálogo, integração e visibilidade”, afirma.

Para Schwengber, o reencontro em Pelotas dos atores envolvidos nas principais ações voltadas à agroecologia no RS, a cada final de ano, reforça a importância da presença da Embrapa junto às comunidades. “Precisamos estar próximos das organizações e dos agricultores para construir conhecimento adaptado a quem mais precisa. Esse evento é coletivo, pertence à agroecologia, e só existe porque é feito de forma compartilhada”, acrescentou.

A proposta, segundo o pesquisador, é justamente quebrar a barreira entre o laboratório e o campo: “A grande vantagem de um dia de campo é que se pode sair do gabinete, sair da sala de aula e vir para o campo mostrar na prática aquilo que se pesquisa. É outra linguagem, é outra forma de comunicação, muito mais eficiente para chegar até o agricultor e a agricultora.”

Uma vitrine de soluções sustentáveis

Cada espaço do Agroecologia 2025 se tornou apto para ser transformado em roda de conversa | Crédito: Corbari

A programação incluiu quatro estações de campo com demonstrações de tecnologias e processos agroecológicos, estruturadas como ambientes de troca de saberes, contando com 1,5 mil participantes inscritos. Outro destaque foi a Ciranda Agroecológica, que recebeu cerca de 600 crianças em atividades educativas sobre alimentação e sustentabilidade. Já a tradicional feira do evento contou com 50 expositores entre agricultores familiares, pescadores, quilombolas, indígenas, organizações comunitárias e empresas.

Os participantes percorreram diversas estações temáticas, cada uma dedicada a um aspecto da transição agroecológica. “A Embrapa tem o compromisso de oferecer alternativas tecnológicas que conciliem produção com preservação ambiental”, explicou Schwengber. “A agroecologia não é um retrocesso, é um caminho sofisticado e inteligente para o futuro da agricultura, principalmente para a agricultura familiar que é a base da nossa segurança alimentar.”

Resultados germinam resistência e resiliência

Espaços colocaram em evidência a necessária conexão entre saberes diversos | Crédito: Corbari

O sucesso do evento, mais do que pelo número de participantes, é medido pela adoção real das tecnologias apresentadas. O pesquisador destacou que o impacto é tangível. “Muitas das tecnologias que mostramos aqui, como os sistemas integrados e o manejo ecológico de pastagens, já estão sendo adotadas por agricultores que participaram de edições anteriores”, comemorou. “Isso é a comprovação de que o conhecimento está sendo apropriado e está gerando mudança real.”

Essa efetividade se deve ao formato dinâmico do dia de campo, que permite o diálogo direto. “Recebemos agricultores familiares, técnicos da extensão rural, estudantes… É um evento que consegue reunir um público muito diversificado, o que enriquece demais as discussões. A gente vê que o interesse pela agroecologia só cresce”, observou o coordenador.

Para Schwengber, a capacidade de renovação é essencial para manter a atividade relevante. “O evento ‘Agroecologia’ já é tradicional, mas a cada ano ele se renova com novos temas. A nossa ideia é continuar ampliando esse diálogo e mostrar que a sustentabilidade é economicamente viável”, pontuou. Ele avalia que o Agroecologia 2025 “deixou claro que o futuro da agricultura, especialmente na ótica da agricultura familiar, está sendo semeado hoje” e que o futuro não está restrito a artigos científicos, mas “está sendo testado e aprovado no solo fértil do diálogo entre quem pesquisa e quem produz”.

Embrapa Clima Temperado renova compromissos

O pesquisador João Carlos Costa Gomes, idealizador do primeiro evento e motivador do seguimento das 20 edições até agora realizadas, agradeceu o apoio dos parceiros, dos ministérios envolvidos, dos parlamentares Elvino Bohn Gass, Alexandre Lindenmeyer e Maria do Rosário, que investiram recursos para execução do evento.

Lembrou que o evento Agroecologia é um dia de confraternização no qual agricultores podem efetivamente realizar trocas de diálogos, percepções, saberes e demandas. “O abraço, o olho no olho, e a conversa ajudam a dinâmica deste evento ser o que ele é, um motivador para construir uma sociedade menos assimétrica, mais sustentável e mais amorosa”, falou.

O chefe-adjunto de Transferência de Tecnologias, Dori Edson Nava, destacou a temática do evento, as transformações climáticas, como uma realidade. Destacou a contribuição com as ações que estão sendo desenvolvidas ao longo do último ano junto aos diferentes grupos de pesquisa, ensino, extensão e órgãos governamentais para o enfrentamento deste tema.

“Precisamos aproveitar este evento, as diferentes estações tecnológicas voltadas à agroecologia para apresentar o que a Embrapa vem realizando como Casa de Ciência, mas também de transferência de tecnologias, para que a sociedade possa colocar em prática em seus agroecossistemas e vencer as condições climáticas adversas”, disse. 

Mulheres conquistam espaço

Pátio do Bem-Viver troxe valorização do bem-estar, espiritualidade e criação de conexões | Crédito: Álvaro Pouey

O debate de gênero também ganhou espaço com o evento paralelo “Mulheres na Agroecologia”, que promoveu rodas de conversa, palestras e discussões sobre políticas públicas para mulheres rurais. A atividade teve participação de mais de 100 mulheres e apoio do Observatório das Mulheres Rurais e de iniciativas impulsionadas por projetos e parcerias com instituições públicas.

A programação também contou com Reunião Extraordinária do Fórum da Agricultura Familiar da Região Sul, em que foram articuladas as principais ações em benefício da mulher rural, durante roda de conversa. Foram cerca de 100 participantes envolvidas somente nesta atividade.

Já o Pátio do Bem Viver – projeto desenvolvido em parceria entre a comunidade do Sítio do Vale Sagrado, a Embrapa Clima Temperado e o gabinete da deputada federal Maria do Rosário – viabilizou a realização de atividades seriadas voltadas ao bem-estar físico, psicológico, espiritual e afetivo das mulheres do campo, das águas e das florestas. Foi construído um espaço de acolhimento, garantindo um dia que privilegiou o enfoque do cuidado e da partilha.

“Ali se reforçou a percepção de que agroecologia vai além do manejo da terra, ele chega aos vínculos, a ecologia profunda, colocando as mulheres no protagonismo do bem-viver”, explicou Esme Molina, uma das organizadoras.

Tecnologia para pequenos agricultores

Espaço voltado a exposição de máquinas destacou desenvolvimento de tecnologias para pequenos agricultores | Crédito: Corbari

Um dos espaços que tem sido muito valorizado na programação dos eventos de agroecologia na Embrapa Clima Temperado é a mostra de equipamentos desenvolvidos especialmente para a agricultura fgamiliar e camponesa. A iniciativa leva em conta as necessidades de espaços antes considerados não mecanizáveis, a demanda das famílias de pequenos agricultores que também buscam maior conforto no desempenho de suas tarefas e maior produtividade dentro de espaços menores de produção.

Schwengber salienta as máquinas desenvolvidas pelos próprios agricultores, que transformam e adaptam para a realidade deles, para facilitar o trabalho no dia a dia do campo. “Se percebe uma evasão muito grande no campo, principalmente entre os jovens, pela penosidade do trabalho e agroecologia se faz no local”, afirma.

Miquéli Schiavon, da cooperativa Origem Camponesa, confirma a tendência do segmento em buscar alternativas de mecanização de processos. Para ele, o dilema da tecnologia e da mecanização da agricultura familiar está relacionado com o sistema de produção biodiverso: “Existe a necessidade de desenvolvimento, pesquisa e inovação para a agricultura biodiversa, com equipamentos de pequeno porte, adaptados para a realidade da agricultura nos diferentes territórios”.

Segundo o dirigente camponês, “a mostra tem a ver com o desenvolvimento que os agricultores fazem na região, mas também de inovações no campo da agroecologia em diferentes centros de tecnologia e pesquisa”. Schiavon coloca em destaque as iniciativas desenvolvidas de forma conjunta entre os próprios agricultores e os centros de pesquisa e desenvolvimento.

Água: um desafio para a região do Pampa

Cisterna foi construída na área da Embrapa para demonstração da tecnologia social de acesso a água | Crédito: Geovani da Silva

Um dos temas que mais tem despertado a atenção no amplo território do bioma Pampa – no qual Pelotas e todo o extremo sul do RS estão inseridos – são os reincidentes períodos de estiagem. Diversas atividades voltadas a essa temática foram realizadas. Uma, em particular, chamou atenção: a construção de cisternas para armazenamento de água da chuva, a exemplo do que ocorre no Nordeste brasileiro.

Para a engenheira agrônoma Andriessa Girotto, vinculada ao Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ), a participação foi muito importante para dar continuidade ao que foi apresentado ano anterior – inicialmente em forma de maquete e agora com uma cisterna construída no local. “As pessoas puderam verificar como é o funcionamento da cisterna, puderam tirar dúvidas e conferir possibilidades. Só quem tem a falta de água em casa sabe como é dura a realidade nos territórios onde se convive com a realidade reincidente das secas e estiagens”, disse.

O Programa Cisternas no Sul do Brasil é uma iniciativa que visa fornecer segurança hídrica a famílias rurais, pequenos produtores e assentamentos. Visa mitigar os efeitos da seca e garantir dignidade e qualidade de vida no campo, através da implementação de tecnologias sociais simples e de baixo custo, como as cisternas de placas, para captação e armazenamento da água da chuva.

Homenageados pelo Fórum da Agricultura Familiar

Homenageados no Agroecologia 2025 | Crédito: Francisco Orlandi

O evento aproveitou a ocasião para reconhecer 15 personalidades que deixaram um legado junto à agroecologia e agricultura familiar no território da zona sul. As placas de homenagem foram entregues pelo coordenador-geral do Fórum da Agricultura Familiar, Mauro Nolasco. Os homenageados foram:

Padre Armindo Caponi, uma referência na mobilização social e no apoio à agricultura familiar e à agroecologia na região sul do estado;

Cesar Demenech, extensionista com atuação histórica na Emater, integrando a criação e o fortalecimento do Fórum da Agricultura Familiar;

Cleu De Aquino Ferreira e Rosemar Borges Ferreira, agricultores agroecológicos com forte atuação comunitária e inspiração para outras famílias;

Ellemar Wojahn, apoiador de iniciativas para o desenvolvimento sustentável, contribuindo para a articulação institucional em benefício da agricultura familiar;

Fernando Marroni, atual prefeito de Pelotas e defensor das políticas públicas voltadas à agricultura familiar e ao desenvolvimento regional. A esposa e chefe de governo do município, Miriam Marroni, o representou;

Helga Reck, professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), pioneira na criação do Fórum da Agricultura Familiar e na promoção do ensino e da pesquisa em agroecologia;

João Carlos Costa Gomes, pesquisador da Embrapa, um dos fundadores do Fórum da Agricultura Familiar e referência científica em agroecologia, com contribuição marcante na articulação regional e nas pautas da agricultura familiar;

Luis Fernando Wolff, pesquisador da Embrapa, referência na produção de conhecimento para o fortalecimento da agricultura familiar e da agroecologia;

– Patrícia Martins da Silva, professora da UFPel, atuou na Bionatur e em assentamentos da reforma agrária, promovendo a produção de sementes e a agroecologia;

Rosemere de Holanda, extensionista da Emater, com trabalho em diferentes regiões do estado, sempre com foco na agroecologia e no apoio às famílias agricultoras.

Rede de apoio garante alcance de objetivos

Parcerias garantem viabilização do evento e ampliação dos objetivos | Crédito: Corbari

O Agroecologia 2025 foi promovido pela Embrapa Clima Temperado em parceria com Emater/RS-Ascar, Fundação Luterana de Diaconia (FLD), Centro de Apoio e promoção da Agroecologia (Capa), UFPel e Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). O governo federal esteve representado através do Ministério da Agricultura e Pecuária, do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.

Também deram o seu apoio a Plataforma Colaborativa Sul para Mitigação de efeitos climáticos adversos na agropecuária, Recupera Rural RS, Afubra, Bionatur, Coopar, CooperBio, Cooperativa Origem Camponesa, Escola Família Agrícola da Região Sul (Efasul), Fórum de Agricultura Familiar da Região Sul do RS, Universidade Federal de Rio Grande (Furg), Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ), Instituto Federal Sul-Riograndense (IFSul), Prefeitura de Pelotas, Serviço Autônomo de Saneamento de Pelotas (Sanep), Stihl, Rede de Agroecologia Ecovida, Universidade Estadual do RS (Uergs) e Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS).

Reconhecimento da Assembleia Legislativa

Premiação reconhece pela terceira vez o trabalho da Embrapa Clima Temperado | Crédito: Luís Fernando Wolff

Menos de uma semana depois do Agroecologia 2025, a Embrapa Clima Temperado voltou a ser pauta de notícias positivas: a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul reconheceu novamente a unidade com o Prêmio Folha Verde, na categoria “Desenvolvimento Agrário”. A premiação, uma das principais distinções do Parlamento gaúcho, destaca pessoas e instituições de relevância para o desenvolvimento do setor agropecuário e da economia gaúcha.

A unidade já havia sido agraciada com a homenagem em 2017 e 2023. A honraria foi entregue na segunda-feira (8), no Salão Júlio de Castilhos, em Porto Alegre (RS). 

Receberam o certificado e o troféu em nome da Embrapa Clima Temperado o chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia, Dori Edson Nava; o chefe-adjunto substituto de Pesquisa e Desenvolvimento, Jair Costa Nachtigal; o coordenador-técnico da Estação Experimental Terras Baixas (ETB), Gilmar Chaves Alves; e o assessor de Relações Institucionais, Mauro Nolasco. A entrega foi realizada pelos deputados Miguel Rossetto (PT) e Halley Lino (PT).

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