*Por Andréa Caldas e Marco Randi
Nas últimas décadas, o Brasil adotou uma série de políticas públicas voltadas para a democratização do acesso ao ensino superior público e gratuito. Entre elas, a institucionalização da política de cotas por meio de uma lei federal e a interiorização das universidades públicas federais, além da criação de uma série de políticas de assistência. No entanto, é notório que a ociosidade de vagas e a evasão de estudantes são problemas ainda por resolver. Na UFPR, eles estão no centro das preocupações da atual gestão da Reitoria, e explicam a decisão das mudanças recentemente anunciadas no vestibular.
A principal alteração proposta até agora é a realização do vestibular em fase única, e não mais em duas fases, como ocorria desde 2004. Essa proposta foi submetida ao Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) e aprovada no último dia 29 de setembro. Ela está prevista numa resolução elaborada pelo Núcleo de Concursos da UFPR (NC/UFPR) e pela Pró-Reitoria de Graduação e Educação Profissional (Prograp), que passa a regular todos os processos seletivos para ingresso nos cursos de graduação e educação profissional da UFPR.
Algumas pessoas podem perguntar qual a relação entre vestibular em fase única e facilitação do acesso à universidade. O simples fato de as provas ocorrerem em um só dia ou em dois dias seguidos (este aspecto ainda não está definido) é um grande facilitador, considerando que boa parte dos candidatos precisa se deslocar de sua cidade de origem para fazer provas em outra cidade. A prova em duas fases significa, para os aprovados na primeira, dobrar as despesas com deslocamento, hospedagem e alimentação.
Além disso, é de conhecimento que o calendário dos últimos meses do ano é repleto de vestibulares de inúmeras instituições. A prova em duas fases aumenta a probabilidade de coincidência de datas entre o vestibular da UFPR e outros. Ao ter que optar por um dos processos, o candidato reduz suas chances de ingresso no ensino superior.
O objetivo, portanto, é facilitar o processo para os candidatos e candidatas, na expectativa de isso também se reflita no aumento do percentual de ocupação de vagas da UFPR.
Outro questionamento esperado diante dessa decisão diz respeito à qualidade da seleção de candidatos no vestibular em fase única, com a eliminação das provas específicas (exceto para o curso de Música). Nesse aspecto, o mais importante a ressaltar é o fato de que o novo modelo vai manter, junto com as questões objetivas, a prova de Produção e Compreensão e Textos, que é discursiva. Ou seja, o domínio da leitura e da norma padrão escrita da Língua Portuguesa e a capacidade de interpretação de textos continuarão sendo avaliados, pois são reconhecidos pela UFPR como habilidades fundamentais para o bom aproveitamento em um curso superior.
Além disso, cabe lembrar que a aplicação, ou não, de provas específicas é uma escolha de cada curso. No vestibular deste ano, apenas 40 dos 124 cursos de graduação irão aplicar esse tipo de prova.
Por último, mas não menos importante, destacamos que não há evidência de que o processo em duas fases seleciona candidatos de forma mais adequada do que em fase única. Antes de propor a mudança, a UFPR, por meio de seu Núcleo de Concursos, realizou um estudo criterioso, que mostrou o seguinte: nos 11 vestibulares realizados entre 2009 e 2019, o resultado final teve um percentual de alteração de 10,98%, em média, em relação ao resultado da primeira fase. Ou seja, quase 90% dos candidatos com melhor desempenho na primeira fase foram efetivamente aprovados para ingresso na UFPR. Em 16,18% dos cursos sequer houve alterações.
Não é à toa que universidades federais importantes, como UFSC, UFRGS e UnB, já adotam o modelo de fase única no vestibular. No caso da UFPR, entendemos que é um caminho de adequação a novos tempos, em que o interesse pelo ensino superior vem decaindo e a oferta de cursos de baixa qualidade aumentando, o que exige medidas para facilitar o acesso a uma universidade de reconhecida qualidade acadêmica, além de gratuita.
Uma vez definida a realização do processo em fase única, a UFPR prossegue os estudos para definir qual será, dentro desse modelo, a melhor fórmula para a prova – o que inclui o número de dias de aplicação (um ou dois), número de questões e de alternativas, assim como período de inscrição e data da prova –, que esperamos anunciar em breve, a tempo de garantir aos estudantes uma boa preparação.
Andréa Caldas – Pró-Reitora de Graduação e Educação Profissional da UFPR e Marco Antônio Randi, Coordenador geral do Núcleo de Concursos da UFPR (NC/UFPR)


