Durante o mês de outubro algumas generalizações foram desorganizadas. Primeiro, caiu a certeza de continuidade sobre as políticas públicas já existentes; caiu por terra também o comportamento apático, junto com a justificativa de “revolta com a política” por parte dos que não querem se envolver; também foi desconstruída a ideia de que consciência política e capacidade de luta são habilidades apenas de alguns tipos de corpos.
Diante dessas rupturas, houve uma desorganização da norma que não era esperada: o levante das pessoas com deficiência e/ou idosas.
No dia 25 de outubro, na necessidade de impor a vontade popular pela democracia, duas coisas chamaram atenção: idosos e pessoas com deficiência ocupavam as seções eleitorais contra um candidato capacitista, que no passado usou a bandeira da acessibilidade como vitrine, mas no apagar das luzes destituiu os direitos e vidas das pessoas com deficiência.
Ele mesmo que agora, ao vivo na TV e em rede nacional, desrespeitou um idoso e agrediu o trabalhador precarizado e acidentado — tudo numa só frase. Mas, o que ele não se deu conta foi que o exército dos esquecidos viu, ouviu e sentiu.
A presunção da apatia falha quando subestima o poder dos que estão escanteados da memória coletiva. Erro grave, pois no dia 25 estes vestiram os seus uniformes engavetados e convocaram o que a sociedade esquece por viver sob a ótica capitalista: o senso de coletividade e a interdependência como armas de luta.
Vimos, em um dia — e aqui não estou romantizando falta de acessibilidade — a luta popular sendo carregada nos braços. E não estou falando dos inúmeros vídeos que lotaram as redes sociais e emocionaram a nação. Estou falando da dissidência da memória coletiva, essa sim, que carregou nos peitos a defesa de todo povo brasileiro.
Por um dia, fraturamos a normatividade e mostramos ao mundo que a interdependência fortifica o avanço popular. Nela, todo mundo se move, carrega junto, luta junto e ninguém fica para trás.
Se tomássemos aquele domingo como ponto de partida para a saída de uma sociedade da individualidade, avançando rumo à interdependência, lembraríamos ao restante da história que os que foram marginalizados pela independência capitalista, foram eles que mudaram os rumos da história do Brasil, mostrando que a consciência de um país mais justo também é cega, usa cadeira de rodas, tem tempos distintos e envelhece.
O exército dos esquecidos foi fundamental no dia 25, mas esperamos que eles possam ter centralidade no debate político e na manutenção da luta democrática por justiça e vida digna.
O que o exército dos esquecidos têm a nos mostrar é que o povo tem tempos distintos, cuidados e necessidades distintas, mas que a luta de um coletivo é sempre por todos e que entortar, fraturar, causar rupturas, reconfigurar modelos, não só é necessário, como é revolucionário.
A democracia é feita de/por muitos corpos!


