Foi com humor, plateias cheias, risadas em família e grandes filas o encerramento do 27º Porto Verão Alegre (PVA) na capital gaúcha na noite de domingo (8). Em um mês intenso de apresentações, o evento recebeu cerca de 40 mil espectadores e foi responsável por gerar mais de 1,5 mil postos de trabalho diretos e 5 mil indiretos – profissionais que vão muito além dos que estão em cima do palco, integrantes das equipes de produção, técnica, administração, comunicação e transporte – nesta estação em que a agenda cultural local fica mais restrita.
O evento surgiu para gerar trabalho para a classe artística em um momento em que a cidade ficava praticamente parada, também foi responsável por impactar positivamente a economia da capital gaúcha em mais uma edição. “Atrizes, atores, músicos, escritores, bailarinas, bailarinos, cineastas, técnicos e todos os outros ‘invisíveis indispensáveis’ transformam um festival como o Porto Verão Alegre numa espécie de organismo vivo, que respira ideias, transpira emoção e insiste em existir mesmo quando o mundo sugere o contrário. É essa gente, absolutamente necessária, que faz o festival pulsar de verdade”, destaca Rogério Beretta, coidealizador e organizador do evento.
Neste ano, com patrocínio da Petrobras e do Banrisul, ao todo, ocorreram 246 sessões desde 8 de janeiro, em 17 espaços culturais. Foram promovidas montagens de diversos estilos, de comédias, stand-ups, dramas e musicais a espetáculos de dança, infantis, espíritas, de ilusionismo e experimentais, diversos deles com acessibilidade, com recursos de audiodescrição e tradução para Libras. Os números reforçam a consolidação do PVA, criado em 1999, como um dos maiores e mais representativos festivais multiculturais do Brasil.
“Entregar mais uma edição do Porto Verão Alegre nos deixa com aquele sorriso meio bobo de quem sabe que está aprontando alguma coisa boa. É uma felicidade que mistura emoção, alívio, cansaço gostoso e orgulho. Orgulho de ver a cidade novamente ocupada por artistas, plateias diversas, risadas, aplausos e encontros. O festival segue fiel ao que sempre foi: inclusivo, acessível, com ingressos pensados para caber no bolso e, sobretudo, para caber na vida real das pessoas”, avalia Zé Victor Castiel, o outro organizador do evento.
A noite de encerramento teve um pleno – fácil e esperado – êxito de público, pois apresentou como atrações dois grandes e crescentes nomes do humor gaúcho que bombam nas redes sociais e cada vez mais somam fãs aos seus milhões de seguidores: Teteu Severo e Gio Lisboa. Seus espetáculos de stand-up arrancam muitas gargalhadas e promovem uma dinâmica interação com a plateia, fazendo com que o espectador também tenha seu protagonismo.
O sucesso no palco dos jovens que reforçam o sotaque gaúcho e exaltam as suas origens, em um humor simplificado, com roteiro sucinto, pitadas de provocação, bastante improviso e sacadas rápidas, faz lembrar a montagem Homens de Perto, emblemática da comédia do Rio Grande do Sul do começo dos anos 2000, com os dois organizadores do PVA ao lado de Oscar Simch – este último, que apresentou Curiosa Mente, do Fim do Mundo ao Começo, na noite de sábado (8) também em trio, em um formato semelhante.
“Acho que os Homens de Perto iniciaram um processo de popularização do teatro levando para dentro das salas um novo público. A mídia, na época utilizada, bem como a temática e o formato do espetáculo, foram pioneiros. Acho que esse público – que na época perdeu o medo de entrar numa sala de espetáculo – hoje em dia segue buscando essa experiência, e a ‘gurizada internética’ de comediantes da atualidade vem surfando nesta onda, com muito mérito e talento”, avalia Beretta.
Gaúcho fala tudo igual: a comédia colaborativa do RS
Ambos são colorados, têm muito sotaque gaúcho e são extremamente engraçados. Ainda trabalham com o acaso que emana da plateia (como uma menina surgindo vestida de dinossauro ou uma declaração de amor com um “Tamo Junto”) e aparentam dominar o improviso.
Teteu Severo e Gio Lisboa foram as atrações finais de encerramento do Porto Verão Alegre, na noite de domingo (8), com plateia cheia. Eles fazem collabs em postagens na internet entre eles, e ainda com outros parceiros de humor. O cenário da comédia de stand-up no estado e no Brasil, de forma geral, é bastante colaborativa.
O Tal Guri de Apartamento 2.0, inclusive, foi atração do palco do Teatro do CIEE também em 18 de janeiro. E, acreditem: teve gente que foi de novo – e ainda ajudou a criar causo a Teteu, comediante que ainda tem a irmã e a namorada que também trabalham com redes sociais. A abertura do show foi com João, o Mágico.
Enquanto Teteu usa bonés e camisetas de basquete coloridas, Gio só sai da coxia vestindo alguma camiseta do Sport Club Internacional (e isso será em qualquer palco brasileiro ou no exterior). Na Amrigs, com o espetáculo O Alquimista, para a despedida do DJ Wander, a eleita foi uma camisa vermelha mais clássica.
Com forte relação com a música, Gio já começou fazendo piadas sobre o ar-condicionado (tema sensível na trajetória do festival) e Cris Pereira (com quem trabalhou antes do sucesso na carreira solo), antes de chamar o guitarrista Gabriel Pinho e o outro parceiro de shows que faria sua última apresentação com ele. Antes, o prólogo teve a participação do stand-up de João Martins.
A noite foi cercada de emoção, com familiares e amigos do DJ prestando uma homenagem e subindo ao palco no final. A mãe de Gio também estava presente no teatro, fato que ele exaltou, além de poder lotar o teatro pela primeira vez. Ele foi categórico ao detalhar que já fez show com Araújo Vianna cheio, mas na Amrigs – que é um local representativo para a comédia local – a situação era “pioneira” – assim como a marca da empresa de uma das mães que ele escolheu na plateia para ser seu case engraçado.
De forma geral, os dois comediantes atraem famílias inteiras para suas apresentações. Na plateia de Teteu Severo, há mais crianças, até pelo seu conteúdo ser mais “light”. Já no de Gio, os garotos que querem participar são espirituosos ao responder “sabor de 18 anos” para a pergunta que o showman faz sobre idade. No fundo, a colaboração é entre todos os envolvidos.
Shakespeare, novidades e marcas da programação neste ano

O poeta e dramaturgo William Shakespeare nunca “saiu de moda”, deixou de ser citado ou encenado, mas parece que no início de 2026, as referências ao autor estão em maior evidência do que nos últimos tempos. A mais óbvia delas é o arrebatamento emocional gerado pelo longa Hamnet: A vida antes de Hamlet, um dos favoritos ao Oscar, nos espectadores.
A nova, picante e melodramática versão do romance O Morro dos Ventos Uivantes, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (12), também faz forte alusão à tragédia Romeu e Julieta, do escritor. Até Wagner Moura, também na corrida pela estatueta, já interpretou Hamlet no teatro e contou sua história intensa com Shakespeare nesta campanha para o prêmio.
Na programação do Porto Verão Alegre (PVA), Oscar Simch, um dos Homens de Perto, citou A Tempestade em seu texto na peça Curiosa Mente, do Fim do Mundo ao Começo, apresentada na noite de sábado (8), no palco do Instituto Goethe, com Evandro Soldatelli e trilha e contribuições engraçadas de Jottagá Souza Gomes.
Thiago Lacerda encenou Quem está aí? – Monólogos de Shakespeare em duas sessões no Teatro Unisinos – atração com a qual ele já tinha vindo a Porto Alegre. Entre as opções, ainda estava o espetáculo infantil A Cigarra e a Formiga: Uma História de Besouro Shakespeare, que mistura a fábula clássica com elementos shakespeareanos. Esses foram alguns exemplos, porém é sabido que essa referência é crucial no universo das artes cênicas.
Em seu 27º ano consecutivo de atividades, o festival foi além de clássicos do teatro gaúcho, trazendo para a capital gaúcha importantes nomes que circulam pelo centro do país, como Nany People e Grace Gianoukas, além de ampliar a presença de atrações musicais em sua agenda. O evento recebeu nomes como Arrigo Barnabé, a banda Maskavo e o duo formado por André Abujamra e Marcos Suzano, além de promover reencontros com músicos como Nei Lisboa, Renato Borghetti e Kleiton & Kledir, e realizar a estreia da nova turnê de Duca Leindecker e o show comemorativo de 40 anos da Graforréia Xilarmônica.
A edição 2026 ainda trouxe novidades, como um palco dedicado à brasilidade. Durante as quintas-feiras do mês de janeiro, o Grezz se transformou no Palco Petrobras, reunindo importantes nomes da música brasileira, entre eles Chico Brown, filho de Carlinhos Brown e neto de Chico Buarque. Ainda passaram por lá as cantoras Andréa Cavalheiro e Glau Barros, uma apresentação intimista de Thedy Corrêa, e a fusão de estilos de Paola Kirst com o Kiai Grupo. Estrearam, ainda, na programação o Teatro Simões Lopes Neto e o Galpão Floresta Cultural, entre os 17 espaços culturais que sediaram o PVA.



