quarta-feira, junho 10, 2026
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Encontro reúne centenas de atingidos após vitória contra a BHP

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A Arena Mariana recebeu, nesta terça-feira (25), mais de 800 atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão para um encontro organizado pela Prefeitura de Mariana em parceria com o escritório internacional Pogust Goodhead. O evento ocorreu poucos dias após a decisão histórica do Tribunal Superior de Londres, que reconheceu a responsabilidade da mineradora anglo-australiana BHP pelo colapso ocorrido em 2015. Representantes das comunidades atingidas, prefeitos, procuradores, advogados e lideranças locais estiveram presentes para esclarecer dúvidas, celebrar o avanço judicial e acompanhar detalhes dos próximos passos da ação na justiça inglesa.

A decisão divulgada em 14 de novembro pela juíza Finola O’Farrell, em uma sentença com 220 páginas, concluiu que a BHP controlava e operava a Samarco e, portanto, é responsável pelo desastre socioambiental que afetou centenas de milhares de pessoas em Minas Gerais e no Espírito Santo. A ação inglesa reúne mais de 600 mil clientes, entre indivíduos, municípios, empresas, igrejas e comunidades tradicionais. A corte também confirmou que os municípios brasileiros envolvidos, incluindo Mariana, estão dentro do prazo legal e têm legitimidade para seguir no processo.

Durante o encontro, advogados do escritório Pogust Goodhead explicaram ao público que o processo segue agora para a etapa de avaliação e quantificação dos danos. Uma audiência de gerenciamento do caso será realizada nos dias 17 e 18 de dezembro, e o julgamento da Fase 2 está previsto para outubro de 2026. O sócio do escritório, Guy Robson, destacou que a decisão inglesa rejeitou o argumento utilizado por anos pela mineradora. “A corte na Inglaterra concluiu que a BHP e a Vale eram as mentes orientadoras da Samarco. Por muitos anos eles negaram, dizendo que eram apenas acionistas, mas a corte não aceitou esse argumento”, afirmou. Ele também esclareceu que, apesar de a BHP afirmar que recorrerá, a permissão para recurso não é automática no sistema britânico e não suspende o andamento do processo.

O prefeito de Mariana, Juliano Duarte (PSB) afirmou que a decisão representa a confirmação do acerto em uma escolha difícil: a de não aderir ao acordo de repactuação proposto no Brasil. “Temos a perspectiva de receber uma indenização justa, porque no Brasil não fomos ouvidos. O acordo oferecido a nós não representa nem 1% do acordo total realizado, sendo que Mariana foi a cidade mais atingida. Tenho certeza de que a população vai reconhecer a decisão que tomamos”, declarou.

Juliano também reforçou, durante sua fala, o impacto devastador do rompimento na economia local e na vida das famílias. “Pessoas perderam o emprego, muitas obras na prefeitura pararam, muitos cortes de programas tiveram que acontecer, porque Mariana é uma cidade minerada e não parou somente a Samarco. A Vale parou e muitas empresas pararam e foi um efeito cadeia na economia local e todo mundo sofreu”, disse. Ele lembrou ainda das perdas humanas e do rastro de destruição ao longo da calha do Rio Doce: “Bento Rodrigues foi a primeira comunidade atingida, quem estava lá no tempo que tinha. 19 pessoas perderam as vidas e as vidas não têm preço. Depois veio Paracatu, Gesteira, Barra Longa e assim por diante até chegar no Espírito Santo”.

Encontro reúne centenas de atingidos após vitória contra a BHP
O prefeito Juliano Duarte celebrou a decisão da justiça inglesa e ressaltou a busca por justiça e reparação do município de Mariana.

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Entre os momentos mais marcantes do evento, estiveram as falas de atingidos que têm acompanhado a luta por reparação desde 2015. Mônica dos Santos, membro da Comissão dos Atingidos e do grupo “Loucos por Bento”, reforçou o significado da decisão inglesa. “A decisão é uma lembrança poderosa de que a lama não levou só casas: levou memórias, fotografias, pratos na mesa, festas de família, risadas de crianças correndo pelas ruas de Bento Rodrigues e tantas outras comunidades”, afirmou. Formada em Direito após o rompimento, Mônica enfatizou o sentido profundo da busca por justiça: “Não é só sobre dinheiro, nunca foi. É sobre respeito. É sobre saber que quem destruiu vidas inteiras precisa assumir suas responsabilidades. Não com discursos, mas com reparação verdadeira”.

Ela também agradeceu às pessoas que contribuíram para a mobilização que levou a ação até a Inglaterra. “É o mundo dizendo o que nós lutamos desde o início. Não foi acidente, foi crime. E crime precisa de responsabilização. E enquanto a justiça não chegar por completo, aqui e lá fora, nós seguimos. Seguimos no ídolo, fortes, com a memória de quem se foi e a força de quem sobreviveu. Porque a nossa história merece respeito”.

Outro representante dos atingidos, Mauro, relembrou momentos iniciais da mobilização, citando as pessoas que encorajaram a entrada na ação inglesa. Ele mencionou a atuação de Tom Goodhead, de Ana Cristina Maia e da advogada Cíntia Ribeiro, ressaltando a construção coletiva que marcou a longa trajetória do caso.

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Mônica e Mauro, atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão, representaram as vítimas no evento.

O prefeito Juliano Duarte ainda destacou que o foco agora é a fase de quantificação, que definirá os valores de indenização. “É uma vitória que comprova que vale a pena insistir na justiça. Mariana até hoje não teve sua justa indenização”, afirmou. Sobre a diferença entre os valores discutidos no Brasil e na Inglaterra, ele explicou: “Na justiça inglesa, nós pleiteamos um valor de 28 bilhões de reais. No Brasil, nos ofereceram 1 bilhão e 200 milhões, pagos em 20 anos, uma parcela por ano”.

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