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Cristina Kirchner cogita candidatura à presidência da Argentina: ‘Quando recuperar meus direitos políticos, por que não?’

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A ex-presidenta da Argentina Cristina Kirchner afirmou que pretende disputar as eleições presidenciais de 2027, caso consiga reverter a inabilitação perpétua para exercer cargos públicos imposta pela Justiça do país. “Quando eu recuperar meus direitos políticos, por que não?”, respondeu em entrevista ao jornal estadunidense The Washington Post, publicada nesta segunda-feira (2).

Foi a primeira entrevista de Kirchner a um veículo internacional desde a condenação, classificada por ela como um caso de lawfare — uso político do Judiciário para tirar adversários da disputa eleitoral. A conversa ocorreu no apartamento da rua San José, em Buenos Aires, onde ela cumpre prisão domiciliar desde junho de 2025.

Proibida de entrar nos Estados Unidos (EUA), a ex-presidenta também previu uma derrota de Donald Trump e dos republicanos nas eleições de meio de mandato desta terça-feira (3) e disse esperar que o resultado impulsione uma onda progressista. “Paradoxalmente, o homem que fez de tudo para ajudar governos de direita a vencer na América Latina vai perder as eleições em seu próprio país”, declarou.

Aos 73 anos, Kirchner foi condenada a seis anos de prisão e à inabilitação perpétua no caso conhecido como Vialidad, sobre a contratação de obras públicas na província de Santa Cruz durante seu governo. Ela foi absolvida da acusação de chefiar uma organização criminosa. A sentença, de 2022, foi confirmada pela Suprema Corte de Justiça da Argentina em junho de 2025, poucos dias depois de ela anunciar que seria candidata a deputada provincial, coincidência que a defesa e aliados apontam como sinal da motivação política do processo.

“Digam-me onde coloquei o dinheiro. Porque, sinceramente, se eu tivesse roubado, não estaria presa. Estaria livre, porque teria conseguido comprar o sistema judicial argentino, porque eles são corruptos”, disse Kirchner.

Sem possibilidade de novos recursos na Justiça argentina, a defesa levou o caso ao Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), alegando violação do devido processo legal e de direitos fundamentais. Segundo os advogados, ela foi responsabilizada por atos de seu chefe de gabinete e de ministros, e a defesa não teve acesso a provas-chave. O comitê não tem poder para anular decisões de tribunais nacionais, mas a Argentina, como signatária do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, tem a obrigação de respeitar seus padrões.

Rotina na prisão

Kirchner pode receber visitas apenas quatro horas por semana, em dois dias, com no máximo três pessoas por vez. Ela usa celular, mas teme ser monitorada. Lula, que passou 580 dias preso antes de ter as condenações anuladas, foi o primeiro líder internacional a visitá-la depois da prisão. “Ele me disse: ‘Faça exercício e não fique deprimida’”, contou.

“Mas eu não tenho o direito de ficar deprimida nem de me atormentar diante do sofrimento dos outros. Eu sei por que estou aqui: pelo que represento, pelo governo que construímos e por minha recusa em me submeter aos poderes estabelecidos”, completou a ex-presidenta.

Disputa com Milei

Kirchner segue na presidência do Partido Justicialista, fundado por Juan Domingo Perón e Eva Perón, e na liderança da Fuerza Patria, maior bloco de oposição no Congresso argentino. Segundo o Washington Post, pesquisas recentes mostram a aprovação dela ligeiramente acima da de Milei, ambas na faixa dos 30%. O presidente deve tentar a reeleição em 2027, e a oposição ainda não tem candidatura unificada. Horas antes da publicação da entrevista, o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, disse a assessores que está disposto a disputar prévias com ela ou com o ex-ministro da Economia Sergio Massa.

A ex-presidenta reconheceu que o peronismo contribuiu para a própria derrota em 2023. No governo de Alberto Fernández, que teve Kirchner como vice, a inflação anual chegou a 211% e a pobreza, a 40%. “Houve uma ruptura na cultura do trabalho”, admitiu.

A inflação caiu sob Milei, mas a pobreza voltou a subir neste ano, assim como o desemprego, e a aprovação do presidente de extrema direita despencou ao menor patamar desde a posse. “Agora muitos argentinos estão frustrados porque suas vidas não melhoraram, seu dinheiro não dura até o fim do mês e eles veem um governo que não só não faz nada pelos pobres, como os ataca ativamente”, criticou Kirchner. Para ela, quando Milei e outros líderes de direita não cumprirem suas promessas, a mesma raiva antissistema que os levou ao poder vai se voltar contra eles.

Segundo a ex-presidenta, o desafio do campo progressista não é apenas recuperar o poder, mas entender a raiva que levou eleitores a apostar em quem promete derrubar o sistema e apresentar propostas que a população acredite serem viáveis, sobretudo para os problemas econômicos do dia a dia e o endividamento das famílias. “É possível governar racionalmente uma sociedade em que 50% acham que os outros 50% precisam desaparecer?”, questionou.

‘O povo sempre volta’

A previsão sobre os EUA atinge diretamente o governo argentino. Em outubro, em discurso em um jantar de uma associação hispânica em Washington, Milei pediu que o aliado saísse vitorioso do pleito. “É importante, não só para os Estados Unidos, mas para todo o Ocidente […] que o presidente Trump saia fortalecido das eleições de novembro; não podemos ceder um centímetro na nossa reconquista do hemisfério”, afirmou o argentino.

Nas eleições de meio de mandato, estão em disputa as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e um terço do Senado. Os republicanos controlam hoje as duas Casas, com 53 das 100 cadeiras do Senado e 218 da Câmara, contra 214 dos democratas. As pesquisas nacionais mostram os republicanos atrás dos democratas. Uma derrota no Congresso pode limitar o poder de Trump nos dois últimos anos de mandato.

“A história não se escreve em linha reta. Há avanços e retrocessos. Mas o povo sempre volta”, concluiu Kirchner.

Fonte Original

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