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Desinformação de gênero divulgada em programa de emissora comercial reforça misoginia e a violência contra as mulheres

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A entrevista com um masculinista no programa GloboNews Debate, na terça-feira, 12 de maio, no canal pago da Rede Globo, trouxe à tona o debate sobre o espaço que a mídia oferece a homens que propagam um discurso que reforça a misoginia, utilizando-se de desinformação e conteúdos pseudocientíficos, com a justificativa de ouvir os dois lados.

O programa em questão, GloboNews Debate, se apresenta com a proposta de “ouvir os dois lados de uma história”, máxima usada pelo jornalismo da mídia comercial, para dizer que a imprensa é isenta e não concorda com um lado nem outro, deixando a/o telespectador, ouvinte ou internauta, tirar suas próprias conclusões sobre o conteúdo/informação que está sendo transmitido. Mas, a gente sabe que as coisas não são bem assim. A mídia brasileira não é isenta e toma partido quando lhe convém, sempre defendendo os seus interesses políticos, econômicos e religiosos, com uma tendência ao campo político da direita.

O professor da Universidade de Brasília (UnB) Venício Lima tem diversos estudos que demonstram essa realidade. A professora e jornalista Eliara Santana analisou em seu livro Jornal Nacional: um ator político em cena a atuação do Jornal Nacional – um dos telejornais com uma audiência representativa no Brasil – em relação a Operação Lava Jato, mostrando como toda essa engrenagem midiática funciona e como a Rede Globo promoveu a operação como uma “grande luta contra a corrupção.” A Vaza Jato, reportagens investigativas realizadas pelo The Intercept Brasil sobre a Lava Jato, mostrou os reais interesses e os atores que a articularam.

Além do masculinista no programa da GloboNews, também foram colocados para “debater” com ele, a psicanalista Vera Iaconelli e o consultor de equidade de gênero e raça Ismael dos Anjos. Os questionamentos sobre a condução do programa foram feitos inicialmente pelo jornalista Leandro Demori, do ICL Notícias, e depois pela atriz Leandra Leal, em seu perfil no Instagram. Esses comentários evidenciaram a ausência de contrapontos e checagem de dados às falas divulgadas pelo masculinista, que propagou desinformação de gênero em um programa jornalístico, veiculado em um horário considerado nobre, e também veiculado nas plataformas digitais da emissora.

A permissão para que ele continuasse a divulgar informações falsas mostrou a falta de responsabilidade da emissora com os direitos das mulheres e com o próprio fazer jornalístico. A jornalista e feminista Milly Lacombe também se posicionou em seu perfil no Instagram, de maneira certeira.

A também jornalista e feminista Taty Valéria também gravou um vídeo comentando sobre o tal debate, que pode ser acessado aqui. Ela lembra que, em 2021, foi convidada por um portal paraibano para “dialogar” com uma mulher que se colocava como conservadora e antifeminista. Reforçando a fala de Taty Valéria, esse tipo de “debate”, formato de programa adotado pela imprensa brasileira, em nada informa a população, mas apenas investe no sensacionalismo e no reforço a “polêmicas”, dando espaço para figuras que utilizam da mídia para difundir ainda mais conteúdos extremistas, desinformativos e discursos de ódios a grupos vulnerabilizados já atacados cotidianamente, nesse caso, as mulheres.

Já passou da hora da mídia comercial rever esses modelos de “debate” e parar de oferecer espaço a pessoas extremistas, principalmente se não oferecer um contraponto a tais discursos e checar as informações falsas ou manipuladas que eles fazem questão de divulgar para confundir a opinião pública.

Outro ponto trazido por Leandro Demori merece reflexão. Para o jornalista, a mídia comercial é rápida ao criticar a mídia independente ou alternativa, sempre referindo-se aos jornalistas que estão nesses veículos como “militantes”, “ativistas” e que o jornalismo precisa ser “profissional”, para eles, sinônimo de isenção. Porém, como bem aponta Demori, faltou a produção do programa GloboNews Debate, feito por uma emissora que divulga aos quatro ventos, que faz jornalismo, ter desmentido o masculinista no momento em que ele dizia que “mulheres matam mais que homens.” Inúmeras pesquisas, como a do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostram que isso não é verdade.

Mulheres são mortas, diariamente, por homens com quem elas mantêm um relacionamento íntimo, assassinadas, geralmente, na frente dos filhos e/ou filhas, e os homens, quando mortos, são por outros homens, em contexto de violência urbana. No entanto, o masculinista não foi desmentido, nem pela apresentadora nem pela produção do programa, e por causa dessa “postura” da GloboNews, diversos vídeos e comentários circularam nas plataformas digitais, repudiando a permissividade da emissora com a desinformação que foi veiculada e que reforçou ainda mais a misoginia e legitimou a violência contra as mulheres, incitada por um defensor da machosfera.

*Mabel Dias é jornalista, mestra em Comunicação pela UFPB, doutoranda em Comunicação pela UFPE, associada ao Coletivo Intervozes, observadora credenciada no Observatório Paraibano de Jornalismo e conselheira do Conselho Nacional dos Direitos Humanos. Autora do livro A Desinformação e a Violação aos Direitos Humanos das Mulheres: um estudo de caso do Alerta Nacional (editora Arribaçã).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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