Inspirado no livro Invisíveis – O lugar de indígenas e negros na história da imigração alemã, o projeto artístico-pedagógico Invisíveis está mobilizando estudantes da rede pública de São Leopoldo (RS) em uma experiência que mistura dança, pesquisa histórica e reflexão sobre apagamentos sociais no Vale dos Sinos. A iniciativa ocorre na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Francisco Cândido Xavier, com turmas do 9º ano, por meio do edital Artista na Escola, da Secretaria Estadual da Cultura do Rio Grande do Sul.
Coordenado pelo artista e professor de dança Igor Pretto, o projeto parte da leitura da obra dos jornalistas Dominga Menezes e Gilson Camargo para discutir a invisibilização de indígenas e pessoas negras na narrativa tradicional sobre a imigração alemã no estado. Ao longo dos próximos meses, os estudantes irão construir coletivamente um espetáculo de dança com uso de vídeo e projeções multimídia, que também será apresentado em outras escolas da rede pública do município.
Segundo Pretto, o projeto busca provocar uma mudança de perspectiva sobre a história local e aproximar os estudantes de debates que normalmente ficam fora das narrativas oficiais.
“O projeto é, também, uma espécie de manifesto, assim como livro. É sobre dar visibilidade ao que tentam invisibilizar, e isso tem um valor simbólico bem significativo, especialmente ao estudar e ressignificar a história da localidade onde os estudantes estão inseridos, no caso São Leopoldo e o Vale dos Sinos. É uma outra perspectiva sobre o lugar em que eles nasceram, cresceram, o que torna tudo mais próximo da realidade deles”, afirma.
“Contraponto importante”
O professor também destaca o apagamento histórico da presença negra e indígena nas pesquisas sobre imigração alemã no Rio Grande do Sul.
“É quase inacreditável pensar que a grande maioria das pesquisas históricas sobre a imigração alemã no Rio Grande do Sul ignore a presença de povos indígenas e pessoas escravizadas. E é louvável a pesquisa dos jornalistas Dominga Menezes e Gilson Camargo, autores do livro, fazendo esse contraponto importante e poucas vezes visto.”
As atividades começaram com estudos do livro em sala de aula e seguem com encontros entre os estudantes e os autores da obra, além de saídas de campo voltadas à discussão sobre memória, território e identidade.
“O desafio do projeto é transformar esta temática em um espetáculo com os estudantes e, principalmente, fazer este trabalho chegar a diferentes comunidades da cidade de São Leopoldo”, completa Pretto.
Livro amplia debate sobre apagamento histórico
Lançado em abril de 2024, durante as comemorações do bicentenário da imigração alemã no Brasil, o livro-reportagem Invisíveis propõe uma releitura da história de São Leopoldo, município considerado o berço da imigração germânica no país. A obra evidencia a presença e a contribuição de povos indígenas e negros na região antes e durante o processo de colonização alemã.
O livro recebeu o 3º lugar na categoria Grande Reportagem do 41º Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, em dezembro de 2024, e teve repercussão em veículos internacionais como o jornal britânico The Guardian e a emissora alemã Deutsche Welle.
O projeto Invisíveis conta com apoio da Carta Editora e financiamento do governo do estado do Rio Grande do Sul, por meio do programa RS Seguro COMunidade.


