Neste final de semana, dias 16 e 17 de maio, a peça “Nadine”, que conta com texto e encenação de Luiza Romão, terá entrada gratuita.
Luiza, que é atriz, escritora e slammer, fez a dramaturgia da peça a partir da adaptação do livro de mesmo nome, lançado por ela em 2022. A trama acompanha Nadine, uma jovem vítima de feminicídio, investigando a própria morte, depois que autoridades policiais abriram mão de investigar o caso.
Em entrevista ao programa “Conversa Bem Viver” da Rádio Brasil de Fato, Luiza comenta que, para além de uma narrativa detetivesca, a peça busca tratar de temas difíceis e urgentes, como o combate à violência contra as mulheres. “Mais do que resolver o enigma, a ideia é discutir questões ligadas à representação da violência de gênero, à relação entre desejabilidade e corpos femininos, construções de corpos femininos a partir de um ideal de vulnerabilidade”.
Com direção musical e canção original de Lirinha, a obra tem o som como linguagem primordial, como relata Luiza.” Ele é [um espetáculo] muito sonoro. A gente foi por uma ideia de pensar o som, a música como uma instalação e como criação de imagens. E, a partir desses sons, dessas paisagens sonoras, dessas construções musicais, a gente é levado a imaginar esses personagens, a imaginar o que aconteceu, a reconstruir memórias junto com essa personagem.”
Leia a entrevista completa.
Brasil de Fato: A peça é uma adaptação do livro para o teatro ou você aproveitou esse tempo, de cerca de 6 anos entre o lançamento do livro e a peça, para trazer novos elementos?
Luiza Romão: “Eu sempre escrevo muito, já pensando em algum tipo de flerte com outra linguagem. O Nadine, eu brinco, que a ideia do livro surgiu muito como um filme, as narrativas detetivescas, os filmes do Al Pacino, do Scorsese. Eu sempre tive vontade de transformá-lo em algo performado. A gente sabe que o cinema é uma arte um pouco mais custosa em termos de equipe, de processo. Meu primeiro passo foi transformá-lo nesse espetáculo teatral.
Então, a gente tem uma adaptação dos poemas e uma investigação dessa linguagem do spoken word, da palavra falada no teatro. Eu falo vários poemas, outros a gente transforma em diálogos, outros em cenas, e a gente tem um investimento forte, em termos de pesquisa de linguagem, na ideia da radionovela.
Aproximando os nossos ouvintes, as nossas ouvintes do tema do livro e da peça, eles são a história de uma jovem, a Nadine, que é uma arruaceira, uma baderneira, que é assassinada. Como ela não é uma vítima ideal, a polícia não se importa muito, arquiva logo o caso. E aí é ela, a defunta, que vai começar a investigar o próprio assassinato. Ela começa a pedir ajuda aos vizinhos, porque eles todos moram num edifício velho em cima de um açougue, e também pede ajuda de uma outra figura, também vítima de feminicídio, que é a Lana Suárez, que é uma performer ficcional, e as duas começam a tentar reconstituir essa cena do crime. Mais do que resolver o enigma, a ideia é discutir questões ligadas à representação da violência de gênero, à relação entre desejabilidade e corpos femininos, e construções de corpos femininos a partir de um ideal de vulnerabilidade.
É uma peça que vai discutir aí alguns temas muito difíceis, graves, sérios, ainda mais nesse momento histórico, com um jogo de linguagem que vai para essa coisa do policial, que vai para esse imaginário que a gente tem dos livros e dos filmes detetivescos.
Você fez comentários sobre aumento exponencial de casos de feminicídio, especialmente em São Paulo. Nesse primeiro trimestre de 2026, a gente teve um aumento de 41%. É um absurdo que o texto que você fez em 2022 se torne mais necessário quatro anos depois. A gente sabe que há uma longa caminhada por justiça, igualdade de gênero, igualdade social, mas a gente não deveria haver um retrocesso desse tamanho. O que está acontecendo em São Paulo faz com que a tua peça, infelizmente, seja ainda mais necessária depois do lançamento do livro?
Total. A gente tem, por um lado, esse aumento gigantesco do que talvez seja a ponta do iceberg do problema da questão da violência de gênero e, com isso, também espaços públicos sendo tomados por discursos de ódio, por uma misoginia escancarada. Tanto no nível de figuras públicas que se sentem autorizadas a disseminar ódio contra as mulheres quanto na formação de fóruns digitais e espaços privados. Estamos num momento em que a misoginia, que o machismo, tem acontecido de forma muito perversa, que infelizmente têm sido autorizados por figuras que deveriam estar lutando pela garantia de direitos, por uma sociedade mais justa. Então, Nadine, quatro anos depois, ele se torna ainda mais necessário.
Eu, através da poesia, através do teatro, através da música, não só combato isso, mas também, de alguma forma, vingo esse tema. Tem essa dureza de a gente estar falando da especificidade de um trauma muito violento. Tanto no livro quanto na peça, eu penso nessa questão do feminicídio e da agressão sexual também em corpos desadormecidos. É algo que, recentemente, uma pesquisa mostrou como começa a ter, em alguns sites duvidosos, a veiculação desse tipo de imagem. E também imaginário, que vincula o corpo de uma mulher desacordada a um corpo disponível para algum tipo de assalto sexual.
A gente está falando de uma sociedade que é estruturada nessa misoginia e vai se articulando de diferentes formas. E, infelizmente, uma das manifestações desse problema também se dá na representação, seja na representação pictórica, seja no cinema, seja também num jornalismo muito sensacionalista que, muitas vezes, busca uma lógica punitivista ou de revitimização do que encarar esse problema de fato.
E através do discurso poético, através da cena, eu busco vingar de alguma forma essas tantas mulheres que foram deixadas para trás e também criar outros imaginários e outros vocabulários para a gente discutir esse problema.
Você mencionou esse abandono por parte do jornalismo sensacionalista, mas a gente pode falar da política de forma geral, de tantos espaços de poder que estão sendo utilizados justamente para propagar cada vez mais esses discursos de ódio. O próprio argumento da peça traz isso: uma vítima de feminicídio que tem que investigar, por conta própria, o crime relacionado à sua morte.
Esse é um dos motes da peça e, inclusive, é a razão de eu ter escolhido esse nome: ‘Uma vítima é uma vítima, nada, nadinha, Nadine mais que uma vítima’. Eu acabei escolhendo o nome dessa personagem, um nome que carrega esse nada. A busca dela, durante a peça, é sair desse lugar que o patriarcado coloca a mulher ou a mulher que não está nesse lugar da vítima ideal nos casos de violência, desse nada. O nada, ele vai aparecendo em vários poemas.
A trajetória da Nadine, junto com a Lana e junto com esses aliados, o Luiz Alfredo, Conceição e a Toninha, é de sair desse lugar do nada e recuperar o próprio nome. Nisso, tem algo de nomear corretamente essa violência, que é algo que está presente bastante no texto. Inclusive, um dos poemas vai falar, por exemplo, da alcunha de crime passional, que até pouco tempo atrás era uma categoria judicializada. A gente está pensando em como o próprio ato de dar nome para as coisas é muito recente. Estamos falando de algumas décadas para trás, quando a ideia de crime de honra parou de ser uma tese defendida e judicializada.
É impossível olhar para o marco de 10 anos do golpe contra Dilma Rousseff e não conseguir reconhecer que todos esses retrocessos que a gente teve, por exemplo, o número de feminicídios crescendo exponencialmente nesse momento em São Paulo, estão necessariamente relacionados. Esse sufocamento da política acaba reverberando no dia a dia das pessoas. É uma questão de representatividade também.
E digo mais: acho que isso não é só no Brasil, mas também em países vizinhos. O caso todo da Argentina, em que a gente teve uma mobilização feminista muito grande, inclusive para garantir o direito ao aborto legal e seguro para todas as pessoas que gestam, que têm útero, com esse retrocesso agora da extrema direita com Javier Milei ocupando a presidência e tendo uma catástrofe atrás da outra. Mas também no nível global. Os discursos do Trump que atestam contra mulheres de uma forma escancarada, de uma forma grosseira.
Estamos num momento em que essas conquistas que o movimento feminista alcançou nos últimos tempos, seja dentro da política partidária, seja em espaços comunitários, seja em levantamento de discussões e desnaturalizações de algumas práticas sociais, estão sendo muito atacadas pela extrema direita.
A peça reúne um elenco de peso, não só você como protagonista, mas vou trazer aqui o nome do Lirinha, nosso querido amigo do Cordel de Fogo Encantado, que assina a direção musical. Ele também faz música ao vivo?
Ele fez a direção musical e a trilha sonora original. Eu assino a direção, o texto, a performance e foi uma parceria nossa muito massa. Eu tinha essa questão de como colocar em cena essa ideia de que a Nadine. Ela é uma figura viva, que está presente, mas não está presente. Como criar essa ideia de uma presença incorpórea ou de um corpo que está e não está. A voz é um pouco essa presença incorpórea ou essa corporalidade é inapreensível. Então a gente foi pesquisar uma linguagem da rádio-novela, então todas essas figuras, essas personagens que vão ajudar Nadine, o vizinho de baixo, a vizinha de cima, se transformaram em participações em áudio. Fizemos um trabalho artesanal de captar quase 20 vozes de outros artistas que trabalham com essa questão da palavra falada, não só em português, mas em inglês, em alemão, em espanhol e, a partir disso, o Lirinha foi criando muitas paisagens sonoras.
Você, que está ali assistindo, vai ser transportada para uma rodoviária do interior e vem uma lembrança da Nadine. Isso foi uma escolha estética, pensando que a gente está num momento em que a gente é bombardeado muito por imagens, seja nas redes sociais, seja na publicidade; o tempo inteiro o olho é muito convocado nesse lugar do consumo. E a nossa atenção está cada vez mais curta, o tempo de apreensão dessas imagens. Então, esse espetáculo não tem projeção; ele tem um cenário maravilhoso que foi criado pela Marisa Bentivegna, que também assina a luz. E ele é [um espetáculo] muito sonoro. A gente foi por uma ideia de pensar o som, a música como uma instalação e como criação de imagens.
A partir desses sons, dessas paisagens sonoras, dessas construções musicais, a gente é levado a imaginar esses personagens, a imaginar o que aconteceu, a reconstruir memórias junto com essa personagem.
Não tinha lugar melhor para você falar dessa peça do que na rádio, no podcast, um local que a gente justamente prioriza isso. Hoje tudo pode ser vídeo, mas tem esse movimento de que, quando a gente só pode escutar, conseguimos chegar mais longe com essa palavra, porque de fato o nosso corpo está concentrado apenas nisso.
Mas, antes de terminar essa conversa, quero lembrar que, em 2014, você foi vice-campeã brasileira de Slam. Nessa trajetória de mais de 10 anos, você se sente dentro disso? Parece que o slam já caminhou para outro tipo de manifestação?
Eu sinto que a minha vivência no slam vou levar para o resto da vida; foi o lugar que me formou como poeta. Acho que tem um encontro da minha vivência no teatro com a vivência nas ágoras de poesia dos slams e dos saraus. O Nadine é resultado disso tudo.
Sinto o slam como essa vivência com a palavra falada, com a palavra falada na rua, com a concisão dos três minutos, e isso está presente no espetáculo. Tem poemas que facilmente eu poderia estar batalhando, em alguns, uma competição, e acho que também os espaços vão se desdobrando. Tem algo dessa investigação de linguagem, de fazer político e poético com a palavra que estava presente ali na Luiza de 2014, na novinha, batalhando no Slam BR, e que também continua viva essa chama na Luiza Nadine interpretando o espetáculo teatral.
Serviço
SESC BELENZINHO
Data: 16 a 17 de maio – sábados às 19h e domingo às 16h
Endereço: R. Padre Adelino, 1000 – Belenzinho, São Paulo – SP
Entrada gratuita pela Semana S, retirada de ingressos disponíveis no portal sescsp.org.br a partir de 15/5 às 14h online, limitado a 4 ingressos por CPF.
SESC AVENIDA PAULISTA
Data: 26 e 27 de junho, sexta e sábado, às 20h
Endereço: Av. Paulista, 119 – Bela Vista, São Paulo – SP
Ingresso: Pelo site https://www.sescsp.org.br/unidades/belenzinho/ ou por meio do aplicativo Credencial Sesc SP e nas bilheterias das unidades Sesc.
Conversa Bem Viver
Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.
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