quarta-feira, junho 10, 2026
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Cientista político Juarez Guimarães explica o que é o neoliberalismo e como combatê-lo

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“O neoliberalismo vive uma crise da sua dominação, porque o Estado norte-americano está vivendo uma crise interna que impacta no seu controle do mundo. Com a ascensão da China e de outros países e a luta de resistência dos povos, vão se criando possibilidades de avançarmos na construção de alternativas”, explica, sobre seu livro recém-lançado, o professor titular do departamento de ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Juarez Guimarães. 

Mestre e doutor em ciências sociais e pós-doutor em filosofia, ele pesquisou ao longo da sua carreira acadêmica a teoria política, com ênfase nas tradições republicanas, marxistas, feministas e antirracistas, e o pensamento político e social brasileiro. Em Em Nome da Liberdade: uma crítica socialista democrática ao regime neoliberal de Estado, Guimarães apresenta novas interpretações sobre o neoliberalismo. 

Confira a entrevista completa: 

Brasil de Fato – O que tradicionalmente se entende por neoliberalismo e qual é a origem histórica desse conceito?

Juarez Guimarães – Considerando a emergência do neoliberalismo na cena política internacional, com as vitórias de Reagan e Thatcher em 1980, nós temos já umas cinco décadas de dominância desse pensamento da tradição liberal, apesar de o neoliberalismo ter formação em uma tradição que tem uma história mais antiga, que vem desde os anos 20, na Escola de Viena.

A partir do poder do Estado norte-americano, cujo poder geopolítico aumentou muito após a dissolução da União Soviética, essa tradição neoliberal moldou não apenas instituições e dinâmicas internacionais do capitalismo, mas também destruiu aquelas instituições, culturas e modos de acumulação próprios de um liberalismo social ou keynesiano, que havia vigorado até o final dos anos 70.

Como é um fenômeno antigo, que já vem de cinco décadas, acumulou-se uma enorme bibliografia sobre o tema. O meu livro procura, inclusive, dialogar com essa vasta bibliografia em 12 campos de estudos disciplinares: economia,  direito,  ecologia,  questão agrária, questão feminista, antirracista, decolonial, e assim por diante. 

Ao longo desse período, foram se acumulando os estudos críticos ao neoliberalismo. Talvez a primeira formação de uma crítica ao neoliberalismo tenha se dado no plano da economia. Isso é, identificou-se que havia ali uma mudança em relação ao regime fordista, que havia prevalecido durante o liberalismo social e vigorou, principalmente, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, até o fim dos anos 70.

Convergiram nessa crítica várias escolas econômicas, entre elas os economistas marxistas, os economistas keynesianos e os economistas nacional-desenvolvimentistas, que têm no Brasil uma grande figura de referência: Celso Furtado. Assim, a primeira crítica se fez no plano da crítica econômica, aos novos modos de regulação e de financeirização da economia. 

Chegou-se, inclusive, a um senso comum de que o neoliberalismo proporia “menos Estado”, um Estado menor. A crítica depois veio se consolidando e mostrou que isso não é verdade: se o neoliberalismo diminui a sua intervenção, por exemplo, nas políticas sociais, ele aumenta os gastos, em geral, nas dimensões bélicas e repressivas. 

Se diminui a tributação, aumenta aqueles ganhos tributários e de incentivos ao capital. Se diminui os espaços de democratização e de democracia, mesmo no plano da democracia liberal, mas, por outro lado, aumenta os espaços de coerção, de imposição e de completa negação do princípio da soberania popular. 

Então, seria mais correto dizer que o neoliberalismo produz um novo regime de Estado liberal do que simplesmente falar em diminuição do Estado. Mas houve uma outra crítica muito importante, que surgiu no final dos anos 70, a partir das aulas no Collège de France, de Foucault, muito voltado para entender a criação de uma nova racionalidade da dominação. 

Ele identificou um novo espírito, uma nova racionalidade, e esse estudo foi seminal. Deu origem a vários trabalhos de pesquisa sobre o neoliberalismo que diziam mais ou menos o seguinte: se antes o liberalismo disputava o terreno onde o Estado deveria intervir e onde não deveria intervir, marcando o campo da não intervenção do Estado, agora, com o neoliberalismo, com essa nova racionalidade, o próprio Estado deveria passar a funcionar como se fosse uma empresa. Ou seja, o Estado deveria adotar os mesmos métodos de governabilidade de uma empresa. 

Além disso, a própria sociedade, no seu conjunto, deveria passar a se organizar a partir da forma mercantil. E, estudando um autor chamado Gary Becker, da tradição de Chicago, esses estudos foucaultianos entendiam que o neoliberalismo propunha transformar a própria pessoa em um “capital humano”.

Isto é, a vida da pessoa deveria ser organizada em todos os sentidos, desde a origem, para acumular bens no mercado, para ser uma acumuladora de capital e de renda no mercado. Essa, então, foi uma segunda escola muito importante.

Surgiu também uma terceira escola, de historiadores do neoliberalismo. O livro mais importante chama-se exatamente O Caminho Desde a Sociedade Mont Pèlerin. Logo após a guerra, vários autores neoliberais se reuniram e fundaram uma espécie de “internacional” do pensamento neoliberal. Eles faziam reuniões anuais e foram acumulando críticas centradas nas tradições do trabalho — entendido no sentido amplo, desde as tradições marxistas e socialistas até as tradições social-democratas e trabalhistas —, mas também ao liberalismo social ou keynesiano. 

Eles foram produzindo uma tradição de pensamento coletivo. Esse pensamento coletivo foi construindo um programa, uma agenda nova, e essa agenda é que veio ao centro do mundo com as eleições, principalmente, de Reagan nos Estados Unidos e também, em alguma medida, no caso da Inglaterra, com a Margaret Thatcher. Então, esses autores chamam esse trabalho de “a história do pensamento coletivo do neoliberalismo”.

No meu livro, nós procuramos dialogar com essas três correntes de interpretação. Absorvemos elas em um mesmo conceito, mas identificamos que o fundamental é a mutação ocorrida no regime liberal de Estado. Essa mutação ocorreu fundamentalmente nos Estados Unidos e também na Inglaterra, mas, a partir do poder geopolítico dos Estados Unidos. 

A unificação europeia, que se deu no início dos anos 90, através do Tratado de Maastricht, repercutia plenamente esses pensamentos neoliberais. Os Estados Unidos, então, a partir de uma militarização, da financeirização e de um poder unilateral, passaram a moldar o mundo ocidental, principalmente, mas também a África e os países coloniais, a partir desses princípios neoliberais.

O que nós estamos chamando de uma mutação do regime liberal de Estado é que, a partir de um novo conceito de liberdade, o neoliberalismo reorganiza todas as regulações do Estado. Toda a vida social é marcada pelas leis, pelas constituições e pelas instituições do Estado. 

Até a nossa vida privada e pessoal é marcada pelo direito civil, por exemplo, pelas formas legais que regem as relações entre homens e mulheres, entre adultos e crianças, entre brancos e negros, mas também as relações de trabalho, as relações políticas, as relações culturais e as relações religiosas. Tudo isso é organizado e regulado pelo Estado. 

O que o neoliberalismo fez foi provocar uma mudança de conjunto nessas relações, fundando um novo regime de Estado liberal. É liberal porque o neoliberalismo é uma continuidade da tradição histórica do liberalismo e uma renovação dessa tradição e das suas formas de dominação. 

Além de ser liberal, nós chamamos de “regime”, porque o neoliberalismo não funda um novo Estado contrário ao capitalismo; pelo contrário, ele exacerba as dinâmicas próprias destrutivas do capitalismo no plano social, no plano democrático e também no plano ambiental.

Quais mudanças você propõe na interpretação do que é o neoliberalismo? Qual foi o caminho teórico e em diálogo com quais correntes de pensamento você construiu essa nova interpretação?

Na verdade, o que se ganha com esse conceito é que você deixa de ter uma percepção apenas econômica, cultural ou apenas política no sentido estrito, ou ainda no sentido feminista, de gênero, ou no sentido colonial. Passa-se a ter uma visão integrativa do neoliberalismo, entendendo que ele atinge todas as esferas da vida social.

Isso é importante para nós, porque, se é assim, nós só podemos combatê-lo se propusermos um regime crítico e alternativo ao regime neoliberal de Estado. Isto é, enfrentá-lo ao mesmo tempo em todas as suas dimensões. Então, é limitado criticar apenas culturalmente os modos consumistas e individualistas do neoliberalismo, assim como é errado criticar apenas a sua política macroeconômica, ou apenas as dimensões destrutivas da democracia que ele provoca, ou as mudanças na cultura política, ou as mudanças nas relações internacionais. 

Como nós estamos lidando com o fato de que o centro são os Estados Unidos, com todo o seu poder geopolítico, essa mutação do regime é dramática, porque impacta o mundo inteiro, já que se trata de uma potência dominante.

Para chegar a esse conceito, nós trabalhamos pensando e tentando propor soluções para dois impasses de leitura, de longa duração, de dois grandes autores marxistas. O primeiro é Antonio Gramsci. Nós sabemos que Gramsci é um autor muito importante no debate sobre hegemonia, sobre cultura e sobre política, mas certamente ele não pôde desenvolver no cárcere, por várias limitações, a crítica da economia política que o Marx havia plenamente desenvolvido em O Capital

Então, há esse limite no pensamento dos Cadernos do Cárcere, embora haja neles o conceito de “Estado integral”, que diz que você não pode separar política de economia. Essa separação é um erro liberal. O capitalismo não tem um andamento próprio e espontâneo, mas depende muito do Estado e da dominação do Estado.

Fizemos também um diálogo com as interpretações clássicas e contemporâneas do livro O Capital, de Marx, que sabemos ser um livro inconcluso. Escrito na maturidade da sua vida e da sua força intelectual, após décadas de estudo de economia política, mas no qual não está desenvolvido o conceito de Estado. 

Então, o conceito de Estado integral que nós trabalhamos em Gramsci e em Marx propicia essa visão integrativa da política, da economia, da cultura, da sociedade e das relações internacionais, o que nos permite construir esse novo conceito de neoliberalismo.

Eu consultei basicamente toda a literatura internacional, até o segundo semestre do ano passado. Então, é um livro muito atualizado nos diálogos contemporâneos. Eu notei que, por força das dinâmicas das editoras brasileiras, há títulos publicados no Brasil que são importantes, mas 90% dessa literatura crítica não está disponível para os estudantes e professores brasileiros. 

Foi um trabalho, para mim, também de muito aprendizado, mas eu posso dar o testemunho de que esse livro não seria escrito sem o que eu aprendi com as lutas dos movimentos sociais brasileiros e internacionais, mas principalmente dos brasileiros, com os quais eu me relaciono. Sem a luta dos trabalhadores, dos sem terra, das mulheres brasileiras, dos negros brasileiros, eu não teria conseguido elaborar esse conceito novo de neoliberalismo.

O fundamental é que o neoliberalismo tem, desde a sua origem, um lema: “Olha, a vida pode não estar boa, mas não há alternativa”. O que o livro está propondo é que o neoliberalismo vive uma crise da sua dominação, porque o Estado norte-americano está vivendo uma crise do seu controle do mundo e uma crise interna muito forte. 

Com a ascensão da China e de outros países, e com a luta de resistência dos povos, vão se criando possibilidades de avançar na construção de alternativas ao neoliberalismo. Então, o livro traz uma mensagem de esperança, de uma esperança realista, apoiada em uma análise da evolução dos fatos contemporâneos.

Tanto o neoliberalismo quanto a sua crise geram impactos também no Brasil. Quais são os desdobramentos específicos do regime neoliberal de Estado no Brasil?

Eu sou de uma geração que se criou e se construiu na luta contra o regime militar. Nós conseguimos derrotá-lo, em meados dos anos 80, em um processo no qual se fez uma Assembleia Constituinte e se proclamaram direitos, mas o Estado não foi democratizado. 

Nós sabemos que a presença das Forças Armadas continuou e o controle civil sobre elas não foi desenvolvido. Também o sistema de justiça não foi democratizado, nem o sistema político-eleitoral, as políticas de segurança pública ou as políticas de comunicação. Foram proclamados os direitos públicos à comunicação, mas isso não se desenvolveu.

Nós acumulamos no final da ditadura militar toda uma tradição de lutas e começamos a disputar o futuro do Brasil. Aconteceu que, já nos anos 80, essa ascensão do neoliberalismo em sua dinâmica financeira, de certa maneira, trouxe o Brasil para o século do endividamento financeiro. Nós já vivemos a década de 80 com a nossa economia desorganizada. 

A partir da candidatura de Fernando Collor, cujo programa era neoliberal, mas principalmente a partir da “era Fernando Henrique Cardoso”, quando se estabeleceu mais solidamente no Estado brasileiro o programa neoliberal, eles começaram a construir as condições políticas no Estado brasileiro para impedir a efetivação e a universalização daqueles direitos previstos na Constituição de 1988.

Nós podemos entender a luta que se estabeleceu nas últimas décadas no Brasil da seguinte forma: de um lado, o campo popular, o campo democrático e o campo das esquerdas brasileiras, no sentido amplo, tentando avançar na implementação desses direitos; e, de outro lado, mudanças e reformas no interior do Estado brasileiro que impedem a realização plena desses direitos. 

Eu diria que não há nenhum direito importante, popular, democrático, feminista ou antirracista construído no Brasil nas últimas quatro ou cinco décadas sem a participação dessas lideranças de esquerda, principalmente de um companheiro da grandeza histórica que tem o presidente Lula. Mas essas conquistas não foram capazes de mudar a estrutura de dominação do Estado brasileiro, que foi cada vez mais se aproximando da agenda neoliberal.

Por exemplo: você estabelece um ajuste fiscal permanente dos orçamentos públicos, o que impede que se desenvolvam as políticas sociais e os investimentos necessários ao desenvolvimento do país. Você ataca a política de reforma agrária, isto é, não tem orçamento para fazer reforma agrária, e provoca um aguçamento das dinâmicas coloniais do agronegócio, que é ecologicamente muito destrutivo, provocando um processo de concentração de terras. 

Ao mesmo tempo, provoca uma precarização das classes trabalhadoras muito elevada e impõe limites à conquista dos direitos fundamentais. Vai tornando o Estado cada vez mais impermeável à luta democrática e ao estabelecimento de vontades majoritárias, fazendo com que o sistema eleitoral partidário seja cada vez mais alavancado por dinheiro. Quem tem dinheiro são exatamente aqueles que querem dominar.

O Brasil, nesse período neoliberal, agravou a sua dependência colonial, seja por depender da exportação de produtos agro primários (sem serem industrializados), seja por estar vulnerável às inovações tecnológicas que se produziram na indústria, na ciência da informação e na inteligência artificial. 

Então, veja bem, o impacto do neoliberalismo está no centro dos impasses das transformações no Brasil. Por isso, o livro propõe que o fundamental é conquistar uma dinâmica de revolução democrática popular em nosso país para alterar os fundamentos do poder, para que possamos reconstruir o país a partir de uma perspectiva dos interesses das maiorias, das classes trabalhadoras, daqueles que realmente trabalham. 

Nós estamos propondo que, nestas eleições de 2026, a partir de todo esse argumento teórico, nós nos proponhamos a enfrentar o neoliberalismo de frente. Se a extrema direita for confrontada em suas teses fundamentais, ficará demonstrado que ela é contra o povo.

Cria-se uma situação que é a seguinte: se nós não combatemos o neoliberalismo, a democracia fica desacreditada, a classe trabalhadora precarizada e a cultura ganha um caráter individualista de “salve-se quem puder”. E quem se alimenta disso? A extrema direita. Se nós não enfrentarmos o neoliberalismo, acabamos criando um caldo de cultura no qual aparecem as forças de extrema direita, algumas até com características fascistas. 

Agora, se a gente enfrenta, se criamos uma agenda de luta pelos direitos fundamentais, pela democratização do país, pela reforma agrária, essas lutas fundamentais que estão no coração do povo brasileiro, ganham força. 

A consciência do povo apoia essas lutas. Mesmo muitos daqueles que hoje votam no bolsonarismo apoiam um salário mínimo melhor, um sistema público de saúde melhor, uma educação pública e uma universidade pública melhores. Então, nós temos que ir ao encontro dessas aspirações do povo brasileiro, formulando um programa de conjunto.

A partir da crise do Estado neoliberal norte-americano, é possível a consolidação de um caminho de esperança, com base nos valores do socialismo democrático?

Não se trata de fazer propaganda abstrata ou doutrinária do socialismo, mas de entender que aquelas reivindicações fundamentais do povo brasileiro, na sua dinâmica de luta e de realização, confrontam o domínio do capital. E, nesse sentido, são potencialmente anticapitalistas. 

É muito interessante que a classe dominante brasileira (os grandes bancos, o grande agronegócio, as grandes empresas multinacionais) se perfila em torno da candidatura de um tipo tão desqualificado, ligado a milícias, como o Flávio Bolsonaro (PL). Isto é, abandonaram o terreno da democracia, da luta pelos direitos fundamentais e pelos direitos humanos. E esse é o terreno onde a gente deve crescer; é o terreno que a gente deve ocupar.

Nós sabemos que o povo não entende a democracia abstratamente. Se a democracia não melhora a sua vida e o seu cotidiano, se não é capaz de reduzir esses juros absurdos, de elevar o salário mínimo para um patamar que dê dignidade às pessoas, ou de reduzir a jornada de trabalho, a democracia fica sem valor para o povo. 

Então, nós temos que ligar essas lutas de modo unificado. O livro fala muito sobre a importância da unidade, de fazer convergir todas as lutas setoriais, todos os partidos da esquerda e da centro-esquerda, e todos os democratas contra o autoritarismo neoliberal para uma frente democrática única que se revele no plano dos movimentos sociais e no plano das eleições.

Nós sabemos que é impossível mover a correlação de forças institucional no Congresso Nacional, sem que os movimentos sociais ganhem mais peso. Nós estamos teorizando desde os anos 90 que o fundamental de uma revolução democrática desse tipo é o crescimento, o transcrescimento e a capacidade de organização popular. É ela que alavanca, assim como foi a fundação da CUT, do PT, do MST, da Marcha Mundial das Mulheres e de um conjunto de outras forças do movimento social. Então, a nossa proposição é que a gente forme uma maioria e construa democraticamente o poder.

Agora, eles não vão entregar os seus privilégios e as suas riquezas de graça; eles vão se opor violentamente. Se você pensar bem, eles já usam muito da violência contra o povo brasileiro. O Estado brasileiro é muito violento. Essa violência contra as mulheres é uma violência contra a liberdade das mulheres. 

A violência que se faz nos morros e nas favelas brasileiras é uma violência contra os favelados, contra os negros brasileiros; ela retoma essas dimensões racialistas do poder. Se vemos a violência que se exerce no campo, ela também repercute essa violência histórica dos latifúndios contra os movimentos agrários. 

A classe trabalhadora hoje vive sob uma violência intensa. Até os acidentes de trabalho estão aumentando no Brasil de forma vertiginosa. Extensão da jornada, precarização, formas de trabalho escravo, jornadas de trabalho extensivas, pessoas ficando doentes de tanto trabalhar, sem horizonte na vida, sem poder contar com uma previdência no final da vida, e assim por diante. Então, é um grau de violência muito grande exercido já cotidianamente. Nós nem devemos falar em “esperar” uma violência; nós temos que derrotar a violência que já existe contra o povo brasileiro.

Isso se faz na luta democrática, através das formas de auto-organização do povo brasileiro, e na conquista de novas leis. Foi muito importante, nesse sentido, a condenação, pela primeira vez na história brasileira, de um oficialato das Forças Armadas golpistas. A condenação dos criminosos que mataram Marielle Franco também foi um momento importante. 

E agora nós vamos, nesta campanha, trabalhar fortemente a proteção da vida das mulheres contra a violência pregada pelos bolsonaristas. Eles pregam esses valores que incentivam a violência contra a mulher e até fizeram campanha pela disseminação das armas.

Mesmo governos de esquerda, por vezes, mantêm políticas econômicas que favorecem a lógica neoliberal. Como você avalia essa dificuldade de ousar romper com o neoliberalismo? Quais consequências práticas isso gera?

Isso decorre exatamente do sistema eleitoral partidário, que se abre ao investimento de dinheiro, cada vez mais vultoso, nas eleições. Nós sabemos que essa é uma maneira de os capitalistas anularem o direito de “cada cidadão, um voto”, porque quem aplica R$ 100 milhões em uma eleição tem muito mais que um voto. 

Isso ocorreu também na democracia liberal norte-americana e está ocorrendo claramente no Brasil nas últimas décadas. Diante desse quadro, um governo assume e está trabalhando em uma economia muito vulnerável ao capital estrangeiro e à dependência. Ele não tem maioria parlamentar e está cercado por uma pressão financeira permanente. 

Foram os liberais que construíram o Banco Central no Brasil em 1965-66, nos primeiros anos da ditadura militar. Eles sempre utilizaram o Banco Central como uma forma de articular os interesses financeiros na economia brasileira, vinculando-os à economia internacional.

O governo de Jair Bolsonaro deu um passo adiante, tornando essa dependência do setor privado uma dependência decisória estrutural, porque o presidente do Banco Central já não deve contas ao presidente eleito soberanamente. 

Essa estratégia de criar bancos centrais capturados pelo sistema financeiro faz com que os bancos centrais se vinculem ao domínio financeiro norte-americano no mundo, ao domínio do dólar. Praticamente todos os países da América Latina foram nessa direção, nesse período de domínio neoliberal, incentivados pelos Estados Unidos.

Então, é preciso reconhecer que existem essas limitações estruturais, porque quem tem esperança deve partir da realidade. Mas o risco é você estabelecer um grau de conciliação com essas estruturas que te leve a uma condição de incapacidade de aplicação do programa para o qual você foi eleito. 

E o que isso gera? Uma insatisfação da população com o governo, que esperava que fizesse mais. É um círculo vicioso. Como é que se quebra esse ciclo? Enfrentando. Enfrentando como fizemos a partir de meados do ano passado, colocando a questão da justiça tributária; agora colocando a questão da superação da jornada 6×1, sem redução do salário; enfrentando o Banco Central, inclusive através daquela jornada pública de manifestações. 

É a partir disso que o povo sente profundamente que o governo está do seu lado e que a extrema direita está contra o povo, criando, então, uma base social, uma base de mobilizações e uma base eleitoral que lhe permite alterar a correlação de forças. Agora, se você não enfrenta, o que acontece? Você fica prisioneiro na armadilha e aí o bolsonarismo surge como um “antissistema”. O que é um absurdo, porque eles se constituíram no núcleo do sistema. 

Desde 2003, nós estamos envolvidos nessa polêmica. Eu, inclusive, deixei de participar como assessor da Secretaria-Geral da Presidência em função dessa polêmica. Eu fazia uma crítica pública ao movimento que eu achava excessivamente liberal da economia, então dirigida pelo ministro Palocci. Um assessor não poderia fazer publicamente essas críticas, então optei por fazê-las publicamente e continuo fazendo até hoje, assim como muitos companheiros e os movimentos sociais.

Quando olhamos o Programa da CUT ou o Programa Agrário do MST, não são programas de um sonho distante, são compromissos com as classes trabalhadoras. Eles fornecem toda uma pauta, uma agenda de lutas e de possibilidades. Hoje o valor do salário mínimo é semelhante ao valor do salário mínimo do início dos anos 60. Anos depois, nós estamos remunerando no mesmo patamar e a maior parte da classe trabalhadora ganha até um salário mínimo e meio. 

É uma baixíssima remuneração das classes trabalhadoras. Isso é gravíssimo. E nós já estamos no quinto governo, o quarto foi interrompido exatamente por esses erros de conciliação. Foi levado um neoliberal para o Ministério da Fazenda e aí nós tínhamos que defender a Dilma, em um período em que 100 mil trabalhadores estavam perdendo o emprego a cada mês. Como é que você consegue estruturar uma defesa ampla, massiva e majoritária em um ambiente em que a economia está com uma recessão de 3,5% e a classe trabalhadora perdendo direitos?

Enfim, essa é uma questão fundamental. Foi muito importante os recentes documentos programáticos das diretrizes do programa Lula e a renovação do programa histórico do PT. Porque, pela primeira vez, consta o enfrentamento do neoliberalismo. A partir de: uma reforma política democrática, de acordo com o princípio da soberania popular; mudança das regras macroeconômicas; criação de um novo ciclo de direitos públicos das classes trabalhadoras, entendidas no seu sentido amplo, inclusive com uma política de cuidados e os trabalhos invisibilizados da mulher; e a defesa daqueles valores da liberdade, da solidariedade, da igualdade e da justiça social, que são próprios da nossa tradição. Mas, para serem defendidos, é preciso que você ataque a reprodução da desigualdade.

Qual papel as eleições presidenciais deste ano no Brasil cumprem nesse contexto?

Não se trata apenas de uma disputa democrática entre dois campos no interior da democracia liberal. Nós sabemos que o bolsonarismo representa uma força contra a democracia, de destruição da democracia e de destruição da soberania nacional. Então, a eleição do Lula significa, em primeiro lugar, a defesa da democracia e a defesa da soberania nacional. 

É a partir dessas duas grandes chaves que nós devemos levar para o centro da disputa a nossa agenda de direitos e de mudanças. Se diz que este governo está se finalizando voltado para a reconstrução do país, mas o programa que nós devemos disputar agora é um programa de futuro, um programa de transformação política, crítica e social do Brasil.

Esse é o caminho para vencer o bolsonarismo e conquistar melhores condições no Congresso Nacional, nos governos estaduais e nas assembleias legislativas. O sentimento da unidade das esquerdas brasileiras nunca foi tão forte como agora, e essa unidade se revela nos movimentos sociais, nos partidos e em uma dinâmica de luta. 

Eu penso que nós devemos ir para a rua imediatamente; não deveríamos ter saído da rua nos últimos meses, porque isso abriu espaço para o bolsonarismo organizar uma contra ofensiva, como estamos vendo. A única maneira que temos de fazer frente ao duplo poder comunicativo que apoia o bolsonarismo — a rede virtual montada por eles a partir da sua inserção norte-americana e a comunicação produzida pelas grandes empresas — é com os movimentos sociais na rua. Não podemos demorar.

Quando me perguntam se estou otimista ou pessimista diante das eleições, eu digo que essa pergunta não está bem formulada. Eu sou um esperançoso realista, com os pés no chão e com os olhos na frente. Eu penso que aprendemos com os grandes movimentos sociais e com as grandes lutas do povo brasileiro. E o povo brasileiro é profundamente realista, vive nessas condições, pisa o chão da exploração e da opressão, mas também é capaz de sonhar e de lutar por um mundo melhor.

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