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Moradores e lideranças de Petrolina (PE) repudiam fala de pastor evangélico sobre Ilha do Massangano ‘abundar pecado’

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A Ilha do Massangano, um dos mais tradicionais pontos turísticos de Petrolina, abriga a memória e a cultura de ancestralidade quilombola e indígena, de tradições e raízes bem fincadas. É a terra de origem do “Samba de Véio da Ilha do Massangano”, uma expressão cultural única no país, que mistura reisado, samba e coco, diplomado Patrimônio Vivo de Pernambuco em 2022. Também abriga tradicionais celebrações, como a festa de Santo Antônio. 

É esse território que o pastor neopentecostal Edilson de Lira, da Igreja Verbo da Vida, classificou durante culto como um “lugar onde abunda o pecado”, declaração disponível em vídeo publicado em suas redes sociais. A fala foi rechaçada por organizações e lideranças políticas e culturais da cidade. 

No vídeo, o pastor fala sobre o plano de levar um ponto de pregação para Massangano, comparando o local com a Ilha de Marajó, no Pará. “A ilha do Massangano é a nossa Ilha do Marajó, se é que me entendem. É um lugar onde hoje abunda o pecado, mas vai superabundar a graça”, declarou Edilson. Na legenda da postagem, o religioso também fala que “povos não alcançados nem sempre estão longe de nós”. 

Chagas Sales, morador na Ilha do Massangano há 30 anos, além de produtor e diretor do Samba de Véio, afirma ser a primeira vez que ouviu declarações do tipo, considerando-as agressivas e grosseiras. “Nunca tivemos problemas com evangélicos. Ao contrário, já recebemos muitos em nossas varandas, sempre abertas, como são as coisas aqui”, declara o produtor cultural. “Não sei qual foi o motivo para essas falas, principalmente vindas de alguém que diz estar querendo chegar aqui. Isso não é modo de chegar”, complementa Chagas.

Já a atriz e produtora cultural Mel Nogueira, nascida e criada na ilha, vê a afirmação de que o território “abunda pecado” como uma “violência cultural” e também uma tentativa de colonização, destacando os valores e princípios que a comunidade local carrega em si. Ela pede respeito e uma retratação pela declaração.

“A Ilha do Massangano é um polo de cultura e resistência, de saber popular. Aqui abunda belezas naturais. [A Ilha é] rica em celebrações tradicionais, um lugar turístico paradisíaco, que é Patrimônio Vivo, que tem suas riquezas e com várias pessoas acolhedoras.  Existente há mais de um século, um reduto de cultura viva. E além da nossa ancestralidade que demos continuidade”, afirma a atriz e produtora cultural. 

O Fórum de Igualdade Racial de Petrolina lançou uma nota de repúdio em suas redes, avaliando a fala do pastor como preconceituosa e desrespeitosa, “sob uma narrativa moralista que remete à ideia de Sodoma e Gomorra”. “Não aceitamos que discursos mascarados de uma suposta evangelização sirvam para reforçar estigmas, criminalizar a pobreza e deslegitimar um espaço de tamanha relevância cultural e social. Problemas sociais não são resultado da fé do povo, mas de desigualdades estruturais que precisam ser enfrentadas com responsabilidade e compromisso público”, diz um trecho do texto. 

O vereador Gilmar Santos, do Partido dos Trabalhadores (PT), também usou suas redes para rechaçar as falas. Ele aponta que a Ilha do Massangano é um lugar onde a ancestralidade indígena e africana sempre conviveu pacificamente com o catolicismo popular, destacando também que os problemas sociais do local não possuem relação com questões espirituais, defendendo também a Ilha de Marajó.

“Os problemas sociais que ali existem, como pobreza, falta de saneamento e serviços básicos, não são fruto da espiritualidade do povo. É o resultado do abandono histórico e de escolhas políticas equivocadas. E o mesmo vale para a Ilha do Marajó, uma região com profundas raízes indígenas, mas marcada por graves problemas sociais que não podem ser reduzidos a uma narrativa de pecado ou maldição cultural”, afirma o parlamentar. Na última terça-feira (24), Gilmar Santos aprovou uma Moção de Solidariedade à ilha na Câmara de Petrolina.

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