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Exposição de Brunna Alexsandra transforma grito em linguagem coletiva no Centro Cultural da Ufrgs

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A artista visual, muralista e escritora Brunna Alexsandra inaugura, na terça-feira (3), às 19h, a exposição “Agrito”, no Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em Porto Alegre. A mostra marca a primeira exposição individual da artista em um espaço exclusivamente dedicado à arte e à cultura e coincide com seu aniversário de 36 anos.

“Volto, 14 anos depois, para a mesma universidade que me formou, com meu conhecimento todo transformado em arte”, afirma.

Graduada em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2012, Alexsandra construiu uma trajetória que articula a experiência com o corpo biológico à investigação estética. Segundo ela, foi a partir do “contato profundo com a teoria do corpo fisiológico” que seu olhar sobre o humano começou a se aprofundar. “Minha forma de entender o humano se dá a partir do corpo. Minhas metáforas em tela começam pelo corpo”, explica.

A exposição reúne retratos em grande formato, com telas que chegam a dois metros de largura. As figuras representadas não correspondem a pessoas específicas. Elas sintetizam experiências e questões ligadas à representatividade, identidade e pertencimento, com foco na mulher negra. A monumentalidade das obras, de acordo com a proposta curatorial, opera como estratégia de amplificação de vozes historicamente silenciadas.

Amplificar o que foi silenciado

O título da mostra nasce de um verbo criado pela própria artista. “Agritar”, em sua definição, ultrapassa a ideia de gritar. Trata-se, segundo Alexsandra, de uma amplificação coletiva de vozes marginalizadas. Entre essas vozes, ela destaca as de mulheres negras, cujas trajetórias são atravessadas por desigualdades de gênero e raça no Brasil.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que mulheres negras estão entre os grupos mais afetados por desigualdades estruturais no país, tanto em renda quanto em acesso a oportunidades. Embora representem parcela significativa da população feminina brasileira, seguem sub-representadas em espaços de poder e visibilidade cultural. É nesse contexto que a artista situa sua produção, propondo novas possibilidades de identificação.

Alexsandra afirma que sua pintura figurativa ou realista não busca “copiar a realidade”. Para ela, o realismo serve como ferramenta de tensão entre “os limites do que é real e do que é posto como verdade”. Ao trabalhar com traços reconhecíveis e corpos expressivos, a artista desloca o olhar do espectador para camadas simbólicas que extrapolam a aparência.

A colaboração entre pintura e palavra também integra a concepção da mostra. Textos e elementos escritos dialogam com as imagens, ampliando as possibilidades interpretativas. A proposta é que a exposição não se encerre na contemplação visual, mas se constitua como experiência compartilhada.

Curadoria e construção de narrativa

A curadoria é assinada por Rosane Vargas e Izis Abreu, ambas com trajetória ligada à pesquisa em História, Teoria e Crítica de Arte.

Rosane Vargas é jornalista e historiadora da arte, doutoranda e mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Ufrgs. Atua como curadora do Programa Público do projeto Oríkì – Arte Afrodiaspórica e é organizadora de publicações e seminários voltados à relação entre arte, política e democracia.

Izis Abreu desenvolve pesquisas articulando teorias feministas negras, afrodiaspóricas, decoloniais e da Teoria Crítica da Raça. Foi coordenadora do acervo do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul e integrou o núcleo de curadoria do Museu de Arte do Rio Grande do Sul.

Nas palavras das curadoras, “Agrito” é “um convite à construção de um novo vocabulário para questões antigas, mas sempre atuais”. Para elas, a exposição propõe deslocamentos nas narrativas tradicionais da história da arte, ainda marcadas por referências coloniais e eurocentradas.

Para Abreu, tensionar as narrativas é parte do processo de ampliação de repertório cultural. Já Vargas destaca que a mostra se insere em um movimento mais amplo de valorização de produções que partem de experiências negras e femininas como centro, e não como margem.

Participação do público

Um dos eixos centrais da exposição é a participação ativa do público. Durante o período da mostra, visitantes poderão registrar suas respostas à pergunta “o que te faz agritar?” em um mural coletivo. A proposta é transformar a experiência individual em manifestação compartilhada, ampliando o sentido do verbo criado pela artista.

Ao convidar o público a escrever e partilhar sentimentos, a exposição desloca a fronteira entre obra e espectador. A intenção, segundo a organização, é que o espaço expositivo funcione como território de escuta e expressão.

A abertura no dia 3 de março marca não apenas a estreia individual de Brunna Alexsandra em um centro cultural universitário, mas também a consolidação de uma trajetória que atravessa diferentes linguagens. Entre a formação em saúde e a produção artística, a artista afirma que encontrou na arte uma forma de reelaborar o conhecimento sobre o corpo e convertê-lo em narrativa visual.

Com entrada gratuita, “Agrito” integra a programação cultural do Centro Cultural da Ufrgs e permanece aberta ao público em datas e horários divulgados pela instituição. A mostra se apresenta como espaço de reflexão sobre identidade, representatividade e memória, articulando arte contemporânea e debate social a partir da experiência da mulher negra.

Serviço

Exposição Agrito, de Brunna Alexsandra

Abertura: terça-feira (3), às 19h

Visitação: até 17 de abril, de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h

Local: Centro Cultural da Ufrgs – Rua Eng. Luiz Englert, 333, Campus Centro, Porto Alegre

Entrada: gratuita

Classificação: livre

Fonte Original

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