{"id":7304,"date":"2025-05-21T09:24:27","date_gmt":"2025-05-21T09:24:27","guid":{"rendered":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2025\/05\/21\/alimento-pressagio-de-revolucao-brasil-de-fato\/"},"modified":"2025-05-21T09:24:31","modified_gmt":"2025-05-21T09:24:31","slug":"alimento-pressagio-de-revolucao-brasil-de-fato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2025\/05\/21\/alimento-pressagio-de-revolucao-brasil-de-fato\/","title":{"rendered":"Alimento, press\u00e1gio de revolu\u00e7\u00e3o \u2013 Brasil de Fato"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>O alimento \u00e9 uma ferramenta pol\u00edtica transformadora, e n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que ele \u00e9 convertido em um artif\u00edcio descaracterizado, desterritorializado, ultraprocessado, at\u00e9 ser completamente desmantelado da sua ess\u00eancia, negado. <\/p>\n<p>O alimento de verdade n\u00e3o \u00e9 mercadoria, por isso, n\u00e3o parte de uma escolha individual baseada apenas em informa\u00e7\u00f5es e nas op\u00e7\u00f5es de adquirir alimentos org\u00e2nicos e frescos nas dietas rotineiras. \u00c9 um assunto complexo, que requer um olhar atento \u00e0s din\u00e2micas interseccionais dos sistemas alimentares \u2013 considerando g\u00eanero, ra\u00e7a e classe \u2013 que permita tecer estrat\u00e9gias e solu\u00e7\u00f5es integradas, enraizadas na incid\u00eancia pol\u00edtica e na mobiliza\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>\u00c9 importante refletirmos que o alimento move a humanidade em diversas dimens\u00f5es (ambientais, sociais, econ\u00f4micas, pol\u00edticas) e, hoje, \u00e9 mais um fruto que avoluma as ang\u00fastias contempor\u00e2neas e escancara contradi\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>\u00c9 incr\u00edvel pensar como o neoliberalismo, exaustivamente, cooptou e fetichizou o que \u00e9 um direito, transformando-o em mercadoria. O alimento bom, limpo e justo foi convertido em objeto de consumo. <\/p>\n<p>Nosso sistema agroalimentar hegem\u00f4nico nos desnutre com seus longos fios de asfalto, marcados por hierarquias e uma total falta de l\u00f3gica. Alguns dizem que \u00e9 moderno, a tal efici\u00eancia do mundo contempor\u00e2neo, mas ela esconde a fome sob o brilho cintilante dos pacotes, nas infinitas g\u00f4ndolas entupidas de algo que est\u00e1 longe de alimentar nossos corpos, quem dir\u00e1 nossa alma.<\/p>\n<p>Nunca se teve tanta disponibilidade de \u201calimento\u201d, em contraponto, de acordo com dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), mais de 33 milh\u00f5es de brasileiros enfrentavam inseguran\u00e7a alimentar grave em 2022, ou seja, estavam passando fome.<\/p>\n<p> Al\u00e9m disso, cerca de 125,2 milh\u00f5es de pessoas convivem com algum grau de inseguran\u00e7a alimentar, o que inclui dificuldades de acesso a alimentos em quantidade ou qualidade adequadas. O cen\u00e1rio vem mudando, para melhor, dados mais recentes indicam uma melhora significativa nesse cen\u00e1rio. Segundo o Relat\u00f3rio da ONU sobre o Estado da Inseguran\u00e7a Alimentar Mundial (SOFI 2024), divulgado em julho de 2024, a inseguran\u00e7a alimentar severa no Brasil caiu 85% em 2023, passando de 8% para 1,2% da popula\u00e7\u00e3o. Isso representa uma redu\u00e7\u00e3o de 14,7 milh\u00f5es de pessoas nessa condi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-left\">\n<blockquote>\n<p>O conceito de alimenta\u00e7\u00e3o adequada e saud\u00e1vel \u00e9 o seguinte: \u201cO direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o adequada \u00e9 um direito humano inerente a todas as pessoas, garantindo acesso regular, permanente e irrestrito, seja diretamente ou por meio de aquisi\u00e7\u00f5es financeiras, a alimentos seguros e saud\u00e1veis, em quantidade e qualidade adequadas e suficientes, correspondentes \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es culturais de seu povo, assegurando uma vida digna e plena, livre do medo, nas dimens\u00f5es f\u00edsica, mental, individual e coletiva\u201d (Alimenta\u00e7\u00e3o Adequada e Saud\u00e1vel).<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/figure>\n<p>A alimenta\u00e7\u00e3o adequada e saud\u00e1vel<strong> <\/strong>vai al\u00e9m<strong> <\/strong>do discurso da saudabilidade individualista que inunda as publicidades e redes sociais. Ela \u00e9 pensada sob as dimens\u00f5es de sa\u00fade coletiva.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Um olhar sobre o nosso ch\u00e3o<\/h4>\n<p>Vivemos em um dos pa\u00edses mais agrobiodiversos do mundo, guardi\u00e3o de enormes bacias hidrogr\u00e1ficas, com terra suficiente e uma cultura alimentar extremamente diversa. Por que ainda falamos em fome? Para quem tem acesso, o prato de comida di\u00e1rio dos brasileires \u00e9 diverso (famoso arroz e feij\u00e3o), quando pensamos nas refei\u00e7\u00f5es, 70% dos alimentos s\u00e3o produzidos pela agricultura familiar.<\/p>\n<p> Importante dizer que este modelo de agricultura est\u00e1 em constante amea\u00e7a, soma-se ao caldo o slogan \u201cBrasil, o pa\u00eds do AGRO\u201d, sendo l\u00edder na libera\u00e7\u00f5es de agrot\u00f3xicos, queimadas, desmatamento e mortes por conflito de terra.<\/p>\n<p>Asseguramos o nosso lugar cativo no p\u00f3dio, pois o Brasil continua liderando mundialmente no consumo e registro de agrot\u00f3xicos, com um aumento significativo nas aprova\u00e7\u00f5es de novos produtos nos \u00faltimos anos sendo que estes n\u00e3o pagam impostos. Nos anos de 2019 a 2022 foram aprovados 2.181 novos registros de agrot\u00f3xicos, com uma m\u00e9dia de 545 por ano. J\u00e1 no ano de<strong> <\/strong>2023<strong> <\/strong>foram 555 novos registros. Em 2024<strong> <\/strong>houve um aumento, foram aprovados 663 produtos agrot\u00f3xicos, sendo que 541 s\u00e3o gen\u00e9ricos de subst\u00e2ncias j\u00e1 existentes, 15 correspondem a novas mol\u00e9culas e 106 s\u00e3o bioinsumos, incluindo produtos biol\u00f3gicos e voltados para a agricultura org\u00e2nica (mercado que vem crescendo).<\/p>\n<p>Atualmente, o Brasil consome cerca de 7,3 litros de agrot\u00f3xicos por pessoa por ano, incluindo muitos produtos proibidos na Uni\u00e3o Europeia. Por que nossas vidas valem menos do que as pessoas que nasceram no norte global? Somos conhecidos por ser o <strong><s>\u201clix\u00e3o dos agrot\u00f3xicos do planeta\u201d,<\/s><\/strong> o que sustenta impactos tr\u00e1gicos na sa\u00fade (f\u00edsica, mental, territorial) em um cen\u00e1rio de curto, m\u00e9dio e longo prazo.<\/p>\n<p>Nosso modelo agr\u00edcola exportador destrutivo \u2013 e altamente subsidiado- evidencia a insustentabilidade e fragilidade da nossa produ\u00e7\u00e3o de alimentos em tempos de emerg\u00eancia clim\u00e1tica. Esse \u00e9 o desenho da nossa contradi\u00e7\u00e3o enquanto pa\u00eds, uma rachadura entre a nossa majestosa socioagrobiodiversidade \u2013 que abrange biomas t\u00e3o incr\u00edveis que v\u00e3o do Pampa \u00e0 Amaz\u00f4nia, soprando os ventos da Mata Atl\u00e2ntica, Caatinga, Cerrado e Pantanal. <\/p>\n<p>D\u00f3i dizer que, quanto maior a import\u00e2ncia socioecol\u00f3gica dos biomas para a manuten\u00e7\u00e3o da vida no planeta, maior \u00e9 a amea\u00e7a exponencial de sua extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-left\">\n<blockquote>\n<p>Larissa Lombardi compartilhou em seu livro <em>Colinialismo Qu\u00edmico<\/em>:<br \/><em>\u201cO Brasil \u00e9 o maior consumidor mundial dessas subst\u00e2ncias, com mais de 700 mil toneladas por ano. Este livro compila dados alarmantes que nos permitem come\u00e7ar a compreender a gravidade do problema representado pelo uso massivo de herbicidas, pesticidas e fungicidas para a sa\u00fade humana e para o meio ambiente, uma consequ\u00eancia direta da globaliza\u00e7\u00e3o da agricultura, da concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria brasileira e da onipresen\u00e7a do agroneg\u00f3cio no pa\u00eds. Da leitura, emerge a certeza de que produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola deixou de ser sin\u00f4nimo de produ\u00e7\u00e3o de alimentos e que a sa\u00edda est\u00e1 na agroecologia.\u201d<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<\/figure>\n<p>Se 2020 foi marcado pela pandemia, o ano de 2024 foi marcado por eventos clim\u00e1ticos extremos. Ficamos \u2013 e ainda estamos- alagados, sem casa, sem ar e sem \u00e1gua para beber. \u00c9 urgente repetir que a emerg\u00eancia clim\u00e1tica est\u00e1 diretamente associada \u00e0 base produtiva dos alimentos e da base industrial capitalista.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Qual a rela\u00e7\u00e3o da emerg\u00eancia clim\u00e1tica com a nossa boca?<\/h4>\n<p>J\u00e1 estamos cansados de ouvir que \u201cvoc\u00ea \u00e9 o que voc\u00ea come\u201d, mas, se n\u00e3o sabemos o que comemos, quem estamos nos tornando? Diversos discursos est\u00e3o em voga: primeiro, o nutricionismo e a eterna busca pela saudabilidade individual; em seguida, movimentos \u00e9ticos, e agora gritam pela via do olhar clim\u00e1tico.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que nossas escolhas individuais n\u00e3o conseguem sobrepor o enorme poder da ind\u00fastria e do agroneg\u00f3cio, baseados na produ\u00e7\u00e3o de commodities para exporta\u00e7\u00e3o, monoculturas e uso intensivo de agrot\u00f3xicos e transg\u00eanicos (e suas novas varia\u00e7\u00f5es, ainda mais aterrorizantes).<\/p>\n<p>\u00c9 importante marcar que, quando falamos em alimento e comida que est\u00e1 nas nesse momento adornando e aquecendo panelas e pratos pa\u00eds afora, n\u00e3o estamos tratando de meras combina\u00e7\u00f5es de ingredientes, tampouco de um conjunto de alimentos aleat\u00f3rios desprovidos de cultura e pol\u00edtica. Nesse alimento, est\u00e1 constitu\u00edda uma teia (quase invis\u00edvel), por\u00e9m significativa de longas trajet\u00f3rias influenciadas por pol\u00edticas, lobbies e muito interesse econ\u00f4mico.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Agroecologia como caminho<\/h4>\n<p>A Agroecologia pode ser compreendida como um trip\u00e9 ci\u00eancia-pr\u00e1tica-movimento. Como ci\u00eancia, ela dialoga entre saberes tradicionais e acad\u00eamicos; como pr\u00e1tica, se manifesta no saber fazer das comunidades que t\u00eam terra debaixo das unhas e pele batizada pelo sol; e, como movimento social, est\u00e1 enraizada nas lutas e nos la\u00e7os comunit\u00e1rios que sustentam as resist\u00eancias da Am\u00e9rica Latina e os pa\u00edses do Sul Global.<\/p>\n<p>Quando falamos em alimento de verdade, promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade, justi\u00e7a social e clim\u00e1tica, a Agroecologia se apresenta como um caminho necess\u00e1rio, capaz de redesenhar esses fluxos problem\u00e1ticos e trazer de volta ciclos virtuosos, da horta \u00e0 mesa.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A resist\u00eancia habita na encruzilhada: entre o Estado e o mercado<\/h4>\n<p>Curioso pensar como na agroecologia podemos encontrar elos que resistem, pressurizados e irreverentes meio \u00e0 dois gigantes: a institucionaliza\u00e7\u00e3o (estado) e a mercantiliza\u00e7\u00e3o (capital). Reflito sobre o papel da <em><strong>Luta <\/strong>e da <strong>Encantaria <\/strong><\/em>associada aos povos que foram\/s\u00e3o historicamente exclu\u00eddos, estes s\u00e3o ind\u00edgenas, quilombolas, ribeirinhos, agricultores camponeses, mulheres, jovens, LGBTQIA+.<\/p>\n<p>Refor\u00e7o que agroecologia ainda se mant\u00e9m firme como uma luta social leg\u00edtima que busca a soberania alimentar dos povos, como um exemplo a Teia dos Povos, movimento enraizados na sabedoria ancestral, na autonomia e luta por terra e territ\u00f3rio.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"\/>\n<figure class=\"wp-block-pullquote has-text-align-left\">\n<blockquote>\n<p><em><strong>A Teia dos Povos \u00e9 uma articula\u00e7\u00e3o de comunidades, territ\u00f3rios, povos e organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, rurais e urbanas<\/strong>. Extrativistas, ribeirinhos, povos origin\u00e1rios, quilombolas, perif\u00e9ricos, sem terra, sem teto e pequenos agricultores se juntam, enquanto n\u00facleos de base e elos, nessa composi\u00e7\u00e3o com o objetivo de formular os caminhos da emancipa\u00e7\u00e3o coletiva. Ou seja, construir solidariamente uma Alian\u00e7a Preta, Ind\u00edgena e Popular.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<\/figure>\n<p>Na po\u00e7\u00e3o de <em><strong>Encantaria<\/strong>, <\/em>diversas s\u00e3o as observa\u00e7\u00f5es, conhecimentos e viv\u00eancias sens\u00edveis que brotam dessa rela\u00e7\u00e3o \u00edntima das pessoas com a natureza e seus ciclos. <\/p>\n<p>Trago um relato, recorte de um di\u00e1logo que tive com uma agricultora que se dedica \u00e0 Agricultura Biodin\u00e2mica. Ela comenta como o uso dos preparados biodin\u00e2micos na cultura da videira auxiliam nas diferentes fases da planta e das esta\u00e7\u00f5es, e no caso, esta s\u00edlica mo\u00edda traria do\u00e7ura e luz do sol. \u00c9 na observa\u00e7\u00e3o-intera\u00e7\u00e3o com a natureza que fam\u00edlia expande e guarda a sabedoria popular da terra e das estrelas.<\/p>\n<p>Nesse mesmo esp\u00edrito de resist\u00eancia e constru\u00e7\u00e3o coletiva, o <strong>Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)<\/strong> \u00e9 uma refer\u00eancia no mundo, ao ser um dos protagonistas na constru\u00e7\u00e3o da agroecologia popular no Brasil. No in\u00edcio de maio, o MST realizou a 4\u00aa Feira Nacional da Reforma Agr\u00e1ria, no Parque da \u00c1gua Branca, em S\u00e3o Paulo (SP), reunindo mais de <strong>1.500 agricultores de 23 estados<\/strong>, com a comercializa\u00e7\u00e3o de mais de <strong>500 toneladas de alimentos saud\u00e1veis<\/strong>, sem veneno e produzidos em assentamentos da reforma agr\u00e1ria. A feira \u00e9 uma express\u00e3o potente do que significa produzir comida de verdade, com justi\u00e7a social, cultura e encantamento.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Como garantir alimentos agroecol\u00f3gicos frente aos desafios atuais?<\/h4>\n<p>Convenhamos, n\u00e3o h\u00e1 pot\u00eancia que resista \u00e0 press\u00e3o destrutiva do agroneg\u00f3cio, do capitalismo predat\u00f3rio e da nega\u00e7\u00e3o de direitos fundamentais, como o acesso \u00e0 terra e \u00e0 \u00e1gua, al\u00e9m da viol\u00eancia contra comunidades tradicionais, quilombolas, povos ind\u00edgenas e ribeirinhos.<\/p>\n<p>Por mais que um grupo de resist\u00eancia esteja exaustivamente regenerando, nossos rios est\u00e3o contaminados, nossas nascentes secando, e nosso solo sob condi\u00e7\u00f5es de alagamento, fogo, nus. Me angustia ao perceber que ainda s\u00e3o escassas as pol\u00edticas estruturantes. O campo da agroecologia deve ser um projeto pol\u00edtico, com subs\u00eddios adequados, como cr\u00e9dito, apoio e assist\u00eancia t\u00e9cnica (ATER) especializada, insumos (sementes, mudas, ferramentas, etc), forma\u00e7\u00f5es e informa\u00e7\u00f5es de qualidade para todas as pessoas que queiram produzir de forma agroecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Durante as minhas idas a campo pelo interior de Santa Catarina, me deparei com in\u00fameros relatos que concordam que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o um dos maiores desafios que est\u00e3o enfrentando na produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica. S\u00e3o diversas as perdas causadas pelo clima extremo, e as plantas \u201cn\u00e3os est\u00e3o dando conta\u201d com tamanhas variabilidades h\u00eddricas e de condi\u00e7\u00f5es de luz e temperatura. <\/p>\n<p>Na foto, uma propriedade agroecol\u00f3gica em Bigua\u00e7u (SC) que produz hortali\u00e7as para uma feira agroecol\u00f3gica em Florian\u00f3polis. Nessa estufa tinham centenas de p\u00e9s de r\u00facula, que foi devastada por uma enxurrada. O desafio se agrava pela aus\u00eancia de seguros agr\u00edcolas que protejam contra as perdas causadas por eventos clim\u00e1ticos extremos na produ\u00e7\u00e3o de base agroecol\u00f3gica.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Isadora Escosteguy<\/figcaption><\/figure>\n<p>Pol\u00edticas p\u00fablicas: o que isso tem a ver com a nossa vida?<\/p>\n<p>Eis que brota a d\u00favida esmagadora: como quebrar a monotonia alimentar nas prateleiras dos supermercados por alimentos agroecol\u00f3gicos produzidos de forma popular, coerente, plural e diversa? Sem d\u00favidas, s\u00e3o necess\u00e1rias pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Destaco duas que s\u00e3o um exemplo importante e refer\u00eancia no mundo: a primeira foi criada em 2003, chamada Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA), tem como objetivo comprar diretamente produtos da agricultura familiar (30%) para distribuir a popula\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar e nutricional. o segundo, chamado Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE), estes s\u00e3o os alimentos que s\u00e3o servidos nas escolas e h\u00e1 prefer\u00eancia por alimentos produzidos de forma agroecol\u00f3gica ou org\u00e2nica (embora n\u00e3o seja especificado um percentual obrigat\u00f3rio). Agora que j\u00e1 lembramos podemos sim buscar informa\u00e7\u00f5es sobre o andamento na sua escola\/cidade e cobrar das prefeituras que estes programas sejam implementados.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel avan\u00e7ar na Agroecologia sem um programa de redu\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos em nosso cultivos. O movimento agroecol\u00f3gico vem defendendo o Programa Nacional de Redu\u00e7\u00e3o de Agrot\u00f3xicos (PRONARA). Esta \u00e9 uma iniciativa que visa promover pr\u00e1ticas agr\u00edcolas que busquem reduzir a depend\u00eancia de agrot\u00f3xicos. Toda a sociedade deve conhecer esta pol\u00edtica, e temos como necessidade garantir que ela seja efetivada em prol da sa\u00fade p\u00fablica. Al\u00e9m disso, o programa busca fortalecer a autonomia dos agricultores, permitindo que adotem pr\u00e1ticas que respeitem a biodiversidade e melhorem a qualidade de vida no campo. PRONARA J\u00c1. Adiciono a lista de necessidades a cria\u00e7\u00e3o de fundos de apoio para enfrentamento aos impactos e perdas decorrentes das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que seja elaborado com cuidado abrangendo as especificidades da agroecologia, os povos e os territ\u00f3rios.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"611\" src=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/pronara-1024x570.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-692974 lazy\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/pronara-300x179.jpg 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/pronara-768x458.jpg 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/pronara-750x536.jpg 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/pronara-1024x570.jpg 1024w\" data-sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"\/><\/figure>\n<p>Se a AGROECOLOGIA \u00e9 capaz de transformar nosso futuro, ent\u00e3o precisamos de apoio para somar as nossas redes que j\u00e1 s\u00e3o fortes e coesas. E para ajudar o Seu Paulo, a Dona Cida, a Marcele\u2026 e um tant\u00e3\u00e3\u00e3o de pessoas, camponesas\/es Basilz\u00e3o afora.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Comida \u00e9 direito, cultura, presente e futuro<\/h4>\n<p>\u00c9 crucial assumir que a desigualdade tem suas ra\u00edzes advent\u00edcias, que come\u00e7am e terminam no acesso \u00e0 terra e ao alimento.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 uma quest\u00e3o crucial:<em> <\/em>o alimento \u00e9 capaz de nos deslocar da proposta falha de enxergarmos apenas a humanidade como centro; ele nos convida a ter uma percep\u00e7\u00e3o de organismo, do todo. O alimento de verdade n\u00e3o brota das g\u00f4ndolas.<\/p>\n<p><strong>ALIMENTO \u00e9 CULTURA, \u00e9 RESIST\u00caNCIA<\/strong>, e deve ser tratada com a import\u00e2ncia que merece. \u00c9 na sua tessitura que encontramos as mais diversas hist\u00f3rias, culturas e contextos que o comp\u00f5em \u2014 <em><strong>para al\u00e9m do que se v\u00ea<\/strong><\/em>. A complexidade encontrada nesse esmiu\u00e7ar, a meu ver, \u00e9 uma potente alternativa estruturante de combate \u00e0s desigualdades fabricadas pela necropol\u00edtica, especialmente em um momento de urg\u00eancias extremas, onde o direito ao alimento \u00e9 negado. Estar\u00e3o nossos corpos, de fato alimentados? A popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 com fome de vida, de direitos, de afeto e de dignidade. A popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 com fome de vida, de direitos, de afeto e de dignidade.<\/p>\n<p>Precisamos fazer um convite \u00e0 reflex\u00e3o para ampliar nossa compreens\u00e3o sobre o universo dos sistemas alimentares, pois todos n\u00f3s estamos sendo afetados. Somente por meio de um envolvimento massivo em defesa do acesso a alimentos de qualidade, livres de agrot\u00f3xicos e transg\u00eanicos que assegure o direito \u00e0 terra, \u00e0 moradia, \u00e0 \u00e1gua e ao ar limpo, tanto para quem produz quanto para quem consome, nos permitir\u00e1 um presente e um futuro vi\u00e1veis como sociedade nesse planeta.<\/p>\n<p>Meio a devaneios, vislumbro um dia em que todes possam ter acesso regular, permanente e irrestrito aos alimentos agroecol\u00f3gicos e que ao deliciar-se com a cocada de cacau, fruto do trabalho coletivo da reforma agr\u00e1ria, sintam que a luta tem sabor, e que vale muito a pena.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"987\" height=\"1316\" src=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/cozinheira-edited-987x570.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-692979 lazy\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/cozinheira-edited-225x300.jpg 225w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/cozinheira-edited-987x570.jpg 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/cozinheira-edited-750x1000.jpg 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/cozinheira-edited.jpg 987w\" data-sizes=\"(max-width: 987px) 100vw, 987px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Isadora Escosteguy<\/figcaption><\/figure>\n<\/p><\/div>\n<div class=\"td-all-devices\"><a href=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Google search engine\" src=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/anuncio_728x109px.jpg\" width=\"728\" height=\"90\"\/><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/05\/21\/alimento-pressagio-de-revolucao\/\">Fonte Original <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O alimento \u00e9 uma ferramenta pol\u00edtica transformadora, e n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que ele \u00e9 convertido em um artif\u00edcio descaracterizado, desterritorializado, ultraprocessado, at\u00e9 ser completamente desmantelado da sua ess\u00eancia, negado. 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