{"id":6732,"date":"2025-05-03T11:24:13","date_gmt":"2025-05-03T11:24:13","guid":{"rendered":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2025\/05\/03\/a-cruel-jornada-das-mulheres-que-tentam-abortar-no-brasil-brasil-de-fato\/"},"modified":"2025-05-03T11:24:18","modified_gmt":"2025-05-03T11:24:18","slug":"a-cruel-jornada-das-mulheres-que-tentam-abortar-no-brasil-brasil-de-fato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2025\/05\/03\/a-cruel-jornada-das-mulheres-que-tentam-abortar-no-brasil-brasil-de-fato\/","title":{"rendered":"a cruel jornada das mulheres que tentam abortar no Brasil \u2013 Brasil de Fato"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>\u201cEu queria me matar\u201d, diz Sophia da Silva*. Ela repete essa frase v\u00e1rias vezes ao longo da conversa. Sophia tem 45 anos e, como as demais mulheres entrevistadas nesta reportagem, teve o nome alterado para proteger a sua identidade. Ela \u00e9 vi\u00fava, m\u00e3e de duas filhas e quase se envenenou com p\u00edlulas abortivas que conseguiu no mercado ilegal. Porque n\u00e3o sabia mais como ajudar a si mesma. Porque preferia morrer a continuar gr\u00e1vida.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou na P\u00e1scoa, h\u00e1 dois anos. Sophia queria comprar ovos de chocolate para suas filhas. Seu marido geralmente fazia isso, mas ele havia morrido pouco tempo antes. Ent\u00e3o, ela foi sozinha at\u00e9 o supermercado em uma regi\u00e3o perif\u00e9rica de S\u00e3o Paulo (SP). A p\u00e9, ap\u00f3s o turno da noite no hospital onde trabalha como faxineira. No caminho para casa, um carro parou ao lado dela. Um homem, primeiro, lhe pediu informa\u00e7\u00f5es, depois, a empurrou contra a parede de uma casa com o carro, a arrastou para dentro do ve\u00edculo e a estuprou.<\/p>\n<p>Sophia se arrastou at\u00e9 o hospital mais pr\u00f3ximo, contou \u00e0 enfermeira sobre o estupro e que o agressor ejaculou dentro dela. A lei brasileira sobre o aborto data de 1940 e a pr\u00e1tica \u00e9 considerada crime no Brasil exceto em casos de estupro, de risco \u00e0 vida da m\u00e3e e de anencefalia do feto.<\/p>\n<p>A enfermeira, ent\u00e3o, diz a Sophia que ela precisa prestar queixa \u00e0 pol\u00edcia. Mas Sophia n\u00e3o quer fazer isso. \u201cEu tinha medo de que meu estuprador descobrisse e se vingasse de mim ou de meus filhos.\u201d Ela tamb\u00e9m acredita que a pol\u00edcia a culparia pela agress\u00e3o. Sophia conhece muitas hist\u00f3rias assim. \u201cEles teriam me perguntado o que eu estava vestindo, teriam dito que eu o havia provocado \u2013 afinal, eu tenho tatuagens e piercings.\u201d<\/p>\n<p>Nesse caso, ela deveria voltar dali a um m\u00eas para fazer mais exames, disse a enfermeira. Quatro semanas depois, Sophia descobriu que estava gr\u00e1vida. \u201cComecei a chorar e exigi um aborto.\u201d Desconsiderando o desejo de Sophia, uma assistente social fez seu registro para receber cuidados pr\u00e9-natais. \u201cEu disse que ela n\u00e3o estava entendendo: eu tinha sido estuprada. Mas a assistente social simplesmente disse: \u2018N\u00e3o, voc\u00ea que n\u00e3o entende! S\u00e3o muitas mulheres como voc\u00ea. Posso te mandar para um grupo de apoio e voc\u00ea vai aprender a amar essa crian\u00e7a. Voc\u00ea pode ir para a pris\u00e3o se fizer um aborto\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Como a lei brasileira permite o aborto em casos de estupro, Sophia insistiu em ser autorizada a seguir esse caminho. No entanto, ela precisaria de um Boletim de Ocorr\u00eancia (B.O.) policial para isso, reafirma a assistente social. Sophia se sente impotente. \u201cComo eu poderia amar essa crian\u00e7a? Eu me sentia t\u00e3o suja que n\u00e3o conseguia nem ficar perto das minhas filhas.\u201d<\/p>\n<p>Sophia busca p\u00edlulas abortivas na internet, mas n\u00e3o tem dinheiro para isso e tem medo que elas n\u00e3o funcionem. Ainda assim, consegue obter o veneno ilegalmente e o coloca no arm\u00e1rio do banheiro. \u201cPensei que, se eu morresse, o feto tamb\u00e9m morreria\u201d. Ela j\u00e1 sabia at\u00e9 o que escreveria no bilhete de suic\u00eddio: \u201cPrefiro estar morta do que gr\u00e1vida\u201d.\u00a0<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O medo de confiar\u00a0<\/h4>\n<p>Por sorte, pouco tempo depois, uma colega de trabalho perguntou a Sophia se estava tudo bem. Ela havia notado que a amiga chorava com frequ\u00eancia. \u201cNa verdade, eu tinha medo de confiar em algu\u00e9m, mas quando ela me perguntou t\u00e3o diretamente, senti a necessidade urgente de compartilhar meu sofrimento.\u201d <\/p>\n<p>A colega a colocou em contato com a organiza\u00e7\u00e3o Projeto Vivas.\u00a0Rebeca Mendes, co-fundadora da iniciativa e advogada, entrou em contato com Sophia e se ofereceu para conseguir uma consulta sobre aborto em uma cl\u00ednica que n\u00e3o exige B.O. para realizar o procedimento. Ainda assim, Sophia s\u00f3 joga as p\u00edlulas fora quando tem certeza absoluta de que o aborto foi bem-sucedido.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Rebeca Mendes, do Projeto Vivas: \u201cOs hospitais n\u00e3o devem pedir um relat\u00f3rio policial\u201d. <em>Manuela Enggist\/Brasil de Fato<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Ela teve a sorte de estar conectada a uma organiza\u00e7\u00e3o que p\u00f4de ajud\u00e1-la. Muitas mulheres passando por uma gravidez indesejada n\u00e3o t\u00eam o mesmo acesso. De acordo com um estudo realizado por Debora Diniz, antrop\u00f3loga e professora da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) \u2013 veja tamb\u00e9m a entrevista ao final da reportagem -, uma mulher morre a cada cinco dias no Brasil ap\u00f3s um aborto. O n\u00famero de abortos ilegais no pa\u00eds \u00e9 estimado em mais de um milh\u00e3o por ano.\u00a0<\/p>\n<p>O caso tamb\u00e9m \u00e9 um exemplo de como a criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto gera medo e estigmatiza\u00e7\u00e3o, o que, por sua vez, leva a incertezas e erros, como explica Roberta Mendes. \u201cEm casos de estupro, a lei n\u00e3o exige nenhuma outra prova al\u00e9m da declara\u00e7\u00e3o da v\u00edtima\u201d, diz ela. \u201dOs hospitais n\u00e3o t\u00eam permiss\u00e3o para solicitar um relat\u00f3rio policial.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com o estudo de Debora Diniz, o estupro motiva 94% dos abortos legais no Brasil. Quase 75 mil estupros foram registrados em 2022 em territ\u00f3rio nacional. Com uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de 211 milh\u00f5es, isso significa que 192 pessoas s\u00e3o estupradas todos os dias no Brasil. O F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FSB) estima que apenas 8,5% dos estupros s\u00e3o denunciados \u00e0s autoridades. Enquanto isso, na Su\u00ed\u00e7a, com uma popula\u00e7\u00e3o de 8,9 milh\u00f5es, 839 estupros, incluindo tentativas de estupro, foram relatados em 2022. Isso corresponde a cerca de 2,2 estupros por dia.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"676\" src=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/Infografico_Aborto-no-mundo-1024x676.png\" alt=\"infogr\u00e1fico sobre o aborto no mundo\" class=\"wp-image-681468 lazy\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/Infografico_Aborto-no-mundo-300x198.png 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/Infografico_Aborto-no-mundo-1024x676.png 1024w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/Infografico_Aborto-no-mundo-768x507.png 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/Infografico_Aborto-no-mundo-1536x1013.png 1536w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/Infografico_Aborto-no-mundo-2048x1351.png 2048w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/Infografico_Aborto-no-mundo-750x536.png 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/Infografico_Aborto-no-mundo-1140x815.png 1140w\" data-sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">infogr\u00e1fico sobre o aborto no mundo \u2013 <em>Samuel Lovato\/Brasil de Fato<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Viagem a Argentina para fazer aborto<\/h4>\n<p>Quando Laura Valente*, 30 anos, descobriu em junho de 2023 que estava gr\u00e1vida novamente foi \u201cum choque terr\u00edvel\u201d, diz ela. Era um domingo e a fam\u00edlia havia se reunido na casa da m\u00e3e de Laura para um jantar, como faziam todos os finais de semana. A casa fica em um dos bairros mais pobres de S\u00e3o Paulo, na zona Leste.\u00a0<\/p>\n<p>Laura j\u00e1 tem uma filha de onze anos, uma de cinco e outra de dois. Ap\u00f3s o nascimento de sua filha mais nova, ela tentou conseguir uma receita para a p\u00edlula anticoncepcional por meio do servi\u00e7o p\u00fablico de planejamento familiar. Seu marido tamb\u00e9m tentou marcar uma consulta para uma vasectomia. O atendimento \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, n\u00e3o chegou a tempo devido \u00e0 longa fila do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). Laura engravidou novamente, apesar de usar camisinha.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1063-1024x683.jpg\" alt=\"Laura Valente: \u201cEu estava com muita raiva e me sentindo desamparada por n\u00e3o poder decidir por mim.\u201d \" class=\"wp-image-681221 lazy\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1063-300x200.jpg 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1063-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1063-768x512.jpg 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1063-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1063-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1063-750x536.jpg 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1063-1140x815.jpg 1140w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1063-600x400.jpg 600w\" data-sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Laura Valente: \u201cEu estava com muita raiva e me sentindo desamparada por n\u00e3o poder decidir por mim.\u201d  <em>Manuela Enggist\/Brasil de Fato<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em uma busca na internet, ela encontrou uma mulher vendendo p\u00edlulas abortivas. Laura n\u00e3o tinha certeza sobre como us\u00e1-las: tomar via oral ou inserir na vagina? Como n\u00e3o quer contar sobre sua gravidez, ela n\u00e3o pergunta a ningu\u00e9m. Uma de suas primas sangrou at\u00e9 morrer, aos 16 anos, ao tentar fazer um aborto com p\u00edlulas. Por sorte, Laura acaba n\u00e3o comprando os rem\u00e9dios. Poucos dias depois, ela se depara com o site <em>Safe2choose<\/em>, que ajuda mulheres com informa\u00e7\u00f5es sobre o aborto, onde encontra uma lista de golpistas que vendem p\u00edlulas vencidas ou que n\u00e3o funcionam  Entre eles, est\u00e1 o nome da mulher de quem Laura considerou comprar o medicamento.<\/p>\n<p>\u201cEu estava com muita raiva e me sentindo desamparada por n\u00e3o poder decidir por mim.\u201d Laura se v\u00ea como uma mulher respons\u00e1vel e uma boa m\u00e3e. \u201cMas tamb\u00e9m conhe\u00e7o meus limites\u201d, diz. Com uma nova gravidez, ela teria que interromper seu treinamento como t\u00e9cnica m\u00e9dica. Al\u00e9m disso, n\u00e3o teria espa\u00e7o suficiente em sua casa para receber mais uma crian\u00e7a nem dinheiro para uma casa maior.\u00a0<\/p>\n<p>Por meio do <em>Safe2choose<\/em>, Laura tamb\u00e9m ficou sabendo do Projeto Vivas e de Rebeca Mendes, que lhe contou sobre a possibilidade de viajar para a Argentina e fazer um aborto l\u00e1. Em dezembro de 2020, o pa\u00eds vizinho legalizou o aborto nas primeiras quatorze semanas de gravidez. N\u00e3o h\u00e1 limite de tempo para realizar o procedimento se a sa\u00fade ou a vida da gestante estiverem em risco ou se a gravidez for resultado de abuso sexual.<\/p>\n<p>De acordo com Rebeca, o projeto ajudou 530 mulheres a abortarem legalmente no Brasil e 265 a deixarem o pa\u00eds para realizar o procedimento em 2023. A principal fonte de financiamento da iniciativa \u00e9 a F\u00f2s Feminista \u2013 uma organiza\u00e7\u00e3o que faz campanha pela sa\u00fade sexual e reprodutiva, especialmente em pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, e \u00e9 mantida por doa\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>Uma viagem de S\u00e3o Paulo para a Argentina custa aproximadamente R$ 6 mil, detalha Rebeca. O valor \u00e9 quatro vezes maior do que o sal\u00e1rio m\u00ednimo no Brasil. Por isso, se necess\u00e1rio, o Projeto Vivas cobre os custos do deslocamento. \u201cEu nunca tinha sa\u00eddo do Brasil antes, nunca tinha entrado em um avi\u00e3o. Mas n\u00e3o pensei duas vezes\u201d, diz Laura. Ap\u00f3s o aborto, ela se sente aliviada.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Julgada por um aborto<\/h4>\n<p>Juliana Martins*, 32 anos, est\u00e1 sentada em um quarto de hotel em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, a cerca de 440 quil\u00f4metros da capital paulista. Juliana s\u00f3 concordou com a entrevista sob a condi\u00e7\u00e3o de que ela fosse realizada em um local seguro, e n\u00e3o em sua casa, que fica a duas horas de carro dali. Ela tem muito medo de que as pessoas a chamem de monstro novamente se descobrirem que ela est\u00e1 contando sobre seu aborto ilegal.<\/p>\n<p>Quando Juliana percebeu que estava gr\u00e1vida, em outubro de 2016, se deu conta de que n\u00e3o poderia ter esse filho. Ela havia se separado do marido apenas alguns meses antes e mal conhecia seu novo parceiro. \u201cEu j\u00e1 tinha dois filhos. E minha filha mais velha tem problemas de sa\u00fade.\u201d Juliana fala baixo e devagar. \u00c0s vezes, seus ombros caem para frente. Assim que se d\u00e1 conta, ela se endireita novamente.\u00a0<\/p>\n<p>Juliana tamb\u00e9m pesquisa na internet sobre como abortar e acaba comprando um ch\u00e1 caro que supostamente poderia ajudar. Mas nada acontece. Seu relacionamento com o homem que a engravidou \u00e9 muito inst\u00e1vel e ela n\u00e3o sente vontade de contar para ele o que est\u00e1 acontecendo. Juliana quer decidir por si mesma.\u00a0<\/p>\n<p>Desesperada, ela conta ao ex-marido sobre a gravidez indesejada e ele compra p\u00edlulas no mercado paralelo. Algumas, Juliana insere na vagina, outras, ela dissolve na \u00e1gua e bebe. At\u00e9 hoje, ela n\u00e3o sabe exatamente o que eram. Algumas horas depois, sente fortes c\u00e3ibras e desmaia. Morta de medo, ela pede ao ex-marido que a leve ao hospital.<\/p>\n<p>\u201cFoi a\u00ed que a minha tortura come\u00e7ou\u201d, conta. O m\u00e9dico encontrou restos de p\u00edlulas no \u00fatero de Juliana e disse a ela que estava aqui para ajud\u00e1-la e n\u00e3o para julg\u00e1-la. Desconsiderando o desejo da paciente, o especialista afirmou que faria qualquer coisa para salvar a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Em seguida, Juliana \u00e9 levada a outra sala por uma enfermeira. \u201cEla me perguntou se eu havia tentado interromper a gravidez. V\u00e1rias vezes\u201d, conta. Juliana ficou em sil\u00eancio e sentiu muita dor enquanto o feto sa\u00eda. Ap\u00f3s ser deixada sozinha pela enfermeira, dois policiais aparecem no quarto.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEles disseram que eu era uma vergonha para os meus filhos e que era melhor eu confessar, assim poderia pagar a fian\u00e7a e sair da cadeia. Eles insistiram tanto para eu confessar, que eu confessei.\u201d Juliana teve que passar a noite na pris\u00e3o. \u201cNingu\u00e9m cuidou de mim, embora eu ainda estivesse sangrando muito.\u201d Na manh\u00e3 seguinte, ela foi liberada ap\u00f3s ter a fian\u00e7a paga com dinheiro emprestado por sua fam\u00edlia.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1052-683x1024.jpg\" alt=\"Juliana Martins: \u201cGra\u00e7as a todas as mulheres que me apoiaram, percebi que eu n\u00e3o era o monstro que algumas pessoas pintavam\u201d\" class=\"wp-image-681225 lazy\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1052-200x300.jpg 200w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1052-683x1024.jpg 683w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1052-768x1152.jpg 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1052-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1052-750x1125.jpg 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1052-1140x1710.jpg 1140w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/04\/DSF1052-scaled.jpg 1707w\" data-sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Juliana Martins: \u201cGra\u00e7as a todas as mulheres que me apoiaram, percebi que eu n\u00e3o era o monstro que algumas pessoas pintavam\u201d. <em>Manuela Einggist\/Brasil de Fato<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Reportagens na TV retrataram do aborto ilegal de Juliana. Seu rosto n\u00e3o foi exibido, mas suas iniciais, sim. \u201cDepois de algumas horas, todos sabiam que era eu.\u201d As pessoas sa\u00edam do supermercado quando ela entrava na fila do caixa. \u201cElas diziam que n\u00e3o queriam ser vistas com uma assassina. Alguns me chamavam de monstro.\u201d<\/p>\n<p>Dias depois, um funcion\u00e1rio do Instituto de Bio\u00e9tica Anis, uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental feminista, entrou em contato com Juliana, dizendo que havia tomado conhecimento do seu caso pela imprensa. Eles marcaram uma consulta em uma cl\u00ednica para que ela fizesse um exame de acompanhamento ap\u00f3s o aborto.\u00a0<\/p>\n<p>O Estado brasileiro est\u00e1 processando Juliana por abortar, com base em uma queixa prestada pelo m\u00e9dico que a atendeu. O caso se baseia na palavra dele. N\u00e3o h\u00e1 provas de que a medica\u00e7\u00e3o que Juliana tomou tenha causado o aborto. \u201cGra\u00e7as a todas as mulheres que me apoiaram, percebi que eu n\u00e3o era o monstro que algumas pessoas pintavam.\u201d<\/p>\n<p>Desde que conversou com os ativistas e m\u00e9dicos, Juliana se deu conta do pouco que sabia. \u201cEu n\u00e3o sabia que o efeito da p\u00edlula anticoncepcional poderia ser reduzido se eu tomasse antibi\u00f3ticos.\u201d Uma cirurgia no dente do siso a levou a tomar o medicamento, o que pode ter influenciado na falha do efeito do anticoncepcional, levando \u00e0 gravidez.\u00a0<\/p>\n<p>Aos 16 anos, ela foi expulsa de casa pela m\u00e3e e foi morar com o pai religioso. Juliana n\u00e3o recebeu educa\u00e7\u00e3o sexual, nem dele nem na escola. \u201cQuando tive minha primeira menstrua\u00e7\u00e3o, achei que tinha me machucado.\u201d<\/p>\n<p>O processo contra Juliana foi rejeitado pelo Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) em outubro de 2023 com o argumento de que havia sido apresentado de forma ilegal, j\u00e1 que o profissional que a atendeu violou o sigilo m\u00e9dico. O juiz declarou que a confiss\u00e3o de Juliana n\u00e3o poderia ser utilizada, pois ela estava sofrendo de dor intensa na \u00e9poca. <\/p>\n<p>Juliana teve que esperar quase nove anos pela\u00a0 absolvi\u00e7\u00e3o. Ela tem esperan\u00e7a de que o governo e a sociedade compreendam que somente a mulher deve decidir se quer e pode trazer uma vida ao mundo. \u201cSe eu tivesse tido esse filho, eu seria uma mulher destru\u00edda pelo resto da minha vida.\u201d<\/p>\n<p>Em junho de 2024, milhares de pessoas sa\u00edram \u00e0s ruas no Brasil para protestar contra um pedido de urg\u00eancia a favor do Projeto de Lei (PL) 1920\/2024, que equipara aborto ao crime de homic\u00eddio. A mobiliza\u00e7\u00e3o conseguiu barrar o PL, ao menos temporariamente. Representantes da crescente bancada evang\u00e9lica haviam apresentado o projeto ao Congresso de maioria conservadora.\u00a0<\/p>\n<p>Se aprovado, os abortos ap\u00f3s a 22\u00aa semana de gravidez ser\u00e3o punidos como homic\u00eddio \u2013 mesmo em casos de estupro. Est\u00e3o previstas penas de pris\u00e3o de seis a 20 anos. Isso significa que as v\u00edtimas de estupro teriam uma puni\u00e7\u00e3o mais severa do que a de seus estupradores, que enfrentam uma pena m\u00e1xima de quinze anos.<\/p>\n<p><em>*Os nomes foram alterados para proteger a identidade das fontes<\/em><\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">\u201cTemos que proteger os direitos que temos\u201d<\/h4>\n<p>A antrop\u00f3loga Debora Diniz, 54 anos, faz campanha pela descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto. Durante anos, a professora da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) defendeu o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o reprodutiva perante o Supremo Tribunal Federal (STF). Por sua atua\u00e7\u00e3o, ela recebeu amea\u00e7as de morte e ficou sob prote\u00e7\u00e3o policial 24 horas por dia no Brasil. A amea\u00e7a \u00e0 sua seguran\u00e7a a levou a migar para os Estados Unidos em 2018. Confira abaixo uma entrevista com Debora, que \u00e9 tamb\u00e9m uma das cofundadoras do Projeto Vivas.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"513\" src=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2024\/09\/image_processing20240927-2595728-6zhd3n.webp\" alt=\"Debora Diniz\" class=\"wp-image-140490 lazy\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2024\/09\/image_processing20240927-2595728-6zhd3n-300x200.webp 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2024\/09\/image_processing20240927-2595728-6zhd3n-750x513.webp 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2024\/09\/image_processing20240927-2595728-6zhd3n.webp 768w\" data-sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Debora Diniz: \u201cLula tem medo de falar disso porque foi eleito com o apoio dos evang\u00e9licos\u201d. <em>Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Brasil de Fato: Voc\u00ea teve que deixar o Brasil por causa da sua pesquisa sobre o aborto. Qu\u00e3o perigoso \u00e9 fazer campanha pelo direito ao procedimento no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Debora Diniz:<\/strong> Voc\u00ea rapidamente se torna alvo de fan\u00e1ticos. Mas isso n\u00e3o acontece apenas no Brasil. O direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o do corpo tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o eleitoral nos EUA, na Pol\u00f4nia e na It\u00e1lia.<\/p>\n<p><strong>O aborto \u00e9 um tema pol\u00eamico no Brasil. At\u00e9 o presidente de esquerda Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) evita falar a respeito publicamente. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Lula tem medo de falar disso porque foi eleito com o apoio dos evang\u00e9licos. Ele n\u00e3o quer colocar esse apoio em risco.<\/p>\n<p><strong>No Brasil, os grupos mais conservadores, sobretudo os evang\u00e9licos radicais, tentam dificultar ainda mais o acesso ao aborto. Eles se sentem parte de um movimento global?<\/strong><\/p>\n<p>A liberdade reprodutiva \u00e9 uma ferramenta pol\u00edtica usada em todo o mundo para estimular convic\u00e7\u00f5es religiosas e comunidades baseadas na moralidade. Assim, a narrativa evang\u00e9lica contra o aborto tamb\u00e9m transcende fronteiras. No entanto, as ra\u00edzes religiosas tamb\u00e9m s\u00e3o ra\u00edzes pol\u00edticas: \u00e9 o mesmo movimento de extrema direita que est\u00e1 crescendo em outros pa\u00edses. E que usa uma narrativa religiosa quando se trata de controlar os corpos das mulheres e regulamentar o aborto.<\/p>\n<p><strong>Os ativistas no Brasil t\u00eam que resistir \u00e0s iniciativas anti-aborto em vez de fazer campanha pela legaliza\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 frustrante?<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, \u00e9 verdade que sempre temos que estar atentos para proteger os direitos que temos. Isso exige for\u00e7a. Mas, ao mesmo tempo, h\u00e1 uma coaliz\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es e movimentos de mulheres no pa\u00eds. Isso me d\u00e1 esperan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>E eles tamb\u00e9m est\u00e3o conectados a uma rede internacional?<\/strong><\/p>\n<p>Com certeza. Eu trabalho em estreita colabora\u00e7\u00e3o com a F\u00f2s Feminista, uma organiza\u00e7\u00e3o que faz campanha pela sa\u00fade sexual e reprodutiva e pelos direitos de mulheres e meninas. Essa \u00e9 uma alian\u00e7a internacional de mais de 200 organiza\u00e7\u00f5es em mais de 40 pa\u00edses, principalmente na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o h\u00e1 um interc\u00e2mbio intenso entre ativistas?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, a colabora\u00e7\u00e3o entre feministas no Brasil e na Argentina \u00e9 um bom exemplo disso. H\u00e1 muita solidariedade. N\u00f3s, ativistas, aprendemos umas com as outras: a Argentina inspirou todas n\u00f3s com a reforma legal para autorizar o aborto. Desde a elei\u00e7\u00e3o de Javier Milei, elas t\u00eam nos procurado para aprender a lidar com um governo autorit\u00e1rio de extrema direita.<\/p>\n<p><strong>Como essa solidariedade entre as ativistas acontece na pr\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p>As integrantes do F\u00f2s Feminista se re\u00fanem regularmente para trocar ideias. Isso ajuda a saber que n\u00e3o estamos sozinhas. Mas tamb\u00e9m lidamos com quest\u00f5es concretas. Como muitas mulheres brasileiras viajam para a Argentina para fazer um aborto seguro e legal, as cl\u00ednicas argentinas agora est\u00e3o organizando equipes que falam portugu\u00eas. Isso \u00e9 algo que ajudamos a organizar.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div class=\"td-all-devices\"><a href=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Google search engine\" src=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/anuncio_728x109px.jpg\" width=\"728\" height=\"90\"\/><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/05\/03\/melhor-morta-do-que-gravida-a-cruel-jornada-das-mulheres-que-tentam-abortar-no-brasil\/\">Fonte Original <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu queria me matar\u201d, diz Sophia da Silva*. Ela repete essa frase v\u00e1rias vezes ao longo da conversa. Sophia tem 45 anos e, como as demais mulheres entrevistadas nesta reportagem, teve o nome alterado para proteger a sua identidade. 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