{"id":6706,"date":"2025-05-02T09:24:12","date_gmt":"2025-05-02T09:24:12","guid":{"rendered":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2025\/05\/02\/o-que-esta-por-tras-da-critica-da-geracao-z-a-clt-brasil-de-fato\/"},"modified":"2025-05-02T09:24:14","modified_gmt":"2025-05-02T09:24:14","slug":"o-que-esta-por-tras-da-critica-da-geracao-z-a-clt-brasil-de-fato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2025\/05\/02\/o-que-esta-por-tras-da-critica-da-geracao-z-a-clt-brasil-de-fato\/","title":{"rendered":"o que est\u00e1 por tr\u00e1s da cr\u00edtica da gera\u00e7\u00e3o Z \u00e0 CLT? \u2013 Brasil de Fato"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>O movimento recente observado entre crian\u00e7as e jovens que demonstram desprezo pela Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho (CLT) exp\u00f5e uma realidade complexa, em que a ideia do que \u00e9 ser trabalhador ou trabalhadora virou sin\u00f4nimo de explora\u00e7\u00e3o, baixos sal\u00e1rios, m\u00e1 qualidade de vida e conviv\u00eancia em ambientes t\u00f3xicos e precarizados.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de especialistas ouvidos pelo <strong>Brasil de Fato<\/strong> sobre o fen\u00f4meno que cresce a cada dia e, at\u00e9 mesmo, transformou a sigla CLT em ofensa usada como xingamento. Na narrativa absorvida pela juventude, o contraponto ao trabalho formal est\u00e1 nas solu\u00e7\u00f5es milagrosas do chamado empreendedorismo digital.<\/p>\n<p>O professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) Fernando C\u00e1ssio, membro do Comit\u00ea Diretivo da Campanha Nacional pelo Direito \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o, afirma que esse discurso atende a uma agenda econ\u00f4mica e empresarial neoliberal, mas ressalta que as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es do trabalho formal s\u00e3o um fator relevante no refor\u00e7o do cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cNos \u00faltimos anos, temos assistido a uma precariza\u00e7\u00e3o substantiva e imensa do trabalho formal com carteira assinada. Isso n\u00e3o \u00e9 uma coisa menor. Vemos a reforma trabalhista do Michel Temer (MDB), pessoas que trabalham com registro perdendo direitos e mal remuneradas. As pessoas t\u00eam esse senso. Se vou trabalhar precarizado tendo patr\u00e3o, ent\u00e3o vou trabalhar para mim mesmo.\u201d<\/p>\n<p>Ele observa que o uso do termo CLT como ofensa \u00e9 muito influenciado pela capilaridade do discurso empreendedor; pela no\u00e7\u00e3o de que o trabalho formal \u00e9 ultrapassado e a plataformiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma resposta a isso; e pelo verniz de sucesso e liberdade que o capitalismo contempor\u00e2neo d\u00e1 a novas formas de explorar o trabalho prec\u00e1rio e informal.<\/p>\n<p>No entanto, C\u00e1ssio pondera: \u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o curr\u00edculo escolar ou os influenciadores da internet que v\u00e3o incutir na cabe\u00e7a das novas gera\u00e7\u00f5es as ideias individualistas do empreendedorismo. Temos a\u00ed condi\u00e7\u00f5es de vida objetivas, que tamb\u00e9m contribuem para que as pessoas acolham essas ideias e determinadas vis\u00f5es dispon\u00edveis na internet\u201d.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Realidade em \u00edndices<\/h4>\n<p>O peso da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho formal na assimila\u00e7\u00e3o do discurso de desprezo pela CLT j\u00e1 se expressa em dados. Uma pesquisa realizada pelo Minist\u00e9rio do Trabalho e divulgada na \u00faltima ter\u00e7a-feira (29) apontou os principais motivos que levam jovens de 14 a 24 anos a pedir desligamento volunt\u00e1rio de um emprego formal.<\/p>\n<p>Nas faixas et\u00e1rias de 14 a 17 anos, os baixos sal\u00e1rios foram citados por 29% dos entrevistados e entrevistadas. Entre quem tem de 18 a 24 anos, o \u00edndice de men\u00e7\u00f5es ao tema chegou a 36%. A falta de flexibilidade na jornada foi motiva\u00e7\u00e3o para que 20% das pessoas com idades entre 18 e 24 anos deixassem o emprego formal.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o adoecimento mental provocado pelo estresse do trabalho afetou 21% dos jovens de 14 a 17 anos e 26% dos jovens de 18 a 24 anos. Na lista de respostas entraram tamb\u00e9m as dificuldades de mobilidade entre casa e trabalho, a falta de reconhecimento, quest\u00f5es \u00e9ticas com a forma de trabalho das empresas e problemas com a chefia imediata.<\/p>\n<p>A m\u00e9dica e especialista em sa\u00fade do trabalhador e da trabalhadora Maria Maeno tamb\u00e9m conversou com o <strong>Brasil de Fato<\/strong> sobre o tema. Pesquisadora da Funda\u00e7\u00e3o Jorge Duprat Figueiredo de Seguran\u00e7a e Medicina do Trabalho (Fundacentro), ela observa uma campanha contra a CLT que n\u00e3o \u00e9 nova, mas tomou novos contornos no meio virtual.<\/p>\n<p>Segundo Maeno, a Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho sempre foi objeto de cr\u00edtica, inclusive, por parte de quem busca ampliar os direitos proporcionados por ela. Por outro lado, h\u00e1 tamb\u00e9m um esfor\u00e7o \u201cdiuturno\u201d para demonizar a legisla\u00e7\u00e3o que n\u00e3o visa o bem-estar coletivo, a justi\u00e7a social, a distribui\u00e7\u00e3o de renda, a sustentabilidade e os direitos de trabalhadores e trabalhadoras.<\/p>\n<p>\u201cPelo contr\u00e1rio, a campanha de demoniza\u00e7\u00e3o da CLT tinha e tem como um dos objetivos ganhar as novas gera\u00e7\u00f5es para uma vis\u00e3o de mundo em que o suposto m\u00e9rito de cada um \u00e9 o que faz com que as pessoas sejam bem-sucedidas. Essa apropria\u00e7\u00e3o da subjetividade foi potencializada pelo meio virtual, e a\u00ed uma parcela das crian\u00e7as e adolescentes tende a ver seus pais e m\u00e3es como pessoas ultrapassadas, que sempre trabalharam muito e tem t\u00e3o pouco em termos materiais.\u201d<\/p>\n<p>Maria Maeno pontua ainda que a maior parte da popula\u00e7\u00e3o trabalha cada vez mais, mas vive em situa\u00e7\u00e3o de instabilidade social e econ\u00f4mica e tem pouco tempo para lazer e \u00f3cio com as fam\u00edlias. Essa realidade \u00e9 um \u201cingrediente a mais\u201d no convencimento da popula\u00e7\u00e3o jovem.<\/p>\n<p>\u201cA sa\u00edda oferecida e divulgada pelo capital \u00e9 que se busque explorar e viver de seus supostos talentos, particularmente no mundo virtual, com redes e monetiza\u00e7\u00f5es. \u00c9 um movimento que, a grosso modo, pode ser comparado com os meninos que sonhavam, em outra \u00e9poca, em ser estrelas do futebol e meninas que queriam ser estrelas de TV. Obviamente, como sabemos, a \u00ednfima minoria era bem-sucedida.\u201d<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">A propaga\u00e7\u00e3o do discurso<\/h4>\n<p>Estudos j\u00e1 demonstram quais s\u00e3o os principais mecanismos e fatores de propaga\u00e7\u00e3o desse discurso. A pesquisa \u201cM\u00eddias Sociais como Plataforma de Trabalho Digital\u201d, publicada no ano passado, identifica uma narrativa anti-direitos trabalhistas frequente no marketing digital. Quem est\u00e1 nas redes sociais sofre um bombardeio de propaganda contra o trabalho formal, retratado como restritivo e indesej\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nesse discurso, propagado por influenciadores e influenciadoras de diversos campos, o trabalho aut\u00f4nomo \u00e9 alardeado como uma alternativa superior e as prote\u00e7\u00f5es trabalhistas formais s\u00e3o vistas como desnecess\u00e1rias.<\/p>\n<p>A historiadora, produtora de conte\u00fado e colunista do <strong>Brasil de Fato<\/strong>, Laura Sabino, aponta que as novas gera\u00e7\u00f5es cresceram em um per\u00edodo em que os direitos j\u00e1 estavam consolidados. A percep\u00e7\u00e3o de que eles s\u00e3o fruto da luta popular desapareceu.<\/p>\n<p>\u201cInfelizmente, aprendemos a enxergar a CLT e os direitos trabalhistas como projetos criados por pol\u00edticos e poderosos \u2014 e n\u00e3o como conquistas hist\u00f3ricas da classe trabalhadora. N\u00e3o aprendemos que direitos como f\u00e9rias, 13\u00ba sal\u00e1rio, FGTS e aposentadoria s\u00e3o frutos de muita luta contra a explora\u00e7\u00e3o capitalista.\u201d<\/p>\n<p>Segundo ela, a internet se tornou um grande vetor da ideologia meritocr\u00e1tica e individualista, que j\u00e1 era muito comum nas m\u00eddias tradicionais. O refor\u00e7o digital deu a essa narrativa uma dimens\u00e3o ainda mais gigantesca e os algoritmos favorecem conte\u00fados que glorificam o consumo e o sucesso f\u00e1cil.<\/p>\n<p>\u201cEsse discurso camufla o fato de que os verdadeiros empres\u00e1rios, herdeiros e membros da elite econ\u00f4mica lucram com a aus\u00eancia de direitos trabalhistas: o patr\u00e3o paga menos, explora mais e maximiza seus lucros. Al\u00e9m disso, quando o trabalhador acredita que seu fracasso \u00e9 culpa exclusivamente sua \u2014 e n\u00e3o do sistema \u2014, ele n\u00e3o se organiza contra a explora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Caminhos para a solu\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>O diagn\u00f3stico de que a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e o discurso neoliberal propagado pela internet est\u00e3o diretamente ligados ao desprezo das novas gera\u00e7\u00f5es pela CLT aponta tamb\u00e9m alguns caminhos para mudan\u00e7a desse cen\u00e1rio. Eles envolvem o papel da educa\u00e7\u00e3o formal e a necessidade de organiza\u00e7\u00e3o coletiva contra a explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fernando Cassio enfatiza que a escola n\u00e3o deve ser um espa\u00e7o para alimentar discursos que desvalorizam a prote\u00e7\u00e3o trabalhista e idealizam formas de trabalho prec\u00e1rias. \u201cJ\u00e1 temos coaches empresariais e uma vida precarizada o suficiente para construir uma suscetibilidade a isso\u201d, alerta.<\/p>\n<p>Ele defende que \u00e9 preciso disputar a constru\u00e7\u00e3o do curr\u00edculo escolar, que, nas palavras do educador, est\u00e1 sendo \u201cdevassado\u201d por esse discurso. Segundo Cassio, esse caminho \u00e9 essencial para impedir que a l\u00f3gica individualista tome conta do que \u00e9 ensinado em sala de aula.<\/p>\n<p>\u201cA escola tem outro papel e isso n\u00e3o quer dizer que ela vai ficar parada no tempo. Mas a escola tem o papel de formar as pessoas e distribuir o conhecimento que foi acumulado na hist\u00f3ria da humanidade. Inclusive, esse conhecimento \u00e9 fundamental para que as pessoas tenham a capacidade de entender a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o de precariza\u00e7\u00e3o e de pensar sobre esse fato.\u201d<\/p>\n<p>O pesquisador cita que o espa\u00e7o escolar \u00e9 fundamental para que a popula\u00e7\u00e3o tenha entendimento sobre conceitos como prote\u00e7\u00e3o e garantias sociais e direitos coletivos. Ainda de acordo com ele, esse ambiente tamb\u00e9m tem obriga\u00e7\u00e3o de estimular o pensamento cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o ao discurso individualista.<\/p>\n<p>Maria Maeno tamb\u00e9m observa a import\u00e2ncia da valoriza\u00e7\u00e3o da coletividade para combater as narrativas negativas sobre o trabalho formal. \u201cO enfraquecimento das organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, associativas, de movimentos sociais contribui para que se busquem sa\u00eddas individuais\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>Na conversa com o <strong>BdF<\/strong>, a pesquisadora afirma que, atualmente, grande parte da massa trabalhadora vivencia uma rotina que leva ao desgaste e ao adoecimento. Na lista de exemplos, ela cita as trabalhadoras dom\u00e9sticas, que mais de dez anos depois da lei que regulamenta a profiss\u00e3o, ainda sofrem com a informalidade, a nega\u00e7\u00e3o de direitos e as rela\u00e7\u00f5es de trabalho opressoras.<\/p>\n<p>Maeno lembra ainda das condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias \u00e0s quais s\u00e3o submetidos os entregadores por aplicativos, uma das profiss\u00f5es s\u00edmbolo do trabalho plataformizado. Nela, um n\u00famero cada vez maior de trabalhadores, normalmente jovens, est\u00e3o expostos \u00e0 viol\u00eancia no tr\u00e2nsito e \u00e0 viol\u00eancia social e atuam sem nenhum direito trabalhista garantido.<\/p>\n<p>Mas a especialista cita tamb\u00e9m categorias que tradicionalmente contavam com maior prote\u00e7\u00e3o. Banc\u00e1rios e banc\u00e1rias, por exemplo, hoje convivem com ampla terceiriza\u00e7\u00e3o das atividades e sistemas de metas inating\u00edveis, que levam ao adoecimento f\u00edsico e mental. Servidores e servidoras vivem processos de precariza\u00e7\u00e3o, privatiza\u00e7\u00e3o e crescente desvaloriza\u00e7\u00e3o de suas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cOs jovens t\u00eam que voltar a ter esperan\u00e7a e a sonhar com um mundo em que tenhamos tempo para criar, viver com a fam\u00edlia e os amigos, viajar, conhecer a diversidade hist\u00f3rica e cultural dos povos. Isso requer organiza\u00e7\u00e3o para se perceber que, por tr\u00e1s do mundo atual, est\u00e3o poderosos interesses econ\u00f4micos do capital. \u00c9 contra esses alicerces que temos que empreender nossas energias.\u201d<\/p>\n<p>Nas palavras da professora, \u00e9 preciso haver um esfor\u00e7o conjunto para que as correntes contra-hegem\u00f4nicas sejam fortalecidas. \u201cTemos que lutar n\u00e3o s\u00f3 pela nossa sobreviv\u00eancia, mas tamb\u00e9m para que tenhamos uma vida plena que nos satisfa\u00e7a e que nos permita sonhar. Eu n\u00e3o vejo outra sa\u00edda.\u201d<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div class=\"td-all-devices\"><a href=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/\"><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/05\/02\/direitos-ou-precariedade-o-que-esta-por-tras-da-critica-da-geracao-z-a-clt\/\">Fonte Original <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O movimento recente observado entre crian\u00e7as e jovens que demonstram desprezo pela Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho (CLT) exp\u00f5e uma realidade complexa, em que a ideia do que \u00e9 ser trabalhador ou trabalhadora virou sin\u00f4nimo de explora\u00e7\u00e3o, baixos sal\u00e1rios, m\u00e1 qualidade de vida e conviv\u00eancia em ambientes t\u00f3xicos e precarizados. 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