{"id":3103,"date":"2024-12-19T05:24:12","date_gmt":"2024-12-19T05:24:12","guid":{"rendered":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2024\/12\/19\/raizes-de-nkosi-o-matriarcado-contra-os-retrocessos\/"},"modified":"2024-12-19T05:24:13","modified_gmt":"2024-12-19T05:24:13","slug":"raizes-de-nkosi-o-matriarcado-contra-os-retrocessos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2024\/12\/19\/raizes-de-nkosi-o-matriarcado-contra-os-retrocessos\/","title":{"rendered":"Ra\u00edzes de Nkos\u2019i: o matriarcado contra os retrocessos"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o sociocultural, pol\u00edtica, econ\u00f4mica e ambiental brasileira \u00e9 estruturada a partir do racismo, da misoginia e da explora\u00e7\u00e3o de classes. Isso causa impactos profundos na nossa identidade e pertencimento nacional.\u00a0<\/p>\n<p>A Independ\u00eancia brasileira foi consolidada em 1822, praticamente um ano depois do 2 de Julho na Bahia, movimento que contou com mais participa\u00e7\u00e3o popular, integra\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gia.\u00a0<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia da independ\u00eancia baiana no contexto historiogr\u00e1fico nacional foi evidenciada nos \u00faltimos anos pela luta dos movimentos negros e feministas, que destacam nossas hero\u00ednas e her\u00f3is populares, em especial as mulheres.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Mem\u00f3ria<\/p>\n<p>Quem \u00e9 de matriz africana, sabe que o verde e o amarelo s\u00e3o o signo da celebra\u00e7\u00e3o dos caboclos, ancestrais vivos dessa terra. O pacto de sobreviv\u00eancia daqueles e daquelas que vieram de Luanda, Cabinda, Congo e, posteriormente, de outros territ\u00f3rios africanos contou fundamentalmente com a sapi\u00eancia dessa ancestralidade.\u00a0<\/p>\n<p>O verde e o amarelo tamb\u00e9m est\u00e3o nas missangas com as quais fazem as contas de prote\u00e7\u00e3o de divindades importantes do Candombl\u00e9 de Tradi\u00e7\u00e3o Congo-Angola respons\u00e1veis pela transforma\u00e7\u00e3o. O velho e bom Candombl\u00e9 de Angola foi trazido pelos Bantu,\u00a0 primeiros povos africanos escravizados que pisaram em territ\u00f3rio brasileiro.\u00a0<\/p>\n<p>Somos descendentes do legado oriundo de Dona Maria Nen\u00e9m e de toda a sua linhagem de autoridades e lideran\u00e7as tradicionais, que atravessaram a hist\u00f3ria da forma\u00e7\u00e3o social e cultural brasileira e ousaram vocalizar suas pr\u00f3prias narrativas, a partir do exerc\u00edcio do poder nas suas \u201cpequenas \u00e1fricas\u201d \u2014 terreiros.\u00a0<\/p>\n<p>O regime escravista perdurou por tr\u00eas s\u00e9culos sob as ben\u00e7\u00e3os do cristianismo, enquanto os povos de matriz africana enfrentaram de todas as formas as atrocidades desse per\u00edodo.\u00a0<\/p>\n<p>Os povos escravizados utilizaram da luta armada, com in\u00fameras insurrei\u00e7\u00f5es e revoltas, da malemol\u00eancia de preservar a for\u00e7a vital, para n\u00e3o sucumbir em horas exaustivas de trabalho, e da quilombagem, ao criar estrat\u00e9gias de fuga e recriar sistemas comunit\u00e1rios que rememorassem a terra-m\u00e3e. Ou no feiti\u00e7o, j\u00e1 que \u201cquem n\u00e3o pode com mandinga n\u00e3o carrega patu\u00e1\u201d.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Heran\u00e7a escravagista<\/p>\n<p>Ainda assim, nota-se que a heran\u00e7a escravagista perdura, muito bem articulado e ininterrupto, por meio do projeto da elite brasileira, que foi respons\u00e1vel por fazer uma aboli\u00e7\u00e3o paulatina em 50 anos e, posteriormente, tendo como base as ideias eugenistas, construir um processo de clarifica\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, na pele e no pensamento.\u00a0<\/p>\n<p>A continuidade desse projeto se expressa no genoc\u00eddio dos povos ind\u00edgenas e no exterm\u00ednio da juventude negra, mas tamb\u00e9m na infiltra\u00e7\u00e3o do pensamento euroc\u00eantrico e branco no modo com o qual a negritude vive a rela\u00e7\u00e3o com legado diasporico.\u00a0<\/p>\n<p>Uma m\u00fasica de Geraldo Filme retrata bem o que quero dizer: \u201choje negro vai \u00e0 missa (as in\u00fameras igrejas pentecostais) e chega sempre primeiro. O branco vai para a macumba e j\u00e1 \u00e9 bab\u00e1 de terreiro\u201d.<\/p>\n<p>Poderia at\u00e9 ser poss\u00edvel dizer que isso representa a diversidade religiosa e que n\u00e3o tem origem no \u201cmito da democracia racial\u201d. Por\u00e9m, seria a configura\u00e7\u00e3o uma nova roupagem do racismo. Ainda mais quando isso danifica a cosmovis\u00e3o de mundo preservada por esses povos.\u00a0<\/p>\n<p>Cabe lembrar que, durante o golpe midi\u00e1tico, jur\u00eddico e parlamentar de 2016, que culminou no impeachment de Dilma Rousseff (PT), o Congresso Nacional publicizou um discurso teocr\u00e1tico e de \u00f3dio, votando em nome \u201cde Deus e da Fam\u00edlia\u201d. Al\u00e9m da derrubada da presidenta em exerc\u00edcio, houve o desmantelamento de pol\u00edticas p\u00fablicas importantes, sobretudo as voltadas para popula\u00e7\u00e3o negra e ind\u00edgena.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Proteger a tradi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, \u00e9 necess\u00e1rio preocupar-se e proteger a tradi\u00e7\u00e3o incorporada nos livros-humanos antigos que vivem nos terreiros de Candombl\u00e9 tradicionais e que sabem o significado de uma quartinha com \u00e1gua. Sobretudo, as mulheres negras.<\/p>\n<p>:: Receba not\u00edcias de Minas Gerais no seu Whatsapp. Clique aqui ::<\/p>\n<p>Essas senhoras que exercem a pol\u00edtica contra colonial diariamente, ao balan\u00e7ar o adj\u00e1 na festa p\u00fablica do terreiro e no operacionalizar das fun\u00e7\u00f5es internas. Essas a\u00e7\u00f5es explicitam quem \u00e9 a autoridade, a palavra viva e o comando do matriarcado daquela comunidade.\u00a0<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, no atual contexto de redes sociais, cancelamentos e linchamentos virtuais, essas mulheres s\u00e3o postas como pessoas n\u00e3o pensantes, fr\u00e1geis ou manipuladas por figuras masculinas. Tamb\u00e9m podem ser descritas como mulheres raivosas e mal-educadas. Quando se usa a viseira da misoginia e do racismo, a dificuldade \u00e9 identific\u00e1-las como detentoras de autonomia, altivez, saberes e poderes.\u00a0<\/p>\n<p>Uma sociedade racista, patriarcal e de explora\u00e7\u00e3o de classe, como a brasileira, n\u00e3o estava preparada para conviver com uma mulher na inst\u00e2ncia m\u00e1xima da Rep\u00fablica, sem que ela se subordinasse ao Congresso Nacional, que historicamente \u00e9 ocupado por homens, h\u00e9teros e brancos.\u00a0<\/p>\n<p>Da mesma forma, na atualidade, a folcloriza\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o de matriz africana e a tentativa de esvaziamento do poder das mulheres negras dentro dessa tradi\u00e7\u00e3o, sobretudo das mais velhas, revela tempos obscuros, ainda que aparentemente democr\u00e1ticos.\u00a0<\/p>\n<p>Essa reflex\u00e3o \u00e9 fruto da \u00faltima atividade comunit\u00e1ria de 2024 realizada pelo terreiro Nzo Jindanji Kuna Nkos\u2019i com a reg\u00eancia de uma senhora negra na plenitude e sagacidade dos seus 70 anos. Nengua Monasanje \u00e9 matriarca, mestra popular da capital mineira e herdeira das ra\u00edzes de Nkos\u2019i.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Apontamentos<\/p>\n<p>Inspirada no senso comunit\u00e1rio desse per\u00edodo e pela for\u00e7a e leveza de Matamba, exponho alguns apontamentos para 2025. \u00c9 fundamental intensificar a nossa organiza\u00e7\u00e3o para acessar e construir pol\u00edticas p\u00fablicas, por meio de nossas institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas.\u00a0<\/p>\n<p>Essas pol\u00edticas devem proteger o patrim\u00f4nio material e o imaterial presente em cada nzo, al\u00e9m de garantir condi\u00e7\u00f5es dignas de vida nos territ\u00f3rios. Isso implica em democratizar o acesso aos editais p\u00fablicos e que eles sejam escritos a partir de uma linguagem popular.\u00a0<\/p>\n<p>Ou seja, \u00e9 necess\u00e1rio que as planilhas financeiras contemplem rubricas que permitam utilizar os insumos da tradi\u00e7\u00e3o, ter mais or\u00e7amento e desburocratizar as presta\u00e7\u00f5es de contas, inclusive substituindo-as por relat\u00f3rios de execu\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>A quest\u00e3o fundi\u00e1ria que nos atravessa desde 1850 com a Lei de Terras perpetuou a institucionaliza\u00e7\u00e3o do grande latif\u00fandio improdutivo, a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e a periferiza\u00e7\u00e3o, restringindo e impondo limites ao nosso modo de exist\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p>Essa deve ser uma preocupa\u00e7\u00e3o recorrente nos espa\u00e7os de reflex\u00e3o comunit\u00e1ria e no agenciamento com o Estado para a demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas, quilombolas e para fins de reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 preciso garantir linhas de cr\u00e9dito de financiamento p\u00fablicos, via bancos estatais, para reforma ou aquisi\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis, bem como outros bens dur\u00e1veis.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 essencial instruir a nossa juventude de terreiro para ocupar espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o formal e informal, de cursos livres e t\u00e9cnicos at\u00e9 universidades.\u00a0 Tamb\u00e9m precisamos fortalecer a nossa presen\u00e7a em conselhos deliberativos de controle social, bem como assegurar o respeito aos mais velhos na tradi\u00e7\u00e3o e nas institui\u00e7\u00f5es e fomentar a participa\u00e7\u00e3o e o apoio na pol\u00edtica representativa.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 crucial promover, incentivar e facilitar o interc\u00e2mbio entre espa\u00e7os de di\u00e1logo pol\u00edtico e tradicional que conectem os terreiros, os territ\u00f3rios e os movimentos populares.<\/p>\n<p>Por fim, outro aspecto priorit\u00e1rio \u00e9 construir uma comunica\u00e7\u00e3o eficaz, com uma est\u00e9tica negra que combata e denuncie a teocracia do Congresso Nacional, o preconceito, e o racismo religioso, refor\u00e7ando a valoriza\u00e7\u00e3o de nossas tradi\u00e7\u00f5es e identidades.<\/p>\n<p>2025, c\u00e1 te espero!\u00a0<\/p>\n<p><em><strong>Makota Kinanjenu<\/strong> \u00e9 presidenta da Associa\u00e7\u00e3o Sociocultural Nzo Jindanji Kuna Nkos\u2019i e pesquisadora do mestrado do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade Federal da Bahia (UFBA).\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>&#8212;<\/em><\/p>\n<p><em>Este \u00e9 um artigo de opini\u00e3o. A vis\u00e3o da autora n\u00e3o necessariamente expressa a linha editorial do jornal<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"editor\" rel=\"editor\" itemprop=\"editor\">Edi\u00e7\u00e3o: Ana Carolina Vasconcelos<\/p>\n<p><\/p><\/div>\n<div class=\"td-all-devices\"><a href=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/\"><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefatomg.com.br\/2024\/12\/18\/raizes-de-nkos-i-o-matriarcado-contra-os-retrocessos\">Fonte Original <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A forma\u00e7\u00e3o sociocultural, pol\u00edtica, econ\u00f4mica e ambiental brasileira \u00e9 estruturada a partir do racismo, da misoginia e da explora\u00e7\u00e3o de classes. 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