{"id":18442,"date":"2026-05-21T17:24:24","date_gmt":"2026-05-21T17:24:24","guid":{"rendered":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2026\/05\/21\/pesquisadora-discute-o-crescimento-do-interesse-de-jovens-brasileiros-por-carreiras-militares\/"},"modified":"2026-05-21T17:24:27","modified_gmt":"2026-05-21T17:24:27","slug":"pesquisadora-discute-o-crescimento-do-interesse-de-jovens-brasileiros-por-carreiras-militares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2026\/05\/21\/pesquisadora-discute-o-crescimento-do-interesse-de-jovens-brasileiros-por-carreiras-militares\/","title":{"rendered":"Pesquisadora discute o crescimento do interesse de jovens brasileiros por carreiras militares"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 que os jovens acham que ali v\u00e3o encontrar alegria, satisfa\u00e7\u00e3o, realiza\u00e7\u00e3o dos seus sonhos. Mas \u00e9 onde podem encontrar condi\u00e7\u00f5es de vida, de mobilidade social, que sejam mais coerentes com seus anseios para o futuro\u201d, explica a professora Val\u00e9ria Cristina de Oliveira.\u00a0<\/p>\n<p>Entrevistada do Vis\u00f5es Populares, a professora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE-UFMG) \u00e9 pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade e Seguran\u00e7a P\u00fablica e do N\u00facleo de Pesquisas em Desigualdades Escolares, e integra o time que realizou a pesquisa.<\/p>\n<p>Parte do projeto <em>Becoming or Getting By,<\/em> a an\u00e1lise comparativa entre as rodadas de pesquisa realizadas em 2021 e 2025 revelou crescimento significativo no interesse de jovens brasileiros por carreiras nas For\u00e7as Armadas e na Pol\u00edcia Militar. O estudo foi conduzido em uma parceria entre o <em>King\u2019s College London<\/em>, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a UFMG, e a <em>Sciences Po<\/em>. Oliveira\u00a0 comenta as poss\u00edveis explica\u00e7\u00f5es e consequ\u00eancias do fen\u00f4meno.\u00a0<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Confira a entrevista:<\/h4>\n<p><strong>Brasil de Fato MG \u2013 Como foram feitos esses estudos e qual foi a metodologia da an\u00e1lise?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Val\u00e9ria Cristina de Oliveira \u2013 <\/strong>A pesquisa \u00e9 coordenada pela professora Andressa Arusca, que hoje \u00e9 professora do <em>King\u2019s College, <\/em>em Londres e coordena um centro de estudo sobre o Brasil. Ela \u00e9 brasileira, mas est\u00e1 fazendo pesquisas sobre o Brasil na Europa h\u00e1 algum tempo. Em 2021, ela estava na Universidade de Oxford e, durante a pandemia de covid-19, se interessou pelo efeito da pandemia e das consequ\u00eancias da crise econ\u00f4mica, que estava se disseminando em fun\u00e7\u00e3o da crise sanit\u00e1ria, para os jovens, principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Considerando o contexto em que a nossa sociedade brasileira estava inclu\u00edda, em um governo que era muito mais pr\u00f3ximo de fun\u00e7\u00f5es militares, onde o presidente era tamb\u00e9m um egresso de uma carreira militar nas For\u00e7as Armadas, a hip\u00f3tese que ela levantou era de que havia uma tend\u00eancia dos jovens a se aproximarem dessas carreiras, seja como uma forma de se virar diante das impossibilidades de se inserir de maneira formal no mercado de trabalho, seja por uma proximidade ideol\u00f3gica dessas forma\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m inspira o nome do projeto: <em>Becoming or Getting By<\/em>, algo como \u201cse tornando ou se virando\u201d algu\u00e9m que seja de carreira militar. Ela trabalhava, \u00e0 \u00e9poca, em uma parceria com o professor Gabriel Feltran, que era professor da USP e que foi meu supervisor de p\u00f3s-doutorado. A partir dele, que era uma pessoa em comum, comecei a trabalhar junto.\u00a0<\/p>\n<p>Eu cheguei no projeto ainda em 2021 e foi quando realizamos essa primeira pesquisa. Depois que a pesquisa foi realizada, chegou tamb\u00e9m para somar com a gente o professor Dalson Figueiredo, que \u00e9 da Universidade Federal de Pernambuco, da ci\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>E a gente construiu esse grupo que no final do ano passado realizou o segundo estudo. A pesquisa \u00e9 amostral, com uma amostragem por cotas, que \u00e9 muito parecida com as amostras de pesquisas eleitorais, de jovens com idade entre 18 e 26 anos no Brasil. Foram 2.055 na primeira onda e 2.032 agora, nesta segunda coleta.<\/p>\n<p>As entrevistas s\u00e3o realizadas por telefone, de maneira a serem representativas da juventude no pa\u00eds. Ent\u00e3o, tem um equil\u00edbrio por sexo, uma composi\u00e7\u00e3o que representa, nos termos da classe socioecon\u00f4mica, uma distribui\u00e7\u00e3o parecida com a popula\u00e7\u00e3o brasileira. E tamb\u00e9m com uma propor\u00e7\u00e3o que se assemelha \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o da propor\u00e7\u00e3o do pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o regional.<\/p>\n<p>Essa pesquisa \u00e9 realizada a partir dessa metodologia quantitativa, com question\u00e1rio que tem itens fechados. As quest\u00f5es s\u00e3o fechadas, em que, al\u00e9m do interesse dos jovens por carreiras militares, a gente tamb\u00e9m faz quest\u00f5es socioecon\u00f4micas, sociodemogr\u00e1ficas, outras relacionadas \u00e0s atitudes, aos valores, escolaridade dos pais, uma s\u00e9rie de quest\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O estudo demonstra um crescimento no interesse por carreiras militares em praticamente todos os grupos analisados. O que isso indica para n\u00f3s?<\/strong><\/p>\n<p>A segunda rodada da pesquisa conta ainda somente com o relat\u00f3rio, que \u00e9 muito descritivo. J\u00e1 o primeiro trabalho, de 2021, tem uma publica\u00e7\u00e3o, um artigo aprovado e publicado em um peri\u00f3dico, no qual a gente tentou reunir diferentes vari\u00e1veis e aspectos associados a esse interesse e dizer algo.\u00a0<\/p>\n<p>Quando eu coloco tudo isso junto, o que ainda conta para explicar o interesse do jovem por seguir carreiras militares? Ele ser homem ou mulher, ser de qual regi\u00e3o do Brasil, os pais terem mais escolaridade ou menos escolaridade, ser mais conservador ou menos conservador, ser algu\u00e9m que estuda e trabalha ou n\u00e3o, ser um jovem que \u00e9 mais simp\u00e1tico \u00e0s carreiras militares\u00a0 (o que a gente j\u00e1 imaginava). Colocamos juntos todos esses fatores para tentar explicar o interesse dos jovens por seguir essas carreiras.<\/p>\n<p>Quando falamos de carreiras militares, \u00e9 importante destacar que temos duas perguntas. Uma para perguntar se ele se interessaria, j\u00e1 pensou ou consideraria ir para as For\u00e7as Armadas (Ex\u00e9rcito, Marinha e Aeron\u00e1utica); e uma outra pergunta em que repetimos a mesma quest\u00e3o a respeito da Pol\u00edcia Militar, como sendo a institui\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a p\u00fablica que mais se aproxima constitucionalmente, inclusive, das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p>Colocamos todas essas vari\u00e1veis para, juntas, tentar explicar esse interesse em modelos estat\u00edsticos que v\u00e3o combinar diferentes perfis e falar: \u201cOlha, a chance de encontrar algu\u00e9m interessado em carreiras militares com essas caracter\u00edsticas \u00e9 tanto\u201d. E o que chamou a nossa aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que, quando eu coloco todas essas vari\u00e1veis juntas para explicar esse interesse, duas coisas se destacam.<\/p>\n<p>A escolaridade dos pais, que usamos como uma medida indicadora do n\u00edvel socioecon\u00f4mico da fam\u00edlia, ou seja, quanto maior a escolaridade dos pais, em geral, menor o interesse desses jovens por seguir carreiras militares. Portanto, eu tenho uma quest\u00e3o econ\u00f4mica de fundo. Uma pergunta que n\u00f3s fizemos naquela primeira rodada tamb\u00e9m era se ele entendia que a covid-19 tinha afetado sua entrada no mercado de trabalho. Essa pergunta era uma pergunta importante tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, aspectos econ\u00f4micos estavam colocados.<\/p>\n<p>Contudo, tamb\u00e9m h\u00e1 quest\u00f5es no nosso instrumento de coleta de dados a respeito de posturas conservadoras. Ou seja, se ele \u00e9 um jovem que se sente mais pr\u00f3ximo de valores como \u201chomens trabalham, mulheres ficam em casa cuidando das crian\u00e7as\u201d. Temos um \u00edndice que combina essas respostas e o que aparecia l\u00e1 era que, quanto mais o jovem pontuava nessas perguntas, maior o seu interesse por essas carreiras. A ponto de que, mesmo entre aqueles com mais alta escolaridade, se ele era algu\u00e9m que tamb\u00e9m era muito conservador, ele continuava tendo um interesse maior por seguir essas carreiras.<\/p>\n<p>O que a gente observou desde a primeira onda e que agora, nas an\u00e1lises explorat\u00f3rias que a gente tem feito desse segundo banco de dados, continua observando, \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de uma necessidade de uma demanda material econ\u00f4mica com uma posi\u00e7\u00e3o mais conservadora.\u00a0<\/p>\n<p>Do ponto de vista material, essa nova vers\u00e3o traz, por exemplo, uma quest\u00e3o muito interessante, que \u00e9 o interesse e a disposi\u00e7\u00e3o desse jovem pelo empreendedorismo, por seguir trajet\u00f3rias que sejam distantes de um servi\u00e7o p\u00fablico com hor\u00e1rios r\u00edgidos e da carteira assinada.\u00a0<\/p>\n<p>E o que percebemos \u00e9 que esse percentual tamb\u00e9m \u00e9 alto, ou seja, tem um grupo que converge. Tem um tipo de jovem que se disp\u00f5e tanto a fazer concursos para seguir essas carreiras que s\u00e3o muito hier\u00e1rquicas, estruturadas, com disciplina, tudo isso que \u00e9 contr\u00e1rio ao empreendedorismo e, ao mesmo tempo, ele se sente \u00e0 vontade para dizer que tamb\u00e9m se interessa por uma carreira mais flex\u00edvel.\u00a0<\/p>\n<p>Do ponto de vista econ\u00f4mico, acreditamos que \u00e9 um crit\u00e9rio que continua valendo, e a aposta \u00e9 que esse dado do empreendedorismo tamb\u00e9m mostra isso. Por outro lado, continua existindo essa maior associa\u00e7\u00e3o com as posi\u00e7\u00f5es mais conservadoras. Acho que as duas coisas se combinam para explicar um pouco como esse resultado se apresenta.<\/p>\n<p>Agora, quando olhamos o crescimento, temos apostas, j\u00e1 que n\u00e3o d\u00e1 para dizer cravado o que explica o crescimento. Eu acho que temos passado, ao longo dos \u00faltimos anos no Brasil, por uma cada vez maior populariza\u00e7\u00e3o da discuss\u00e3o sobre essas carreiras e at\u00e9 uma polariza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, com uma parcela da popula\u00e7\u00e3o muito simp\u00e1tica, outra muito menos simp\u00e1tica. As pessoas n\u00e3o v\u00e3o passar ilesas a essa discuss\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o d\u00e1 para dizer que a popula\u00e7\u00e3o brasileira confia cada vez mais nessas institui\u00e7\u00f5es. Temos pesquisas internacionais que fazem coleta de dados sobre confian\u00e7a institucional e que tem mostrado que o Brasil, ao longo dos anos, teve um crescimento da confian\u00e7a nas For\u00e7as Armadas, mas nas \u00faltimas duas edi\u00e7\u00f5es essa confian\u00e7a diminuiu, de 2019 para 2023.\u00a0<\/p>\n<p>Isso explica em parte, mas n\u00e3o explica tudo. A gente tem uma populariza\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas, da seguran\u00e7a p\u00fablica, do debate sobre seguran\u00e7a p\u00fablica, como um debate presente na sociedade. Ent\u00e3o, claro, isso explica que eventualmente um jovem ou a pessoa que, na mesma idade, antes ouvia muito pouco falar sobre essas carreiras, hoje tem ouvido falar cada vez mais.\u00a0<\/p>\n<p>Mas, na contraparte, temos tido menos oportunidades tamb\u00e9m de boas carreiras, bons v\u00ednculos no servi\u00e7o p\u00fablico; os concursos n\u00e3o pagam t\u00e3o bem. Por isso a gente sempre trouxe a Pol\u00edcia Militar, porque ela \u00e9 mais popular do que as demais. Ent\u00e3o, eu acho que tem um pouco desse conjunto de fatores explicando.<\/p>\n<p><strong>Temos visto uma melhora nos \u00edndices econ\u00f4micos e de desemprego no Brasil nos \u00faltimos quatro anos. Ainda assim, o interesse por carreiras militares cresceu. Como podemos explicar isso?\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ainda estamos tentando descobrir os motivos, as raz\u00f5es. Mas eu acho que h\u00e1 essa sensa\u00e7\u00e3o de que os indicadores econ\u00f4micos melhoram, mas n\u00e3o necessariamente s\u00e3o sentidos pela popula\u00e7\u00e3o da mesma maneira. Tem bastante a ver com a mudan\u00e7a da estrutura do mercado de trabalho e do modo como a juventude v\u00ea o trabalho.\u00a0<\/p>\n<p>Qual o tipo de carreira, qual o tipo de v\u00ednculo que me interessa? Quais s\u00e3o as caracter\u00edsticas desse trabalho? Eu acho que a renda \u00e9 um fator essencial, n\u00e3o podemos desconsiderar, mas deve haver uma curva \u00f3tima entre o custo-benef\u00edcio de se vincular a uma carreira que te demanda uma dedica\u00e7\u00e3o exclusiva, que \u00e9 o que acontece no caso de um concurso p\u00fablico como esse.\u00a0<\/p>\n<p>Se a gente precisasse comparar a popularidade desses concursos em carreiras militares com outros concursos, talvez eles continuem ganhando e at\u00e9 aumentando o interesse por eles, porque o custo-benef\u00edcio deles ainda \u00e9 mais positivo.\u00a0<\/p>\n<p>Quando colocamos na balan\u00e7a, ainda \u00e9 melhor se dedicar, se for para se dedicar a uma institui\u00e7\u00e3o que vai demandar que eu tenha uma dedica\u00e7\u00e3o exclusiva, que ela me oferece outras possibilidades que tamb\u00e9m s\u00e3o muito valiosas. A gente v\u00ea isso na pesquisa, porque tem algumas quest\u00f5es a respeito do plano de carreira, da estabilidade, das possibilidades de voc\u00ea entrar em planos de financiamento de im\u00f3veis, de habita\u00e7\u00e3o. Acredito que essa \u00e9 uma quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa carreira formal e est\u00e1vel no servi\u00e7o p\u00fablico, como essas que s\u00e3o oferecidas pelas carreiras militares, destaca-se em rela\u00e7\u00e3o a outras possibilidades de formaliza\u00e7\u00e3o. Por que o interesse por elas cresce, ainda que em um contexto de melhora dos indicadores econ\u00f4micos, e esse interesse n\u00e3o se reflete no interesse por outras carreiras? Porque as oportunidades, as posi\u00e7\u00f5es de trabalho que se abrem, talvez n\u00e3o sejam t\u00e3o atrativas quanto essas representadas por essas carreiras.\u00a0<\/p>\n<p>Em termos de concurso p\u00fablico, a gente geralmente n\u00e3o t\u00eam equivalentes. Por exemplo, a doc\u00eancia talvez seja, nos estados, a que est\u00e1 em uma posi\u00e7\u00e3o parecida, mas tem uma s\u00e9rie de outros fatores que fazem com que seja uma carreira vista como cada vez mais desafiadora. Seja pelas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, pelas dificuldades que se vive na escola, pelas quest\u00f5es de infraestrutura.\u00a0<\/p>\n<p>Por outro lado, temos poucas outras possibilidades de carreiras para um grupo menos especializado, que \u00e9 esse da juventude ainda pouco formada. E no mercado formal, mas que n\u00e3o \u00e9 o servi\u00e7o p\u00fablico, as posi\u00e7\u00f5es n\u00e3o pagam tanto.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, acho que, diante de um certo c\u00e1lculo, uma certa leitura do cen\u00e1rio, o que interessa? Eu deixo de valorizar uma l\u00f3gica mais empreendedora, a troco de qu\u00ea? Talvez a troco de algo que seja realmente est\u00e1vel, que realmente retorne respeito, autoridade, e n\u00e3o necessariamente para uma posi\u00e7\u00e3o de trabalho que vai me demandar muitas horas, uma dedica\u00e7\u00e3o de 40 horas com retorno financeiro e de tempo pequeno.<\/p>\n<p>Eu acho que essa conta pode explicar um pouco dessa percep\u00e7\u00e3o ou dessa ideia de que tem um desarranjo entre essa l\u00f3gica de melhora econ\u00f4mica. Por um lado, e, por outro, as pessoas valorizando o empreendedorismo e, ao mesmo tempo, uma carreira t\u00e3o fixa, t\u00e3o estruturada, quanto a das For\u00e7as Armadas ou da pol\u00edcia.<\/p>\n<p><strong>Entre os grupos analisados, os jovens evang\u00e9licos apresentaram os maiores n\u00edveis proporcionais de interesse em 2025, embora outras religiosidades tamb\u00e9m tenham apresentado aumento. Como a religi\u00e3o influencia nisso?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que a religi\u00e3o \u00e9 um elemento interessante porque, principalmente entre os evang\u00e9licos, o cristianismo, de certa maneira, aproxima-se um pouco mais dessas vis\u00f5es mais conservadoras. Ent\u00e3o, a gente poderia seguir uma explica\u00e7\u00e3o que vai nesse caminho, nessa dire\u00e7\u00e3o, de tentar falar: \u201colha, se a gente tem uma maior proximidade dessas vis\u00f5es mais conservadoras com o interesse nas carreiras militares, a gente tamb\u00e9m podia explicar isso pelo caminho da religi\u00e3o\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Mas eu realmente n\u00e3o acho que seja um dos fatores mais significativos. Eu acho que as diferen\u00e7as entre as distintas religi\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o grandes a ponto de explicar por essa via esse maior interesse. Porque quando eu olho para gr\u00e1ficos como esses, que s\u00e3o de an\u00e1lise de duas vari\u00e1veis, a gente tem uma s\u00e9rie de outras coisas que ajudam a explicar as caracter\u00edsticas daquele cruzamento, daquele perfil.<\/p>\n<p>Eu acho que a religi\u00e3o aparece a\u00ed como sendo algo que concentra maior interesse porque se relaciona com uma postura mais conservadora, e n\u00e3o necessariamente pela religiosidade em si. Eu iria mais por esse caminho de existir uma associa\u00e7\u00e3o com uma l\u00f3gica mais ou menos conservadora e, por conta disso, talvez ela nem se sustente como uma grande explica\u00e7\u00e3o, se a gente colocasse em di\u00e1logo essas duas vari\u00e1veis.\u00a0<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que um jovem sem religi\u00e3o, mas que \u00e9 t\u00e3o conservador quanto o outro religioso, tamb\u00e9m n\u00e3o teria um interesse maior? Eu acredito que talvez sim. Agora, tem uma vari\u00e1vel que \u00e9 importante e da qual eu n\u00e3o falei antes, que \u00e9 uma pergunta que a gente tamb\u00e9m faz: se ele est\u00e1 estudando e se ele est\u00e1 trabalhando. A gente consegue compor o perfil \u201cnem-nem\u201d, o perfil daquele que nem estuda e nem trabalha. E o que a gente observa \u00e9 que esse que nem estuda e nem trabalha, em geral, t\u00eam menos interesse por essas carreiras.\u00a0<\/p>\n<p>O que pode parecer um pouco estranho, mas eu acredito que existe, na pessoa que se interessa por esse tipo de carreira, algum tipo de mobiliza\u00e7\u00e3o ou de disposi\u00e7\u00e3o para estudar. Ela sabe que \u00e9 um concurso p\u00fablico, sabe que vai ser preciso concorrer com outros perfis, ent\u00e3o talvez isso ajude a explicar um pouco porque esse perfil que n\u00e3o estuda e nem trabalha acaba sendo um perfil menos atra\u00eddo para essas carreiras militares, ainda que haja tamb\u00e9m o n\u00edvel socioecon\u00f4mico escolar dos pais como uma vari\u00e1vel explicativa correlacionada.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitas as possibilidades. Um pr\u00f3ximo passo importante da pesquisa \u00e9 fazer estudos qualitativos para a gente entender um pouco mais daqueles que se interessam por essas carreiras, dos motivos que eles apontam. Porque a gente aqui est\u00e1 tentando, do ponto de vista estat\u00edstico e matem\u00e1tico, fazer as correla\u00e7\u00f5es e as associa\u00e7\u00f5es, mas vai ser legal ouvir os jovens e saber um pouco de como eles constroem esse interesse por esse tipo de carreira.<\/p>\n<p><strong>A seguran\u00e7a tem ganhado enorme visibilidade p\u00fablica. Por outro lado, entendemos que os policiais e agentes de seguran\u00e7a no Brasil est\u00e3o entre os que mais matam e morrem. Na sua opini\u00e3o, esse cen\u00e1rio impacta a procura por carreiras na \u00e1rea de seguran\u00e7a?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que essa quest\u00e3o \u00e9 das mais graves que a gente tem, principalmente se tomamos como refer\u00eancia os jovens negros residentes em periferias, em \u00e1reas pobres da cidade. Essas s\u00e3o as principais v\u00edtimas dessa viol\u00eancia policial que se apresenta de v\u00e1rias maneiras: na abordagem policial no cotidiano, nas opera\u00e7\u00f5es policiais, nas \u00e1reas onde voc\u00ea tem atua\u00e7\u00e3o de grupos armados, etc. Em todos esses cen\u00e1rios, essa popula\u00e7\u00e3o de que estamos conversando aqui \u00e9 a popula\u00e7\u00e3o-alvo, infelizmente.<\/p>\n<p>Contudo, podemos voltar um pouco at\u00e9 as origens da pesquisa. Quando a professora Andressa convidou o professor Gabriel Feltran para participar do estudo, e foi assim que a gente se encontrou, quando eu fui fazer p\u00f3s-doc em S\u00e3o Paulo, era uma pesquisa de campo em uma \u00e1rea de favela que eu estava propondo. Ele j\u00e1 fazia, \u00e0quela \u00e9poca, pesquisa etnogr\u00e1fica h\u00e1 anos na zona leste de S\u00e3o Paulo, pesquisa essa que rendeu muito trabalho, muita publica\u00e7\u00e3o, muitos livros.\u00a0<\/p>\n<p>Uma coisa que chamou a aten\u00e7\u00e3o do Gabriel para esta pesquisa aqui \u00e9 que ele j\u00e1 percebia isso na periferia onde fazia a pesquisa. Era uma \u00e1rea onde a viol\u00eancia institucional e a viol\u00eancia policial atingiam jovens, negros e pobres, mas, ainda assim, entre eles havia muitos que queriam seguir carreiras militares. Eles viam essas carreiras como sendo uma possibilidade de mudan\u00e7a, de mobilidade social.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu n\u00e3o acho que s\u00e3o coisas antag\u00f4nicas. Se voc\u00ea \u00e9 um jovem da periferia que observa esse ator, nessa busca por reconhecimento, por ser visto pela sociedade, pela comunidade, como algu\u00e9m que tem valor, algu\u00e9m que produz, faz algo que \u00e9 leg\u00edtimo. Some-se a isso o fato de que ali a gente tem uma dificuldade muito grande de pensar em boas possibilidades de trabalho que remunerem, que garantam uma vida digna, que garantam um tempo de lazer.\u00a0<\/p>\n<p>Para mim, est\u00e1 posto que, em algumas situa\u00e7\u00f5es, essa pode ser vista como uma carreira poss\u00edvel. \u00c9 como se fosse poss\u00edvel fazer uma distin\u00e7\u00e3o: \u201cn\u00e3o, eu vou me comportar bem, eu vou estar dentro de uma institui\u00e7\u00e3o que vai me proteger. Eu vou ser uma pessoa que n\u00e3o vou produzir esse tipo de viol\u00eancia\u201d, ainda que em alguma medida tamb\u00e9m produza.\u00a0<\/p>\n<p>Porque quem mata e morre s\u00e3o esses policiais e os pra\u00e7as s\u00e3o os que morrem muito, que em geral s\u00e3o esses jovens que entraram h\u00e1 pouco tempo, tamb\u00e9m v\u00eam de fam\u00edlias de baixo n\u00edvel socioecon\u00f4mico, mas ainda assim eles encontram dentro dessa institui\u00e7\u00e3o um modelo, uma forma de mobilidade social que n\u00e3o \u00e9 frequente em outros campos, que n\u00e3o est\u00e1 aberta em outras institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o da pol\u00edcia e da rela\u00e7\u00e3o que eles t\u00eam com a ra\u00e7a e com a viol\u00eancia que praticam, com o racismo institucional, que eu acho que \u00e9 um aspecto que se liga muito a esse da viol\u00eancia, \u00e9 muito curiosa. Eu participava de um grupo de trabalho sobre racismo institucional, viol\u00eancia policial e institui\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito do Minist\u00e9rio P\u00fablico aqui em Minas Gerais. Eu me lembro de estar participando de uma reuni\u00e3o com um comandante da pol\u00edcia, ele estava no n\u00edvel intermedi\u00e1rio, era um oficial, e estava acompanhado de algu\u00e9m de um n\u00edvel mais baixo, que era uma pessoa negra.\u00a0<\/p>\n<p>E os dois, muito enfaticamente, diziam: \u201ccomo a gente pode dizer que a Pol\u00edcia Militar \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o racista, se ela \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o t\u00e3o negra? Uma das institui\u00e7\u00f5es no servi\u00e7o p\u00fablico com maior propor\u00e7\u00e3o de profissionais negros\u201d. E ele n\u00e3o mente, \u00e9 verdade. S\u00f3 que \u00e9 diferente: uma coisa \u00e9 reconhecer que quem \u00e9 visto como elemento suspeito \u00e9 uma pessoa negra e uma pessoa pobre; outra \u00e9 ser essa pessoa depois que voc\u00ea faz parte da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu acho que esse imagin\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o e do jovem a respeito do que \u00e9 a seguran\u00e7a p\u00fablica se forma nesse caldo de cultura da sociedade que coloca essas carreiras como sendo ora aqueles profissionais que podem promover algum tipo de agress\u00e3o contra voc\u00ea, porque voc\u00ea est\u00e1 no lugar errado na hora errada; mas tamb\u00e9m como aqueles que t\u00eam um plano de carreira bacana, que t\u00eam um suporte de moradia, que v\u00e3o poder ser reconhecidos, que t\u00eam o orgulho de estar dentro da institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse cen\u00e1rio que esses interesses v\u00e3o se construindo.<\/p>\n<p><strong>Recentemente n\u00f3s tivemos, pela primeira vez no nosso pa\u00eds, a condena\u00e7\u00e3o de uma c\u00fapula militar por tentativa de golpe. Que impacto todo esse cen\u00e1rio golpista teve neste interesse?<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o acho que fa\u00e7a de maneira direta. Eu acho que existe uma vis\u00e3o muito mais instrumental do que \u00e9 o meu futuro e por onde eu vou seguir essa carreira do que necessariamente uma leitura de que essas institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais ou menos golpistas.\u00a0<\/p>\n<p>Tem um exemplo interessante disso: como em alguns cen\u00e1rios a gente v\u00ea e agora falando mais da educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o raros os casos de profissionais da educa\u00e7\u00e3o que s\u00e3o favor\u00e1veis \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o das escolas. Mesmo reconhecendo os efeitos nocivos de uma l\u00f3gica pouco democr\u00e1tica dentro de uma institui\u00e7\u00e3o escolar, \u00e0s vezes at\u00e9 para o pr\u00f3prio trabalho.<\/p>\n<p>Contudo, considerando o modo como esse tipo de modelo \u00e9 lido como sendo importante para a disciplina dentro da escola, podemos encontrar apoios vindo de lugares onde n\u00e3o imaginava. Eu vi isso em alguns contextos de pesquisa, o professor fala: \u201cn\u00e3o, aqui a gente sofre tanto com indisciplina que n\u00e3o me surpreende que uma colega apoie esse tipo de interven\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Mais que isso, falando de um outro lugar de pesquisa tamb\u00e9m, temos trabalhos publicados falando disso: quando voc\u00ea conversa com os gestores sobre como administram os problemas de viol\u00eancia e de conviv\u00eancia na escola, s\u00e3o muitos os casos de indica\u00e7\u00e3o de que chamam a pol\u00edcia para coisas que s\u00e3o absolutamente disciplinares, que n\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es de seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>Mesmo que j\u00e1 seja extremamente conhecido o fato de que a pol\u00edcia atua de uma forma violenta e agressiva, principalmente contra jovens em espa\u00e7os de periferia. N\u00e3o estou dizendo que isso acontece sempre, e tenho muito respeito pela institui\u00e7\u00e3o e pelos profissionais da \u00e1rea, mas o senso comum te levaria a pensar nisso.\u00a0<\/p>\n<p>Se eu sou professor, sou diretor de uma escola em uma favela e aconteceu uma indisciplina, e eu decido chamar a pol\u00edcia, tem muitas chances de se tornar um caso de viol\u00eancia praticada contra esse jovem dentro ou nos arredores da institui\u00e7\u00e3o.\u00a0 Contudo, existe uma leitura t\u00e3o forte de: \u201cah, eu n\u00e3o tenho o que fazer\u201d, um cansa\u00e7o, um certo mal-estar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condutas, que isso acaba virando uma possibilidade.\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ainda que haja essa percep\u00e7\u00e3o de que esse tipo de coisa acontece e que a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja, como outras pesquisas de opini\u00e3o j\u00e1 mostraram, favor\u00e1vel ao golpe ou a tudo o que ocorreu em 8 de janeiro e antes, ainda assim, eu n\u00e3o acho que isso seja um impedimento para que encontremos jovens que considerem essas carreiras como uma possibilidade de mobilidade social e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Em um dos gr\u00e1ficos da pesquisa, temos a descri\u00e7\u00e3o de frases sobre as carreiras militares. A vari\u00e1vel de maior concord\u00e2ncia \u00e9: \u201co suporte e alimenta\u00e7\u00e3o de uma carreira militar \u00e9 importante\u201d. Logo em seguida: \u201co suporte de moradia da carreira militar \u00e9 importante\u201d, com 49% concordando totalmente com o primeiro e 47% concordando totalmente com o segundo. Desses itens, o que aparece l\u00e1 embaixo, onde h\u00e1 menos concord\u00e2ncia e mais diverg\u00eancia, \u00e9: \u201ctrabalhar em uma carreira militar traz felicidade e realiza\u00e7\u00e3o\u201d. S\u00f3 25% concordam totalmente.<\/p>\n<p>Ou seja, n\u00e3o \u00e9 que eu acho que ali eu vou encontrar alegria, satisfa\u00e7\u00e3o ou a realiza\u00e7\u00e3o dos meus sonhos. Mas \u00e9 onde eu vou encontrar condi\u00e7\u00f5es de vida e de mobilidade que sejam mais coerentes com meus anseios para o futuro. E basta ver que as carreiras est\u00e3o cada vez mais valorizadas.\u00a0<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, a Pol\u00edcia Militar se tornou uma institui\u00e7\u00e3o com um plano de carreira excelente. Houve uma greve nos anos 90 que foi essencial para que houvesse uma reformula\u00e7\u00e3o do plano de carreira da institui\u00e7\u00e3o e, a partir da\u00ed, \u00e9 muito claro quais s\u00e3o os passos para que algu\u00e9m que entra ali como soldado v\u00e1 galgando posi\u00e7\u00f5es,\u00a0 \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo, \u00e9 muito transparente como se d\u00e1.\u00a0<\/p>\n<p>E \u00e9 uma carreira que, desde o come\u00e7o, oferece apoio de sa\u00fade, um plano de sa\u00fade de qualidade, um hospital pr\u00f3prio. Tudo isso \u00e9 muito visto no bairro: \u201cah, n\u00e3o, o meu colega mora aqui tamb\u00e9m, mas o pai dele \u00e9 da Pol\u00edcia Militar. Ent\u00e3o ele n\u00e3o est\u00e1 no SUS, ele tem um hospital, ele tem um plano de sa\u00fade melhor\u201d. Eu acho que isso tudo vai participando desse mesmo imagin\u00e1rio, junto com todos esses outros fatores. Elas n\u00e3o s\u00e3o exatamente contradit\u00f3rias, porque tudo isso comp\u00f5e um processo de escolha.<\/p>\n<p><strong>Na sua opini\u00e3o, o que a pesquisa pode nos dizer sobre o cen\u00e1rio do Estado democr\u00e1tico de direito no Brasil e sobre a legitimidade que a democracia, como modelo pol\u00edtico, tem entre os jovens?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eu acredito que a\u00ed temos talvez uma oportunidade. O resultado dessa pesquisa pode ser lido como o copo meio cheio ou o copo meio vazio. Eu acho que tem uma coisa bem interessante como oportunidade: se ele se interessa por empreendedorismo, se ele n\u00e3o acha que a carreira militar \u00e9 o lugar de ser feliz e de se realizar, se ele est\u00e1 vendo esse tipo de sa\u00edda como uma sa\u00edda economicamente importante, quer dizer tamb\u00e9m que, se ele tiver outras sa\u00eddas econ\u00f4micas t\u00e3o interessantes quanto, ele vai seguir essas outras sa\u00eddas.\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, acho que esse \u00e9 um primeiro ponto. Eu acredito que quanto mais possibilidades o jovem tiver, melhor. E que todas elas sejam possibilidades que garantam para ele vida boa, vida com dignidade, vida plena, moradia, alimenta\u00e7\u00e3o, sal\u00e1rio, tempo de descanso. Tudo isso \u00e9 importante. Se a gente tivesse um portf\u00f3lio com mais carreiras conhecidas e valorizadas, eu tenho certeza de que talvez n\u00e3o ter\u00edamos um percentual t\u00e3o elevado de interesse por essas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um primeiro passo, precisamos retomar a preocupa\u00e7\u00e3o com o tema do trabalho, n\u00e3o s\u00f3 da rela\u00e7\u00e3o entre forma\u00e7\u00e3o e trabalho, mas escolariza\u00e7\u00e3o, manter os jovens em forma\u00e7\u00e3o. Isso s\u00e3o coisas importantes e eu acho que essa pesquisa reflete isso de outra maneira.\u00a0<\/p>\n<p>Por outro lado, acho que a gente tem que pensar no seguinte: esses jovens veem hoje essas institui\u00e7\u00f5es como uma porta de entrada para uma mobilidade social, mas a gente sabe que o processo de forma\u00e7\u00e3o nessas carreiras \u00e9 um processo intenso, duro e que direciona a conduta para uma forma espec\u00edfica de rela\u00e7\u00e3o com a sociedade. Em uma l\u00f3gica que \u00e9 distante, eventualmente muito militarizada no sentido de seguran\u00e7a nacional, muito mais que de seguran\u00e7a p\u00fablica; muito menos de preven\u00e7\u00e3o e muito mais de defesa.\u00a0<\/p>\n<p>Eu acredito que o que a gente tem aqui \u00e9 um perfil espec\u00edfico que vai se direcionar por conta de uma proximidade ideol\u00f3gica com esse tipo de modelo. Mas a institui\u00e7\u00e3o transforma, ela constr\u00f3i um modelo de ser e de estar no mundo, uma vis\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao mundo. Essa forma\u00e7\u00e3o pode se desenvolver tamb\u00e9m em um terreno que pode, em alguns casos, ser bastante fertil para isso, porque se j\u00e1 \u00e9 algu\u00e9m que tem uma posi\u00e7\u00e3o mais conservadora, facilmente vai aderir a esses ideais.\u00a0<\/p>\n<p>Mas tem um outro grupo que n\u00e3o, que est\u00e1 ali em fun\u00e7\u00e3o da necessidade, do modo como aquela carreira se coloca como uma oportunidade. Ent\u00e3o, o processo de forma\u00e7\u00e3o pode ser tamb\u00e9m uma oportunidade de construir um modelo de seguran\u00e7a p\u00fablica e de atua\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas que seja mais pr\u00f3ximo de uma l\u00f3gica em que a gente n\u00e3o est\u00e1 o tempo inteiro em guerra, em que n\u00e3o est\u00e1 o tempo inteiro em conflito. O processo de forma\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo importante; n\u00e3o est\u00e1 tudo perdido. N\u00e3o \u00e9 todo mundo que entra l\u00e1 que est\u00e1 entendendo que a gente precisa viver em um estado de guerra permanente.<\/p>\n<p>Como a gente vai conseguir oportunizar forma\u00e7\u00e3o? O foco da pol\u00edtica p\u00fablica hoje no ensino m\u00e9dio, de pensar estrat\u00e9gias de escolariza\u00e7\u00e3o e no acesso ao ensino superior, s\u00e3o todas formas importantes de pensar nisso, para que essas carreiras sejam uma entre outras muitas possibilidades. E, por outro lado, n\u00e3o deixar a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o inicial desses profissionais como sendo um lugar onde a gente talvez ainda tenha algum tipo de oportunidade.\u00a0<\/p>\n<p>Enfim, \u00e9 um desafio, porque se gastou muito dinheiro em algum momento com forma\u00e7\u00e3o de profissionais da defesa e da seguran\u00e7a p\u00fablica e n\u00e3o necessariamente tivemos o retorno que se esperava, mas eu n\u00e3o acho que seja o caso de abandonar essa frente de trabalho. Acho que a gente podia caminhar por ela.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><script src=\"https:\/\/connect.facebook.net\/pt_BR\/sdk.js\" id=\"facebook-embed-js\"><\/script><\/p>\n<div class=\"td-all-devices\"><a href=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/\"><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/podcast\/visoespopulares\/2026\/05\/21\/pesquisadora-discute-o-crescimento-do-interesse-de-jovens-brasileiros-por-carreiras-militares\/\">Fonte Original <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 que os jovens acham que ali v\u00e3o encontrar alegria, satisfa\u00e7\u00e3o, realiza\u00e7\u00e3o dos seus sonhos. 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