{"id":18323,"date":"2026-05-16T17:24:17","date_gmt":"2026-05-16T17:24:17","guid":{"rendered":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2026\/05\/16\/as-eleicoes-de-2026-e-o-novo-capitalismo-politico-brasileiro\/"},"modified":"2026-05-16T17:24:19","modified_gmt":"2026-05-16T17:24:19","slug":"as-eleicoes-de-2026-e-o-novo-capitalismo-politico-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2026\/05\/16\/as-eleicoes-de-2026-e-o-novo-capitalismo-politico-brasileiro\/","title":{"rendered":"As elei\u00e7\u00f5es de 2026 e o novo capitalismo pol\u00edtico brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>A frente ampla, os dois blocos de conjuntura e a necessidade de uma ofensiva imediata<\/strong><\/h4>\n<p>No Brasil de hoje, existem motivos de sobra para a constru\u00e7\u00e3o de uma frente ampl\u00edssima pela elei\u00e7\u00e3o de Lula \u2013 o \u00fanico candidato democr\u00e1tico vi\u00e1vel que representa o campo progressista brasileiro. Isso porque o infort\u00fanio da vit\u00f3ria da extrema direita significaria, mais do que uma simples vit\u00f3ria eleitoral, o passo decisivo para uma mudan\u00e7a do regime pol\u00edtico brasileiro. <\/p>\n<p>N\u00e3o se pode negar transpar\u00eancia ao programa de governo de Fl\u00e1vio Bolsonaro. Os bolsonaristas n\u00e3o escondem de ningu\u00e9m. O programa cont\u00e9m apenas tr\u00eas pontos \u2013 subir a rampa do Pal\u00e1cio do Planalto abra\u00e7ado com o pai, submeter o Judici\u00e1rio (j\u00e1 o jogo parlamentar do Legislativo, como vimos no Bolsonaro I, tem sido sempre de adapta\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o) e entregar as terras raras e demais riquezas para os Estados Unidos. Simples (e complexo) assim. Est\u00e1 se vendo que este \u201cTrump II\u201d \u00e9 muito mais radical que o primeiro. Imaginem o Bolsonarinho I, herdeiro do pai. Este \u00e9 o impasse brasileiro e, por isso, a frente ampla continua decisiva.<\/p>\n<p>Para compreender a profundidade do momento, por\u00e9m, \u00e9 preciso ir al\u00e9m das an\u00e1lises superficiais que ainda dominam o debate p\u00fablico. \u00c9 uma quimera falar em cinco governos do PT como se fossem uma sequ\u00eancia de continuidade ininterrupta. Houve uma ruptura fundamental com a deposi\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff, de modo que temos, por assim dizer, dois blocos de conjuntura distintos. <\/p>\n<p>O primeiro bloco compreende os dois primeiros governos Lula e o primeiro governo Dilma \u2013 um per\u00edodo marcado pela hegemonia da burguesia industrial e do mercado financeiro e banc\u00e1rio tradicional, ainda sob os ecos da estabiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria e da inser\u00e7\u00e3o externa virtuosa. O segundo mandato de Dilma, muito curto e j\u00e1 sob forte tens\u00e3o pol\u00edtica, foi menos um bloco coeso do que uma transi\u00e7\u00e3o conturbada. O que chamamos de \u201cLula tr\u00eas\u201d \u2013 o atual governo \u2013 abre, assim, um terceiro bloco, radicalmente distinto dos anteriores.<\/p>\n<p>Desde o impeachment de Dilma (2016), abriu-se no Brasil uma grave crise institucional e pol\u00edtica que nunca foi resolvida. Essa crise n\u00e3o \u00e9 apenas conjuntural, mas estrutural. Antes, a hegemonia no bloco de poder das classes dominantes era compartilhada entre a burguesia industrial e o mercado financeiro tradicional. Hoje, essa hegemonia \u2013 embora o processo ainda n\u00e3o esteja completo \u2013 \u00e9 agrofinanceira, com supremacia do rentismo e do financismo das fintechs. \u00c9 por essas novas brechas financeiras que entram a grana ilegal do centr\u00e3o e a acumula\u00e7\u00e3o primitiva do crime organizado, num imbricamento cada vez mais dif\u00edcil de desfazer. O centr\u00e3o, nesse contexto, n\u00e3o \u00e9 mero fiador da governabilidade: ele est\u00e1 adequando a superestrutura \u00e0 estrutura, refundando o Estado por baixo, na ponta do or\u00e7amento e das emendas. \u00c9 plenamente poss\u00edvel vencer a elei\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 preciso entender o jogo que est\u00e1 sendo jogado \u2013 e ele n\u00e3o \u00e9 o mesmo de 2002, 2006 ou mesmo 2014.<\/p>\n<p>Contrariando os mitos ainda vigentes na m\u00eddia brasileira, que formata o senso comum de muita gente intelectualizada, a extrema direita come\u00e7a a ficar na defensiva no plano internacional. Donald Trump est\u00e1 em queda livre, com apenas 34% de apoio; Milei oscila pelas tabelas, sem conseguir consolidar o choque que prometera; Orb\u00e1n retorna desmoralizado para casa ap\u00f3s sucessivos reveses na Uni\u00e3o Europeia; e o candidato de Gustavo Petro, Juan Fernando Cepeda, na Col\u00f4mbia, mant\u00e9m folgada vantagem nas pesquisas. Onde foi parar o mito de que a extrema direita cresce inexoravelmente no mundo? Ao contr\u00e1rio, h\u00e1 sinais claros de esgotamento. <\/p>\n<p>Outro mito recorrente \u00e9 que a \u201cgera\u00e7\u00e3o Z\u201d \u2013 nomenclatura que n\u00e3o \u00e9 neutra \u2013 teria aderido em massa \u00e0 extrema direita. Falso como uma nota de tr\u00eas reais, basta ver as recentes manifesta\u00e7\u00f5es estudantis da USP. A juventude quer rumos, decis\u00e3o e coragem. Aprecia teoria e forma\u00e7\u00e3o. Detesta paternalismos e discursos prontos. O que falta n\u00e3o \u00e9 capturar a juventude com slogans, mas oferecer a ela um projeto de futuro digno desse nome.<\/p>\n<p>No Brasil, o governo precisa agir r\u00e1pido e forte. Existe boa perspectiva, o que antes n\u00e3o havia, nas chapas estaduais em S\u00e3o Paulo e no Rio Grande do Sul \u2013 dois estados estrat\u00e9gicos para qualquer projeto nacional. O Nordeste continua bem posicionado eleitoralmente, mantendo-se como o principal colch\u00e3o de votos do campo progressista. O lulismo, ou seja, a rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e material com os mais pobres, se sofreu algum abalo nos \u00faltimos meses, continua firme e de p\u00e9. Mas falta agir rapidamente em duas frentes. A primeira \u00e9 econ\u00f4mico-social: tomar medidas concretas contra a carestia e o endividamento das fam\u00edlias. A segunda \u00e9 pol\u00edtico-estrat\u00e9gica: retomar sem covardia a quest\u00e3o nacional e a cr\u00edtica ao imperialismo dos Estados Unidos, em vez de refugiar-se numa neutralidade que s\u00f3 beneficia a direita.<\/p>\n<p>Mais do que isso, por\u00e9m, \u00e9 necess\u00e1rio criar um movimento de sociedade civil \u2013 e as universidades s\u00e3o pe\u00e7as centrais nessa empreitada \u2013 que erga as pautas da disputa pol\u00edtica do s\u00e9culo XXI: cria\u00e7\u00e3o de big techs nacionais, soberania sobre terras raras e minerais cr\u00edticos, reindustrializa\u00e7\u00e3o em novas bases, intelig\u00eancia artificial voltada ao interesse p\u00fablico e uma reforma profunda da pol\u00edtica, que inclua as rela\u00e7\u00f5es entre os Tr\u00eas Poderes, o pacto federativo e a organiza\u00e7\u00e3o administrativa do Estado. Um movimento dessa dimens\u00e3o n\u00e3o se cria instantaneamente, mas \u00e9 preciso come\u00e7ar agora. Como dizia o camarada Marx: camar\u00e3o que cochila, a onda leva.<\/p>\n<p>O papel de Lula \u00e9 fundamental nesse processo. N\u00e3o se trata de culto \u00e0 personalidade, mas de reconhecer que sua lideran\u00e7a ainda \u00e9 o \u00fanico ativo capaz de agregar as for\u00e7as necess\u00e1rias para uma virada de mesa. Os interesses da maioria do Senado e do Congresso, contudo, apontam noutra dire\u00e7\u00e3o: eles gravitam em torno das emendas, do Banco Master \u2013 ou melhor, do novo rentismo e financismo brasileiro \u2013 e das bets, configurando a constela\u00e7\u00e3o daquilo que alguns analistas t\u00eam chamado de \u201cparlamentarismo or\u00e7ament\u00e1rio brasileiro\u201d. <\/p>\n<p>Nesse aspecto, o papel de Fl\u00e1vio Bolsonaro se assemelha ao de Michel Temer na crise da deposi\u00e7\u00e3o de Dilma: vender prote\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em troca de espa\u00e7os de poder e benesses. As recentes revela\u00e7\u00f5es da reportagem do The Intercept, ao exporem as rela\u00e7\u00f5es de \u201cirmandade\u201d entre Fl\u00e1vio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, escancaram essa din\u00e2mica e oferecem \u00e0 esquerda uma oportunidade pol\u00edtica que n\u00e3o pode ser desperdi\u00e7ada.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos ficar parados. \u00c9 hora de a esquerda ativar, especialmente ap\u00f3s essas revela\u00e7\u00f5es, uma estrat\u00e9gia mais ofensiva de mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade \u2013 nas ruas e nas redes \u2013 visando o crescimento dos movimentos de massas, para desaguar em grandes manifesta\u00e7\u00f5es sociais de protesto superiores \u00e0quelas da PEC da Blindagem, ocorridas no ano passado. Estamos em pr\u00e9-campanha. N\u00e3o podemos esperar o tempo oficial de campanha eleitoral para retomar a ofensiva. O ritmo da disputa \u00e9 ditado pelos fatos, n\u00e3o pelo calend\u00e1rio do Tribunal Superior Eleitoral. A cada dia que a esquerda permanece reativa, o campo advers\u00e1rio consolida sua narrativa e aprofunda a sensa\u00e7\u00e3o de impunidade e captura do Estado. A hora de agir \u00e9 agora.<\/p>\n<p>Sobre o encontro bem-sucedido de Lula com Trump em Washington e a simult\u00e2nea reuni\u00e3o lambe-botas do Grupo Esfera na mesma cidade, \u00e9 preciso fazer uma provoca\u00e7\u00e3o mais ousada. Uma das possibilidades da nova doutrina Monroe trumpista \u2013 o que se poderia chamar de seu corol\u00e1rio \u2013 s\u00e3o novos acordos neocoloniais cl\u00e1ssicos. Mas tamb\u00e9m \u00e9 preciso considerar, para debate, a hip\u00f3tese de acordos de divis\u00e3o de esferas subimperialistas no s\u00e9culo XXI e no p\u00f3s-guerra imediato, que vedariam a crescente influ\u00eancia chinesa no hemisf\u00e9rio e, em particular, no Brasil. Esse subimperialismo do s\u00e9culo XXI \u2013 bem diferente daquele da \u00e9poca da ditadura civil-militar, quando Geisel tentou a \u201cMarcha For\u00e7ada\u201d do II PND \u2013 basear-se-ia agora numa economia das terras raras associada ao complexo militar-industrial e \u00e0 ind\u00fastria de tecnologia do Vale do Sil\u00edcio, combinada ao capitalismo rentista agrofinanceiro que j\u00e1 vigora internamente. Fica a provoca\u00e7\u00e3o, que exige debate aprofundado.<\/p>\n<p>No plano dom\u00e9stico da disputa eleitoral e narrativa, formou-se no Brasil um bloco que enla\u00e7a em condom\u00ednio o antigo mercado financeiro \u2013 hoje mais um mercado de administra\u00e7\u00e3o de rendas do que de produ\u00e7\u00e3o \u2013 e a m\u00eddia tradicional subrentista. Este \u00e9 o novo capitalismo pol\u00edtico brasileiro. Ontem, ele entrou em polvorosa: d\u00f3lar subiu, bolsa caiu. Lembro-me da leitura de\u00a0<em>O 18 Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte<\/em>: sempre que a massa popular de Paris vencia, a bolsa derretia; quando o partido da ordem avan\u00e7ava, os lucros se refastelavam. A senha foi dada pelo Geo da AtlasIntel: a \u00fanica maneira de tentar reequilibrar o cen\u00e1rio das elei\u00e7\u00f5es presidenciais seria um \u201cfato novo\u201d de igual tamanho \u201ccontra o PT\u201d. Mas, a pre\u00e7o de hoje, nas condi\u00e7\u00f5es de temperatura pol\u00edtica atuais, a candidatura do filho de Bolsonaro \u2013 o pai insiste em g\u00e1s queimado \u2013 \u00e9 caso perdido.<\/p>\n<p>O \u00faltimo dia 13 de maio come\u00e7ou com a divulga\u00e7\u00e3o da pesquisa Quaest, que sinalizava uma recupera\u00e7\u00e3o de Lula. Os dados, contudo, morreram \u00e0 tarde com a bomba at\u00f4mica revelada pela reportagem do The Intercept. At\u00e9 ent\u00e3o, o condom\u00ednio Quaest-Globo vinha mantendo o controle da narrativa presidencial sob a capa ilus\u00f3ria da \u201ccientificidade\u201d. Quem presta aten\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, sabe que o vi\u00e9s de uma pesquisa \u2013 e as da Quaest s\u00e3o minuciosamente detalhadas \u2013 est\u00e1 nas perguntas. Nos question\u00e1rios da Quaest, quando se chega ao caso do Banco Master, as perguntas s\u00e3o formuladas com o objetivo de confirmar e revestir de veracidade o conte\u00fado do discurso anterior da pr\u00f3pria m\u00eddia: o de que o \u201cesc\u00e2ndalo Master\u201d envolve todo o sistema pol\u00edtico, incluindo o Centr\u00e3o, a direita e a esquerda. O objetivo \u00f3bvio \u00e9 incluir a esquerda no mesmo saco da corrup\u00e7\u00e3o generalizada. O objetivo mais profundo, por\u00e9m, \u00e9 esconder as transforma\u00e7\u00f5es estruturais do capitalismo financeiro brasileiro, encarnadas na maquiagem t\u00e9cnica de Campos Neto e dos grupos de m\u00eddia \u2013 como os convescotes em Nova York promovidos pelo Valor Econ\u00f4mico e pela Globo.<\/p>\n<p>O outro ardil desse mesmo dispositivo \u00e9 a gangsterista tese da \u201cpolariza\u00e7\u00e3o sim\u00e9trica\u201d entre direita e esquerda. Esta \u00e9 a tese falsa: n\u00e3o existe polariza\u00e7\u00e3o sim\u00e9trica entre direita fascista e esquerda democr\u00e1tica no pa\u00eds. A tese \u00e9 falsa como uma nota de tr\u00eas reais, pela raz\u00e3o elementar de que a esquerda n\u00e3o pretende derrubar o estado de direito nem rasgar a Constitui\u00e7\u00e3o. A polariza\u00e7\u00e3o sim\u00e9trica, artificialmente constru\u00edda, abre alas para indagar a exist\u00eancia de um \u201cmedo\u201d da vit\u00f3ria de qualquer um dos dois prov\u00e1veis candidatos. Desse mesmo racioc\u00ednio do medo surge, como se fosse um anseio espont\u00e2neo do eleitorado, uma pergunta inteiramente artificial sobre a \u201cmodera\u00e7\u00e3o\u201d dos candidatos \u2013 cujo \u00fanico objetivo \u00e9 envenenar a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da campanha e for\u00e7ar o campo progressista a um recuo autonefasto.<\/p>\n<p>A coluna da jornalista Malu Gaspar, publicada no dia 14 de maio, manda um recado cifrado, mas claro para quem sabe ler: \u201cUm experiente observador de Bras\u00edlia definiu bem a situa\u00e7\u00e3o ao dizer que Vorcaro comprou todo mundo que estava \u00e0 venda. Tinha \u2018irm\u00e3os\u2019 e \u2018amigos de vida\u2019 em todo o espectro ideol\u00f3gico e em todos os n\u00edveis hier\u00e1rquicos que importam nos Tr\u00eas Poderes. A investiga\u00e7\u00e3o entrou no mundo pol\u00edtico pela direita e pelo Centr\u00e3o, mas h\u00e1 den\u00fancias para todos os gostos, e tudo o que puder ser explorado politicamente ser\u00e1.\u201d <\/p>\n<p>Al\u00e9m de invocar o sempre an\u00f4nimo \u201cexperiente observador\u201d \u2013 recurso cl\u00e1ssico de legitima\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica \u2013, a coluna acaba comparando o futuro da elei\u00e7\u00e3o a um filme de Tarantino: todo mundo mata todo mundo na grande carnificina, e o sobrevivente n\u00e3o \u00e9 o her\u00f3i, mas o bandido da hist\u00f3ria. Citar Tarantino pode ser um recurso ret\u00f3rico de alto risco: efetua-se a travessia da linguagem para a metalinguagem, da realidade sanguin\u00e1ria da luta social \u00e0 \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d estetizada do artista. A colunista n\u00e3o lembra, mas recentemente o caso do secret\u00e1rio de Trump \u2013 Pete Hegseth, indicado para Secret\u00e1rio de Defesa \u2013 foi ridicularizado ap\u00f3s recitar, em abril de 2026, o famoso trecho b\u00edblico falso do filme\u00a0<em>Pulp Fiction<\/em>\u00a0como se fosse uma ora\u00e7\u00e3o real durante um culto no Pent\u00e1gono. Tarantino n\u00e3o \u00e9 drama nem \u00e9pico; \u00e9 farsa e estetiza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. Walter Benjamin matou essa charada h\u00e1 oitenta anos: quando a pol\u00edtica \u00e9 estetizada, a \u00fanica resposta cr\u00edtica \u00e9 politizar a est\u00e9tica.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>A geoeconomia das terras raras, o nacionalismo poss\u00edvel e o nacionalismo emergente<\/strong><\/h4>\n<p>Por fim, e n\u00e3o menos importante, a geoeconomia das terras raras. A proposta da Terrabras \u2013 uma empresa nacional nos moldes da antiga Petrobras \u2013 \u00e9, sem d\u00favida, derivada do arsenal do desenvolvimentismo nacional que deu origem \u00e0 petrol\u00edfera estatal. Pode e deve ser reatualizada neste s\u00e9culo XXI. Contudo, sua cria\u00e7\u00e3o exige do governo uma iniciativa imediata, enquanto para o grande p\u00fablico a quest\u00e3o ainda \u00e9 inteiramente nova e n\u00e3o amadurecida. Sem isso, corre o risco de permanecer um discurso que visa marcar posi\u00e7\u00e3o dentro da esquerda \u2013 uma esp\u00e9cie de hedge discursivo esvaziado para acusar o governo Lula de \u201centreguismo\u201d. A pr\u00f3pria China, por meio do\u00a0<em>Global Times<\/em>, elogiou o encaminhamento brasileiro, o que indica que o tema \u00e9 estrat\u00e9gico. O controle do solo e a exig\u00eancia de uma cadeia produtiva interna de valor dos minerais cr\u00edticos s\u00e3o elementos estruturantes de uma posi\u00e7\u00e3o soberana. Essas condi\u00e7\u00f5es est\u00e3o previstas pelo acordo em curso no Congresso, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes.<\/p>\n<p>O encaminhamento de uma empresa nacional monopolista exige um consenso nacional que n\u00e3o est\u00e1 presente na conjuntura. O pr\u00f3prio Get\u00falio Vargas, na lei de cria\u00e7\u00e3o da Petrobras, precisou ser antecedido por um empate pol\u00edtico proporcional a um vigoroso movimento popular nacionalista de longo prazo \u2013 algo hoje inexistente. O movimento foi t\u00e3o vitorioso que a lei do monop\u00f3lio estatal do petr\u00f3leo foi proposta, vejam s\u00f3, pela UDN, o partido de oposi\u00e7\u00e3o feroz ao trabalhismo e que abrigava o n\u00facleo duro dos \u201centreguistas\u201d \u00e0 \u00e9poca. A atual corrida global por minerais cr\u00edticos \u2013 l\u00edtio, ni\u00f3bio, terras raras, cobalto \u2013 recoloca o debate sobre o papel do Estado na explora\u00e7\u00e3o de recursos estrat\u00e9gicos. A China n\u00e3o apenas elogia o Brasil, mas j\u00e1 construiu uma cadeia verticalizada que domina o refino e a produ\u00e7\u00e3o de baterias, tendo sido a principal amea\u00e7a de barganha no contexto do tarifa\u00e7o de Trump. Mas o caso chin\u00eas \u00e9 especial em termos geopol\u00edticos e geoecon\u00f4micos: nos anos 1970, beneficiou-se de uma rela\u00e7\u00e3o vantajosa com os Estados Unidos para isolar a URSS; nos anos 1990, ap\u00f3s a Pra\u00e7a da Paz Celestial, a China se protegeu da descoberta do neoliberalismo, exercendo uma economia pol\u00edtica original e ecl\u00e9tica.<\/p>\n<p>No cen\u00e1rio das rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a brasileiras, propostas como a Terrabras enfrentam dois obst\u00e1culos concretos. Primeiro, a falta de coes\u00e3o pol\u00edtica interna. Segundo, a aus\u00eancia de uma burguesia interna \u2013 ainda mais a sua fra\u00e7\u00e3o agrofinanceira rec\u00e9m-predominante \u2013 disposta a subordinar seus excedentes a um projeto de autonomia nacional. Al\u00e9m disso, o ambiente ideol\u00f3gico atual \u00e9 fragmentado. Enquanto nos anos 1950 o nacionalismo econ\u00f4mico mobilizava sindicatos, militares, intelectuais e setores industriais, hoje o debate p\u00fablico balan\u00e7a entre a inser\u00e7\u00e3o subordinada \u00e0s cadeias globais e um desenvolvimentismo verde de baixa densidade, muitas vezes diversionista. Sem uma press\u00e3o social organizada de longo prazo, a Terrabras corre o risco de permanecer como bandeira ret\u00f3rica \u2013 \u00fatil para demarcar posi\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda do petismo, mas insuficiente para alterar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as.<\/p>\n<p>Uma empresa monopolista nos moldes da antiga Petrobras exigiria n\u00e3o apenas vontade pol\u00edtica do Executivo, mas reformas legais profundas \u2013 como a revis\u00e3o do marco regulat\u00f3rio da minera\u00e7\u00e3o \u2013 e investimentos estatais vultosos em P&amp;D. A cria\u00e7\u00e3o de um fundo p\u00fablico de pesquisa em minerais cr\u00edticos, ainda que bem-vinda, \u00e9 apenas um primeiro passo. Que prospere e seja antessala de outros passos. As universidades, por exemplo, abrigam grupos de pesquisa isolados, mas a institui\u00e7\u00e3o como um todo parece desnorteada \u2013 incapaz de assumir coletivamente o encargo de ajudar a construir, com a for\u00e7a de seu aparato institucional-cient\u00edfico, em ritmo de campanha e ades\u00e3o social, um novo bloco hist\u00f3rico nacionalista. Nenhuma dessas condi\u00e7\u00f5es est\u00e1 madura. <\/p>\n<p>Assim, a cr\u00edtica ao \u201centreguismo\u201d do governo Lula resvala na demagogia: n\u00e3o se traduz em for\u00e7a concreta para alternativas, mas em pensamento m\u00e1gico. A li\u00e7\u00e3o de Vargas permanece atual, ainda que suas condi\u00e7\u00f5es de aplica\u00e7\u00e3o sejam hoje radicalmente distintas: o nacionalismo vitorioso nunca brotou de decretos ou discursos de ocasi\u00e3o, mas de um movimento de ruas mobilizado, organizado e persistente \u2013 exatamente o que falta agora. Sem isso, a onda levar\u00e1 n\u00e3o apenas o camar\u00e3o, como canta o grande Zeca Pagodinho, mas qualquer possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de um projeto democr\u00e1tico e soberano para o Brasil do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p><em>*Jaldes Meneses \u00e9 professor titular do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB)<\/em>.<\/p>\n<p>**<em>Este \u00e9 um artigo de opini\u00e3o e n\u00e3o necessariamente representa a linha editorial do\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>.<\/em><\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><script src=\"https:\/\/connect.facebook.net\/pt_BR\/sdk.js\" id=\"facebook-embed-js\"><\/script><\/p>\n<div class=\"td-all-devices\"><a href=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/\"><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2026\/05\/16\/as-eleicoes-de-2026-e-o-novo-capitalismo-politico-brasileiro\/\">Fonte Original <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A frente ampla, os dois blocos de conjuntura e a necessidade de uma ofensiva imediata No Brasil de hoje, existem motivos de sobra para a constru\u00e7\u00e3o de uma frente ampl\u00edssima pela elei\u00e7\u00e3o de Lula \u2013 o \u00fanico candidato democr\u00e1tico vi\u00e1vel que representa o campo progressista brasileiro. 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