{"id":17978,"date":"2026-05-03T19:24:13","date_gmt":"2026-05-03T19:24:13","guid":{"rendered":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2026\/05\/03\/milton-santos-100-anos-geografo-negro-teorizou-sobre-desigualdades\/"},"modified":"2026-05-03T19:24:15","modified_gmt":"2026-05-03T19:24:15","slug":"milton-santos-100-anos-geografo-negro-teorizou-sobre-desigualdades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2026\/05\/03\/milton-santos-100-anos-geografo-negro-teorizou-sobre-desigualdades\/","title":{"rendered":"Milton Santos, 100 anos: ge\u00f3grafo negro teorizou sobre desigualdades"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>Em meio \u00e0s grandes redes de supermercados em S\u00e3o Lu\u00eds, no Maranh\u00e3o, surgem mercadinhos e feiras populares adaptados \u00e0 realidade de quem tem poucos recursos. O contraste entre os tipos de estabelecimentos e os modos de consumo revelam din\u00e2micas de exclus\u00e3o e de desigualdade na cidade.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio foi objeto de estudo de Livia Cangiano, p\u00f3s-doutoranda na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranh\u00e3o (UEMA). Ela recorreu a uma teoria formulada na d\u00e9cada de 1970 por Milton Santos.<\/p>\n<p>Neste dia 3 de maio, s\u00e3o comemorados os 100 anos de nascimento do ge\u00f3grafo. Ele faleceu em 2001, aos 75 anos, mas suas ideias continuam sendo refer\u00eancias para an\u00e1lises socioecon\u00f4micas no Brasil e no mundo.<\/p>\n<p>A teoria de Milton divide a economia urbana em dois circuitos: superior, concentrado nas grandes empresas, com alto n\u00edvel de tecnologia, capital e organiza\u00e7\u00e3o; e inferior, formado por pequenos com\u00e9rcios e servi\u00e7os, com menor acesso a recursos, mas altamente adapt\u00e1vel \u00e0s necessidades da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito dif\u00edcil para as pessoas da periferia deixarem o espa\u00e7o onde vivem e se deslocarem at\u00e9 o centro para consumir. As popula\u00e7\u00f5es que vivem na periferia abrem seus pr\u00f3prios com\u00e9rcios, quitandas, mercadinhos, pequenas lojas\u201d, diz Livia.<\/p>\n<p>\u201cPara dar um exemplo, nesse circuito inferior, pensando em alimenta\u00e7\u00e3o, \u00e9 o lugar onde a pessoa que n\u00e3o consegue comprar a d\u00fazia do ovo, consegue comprar um ovo apenas. Eles vendem separadamente. As formas de com\u00e9rcio s\u00e3o menos endurecidas do que em uma grande rede supermercadista, onde s\u00f3 seria poss\u00edvel comprar a d\u00fazia\u201d, exemplifica.<\/p>\n<p>A atualidade da teoria tamb\u00e9m aparece em pesquisas fora do Brasil. O projeto de pesquisa do qual L\u00edvia faz parte aplica as ideias de Milton \u00e0s din\u00e2micas urbanas em Gana, na \u00c1frica, e em Londres e Paris, na Europa.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Biografia<\/h4>\n<p>Milton Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Maca\u00fabas, na Bahia, e se tornou um dos principais nomes da geografia mundial. Ele concluiu o bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e o doutorado na Universidade de Strasbourg, na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Exilado durante a ditadura militar, lecionou em universidades na Europa, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina, antes de retornar ao Brasil, onde consolidou sua produ\u00e7\u00e3o intelectual. Foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>Negro, enfrentou o racismo estrutural dentro da academia e construiu uma obra que redefiniu a forma de compreender o espa\u00e7o geogr\u00e1fico, articulando economia, pol\u00edtica e sociedade. Ele se tornou inspira\u00e7\u00e3o e refer\u00eancia para outros intelectuais negros, como a tamb\u00e9m ge\u00f3grafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).<\/p>\n<p>\u201cEu sou uma mulher negra de 60 anos. Entrei na UFRJ na d\u00e9cada de 80, onde a maior parte dos meus colegas na universidade n\u00e3o eram negros. Ent\u00e3o, o Milton foi muito importante para a minha forma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista cognitivo e t\u00e9cnico, mas tamb\u00e9m na dimens\u00e3o humana\u201d, diz Catia.<\/p>\n<p>A professora explica que a obra de Milton n\u00e3o trouxe como tema central a negritude, nem a dimens\u00e3o pol\u00edtica da rela\u00e7\u00e3o entre classe social e ra\u00e7a. Por\u00e9m, ele produziu uma teoria social cr\u00edtica das desigualdades que ajuda a analisar as quest\u00f5es raciais. E nunca ignorou o tema quando era necess\u00e1rio se posicionar na vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201cEle dizia que o fato de ser um professor universit\u00e1rio n\u00e3o o impediu de viver experi\u00eancias de racismo. Falava que os negros precisavam ter um esfor\u00e7o muito maior para o seu trabalho ter legitimidade. Mas ele nunca utilizou qualquer vitimiza\u00e7\u00e3o para se tornar um intelectual.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu creio que \u00e9 dif\u00edcil ser negro e \u00e9 dif\u00edcil ser intelectual no Brasil. Essas duas coisas, juntas, d\u00e3o o que d\u00e3o, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 dif\u00edcil ser negro porque, fora das situa\u00e7\u00f5es de evid\u00eancia, o cotidiano \u00e9 muito pesado para os negros. \u00c9 dif\u00edcil ser intelectual porque n\u00e3o faz parte da cultura nacional ouvir tranquilamente uma palavra cr\u00edtica\u201d, disse Santos no programa Roda Viva, em 1997.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Teorias das desigualdades<\/h4>\n<p>Al\u00e9m da teoria dos circuitos urbanos, o ge\u00f3grafo trouxe ideias que aprofundaram a compreens\u00e3o sobre as desigualdades. Para Milton Santos, o espa\u00e7o nunca foi apenas o cen\u00e1rio onde a vida acontece, mas o resultado direto de decis\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Isso significa que a distribui\u00e7\u00e3o desigual de infraestrutura nas cidades (como saneamento, transporte ou acesso \u00e0 internet) n\u00e3o \u00e9 acidental, mas fruto de escolhas que privilegiam determinados grupos e territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>Ao olhar para uma periferia sem servi\u00e7os b\u00e1sicos ou para uma \u00e1rea valorizada com alta concentra\u00e7\u00e3o de investimentos, o ge\u00f3grafo prop\u00f5e enxergar ali n\u00e3o um acaso, mas a materializa\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es de poder.<\/p>\n<p>\u201cMilton traz essa compreens\u00e3o de uma geografia historicamente produzida pelos grandes aparatos do Estado. \u00c0 medida que o capitalismo avan\u00e7a, processos de industrializa\u00e7\u00e3o e urbaniza\u00e7\u00e3o no Brasil v\u00e3o produzir desigualdades e destrui\u00e7\u00e3o das economias locais. Seja do Nordeste, da Amaz\u00f4nia ou do interior dos estados. Determinados grupos sociais ser\u00e3o beneficiados pelo processo de moderniza\u00e7\u00e3o\u201d, explica a ge\u00f3grafa Catia.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ge\u00f3grafo Milton Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Maca\u00fabas, na Bahia <span class=\"credit-separator\">|<\/span> <span class=\"image-credit\">Cr\u00e9dito: Acervo Milton Santos\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>No livro <em>Por uma outra globaliza\u00e7\u00e3o<\/em>, Milton Santos descreve um sistema vendido como promessa de integra\u00e7\u00e3o e progresso, mas que, na pr\u00e1tica, aprofunda desigualdades mundiais. Grandes obras de infraestrutura, como portos e corredores log\u00edsticos, conectam pa\u00edses e mercados, mas tamb\u00e9m reorganizam territ\u00f3rios locais, pressionam comunidades e ampliam a concentra\u00e7\u00e3o de riqueza.<\/p>\n<p>\u201cNunca na hist\u00f3ria da humanidade houve condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e cient\u00edficas t\u00e3o adequadas a construir o mundo da dignidade humana, apenas essas condi\u00e7\u00f5es foram expropriadas por um punhado de empresas que decidiram construir um mundo perverso\u201d, escreveu.<\/p>\n<p>Outro conceito bem conhecido do autor, o \u201cmeio t\u00e9cnico-cient\u00edfico-informacional\u201d, descreve como tecnologia, ci\u00eancia e infraestrutura passaram a moldar o territ\u00f3rio. Na pr\u00e1tica, isso se traduz em regi\u00f5es altamente conectadas, com redes digitais avan\u00e7adas e log\u00edstica eficiente, convivendo com \u00e1reas onde faltam servi\u00e7os b\u00e1sicos. Enquanto alguns espa\u00e7os s\u00e3o preparados para atender \u00e0s exig\u00eancias do mercado global, outros permanecem \u00e0 margem desse processo.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Futuros poss\u00edveis<\/h4>\n<p>Apesar dos diagn\u00f3sticos cr\u00edticos, Milton Santos tamb\u00e9m apontou caminhos de transforma\u00e7\u00e3o. Ele defendia que as mesmas redes e tecnologias que ampliam desigualdades podem ser apropriadas por popula\u00e7\u00f5es locais para criar alternativas econ\u00f4micas e sociais.<\/p>\n<p>Iniciativas comunit\u00e1rias, uso de tecnologia em periferias e formas cooperativas de organiza\u00e7\u00e3o mostram, segundo o autor, que o territ\u00f3rio tamb\u00e9m pode ser espa\u00e7o de resist\u00eancia e reinven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEle prop\u00f5e uma leitura sobre o territ\u00f3rio brasileiro, trazendo ferramentas para que a gente pense concretamente nas desigualdades, que n\u00e3o fique apenas no plano te\u00f3rico, mas que nos induza a ir a campo, a conversar com essas pessoas, a entender o cotidiano delas no espa\u00e7o\u201d, diz a ge\u00f3grafa Livia.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m disso, ele faz uma proposta muito generosa para pensar o espa\u00e7o, que \u00e9 pensar o quanto a periferia urbana brasileira como um todo \u00e9 capaz de produzir outras racionalidades de exist\u00eancia\u201d, completa.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Eventos<\/h4>\n<p>O centen\u00e1rio de nascimento de Milton Santos ser\u00e1 celebrado com um conjunto de eventos pelo pa\u00eds. As programa\u00e7\u00f5es ocorrem em formato h\u00edbrido e re\u00fanem pesquisadores, ativistas e o p\u00fablico geral para debater o seu legado e a atualidade de sua obra.<\/p>\n<p>O Semin\u00e1rio Internacional Milton Santos 100 anos: um ge\u00f3grafo do S\u00e9culo 21 acontece de 4 a 8 de maio na USP, com transmiss\u00e3o virtual. O encontro \u00e9 feito em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB).<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, o N\u00facleo de Estudos Afro-brasileiros e Ind\u00edgenas (Neabi) do Sesc vai oferecer, ao longo do m\u00eas de maio, um ciclo de palestras sobre ge\u00f3grafo.<\/p>\n<p>A Universidade Federal do Tocantins realizar\u00e1, entre os dias 26 e 29 de agosto, o evento Tocantins como Fronteira do Meio T\u00e9cnico-Cient\u00edfico-Informacional, para debater, em \u00e2mbito internacional, o pensamento e a obra de Milton Santos.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><script src=\"https:\/\/connect.facebook.net\/pt_BR\/sdk.js\" id=\"facebook-embed-js\"><\/script><\/p>\n<div class=\"td-all-devices\"><a href=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Google search engine\" src=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/anuncio_728x109px.jpg\" width=\"728\" height=\"90\"\/><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2026\/05\/03\/milton-santos-100-anos-geografo-negro-teorizou-sobre-desigualdades\/\">Fonte Original <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio \u00e0s grandes redes de supermercados em S\u00e3o Lu\u00eds, no Maranh\u00e3o, surgem mercadinhos e feiras populares adaptados \u00e0 realidade de quem tem poucos recursos. 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