{"id":17851,"date":"2026-04-29T19:24:10","date_gmt":"2026-04-29T19:24:10","guid":{"rendered":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2026\/04\/29\/cientista-politico-juarez-guimaraes-explica-o-que-e-o-neoliberalismo-e-como-combate-lo\/"},"modified":"2026-04-29T19:24:12","modified_gmt":"2026-04-29T19:24:12","slug":"cientista-politico-juarez-guimaraes-explica-o-que-e-o-neoliberalismo-e-como-combate-lo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2026\/04\/29\/cientista-politico-juarez-guimaraes-explica-o-que-e-o-neoliberalismo-e-como-combate-lo\/","title":{"rendered":"Cientista pol\u00edtico Juarez Guimar\u00e3es explica o que \u00e9 o neoliberalismo e como combat\u00ea-lo"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>\u201cO neoliberalismo vive uma crise da sua domina\u00e7\u00e3o, porque o Estado norte-americano est\u00e1 vivendo uma crise interna que impacta no seu controle do mundo. Com a ascens\u00e3o da China e de outros pa\u00edses e a luta de resist\u00eancia dos povos, v\u00e3o se criando possibilidades de avan\u00e7armos na constru\u00e7\u00e3o de alternativas\u201d, explica, sobre seu livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado, o professor titular do departamento de ci\u00eancia pol\u00edtica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Juarez Guimar\u00e3es.\u00a0<\/p>\n<p>Mestre e doutor em ci\u00eancias sociais e p\u00f3s-doutor em filosofia, ele pesquisou ao longo da sua carreira acad\u00eamica a teoria pol\u00edtica, com \u00eanfase nas tradi\u00e7\u00f5es republicanas, marxistas, feministas e antirracistas, e o pensamento pol\u00edtico e social brasileiro. Em <em>Em Nome da Liberdade: uma cr\u00edtica socialista democr\u00e1tica ao regime neoliberal de Estado<\/em>, Guimar\u00e3es apresenta novas interpreta\u00e7\u00f5es sobre o neoliberalismo.\u00a0<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Confira a entrevista completa:\u00a0<\/h4>\n<p><strong>Brasil de Fato \u2013 O que tradicionalmente se entende por neoliberalismo e qual \u00e9 a origem hist\u00f3rica desse conceito?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Juarez Guimar\u00e3es \u2013<\/strong> Considerando a emerg\u00eancia do neoliberalismo na cena pol\u00edtica internacional, com as vit\u00f3rias de Reagan e Thatcher em 1980, n\u00f3s temos j\u00e1 umas cinco d\u00e9cadas de domin\u00e2ncia desse pensamento da tradi\u00e7\u00e3o liberal, apesar de o neoliberalismo ter forma\u00e7\u00e3o em uma tradi\u00e7\u00e3o que tem uma hist\u00f3ria mais antiga, que vem desde os anos 20, na Escola de Viena.<\/p>\n<p>A partir do poder do Estado norte-americano, cujo poder geopol\u00edtico aumentou muito ap\u00f3s a dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, essa tradi\u00e7\u00e3o neoliberal moldou n\u00e3o apenas institui\u00e7\u00f5es e din\u00e2micas internacionais do capitalismo, mas tamb\u00e9m destruiu aquelas institui\u00e7\u00f5es, culturas e modos de acumula\u00e7\u00e3o pr\u00f3prios de um liberalismo social ou keynesiano, que havia vigorado at\u00e9 o final dos anos 70.<\/p>\n<p>Como \u00e9 um fen\u00f4meno antigo, que j\u00e1 vem de cinco d\u00e9cadas, acumulou-se uma enorme bibliografia sobre o tema. O meu livro procura, inclusive, dialogar com essa vasta bibliografia em 12 campos de estudos disciplinares: economia,\u00a0 direito,\u00a0 ecologia,\u00a0 quest\u00e3o agr\u00e1ria, quest\u00e3o feminista, antirracista, decolonial, e assim por diante.\u00a0<\/p>\n<p>Ao longo desse per\u00edodo, foram se acumulando os estudos cr\u00edticos ao neoliberalismo. Talvez a primeira forma\u00e7\u00e3o de uma cr\u00edtica ao neoliberalismo tenha se dado no plano da economia. Isso \u00e9, identificou-se que havia ali uma mudan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao regime fordista, que havia prevalecido durante o liberalismo social e vigorou, principalmente, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, at\u00e9 o fim dos anos 70.<\/p>\n<p>Convergiram nessa cr\u00edtica v\u00e1rias escolas econ\u00f4micas, entre elas os economistas marxistas, os economistas keynesianos e os economistas nacional-desenvolvimentistas, que t\u00eam no Brasil uma grande figura de refer\u00eancia: Celso Furtado. Assim, a primeira cr\u00edtica se fez no plano da cr\u00edtica econ\u00f4mica, aos novos modos de regula\u00e7\u00e3o e de financeiriza\u00e7\u00e3o da economia.\u00a0<\/p>\n<p>Chegou-se, inclusive, a um senso comum de que o neoliberalismo proporia \u201cmenos Estado\u201d, um Estado menor. A cr\u00edtica depois veio se consolidando e mostrou que isso n\u00e3o \u00e9 verdade: se o neoliberalismo diminui a sua interven\u00e7\u00e3o, por exemplo, nas pol\u00edticas sociais, ele aumenta os gastos, em geral, nas dimens\u00f5es b\u00e9licas e repressivas.\u00a0<\/p>\n<p>Se diminui a tributa\u00e7\u00e3o, aumenta aqueles ganhos tribut\u00e1rios e de incentivos ao capital. Se diminui os espa\u00e7os de democratiza\u00e7\u00e3o e de democracia, mesmo no plano da democracia liberal, mas, por outro lado, aumenta os espa\u00e7os de coer\u00e7\u00e3o, de imposi\u00e7\u00e3o e de completa nega\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da soberania popular.\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, seria mais correto dizer que o neoliberalismo produz um novo regime de Estado liberal do que simplesmente falar em diminui\u00e7\u00e3o do Estado. Mas houve uma outra cr\u00edtica muito importante, que surgiu no final dos anos 70, a partir das aulas no Coll\u00e8ge de France, de Foucault, muito voltado para entender a cria\u00e7\u00e3o de uma nova racionalidade da domina\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Ele identificou um novo esp\u00edrito, uma nova racionalidade, e esse estudo foi seminal. Deu origem a v\u00e1rios trabalhos de pesquisa sobre o neoliberalismo que diziam mais ou menos o seguinte: se antes o liberalismo disputava o terreno onde o Estado deveria intervir e onde n\u00e3o deveria intervir, marcando o campo da n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o do Estado, agora, com o neoliberalismo, com essa nova racionalidade, o pr\u00f3prio Estado deveria passar a funcionar como se fosse uma empresa. Ou seja, o Estado deveria adotar os mesmos m\u00e9todos de governabilidade de uma empresa.\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria sociedade, no seu conjunto, deveria passar a se organizar a partir da forma mercantil. E, estudando um autor chamado Gary Becker, da tradi\u00e7\u00e3o de Chicago, esses estudos foucaultianos entendiam que o neoliberalismo propunha transformar a pr\u00f3pria pessoa em um \u201ccapital humano\u201d.<\/p>\n<p>Isto \u00e9, a vida da pessoa deveria ser organizada em todos os sentidos, desde a origem, para acumular bens no mercado, para ser uma acumuladora de capital e de renda no mercado. Essa, ent\u00e3o, foi uma segunda escola muito importante.<\/p>\n<p>Surgiu tamb\u00e9m uma terceira escola, de historiadores do neoliberalismo. O livro mais importante chama-se exatamente <em>O Caminho Desde a Sociedade Mont P\u00e8lerin<\/em>. Logo ap\u00f3s a guerra, v\u00e1rios autores neoliberais se reuniram e fundaram uma esp\u00e9cie de \u201cinternacional\u201d do pensamento neoliberal. Eles faziam reuni\u00f5es anuais e foram acumulando cr\u00edticas centradas nas tradi\u00e7\u00f5es do trabalho \u2014 entendido no sentido amplo, desde as tradi\u00e7\u00f5es marxistas e socialistas at\u00e9 as tradi\u00e7\u00f5es social-democratas e trabalhistas \u2014, mas tamb\u00e9m ao liberalismo social ou keynesiano.\u00a0<\/p>\n<p>Eles foram produzindo uma tradi\u00e7\u00e3o de pensamento coletivo. Esse pensamento coletivo foi construindo um programa, uma agenda nova, e essa agenda \u00e9 que veio ao centro do mundo com as elei\u00e7\u00f5es, principalmente, de Reagan nos Estados Unidos e tamb\u00e9m, em alguma medida, no caso da Inglaterra, com a Margaret Thatcher. Ent\u00e3o, esses autores chamam esse trabalho de \u201ca hist\u00f3ria do pensamento coletivo do neoliberalismo\u201d.<\/p>\n<p>No meu livro, n\u00f3s procuramos dialogar com essas tr\u00eas correntes de interpreta\u00e7\u00e3o. Absorvemos elas em um mesmo conceito, mas identificamos que o fundamental \u00e9 a muta\u00e7\u00e3o ocorrida no regime liberal de Estado. Essa muta\u00e7\u00e3o ocorreu fundamentalmente nos Estados Unidos e tamb\u00e9m na Inglaterra, mas, a partir do poder geopol\u00edtico dos Estados Unidos.\u00a0<\/p>\n<p>A unifica\u00e7\u00e3o europeia, que se deu no in\u00edcio dos anos 90, atrav\u00e9s do Tratado de Maastricht, repercutia plenamente esses pensamentos neoliberais. Os Estados Unidos, ent\u00e3o, a partir de uma militariza\u00e7\u00e3o, da financeiriza\u00e7\u00e3o e de um poder unilateral, passaram a moldar o mundo ocidental, principalmente, mas tamb\u00e9m a \u00c1frica e os pa\u00edses coloniais, a partir desses princ\u00edpios neoliberais.<\/p>\n<p>O que n\u00f3s estamos chamando de uma muta\u00e7\u00e3o do regime liberal de Estado \u00e9 que, a partir de um novo conceito de liberdade, o neoliberalismo reorganiza todas as regula\u00e7\u00f5es do Estado. Toda a vida social \u00e9 marcada pelas leis, pelas constitui\u00e7\u00f5es e pelas institui\u00e7\u00f5es do Estado.\u00a0<\/p>\n<p>At\u00e9 a nossa vida privada e pessoal \u00e9 marcada pelo direito civil, por exemplo, pelas formas legais que regem as rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres, entre adultos e crian\u00e7as, entre brancos e negros, mas tamb\u00e9m as rela\u00e7\u00f5es de trabalho, as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, as rela\u00e7\u00f5es culturais e as rela\u00e7\u00f5es religiosas. Tudo isso \u00e9 organizado e regulado pelo Estado.\u00a0<\/p>\n<p>O que o neoliberalismo fez foi provocar uma mudan\u00e7a de conjunto nessas rela\u00e7\u00f5es, fundando um novo regime de Estado liberal. \u00c9 liberal porque o neoliberalismo \u00e9 uma continuidade da tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do liberalismo e uma renova\u00e7\u00e3o dessa tradi\u00e7\u00e3o e das suas formas de domina\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ser liberal, n\u00f3s chamamos de \u201cregime\u201d, porque o neoliberalismo n\u00e3o funda um novo Estado contr\u00e1rio ao capitalismo; pelo contr\u00e1rio, ele exacerba as din\u00e2micas pr\u00f3prias destrutivas do capitalismo no plano social, no plano democr\u00e1tico e tamb\u00e9m no plano ambiental.<\/p>\n<p><strong>Quais mudan\u00e7as voc\u00ea prop\u00f5e na interpreta\u00e7\u00e3o do que \u00e9 o neoliberalismo? Qual foi o caminho te\u00f3rico e em di\u00e1logo com quais correntes de pensamento voc\u00ea construiu essa nova interpreta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, o que se ganha com esse conceito \u00e9 que voc\u00ea deixa de ter uma percep\u00e7\u00e3o apenas econ\u00f4mica, cultural ou apenas pol\u00edtica no sentido estrito, ou ainda no sentido feminista, de g\u00eanero, ou no sentido colonial. Passa-se a ter uma vis\u00e3o integrativa do neoliberalismo, entendendo que ele atinge todas as esferas da vida social.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 importante para n\u00f3s, porque, se \u00e9 assim, n\u00f3s s\u00f3 podemos combat\u00ea-lo se propusermos um regime cr\u00edtico e alternativo ao regime neoliberal de Estado. Isto \u00e9, enfrent\u00e1-lo ao mesmo tempo em todas as suas dimens\u00f5es. Ent\u00e3o, \u00e9 limitado criticar apenas culturalmente os modos consumistas e individualistas do neoliberalismo, assim como \u00e9 errado criticar apenas a sua pol\u00edtica macroecon\u00f4mica, ou apenas as dimens\u00f5es destrutivas da democracia que ele provoca, ou as mudan\u00e7as na cultura pol\u00edtica, ou as mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es internacionais.\u00a0<\/p>\n<p>Como n\u00f3s estamos lidando com o fato de que o centro s\u00e3o os Estados Unidos, com todo o seu poder geopol\u00edtico, essa muta\u00e7\u00e3o do regime \u00e9 dram\u00e1tica, porque impacta o mundo inteiro, j\u00e1 que se trata de uma pot\u00eancia dominante.<\/p>\n<p>Para chegar a esse conceito, n\u00f3s trabalhamos pensando e tentando propor solu\u00e7\u00f5es para dois impasses de leitura, de longa dura\u00e7\u00e3o, de dois grandes autores marxistas. O primeiro \u00e9 Antonio Gramsci. N\u00f3s sabemos que Gramsci \u00e9 um autor muito importante no debate sobre hegemonia, sobre cultura e sobre pol\u00edtica, mas certamente ele n\u00e3o p\u00f4de desenvolver no c\u00e1rcere, por v\u00e1rias limita\u00e7\u00f5es, a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica que o Marx havia plenamente desenvolvido em <em>O Capital<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, h\u00e1 esse limite no pensamento dos <em>Cadernos do C\u00e1rcere<\/em>, embora haja neles o conceito de \u201cEstado integral\u201d, que diz que voc\u00ea n\u00e3o pode separar pol\u00edtica de economia. Essa separa\u00e7\u00e3o \u00e9 um erro liberal. O capitalismo n\u00e3o tem um andamento pr\u00f3prio e espont\u00e2neo, mas depende muito do Estado e da domina\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>Fizemos tamb\u00e9m um di\u00e1logo com as interpreta\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas e contempor\u00e2neas do livro <em>O Capital<\/em>, de Marx, que sabemos ser um livro inconcluso. Escrito na maturidade da sua vida e da sua for\u00e7a intelectual, ap\u00f3s d\u00e9cadas de estudo de economia pol\u00edtica, mas no qual n\u00e3o est\u00e1 desenvolvido o conceito de Estado.\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o conceito de Estado integral que n\u00f3s trabalhamos em Gramsci e em Marx propicia essa vis\u00e3o integrativa da pol\u00edtica, da economia, da cultura, da sociedade e das rela\u00e7\u00f5es internacionais, o que nos permite construir esse novo conceito de neoliberalismo.<\/p>\n<p>Eu consultei basicamente toda a literatura internacional, at\u00e9 o segundo semestre do ano passado. Ent\u00e3o, \u00e9 um livro muito atualizado nos di\u00e1logos contempor\u00e2neos. Eu notei que, por for\u00e7a das din\u00e2micas das editoras brasileiras, h\u00e1 t\u00edtulos publicados no Brasil que s\u00e3o importantes, mas 90% dessa literatura cr\u00edtica n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel para os estudantes e professores brasileiros.\u00a0<\/p>\n<p>Foi um trabalho, para mim, tamb\u00e9m de muito aprendizado, mas eu posso dar o testemunho de que esse livro n\u00e3o seria escrito sem o que eu aprendi com as lutas dos movimentos sociais brasileiros e internacionais, mas principalmente dos brasileiros, com os quais eu me relaciono. Sem a luta dos trabalhadores, dos sem terra, das mulheres brasileiras, dos negros brasileiros, eu n\u00e3o teria conseguido elaborar esse conceito novo de neoliberalismo.<\/p>\n<p>O fundamental \u00e9 que o neoliberalismo tem, desde a sua origem, um lema: \u201cOlha, a vida pode n\u00e3o estar boa, mas n\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d. O que o livro est\u00e1 propondo \u00e9 que o neoliberalismo vive uma crise da sua domina\u00e7\u00e3o, porque o Estado norte-americano est\u00e1 vivendo uma crise do seu controle do mundo e uma crise interna muito forte.\u00a0<\/p>\n<p>Com a ascens\u00e3o da China e de outros pa\u00edses, e com a luta de resist\u00eancia dos povos, v\u00e3o se criando possibilidades de avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o de alternativas ao neoliberalismo. Ent\u00e3o, o livro traz uma mensagem de esperan\u00e7a, de uma esperan\u00e7a realista, apoiada em uma an\u00e1lise da evolu\u00e7\u00e3o dos fatos contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p><strong>Tanto o neoliberalismo quanto a sua crise geram impactos tamb\u00e9m no Brasil. Quais s\u00e3o os desdobramentos espec\u00edficos do regime neoliberal de Estado no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Eu sou de uma gera\u00e7\u00e3o que se criou e se construiu na luta contra o regime militar. N\u00f3s conseguimos derrot\u00e1-lo, em meados dos anos 80, em um processo no qual se fez uma Assembleia Constituinte e se proclamaram direitos, mas o Estado n\u00e3o foi democratizado.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00f3s sabemos que a presen\u00e7a das For\u00e7as Armadas continuou e o controle civil sobre elas n\u00e3o foi desenvolvido. Tamb\u00e9m o sistema de justi\u00e7a n\u00e3o foi democratizado, nem o sistema pol\u00edtico-eleitoral, as pol\u00edticas de seguran\u00e7a p\u00fablica ou as pol\u00edticas de comunica\u00e7\u00e3o. Foram proclamados os direitos p\u00fablicos \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o se desenvolveu.<\/p>\n<p>N\u00f3s acumulamos no final da ditadura militar toda uma tradi\u00e7\u00e3o de lutas e come\u00e7amos a disputar o futuro do Brasil. Aconteceu que, j\u00e1 nos anos 80, essa ascens\u00e3o do neoliberalismo em sua din\u00e2mica financeira, de certa maneira, trouxe o Brasil para o s\u00e9culo do endividamento financeiro. N\u00f3s j\u00e1 vivemos a d\u00e9cada de 80 com a nossa economia desorganizada.\u00a0<\/p>\n<p>A partir da candidatura de Fernando Collor, cujo programa era neoliberal, mas principalmente a partir da \u201cera Fernando Henrique Cardoso\u201d, quando se estabeleceu mais solidamente no Estado brasileiro o programa neoliberal, eles come\u00e7aram a construir as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas no Estado brasileiro para impedir a efetiva\u00e7\u00e3o e a universaliza\u00e7\u00e3o daqueles direitos previstos na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p>N\u00f3s podemos entender a luta que se estabeleceu nas \u00faltimas d\u00e9cadas no Brasil da seguinte forma: de um lado, o campo popular, o campo democr\u00e1tico e o campo das esquerdas brasileiras, no sentido amplo, tentando avan\u00e7ar na implementa\u00e7\u00e3o desses direitos; e, de outro lado, mudan\u00e7as e reformas no interior do Estado brasileiro que impedem a realiza\u00e7\u00e3o plena desses direitos.\u00a0<\/p>\n<p>Eu diria que n\u00e3o h\u00e1 nenhum direito importante, popular, democr\u00e1tico, feminista ou antirracista constru\u00eddo no Brasil nas \u00faltimas quatro ou cinco d\u00e9cadas sem a participa\u00e7\u00e3o dessas lideran\u00e7as de esquerda, principalmente de um companheiro da grandeza hist\u00f3rica que tem o presidente Lula. Mas essas conquistas n\u00e3o foram capazes de mudar a estrutura de domina\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro, que foi cada vez mais se aproximando da agenda neoliberal.<\/p>\n<p>Por exemplo: voc\u00ea estabelece um ajuste fiscal permanente dos or\u00e7amentos p\u00fablicos, o que impede que se desenvolvam as pol\u00edticas sociais e os investimentos necess\u00e1rios ao desenvolvimento do pa\u00eds. Voc\u00ea ataca a pol\u00edtica de reforma agr\u00e1ria, isto \u00e9, n\u00e3o tem or\u00e7amento para fazer reforma agr\u00e1ria, e provoca um agu\u00e7amento das din\u00e2micas coloniais do agroneg\u00f3cio, que \u00e9 ecologicamente muito destrutivo, provocando um processo de concentra\u00e7\u00e3o de terras.\u00a0<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, provoca uma precariza\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras muito elevada e imp\u00f5e limites \u00e0 conquista dos direitos fundamentais. Vai tornando o Estado cada vez mais imperme\u00e1vel \u00e0 luta democr\u00e1tica e ao estabelecimento de vontades majorit\u00e1rias, fazendo com que o sistema eleitoral partid\u00e1rio seja cada vez mais alavancado por dinheiro. Quem tem dinheiro s\u00e3o exatamente aqueles que querem dominar.<\/p>\n<p>O Brasil, nesse per\u00edodo neoliberal, agravou a sua depend\u00eancia colonial, seja por depender da exporta\u00e7\u00e3o de produtos agro prim\u00e1rios (sem serem industrializados), seja por estar vulner\u00e1vel \u00e0s inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas que se produziram na ind\u00fastria, na ci\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o e na intelig\u00eancia artificial.\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, veja bem, o impacto do neoliberalismo est\u00e1 no centro dos impasses das transforma\u00e7\u00f5es no Brasil. Por isso, o livro prop\u00f5e que o fundamental \u00e9 conquistar uma din\u00e2mica de revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica popular em nosso pa\u00eds para alterar os fundamentos do poder, para que possamos reconstruir o pa\u00eds a partir de uma perspectiva dos interesses das maiorias, das classes trabalhadoras, daqueles que realmente trabalham.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos propondo que, nestas elei\u00e7\u00f5es de 2026, a partir de todo esse argumento te\u00f3rico, n\u00f3s nos proponhamos a enfrentar o neoliberalismo de frente. Se a extrema direita for confrontada em suas teses fundamentais, ficar\u00e1 demonstrado que ela \u00e9 contra o povo.<\/p>\n<p>Cria-se uma situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 a seguinte: se n\u00f3s n\u00e3o combatemos o neoliberalismo, a democracia fica desacreditada, a classe trabalhadora precarizada e a cultura ganha um car\u00e1ter individualista de \u201csalve-se quem puder\u201d. E quem se alimenta disso? A extrema direita. Se n\u00f3s n\u00e3o enfrentarmos o neoliberalismo, acabamos criando um caldo de cultura no qual aparecem as for\u00e7as de extrema direita, algumas at\u00e9 com caracter\u00edsticas fascistas.\u00a0<\/p>\n<p>Agora, se a gente enfrenta, se criamos uma agenda de luta pelos direitos fundamentais, pela democratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, pela reforma agr\u00e1ria, essas lutas fundamentais que est\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o do povo brasileiro, ganham for\u00e7a.\u00a0<\/p>\n<p>A consci\u00eancia do povo apoia essas lutas. Mesmo muitos daqueles que hoje votam no bolsonarismo apoiam um sal\u00e1rio m\u00ednimo melhor, um sistema p\u00fablico de sa\u00fade melhor, uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e uma universidade p\u00fablica melhores. Ent\u00e3o, n\u00f3s temos que ir ao encontro dessas aspira\u00e7\u00f5es do povo brasileiro, formulando um programa de conjunto.<\/p>\n<p><strong>A partir da crise do Estado neoliberal norte-americano, \u00e9 poss\u00edvel a consolida\u00e7\u00e3o de um caminho de esperan\u00e7a, com base nos valores do socialismo democr\u00e1tico?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de fazer propaganda abstrata ou doutrin\u00e1ria do socialismo, mas de entender que aquelas reivindica\u00e7\u00f5es fundamentais do povo brasileiro, na sua din\u00e2mica de luta e de realiza\u00e7\u00e3o, confrontam o dom\u00ednio do capital. E, nesse sentido, s\u00e3o potencialmente anticapitalistas.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 muito interessante que a classe dominante brasileira (os grandes bancos, o grande agroneg\u00f3cio, as grandes empresas multinacionais) se perfila em torno da candidatura de um tipo t\u00e3o desqualificado, ligado a mil\u00edcias, como o Fl\u00e1vio Bolsonaro (PL). Isto \u00e9, abandonaram o terreno da democracia, da luta pelos direitos fundamentais e pelos direitos humanos. E esse \u00e9 o terreno onde a gente deve crescer; \u00e9 o terreno que a gente deve ocupar.<\/p>\n<p>N\u00f3s sabemos que o povo n\u00e3o entende a democracia abstratamente. Se a democracia n\u00e3o melhora a sua vida e o seu cotidiano, se n\u00e3o \u00e9 capaz de reduzir esses juros absurdos, de elevar o sal\u00e1rio m\u00ednimo para um patamar que d\u00ea dignidade \u00e0s pessoas, ou de reduzir a jornada de trabalho, a democracia fica sem valor para o povo.\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00f3s temos que ligar essas lutas de modo unificado. O livro fala muito sobre a import\u00e2ncia da unidade, de fazer convergir todas as lutas setoriais, todos os partidos da esquerda e da centro-esquerda, e todos os democratas contra o autoritarismo neoliberal para uma frente democr\u00e1tica \u00fanica que se revele no plano dos movimentos sociais e no plano das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00f3s sabemos que \u00e9 imposs\u00edvel mover a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as institucional no Congresso Nacional, sem que os movimentos sociais ganhem mais peso. N\u00f3s estamos teorizando desde os anos 90 que o fundamental de uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica desse tipo \u00e9 o crescimento, o transcrescimento e a capacidade de organiza\u00e7\u00e3o popular. \u00c9 ela que alavanca, assim como foi a funda\u00e7\u00e3o da CUT, do PT, do MST, da Marcha Mundial das Mulheres e de um conjunto de outras for\u00e7as do movimento social. Ent\u00e3o, a nossa proposi\u00e7\u00e3o \u00e9 que a gente forme uma maioria e construa democraticamente o poder.<\/p>\n<p>Agora, eles n\u00e3o v\u00e3o entregar os seus privil\u00e9gios e as suas riquezas de gra\u00e7a; eles v\u00e3o se opor violentamente. Se voc\u00ea pensar bem, eles j\u00e1 usam muito da viol\u00eancia contra o povo brasileiro. O Estado brasileiro \u00e9 muito violento. Essa viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9 uma viol\u00eancia contra a liberdade das mulheres.\u00a0<\/p>\n<p>A viol\u00eancia que se faz nos morros e nas favelas brasileiras \u00e9 uma viol\u00eancia contra os favelados, contra os negros brasileiros; ela retoma essas dimens\u00f5es racialistas do poder. Se vemos a viol\u00eancia que se exerce no campo, ela tamb\u00e9m repercute essa viol\u00eancia hist\u00f3rica dos latif\u00fandios contra os movimentos agr\u00e1rios.\u00a0<\/p>\n<p>A classe trabalhadora hoje vive sob uma viol\u00eancia intensa. At\u00e9 os acidentes de trabalho est\u00e3o aumentando no Brasil de forma vertiginosa. Extens\u00e3o da jornada, precariza\u00e7\u00e3o, formas de trabalho escravo, jornadas de trabalho extensivas, pessoas ficando doentes de tanto trabalhar, sem horizonte na vida, sem poder contar com uma previd\u00eancia no final da vida, e assim por diante. Ent\u00e3o, \u00e9 um grau de viol\u00eancia muito grande exercido j\u00e1 cotidianamente. N\u00f3s nem devemos falar em \u201cesperar\u201d uma viol\u00eancia; n\u00f3s temos que derrotar a viol\u00eancia que j\u00e1 existe contra o povo brasileiro.<\/p>\n<p>Isso se faz na luta democr\u00e1tica, atrav\u00e9s das formas de auto-organiza\u00e7\u00e3o do povo brasileiro, e na conquista de novas leis. Foi muito importante, nesse sentido, a condena\u00e7\u00e3o, pela primeira vez na hist\u00f3ria brasileira, de um oficialato das For\u00e7as Armadas golpistas. A condena\u00e7\u00e3o dos criminosos que mataram Marielle Franco tamb\u00e9m foi um momento importante.\u00a0<\/p>\n<p>E agora n\u00f3s vamos, nesta campanha, trabalhar fortemente a prote\u00e7\u00e3o da vida das mulheres contra a viol\u00eancia pregada pelos bolsonaristas. Eles pregam esses valores que incentivam a viol\u00eancia contra a mulher e at\u00e9 fizeram campanha pela dissemina\u00e7\u00e3o das armas.<\/p>\n<p><strong>Mesmo governos de esquerda, por vezes, mant\u00eam pol\u00edticas econ\u00f4micas que favorecem a l\u00f3gica neoliberal. Como voc\u00ea avalia essa dificuldade de ousar romper com o neoliberalismo? Quais consequ\u00eancias pr\u00e1ticas isso gera?<\/strong><\/p>\n<p>Isso decorre exatamente do sistema eleitoral partid\u00e1rio, que se abre ao investimento de dinheiro, cada vez mais vultoso, nas elei\u00e7\u00f5es. N\u00f3s sabemos que essa \u00e9 uma maneira de os capitalistas anularem o direito de \u201ccada cidad\u00e3o, um voto\u201d, porque quem aplica R$ 100 milh\u00f5es em uma elei\u00e7\u00e3o tem muito mais que um voto.\u00a0<\/p>\n<p>Isso ocorreu tamb\u00e9m na democracia liberal norte-americana e est\u00e1 ocorrendo claramente no Brasil nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Diante desse quadro, um governo assume e est\u00e1 trabalhando em uma economia muito vulner\u00e1vel ao capital estrangeiro e \u00e0 depend\u00eancia. Ele n\u00e3o tem maioria parlamentar e est\u00e1 cercado por uma press\u00e3o financeira permanente.\u00a0<\/p>\n<p>Foram os liberais que constru\u00edram o Banco Central no Brasil em 1965-66, nos primeiros anos da ditadura militar. Eles sempre utilizaram o Banco Central como uma forma de articular os interesses financeiros na economia brasileira, vinculando-os \u00e0 economia internacional.<\/p>\n<p>O governo de Jair Bolsonaro deu um passo adiante, tornando essa depend\u00eancia do setor privado uma depend\u00eancia decis\u00f3ria estrutural, porque o presidente do Banco Central j\u00e1 n\u00e3o deve contas ao presidente eleito soberanamente.\u00a0<\/p>\n<p>Essa estrat\u00e9gia de criar bancos centrais capturados pelo sistema financeiro faz com que os bancos centrais se vinculem ao dom\u00ednio financeiro norte-americano no mundo, ao dom\u00ednio do d\u00f3lar. Praticamente todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina foram nessa dire\u00e7\u00e3o, nesse per\u00edodo de dom\u00ednio neoliberal, incentivados pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 preciso reconhecer que existem essas limita\u00e7\u00f5es estruturais, porque quem tem esperan\u00e7a deve partir da realidade. Mas o risco \u00e9 voc\u00ea estabelecer um grau de concilia\u00e7\u00e3o com essas estruturas que te leve a uma condi\u00e7\u00e3o de incapacidade de aplica\u00e7\u00e3o do programa para o qual voc\u00ea foi eleito.\u00a0<\/p>\n<p>E o que isso gera? Uma insatisfa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com o governo, que esperava que fizesse mais. \u00c9 um c\u00edrculo vicioso. Como \u00e9 que se quebra esse ciclo? Enfrentando. Enfrentando como fizemos a partir de meados do ano passado, colocando a quest\u00e3o da justi\u00e7a tribut\u00e1ria; agora colocando a quest\u00e3o da supera\u00e7\u00e3o da jornada 6\u00d71, sem redu\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio; enfrentando o Banco Central, inclusive atrav\u00e9s daquela jornada p\u00fablica de manifesta\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 a partir disso que o povo sente profundamente que o governo est\u00e1 do seu lado e que a extrema direita est\u00e1 contra o povo, criando, ent\u00e3o, uma base social, uma base de mobiliza\u00e7\u00f5es e uma base eleitoral que lhe permite alterar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. Agora, se voc\u00ea n\u00e3o enfrenta, o que acontece? Voc\u00ea fica prisioneiro na armadilha e a\u00ed o bolsonarismo surge como um \u201cantissistema\u201d. O que \u00e9 um absurdo, porque eles se constitu\u00edram no n\u00facleo do sistema.\u00a0<\/p>\n<p>Desde 2003, n\u00f3s estamos envolvidos nessa pol\u00eamica. Eu, inclusive, deixei de participar como assessor da Secretaria-Geral da Presid\u00eancia em fun\u00e7\u00e3o dessa pol\u00eamica. Eu fazia uma cr\u00edtica p\u00fablica ao movimento que eu achava excessivamente liberal da economia, ent\u00e3o dirigida pelo ministro Palocci. Um assessor n\u00e3o poderia fazer publicamente essas cr\u00edticas, ent\u00e3o optei por faz\u00ea-las publicamente e continuo fazendo at\u00e9 hoje, assim como muitos companheiros e os movimentos sociais.<\/p>\n<p>Quando olhamos o Programa da CUT ou o Programa Agr\u00e1rio do MST, n\u00e3o s\u00e3o programas de um sonho distante, s\u00e3o compromissos com as classes trabalhadoras. Eles fornecem toda uma pauta, uma agenda de lutas e de possibilidades. Hoje o valor do sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9 semelhante ao valor do sal\u00e1rio m\u00ednimo do in\u00edcio dos anos 60. Anos depois, n\u00f3s estamos remunerando no mesmo patamar e a maior parte da classe trabalhadora ganha at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo e meio.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 uma baix\u00edssima remunera\u00e7\u00e3o das classes trabalhadoras. Isso \u00e9 grav\u00edssimo. E n\u00f3s j\u00e1 estamos no quinto governo, o quarto foi interrompido exatamente por esses erros de concilia\u00e7\u00e3o. Foi levado um neoliberal para o Minist\u00e9rio da Fazenda e a\u00ed n\u00f3s t\u00ednhamos que defender a Dilma, em um per\u00edodo em que 100 mil trabalhadores estavam perdendo o emprego a cada m\u00eas. Como \u00e9 que voc\u00ea consegue estruturar uma defesa ampla, massiva e majorit\u00e1ria em um ambiente em que a economia est\u00e1 com uma recess\u00e3o de 3,5% e a classe trabalhadora perdendo direitos?<\/p>\n<p>Enfim, essa \u00e9 uma quest\u00e3o fundamental. Foi muito importante os recentes documentos program\u00e1ticos das diretrizes do programa Lula e a renova\u00e7\u00e3o do programa hist\u00f3rico do PT. Porque, pela primeira vez, consta o enfrentamento do neoliberalismo. A partir de: uma reforma pol\u00edtica democr\u00e1tica, de acordo com o princ\u00edpio da soberania popular; mudan\u00e7a das regras macroecon\u00f4micas; cria\u00e7\u00e3o de um novo ciclo de direitos p\u00fablicos das classes trabalhadoras, entendidas no seu sentido amplo, inclusive com uma pol\u00edtica de cuidados e os trabalhos invisibilizados da mulher; e a defesa daqueles valores da liberdade, da solidariedade, da igualdade e da justi\u00e7a social, que s\u00e3o pr\u00f3prios da nossa tradi\u00e7\u00e3o. Mas, para serem defendidos, \u00e9 preciso que voc\u00ea ataque a reprodu\u00e7\u00e3o da desigualdade.<\/p>\n<p><strong>Qual papel as elei\u00e7\u00f5es presidenciais deste ano no Brasil cumprem nesse contexto?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas de uma disputa democr\u00e1tica entre dois campos no interior da democracia liberal. N\u00f3s sabemos que o bolsonarismo representa uma for\u00e7a contra a democracia, de destrui\u00e7\u00e3o da democracia e de destrui\u00e7\u00e3o da soberania nacional. Ent\u00e3o, a elei\u00e7\u00e3o do Lula significa, em primeiro lugar, a defesa da democracia e a defesa da soberania nacional.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 a partir dessas duas grandes chaves que n\u00f3s devemos levar para o centro da disputa a nossa agenda de direitos e de mudan\u00e7as. Se diz que este governo est\u00e1 se finalizando voltado para a reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, mas o programa que n\u00f3s devemos disputar agora \u00e9 um programa de futuro, um programa de transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, cr\u00edtica e social do Brasil.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o caminho para vencer o bolsonarismo e conquistar melhores condi\u00e7\u00f5es no Congresso Nacional, nos governos estaduais e nas assembleias legislativas. O sentimento da unidade das esquerdas brasileiras nunca foi t\u00e3o forte como agora, e essa unidade se revela nos movimentos sociais, nos partidos e em uma din\u00e2mica de luta.\u00a0<\/p>\n<p>Eu penso que n\u00f3s devemos ir para a rua imediatamente; n\u00e3o dever\u00edamos ter sa\u00eddo da rua nos \u00faltimos meses, porque isso abriu espa\u00e7o para o bolsonarismo organizar uma contra ofensiva, como estamos vendo. A \u00fanica maneira que temos de fazer frente ao duplo poder comunicativo que apoia o bolsonarismo \u2014 a rede virtual montada por eles a partir da sua inser\u00e7\u00e3o norte-americana e a comunica\u00e7\u00e3o produzida pelas grandes empresas \u2014 \u00e9 com os movimentos sociais na rua. N\u00e3o podemos demorar.<\/p>\n<p>Quando me perguntam se estou otimista ou pessimista diante das elei\u00e7\u00f5es, eu digo que essa pergunta n\u00e3o est\u00e1 bem formulada. Eu sou um esperan\u00e7oso realista, com os p\u00e9s no ch\u00e3o e com os olhos na frente. Eu penso que aprendemos com os grandes movimentos sociais e com as grandes lutas do povo brasileiro. E o povo brasileiro \u00e9 profundamente realista, vive nessas condi\u00e7\u00f5es, pisa o ch\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o e da opress\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e9 capaz de sonhar e de lutar por um mundo melhor.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p><script src=\"https:\/\/connect.facebook.net\/pt_BR\/sdk.js\" id=\"facebook-embed-js\"><\/script><\/p>\n<div class=\"td-all-devices\"><a href=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/\"><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/podcast\/visoespopulares\/2026\/04\/29\/cientista-politico-juarez-guimaraes-explica-o-que-e-o-neoliberalismo-e-como-combate-lo\/\">Fonte Original <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO neoliberalismo vive uma crise da sua domina\u00e7\u00e3o, porque o Estado norte-americano est\u00e1 vivendo uma crise interna que impacta no seu controle do mundo. 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