{"id":15107,"date":"2026-01-31T23:24:18","date_gmt":"2026-01-31T23:24:18","guid":{"rendered":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2026\/01\/31\/eduardo-neves-sonho-com-alianca-da-arqueologia-e-povos-da-amazonia-para-aprender-com-o-passado-a-viver-melhor-o-presente\/"},"modified":"2026-01-31T23:24:22","modified_gmt":"2026-01-31T23:24:22","slug":"eduardo-neves-sonho-com-alianca-da-arqueologia-e-povos-da-amazonia-para-aprender-com-o-passado-a-viver-melhor-o-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2026\/01\/31\/eduardo-neves-sonho-com-alianca-da-arqueologia-e-povos-da-amazonia-para-aprender-com-o-passado-a-viver-melhor-o-presente\/","title":{"rendered":"Eduardo Neves: \u2018Sonho com alian\u00e7a da arqueologia e povos da Amaz\u00f4nia para aprender com o passado a viver melhor o presente\u2019"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>Depois de quase 40 anos de pesquisa de campo na Amaz\u00f4nia, o arque\u00f3logo Eduardo G\u00f3es Neves afirma que a floresta que hoje chamamos de natureza, tamb\u00e9m \u00e9 hist\u00f3ria. Professor e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (MAE-USP), ele diz que a hist\u00f3ria ind\u00edgena da Amaz\u00f4nia \u201c\u00e9 muito profunda\u201d e que esse passado precisa ser reconstru\u00eddo junto com quem vive nos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>\u201cEu sonho como arque\u00f3logo com uma Amaz\u00f4nia onde a gente consiga, cada vez mais, fazer uma alian\u00e7a entre arque\u00f3logas, arque\u00f3logos, popula\u00e7\u00f5es tradicionais, povos ind\u00edgenas\u201d, afirma. A ideia \u00e9 produzir conhecimento sobre o passado \u201cpara tentar nos ajudar a encontrar maneiras interessantes, inteligentes de viver no presente tamb\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>Na conversa com o <strong>Brasil de Fato<\/strong>, Neves rebate a ideia \u2013 ainda hoje disseminada \u2013 de que a Amaz\u00f4nia era um territ\u00f3rio vazio, isolado e in\u00f3spito. Ele lembra que, durante muito tempo, predominou a vis\u00e3o de que ali \u201cn\u00e3o havia hist\u00f3ria humana, n\u00e3o havia hist\u00f3ria ind\u00edgena, era s\u00f3 um ambiente pristino\u201d. Para o arque\u00f3logo, essa leitura teve consequ\u00eancias pr\u00e1ticas e \u201cserviu de justificativa para v\u00e1rios projetos de desenvolvimento econ\u00f4mico catastr\u00f3ficos\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo da entrevista, ele detalha evid\u00eancias arqueol\u00f3gicas e cient\u00edficas que mostram a presen\u00e7a de grandes popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas na floresta antes da chegada dos europeus. Neves afirma que, na chamada Grande Amaz\u00f4nia, viviam entre 8 e 10 milh\u00f5es de pessoas e que, hoje, j\u00e1 h\u00e1 mais de 10 mil s\u00edtios arqueol\u00f3gicos catalogados. <\/p>\n<p>Um dos registros mais vis\u00edveis s\u00e3o as terras pretas \u2013 solos escuros, f\u00e9rteis, criados por povos ind\u00edgenas h\u00e1 milhares de anos. Ele tamb\u00e9m aponta a presen\u00e7a de castanhais e de esp\u00e9cies como o a\u00e7a\u00ed, hoje a \u00e1rvore mais comum da regi\u00e3o. \u201cA ci\u00eancia conhece apenas dois dispersores da castanha: a cutia e a nossa esp\u00e9cie. Isso mostra o quanto essa floresta tem de hist\u00f3ria humana\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para o arque\u00f3logo, a variedade de formas de viver \u2013 a Amaz\u00f4nia tem ao menos 170 l\u00ednguas diferentes \u2013 foi tratada por s\u00e9culos como sin\u00f4nimo de atraso. \u201cNaturalistas do s\u00e9culo 19 achavam que essa diversidade era reflexo de um processo de degenera\u00e7\u00e3o. Associavam isso \u00e0 condi\u00e7\u00e3o tropical. Isso alimenta um colonialismo interno muito forte at\u00e9 hoje.\u201d<\/p>\n<p>Ao refletir sobre os modos de vida ind\u00edgenas, ele aponta um tra\u00e7o comum e oposto ao do agroneg\u00f3cio: sistemas abertos, sem controle r\u00edgido da natureza, com diversidade de cultivos e ciclos. \u201cBem viver pode ser uma lente interessante para classificar isso\u201d, afirma. E lembra uma defini\u00e7\u00e3o que ouviu de mulheres Waj\u00e3pi, no Amap\u00e1: \u201cUma ro\u00e7a bonita \u00e9 aquela onde a gente v\u00ea passarinhos, ouve os insetos. \u00c9 uma ro\u00e7a alegre, tem vida.\u201d<\/p>\n<p>Eduardo Neves tamb\u00e9m fala sobre as cidades ind\u00edgenas na floresta, ocupa\u00e7\u00f5es planejadas que n\u00e3o exclu\u00edam o ambiente, mas se integravam a ele. Para ele, a ideia de \u201cflorestar as cidades\u201d \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria diante da crise clim\u00e1tica. Mas essa mudan\u00e7a exige menos inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica do que parece \u2013 e mais escuta. \u201c\u00c9 uma quest\u00e3o de prestar aten\u00e7\u00e3o. Cidades tropicais e aqu\u00e1ticas precisam dialogar com a \u00e1gua, com a vegeta\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o tentar elimin\u00e1-las.\u201d<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Leia a entrevista na \u00edntegra<\/h4>\n<p><strong>Brasil de Fato: Eduardo, tua pesquisa tem mostrado que a Amaz\u00f4nia como a gente conhece hoje n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 \u201cnatureza intocada\u201d, mas resultado de tecnologias ancestrais. Para abrir, queria que tu desse exemplos bem concretos de como isso aparece no territ\u00f3rio. O que os europeus encontraram quando chegaram e o que a arqueologia ajuda a enxergar hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Neves:<\/strong> Bom, meu nome \u00e9 Eduardo Neves, eu sou arque\u00f3logo, sou professor da Universidade de S\u00e3o Paulo, do Museu de Arqueologia e Etnologia, e eu trabalho fazendo pesquisas arqueol\u00f3gicas aqui na Amaz\u00f4nia desde o final dos anos 80, portanto, h\u00e1 quase 40 anos.<\/p>\n<p>O meu trabalho e o trabalho de outros e outras colegas tamb\u00e9m na Amaz\u00f4nia, t\u00eam demonstrado que a presen\u00e7a ind\u00edgena antiga aqui, que a hist\u00f3ria ind\u00edgena da Amaz\u00f4nia antiga, ela \u00e9 muito profunda e que havia talvez entre 8 ou 10 milh\u00f5es de ind\u00edgenas vivendo aqui na Amaz\u00f4nia quando os primeiros europeus chegaram ao continente americano em 1492, na Amaz\u00f4nia brasileira, mas em toda a grande Amaz\u00f4nia, e tamb\u00e9m partes das Guianas e a regi\u00e3o do rio Orinoco, na Venezuela.<\/p>\n<p>E uma coisa interessante: se a gente olhar nesses \u00faltimos 40 anos, a gente v\u00ea uma mudan\u00e7a de perspectiva. O paradigma dominante h\u00e1 40 anos atr\u00e1s \u00e9 que a Amaz\u00f4nia havia sido pouco ocupada no passado, que era uma regi\u00e3o sem hist\u00f3ria, sem hist\u00f3ria humana, sem hist\u00f3ria ind\u00edgena e um ambiente pr\u00edstino. Isso inclusive serviu de justificativa para v\u00e1rios projetos de desenvolvimento econ\u00f4mico catastr\u00f3ficos que v\u00eam da \u00e9poca da ditadura e continuam at\u00e9 hoje, de certa maneira.<\/p>\n<p>O que a arqueologia mostra para n\u00f3s \u00e9 que, primeiro, havia muita gente na Amaz\u00f4nia no passado e, segundo, que os povos antigos da Amaz\u00f4nia, que s\u00e3o os ancestrais dos povos ind\u00edgenas contempor\u00e2neos, modificaram a natureza profundamente, criando, por exemplo, solos escuros muito f\u00e9rteis, conhecidos como terras pretas, que s\u00e3o solos hoje em dia utilizados pelas popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e ribeirinhas e tradicionais contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>Fizeram modifica\u00e7\u00f5es na paisagem, promovendo o que a gente chama de hiperdomin\u00e2ncia de algumas esp\u00e9cies de \u00e1rvores. O a\u00e7a\u00ed, por exemplo, \u00e9 a \u00e1rvore mais comum da Amaz\u00f4nia e ele \u00e9 cultivado h\u00e1 milhares de anos pelos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>As matas de castanhais, que a gente conhece em v\u00e1rios lugares, s\u00f3 t\u00eam dois animais que dispersam a castanha, conhecidos pela ci\u00eancia. Um deles \u00e9 a cutia e outro somos n\u00f3s, a nossa esp\u00e9cie. Ent\u00e3o, a gente trabalha com a perspectiva de que a distribui\u00e7\u00e3o ampla dos castanhais pela Amaz\u00f4nia tem a ver com a interven\u00e7\u00e3o ind\u00edgena tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, existem evid\u00eancias que v\u00eam da bot\u00e2nica, que v\u00eam da pr\u00f3pria\u2026 N\u00f3s temos mais de 10 mil s\u00edtios arqueol\u00f3gicos cadastrados hoje na Amaz\u00f4nia. E, se a gente olhar para o mapa de distribui\u00e7\u00e3o desses s\u00edtios, a gente tem imensas \u00e1reas vazias. Ainda existem estimativas que talvez outros 10 mil s\u00edtios possam ser cadastrados nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, s\u00e3o v\u00e1rias evid\u00eancias que v\u00eam da arqueologia, da bot\u00e2nica, das ci\u00eancias do solo que mostram para n\u00f3s a import\u00e2ncia da presen\u00e7a ind\u00edgena antiga criando esse lugar fant\u00e1stico que \u00e9 a Amaz\u00f4nia que a gente conhece hoje em dia.<\/p>\n<p><strong>Eu queria puxar isso para o tema do viver bem, porque essa conversa vai ao ar no programa <em>Bem Viver<\/em>. Esse modo de vida desenvolvido por mil\u00eanios, com essa rela\u00e7\u00e3o com a floresta, d\u00e1 para dizer que se aproxima do que a gente chama de bem viver? E como isso confronta aquela leitura europeia de \u201cinferno verde\u201d, de um lugar in\u00f3spito<\/strong>?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 dif\u00edcil\u2026 A diversidade cultural ind\u00edgena na Amaz\u00f4nia \u00e9 imensa. Esse n\u00famero varia um pouco, mas pelo menos mais de 170 l\u00ednguas diferentes faladas aqui. E essa grande variedade lingu\u00edstica \u00e9 um sinal de diversidade cultural tamb\u00e9m. Isso \u00e9 fant\u00e1stico e \u00e9 t\u00edpico aqui da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante porque os primeiros cientistas naturalistas no s\u00e9culo 19, quando observaram essa diversidade lingu\u00edstica, interpretaram isso como reflexo de um processo de degenera\u00e7\u00e3o. Esse termo foi utilizado na literatura at\u00e9 a d\u00e9cada de 70.<\/p>\n<p>A ideia era que essa diversidade que eles viram no s\u00e9culo 19 e que a gente v\u00ea at\u00e9 hoje teria resultado de diferentes levas de migra\u00e7\u00f5es, de povos vindos de outros centros supostamente mais civilizados aqui no continente americano.<\/p>\n<p>Como na arqueologia amaz\u00f4nica a gente n\u00e3o tem estruturas de pedra, de alvenaria, e como o material construtivo era o solo, a madeira e a palha, e a madeira e a palha se decomp\u00f5em com o tempo, ent\u00e3o eles n\u00e3o viam. A floresta crescia sobre aqueles locais antigos abandonados que foram esvaziados por causa do impacto gerado pela conquista europeia, coloniza\u00e7\u00e3o. As doen\u00e7as, a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a gente tem um esvaziamento da regi\u00e3o nos s\u00e9culos 16 e 17. Quando os primeiros cientistas ocidentais viajam pela Amaz\u00f4nia no s\u00e9culo 19, eles veem essa regi\u00e3o esvaziada, esses antigos locais de ocupa\u00e7\u00e3o recobertos pela floresta, e essa diversidade lingu\u00edstica e cultural, que \u00e9 maravilhosa, eles interpretaram como sinal do qu\u00ea? De diferentes levas migrat\u00f3rias, de povos que vieram de longe e, por causa da condi\u00e7\u00e3o tropical, n\u00e3o conseguiram manter aquele mesmo padr\u00e3o de sofistica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o esses autores associam \u2013 \u00e9 uma coisa terr\u00edvel, na verdade, pro nosso pa\u00eds \u2013 a condi\u00e7\u00e3o tropical com a ideia de degenera\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 uma coisa que nos aflige at\u00e9 hoje aqui no Brasil e \u00e9 por isso que a gente v\u00ea o colonialismo interno muito forte at\u00e9 hoje no nosso pa\u00eds. Eu posso falar porque eu tenho um lugar de fala, eu sou paulista. E a gente v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o que o Sudeste e o Sul do Brasil t\u00eam com a Amaz\u00f4nia. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o de colonialismo. A Amaz\u00f4nia t\u00e1 ali at\u00e9 hoje para prestar um servi\u00e7o para quem n\u00e3o vive aqui, seja atrav\u00e9s do extrativismo. Depois atrav\u00e9s da produ\u00e7\u00e3o de energia, minera\u00e7\u00e3o em larga escala. Agora o petr\u00f3leo. Essas coisas todas t\u00eam essa conota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E isso reflete o qu\u00ea? Uma dificuldade muito grande de entender essa l\u00f3gica de viver aqui nos tr\u00f3picos. Eu n\u00e3o sei se d\u00e1 para falar de uma l\u00f3gica ind\u00edgena, porque a diversidade cultural ind\u00edgena \u00e9 muito grande, mas existe uma esp\u00e9cie de denominador comum que \u00e9 not\u00e1vel, que a arqueologia consegue mostrar para n\u00f3s, que eu chamaria de aus\u00eancia de controle.<\/p>\n<p>Os sistemas agr\u00edcolas contempor\u00e2neos s\u00e3o baseados na monocultura, na mecaniza\u00e7\u00e3o, no uso muito forte de insumos para corrigir o pH do solo, pesticidas, herbicidas. Uma cadeia que t\u00e1 ligada \u00e0 ind\u00fastria do petr\u00f3leo e \u00e0 ind\u00fastria financeira internacional. A agricultura contempor\u00e2nea s\u00f3 consegue gerar escala atrav\u00e9s do investimento maci\u00e7o na padroniza\u00e7\u00e3o e na monocultura e no controle absoluto dos cultivos.<\/p>\n<p>E se a gente olhar para os sistemas agroecol\u00f3gicos antigos e contempor\u00e2neos, a Amaz\u00f4nia, popula\u00e7\u00f5es tradicionais, ribeirinhas, ind\u00edgenas, quilombolas, mas tamb\u00e9m o que a arqueologia mostra para n\u00f3s, o que a gente v\u00ea \u00e9 uma diversidade muito grande de cultivos, investimento na diversifica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o na especializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se a gente olhar para os sistemas agroecol\u00f3gicos contempor\u00e2neos, eles est\u00e3o baseados na aus\u00eancia de controle. \u00c9 muito comum numa ro\u00e7a, eu vejo meus amigos que fazem ro\u00e7a, falarem para mim: brota ali uma mandioca que ele n\u00e3o plantou, eles deixam crescer. O que a gente chama de erva daninha, \u00e0s vezes, que tem que ser erradicada das nossas ro\u00e7as, \u00e9 mantido ali. E quem cultiva, geralmente as mulheres, observa e presta aten\u00e7\u00e3o nas propriedades daquelas plantas.<\/p>\n<p>E esses sistemas agroecol\u00f3gicos abertos criaram, de certa maneira, a Amaz\u00f4nia que a gente conhece hoje em dia e a Mata Atl\u00e2ntica tamb\u00e9m e o Cerrado tamb\u00e9m e a Caatinga tamb\u00e9m que a gente conhece. Isso um pouco melhor no caso da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00f3s vemos hoje um conflito muito grande, eu acho que \u00e9 um conflito de ontologias. E que se manifesta nas paisagens do Brasil. Se a gente for l\u00e1 no Mato Grosso, por exemplo, na regi\u00e3o do Alto Xingu, e olhar pros limites do Parque do Xingu, voc\u00ea v\u00ea claramente uma linha reta: de um lado \u00e9 monocultura e do outro \u00e9 floresta. E quem mant\u00e9m essas florestas em p\u00e9, isso \u00e9 em Rond\u00f4nia, no Mato Grosso, aqui no Par\u00e1\u2026 O que sobrou de floresta hoje nesses territ\u00f3rios s\u00e3o terras ind\u00edgenas ou terras protegidas, parques nacionais. Quem mant\u00e9m a floresta em p\u00e9 s\u00e3o os povos tradicionais.<\/p>\n<p>E s\u00e3o, de novo, modos de vida baseados no qu\u00ea? Voc\u00ea falou em bem viver. Bem viver pode ser uma lente interessante de classificar isso. Est\u00e3o baseados na valoriza\u00e7\u00e3o da vida. Na concep\u00e7\u00e3o de que a nossa esp\u00e9cie n\u00e3o t\u00e1 sozinha no planeta e de que uma floresta feliz\u2026<\/p>\n<p>Tem uma amiga antrop\u00f3loga, a Joana Cabral, que tem uma formula\u00e7\u00e3o muito bonita, que ela aprendeu com as mulheres do povo Waj\u00e3pi, l\u00e1 do Amap\u00e1, que uma ro\u00e7a bonita \u00e9 uma ro\u00e7a onde a gente v\u00ea passarinhos, ouve os insetos. \u00c9 uma ro\u00e7a alegre, tem vida. N\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as plantas que est\u00e3o ali, s\u00e3o os outros seres viventes que se beneficiam dessas rela\u00e7\u00f5es entre as esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>E hoje a gente vive num momento crucial, porque a gente v\u00ea essa ontologia da abertura em conflito muito forte com uma outra ontologia. O que \u00e9 uma ontologia? \u00c9 uma maneira de olhar pro mundo, uma maneira de estar no mundo. Ontologias baseadas no controle absoluto, que a meu ver podem at\u00e9 funcionar no curto prazo, mas est\u00e3o colocando todo o nosso planeta numa encruzilhada profunda civilizat\u00f3ria, que pode estar ligada at\u00e9 \u00e0 sobreviv\u00eancia da nossa esp\u00e9cie nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p><strong>Quando tu falas dessa diversidade de povos e formas de vida, eu fico pensando tamb\u00e9m em como esses grupos se relacionavam entre si. A gente tem pistas disso? Existiam conex\u00f5es, circula\u00e7\u00e3o, com\u00e9rcio, trocas de conhecimento?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, a gente tem evid\u00eancias de com\u00e9rcio, de rela\u00e7\u00f5es, circula\u00e7\u00e3o de cer\u00e2micas. Um bom indicador para isso s\u00e3o as plantas.<\/p>\n<p>Se a gente olhar pelas plantas, a gente tem plantas que foram cultivadas na Amaz\u00f4nia primeiro, que viajaram pra fora da Amaz\u00f4nia, pra Am\u00e9rica Central, pra Am\u00e9rica do Norte h\u00e1 muito tempo atr\u00e1s. O cacau, por exemplo, \u00e9 uma planta amaz\u00f4nica. Mas o cacau j\u00e1 era cultivado aqui na Amaz\u00f4nia h\u00e1 mais ou menos 5 mil anos, l\u00e1 no Equador. Mas o cacau j\u00e1 era cultivado h\u00e1 milhares de anos depois disso, por exemplo, na Guatemala, no M\u00e9xico.<\/p>\n<p>A mandioca \u00e9 uma planta amaz\u00f4nica que viajou muito cedo para o litoral do Peru. A gente tem evid\u00eancia de cultivo de mandioca no litoral do Peru h\u00e1 mais de 4 mil  anos. O milho \u00e9 uma planta que veio l\u00e1 do M\u00e9xico \u2013 M\u00e9xico n\u00e3o existia, obviamente \u2013 e chegou na Amaz\u00f4nia h\u00e1 6 mil anos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, as plantas viajavam. A batata-doce \u00e9 uma planta que tem uma origem amaz\u00f4nica. Ela atravessou a Cordilheira dos Andes e foi levada pro Pac\u00edfico, pras ilhas do Pac\u00edfico, pra Polin\u00e9sia, antes da chegada dos europeus aqui no Pac\u00edfico e na Am\u00e9rica do Sul. O tabaco \u00e9 uma planta amaz\u00f4nica que viajou pra Am\u00e9rica do Norte tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a gente tem v\u00e1rias evid\u00eancias de redes de troca, de circula\u00e7\u00e3o de plantas por todo o continente americano e at\u00e9 para fora do continente num passado muito anterior \u00e0 chegada dos europeus.<\/p>\n<p>Porque a gente sabe, se a gente olhar, por exemplo, na regi\u00e3o do Alto Rio Negro aqui no Brasil, existe um sistema de cultivo de mandioca, um sistema agr\u00edcola muito sofisticado, de outras plantas tamb\u00e9m. Esse sistema foi registrado pelo Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional. E \u00e9 muito comum quando as mo\u00e7as se casam e elas v\u00e3o morar na casa dos seus namorados, maridos, que elas levem consigo mudas de plantas dadas pelas m\u00e3es, pelas tias.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 atrav\u00e9s da circula\u00e7\u00e3o de pessoas que as plantas circulam tamb\u00e9m. Isso promove um aumento muito grande do que a gente chama de agrobiodiversidade. Ent\u00e3o, existe uma correla\u00e7\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 para separar a produ\u00e7\u00e3o dessa agrobiodiversidade com sistemas sociais que geraram isso ao longo dos s\u00e9culos e dos mil\u00eanios.<\/p>\n<p><strong>Eu queria te ouvir sobre o que tudo isso pode ensinar para o presente, especialmente para as cidades amaz\u00f4nicas e para as cidades em geral, que v\u00e3o precisar reaprender a coexistir com seus ecossistemas. Tu falas de evid\u00eancias de urbanismo na Amaz\u00f4nia antiga. Que li\u00e7\u00f5es aparecem a\u00ed? E como tu conectas isso com Bel\u00e9m e outras cidades amaz\u00f4nicas?<\/strong><\/p>\n<p>Olha, a gente tem evid\u00eancias de urbanismo e de cidades na Amaz\u00f4nia antiga. E aqui no Brasil, na Bol\u00edvia, no Equador tamb\u00e9m. A gente t\u00e1 tentando entender direito isso ainda.<\/p>\n<p>Mas eu tenho um colega arque\u00f3logo, estadunidense, que trabalha muitos anos aqui no Brasil. Ele vive, ensina nos Estados Unidos, mas tem um trabalho maravilhoso em parceria com o povo Kuikuro l\u00e1 do Alto Xingu. O nome dele \u00e9 Michael Heckenberger.<\/p>\n<p>E o Michael h\u00e1 muitos anos, j\u00e1 h\u00e1 20 anos, fala sobre cidades-jardim, que \u00e9 um conceito que pode ser muito interessante para n\u00f3s. A ideia \u00e9 que esse urbanismo antigo da Amaz\u00f4nia n\u00e3o separava\u2026 Quando a gente vive numa grande cidade, eu vivo em S\u00e3o Paulo, a gente separa a cidade do campo, a cidade do interior.<\/p>\n<p>E na concep\u00e7\u00e3o do Michael, baseado no conhecimento dos povos Kuikuro, l\u00e1 do Alto Xingu, nas pesquisas que ele faz com eles h\u00e1 muitos anos, esse urbanismo antigo n\u00e3o tava baseado numa separa\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o urbana pra dimens\u00e3o do interior ou de fora. A ideia \u00e9 que a floresta vivia dentro desses locais, desses arranjos urbanos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, uma li\u00e7\u00e3o importante, meio \u00f3bvia, \u00e9 a gente olhar, \u00e9 deixar a floresta\u2026 As pessoas falam em reflorestar as mentes. \u00c9 florestar as cidades. Isso \u00e9 uma coisa que, de novo, \u00e9 uma tecnologia que j\u00e1 t\u00e1 dispon\u00edvel. Que os povos da floresta est\u00e3o praticando h\u00e1 milhares de anos.<\/p>\n<p>Uma outra coisa: se a gente olhar para Bel\u00e9m\u2026 Eu devo dizer que a cidade ficou muito bonita para a COP. E acho que \u00e9 importante para Bel\u00e9m, pra autoestima da cidade, que ela esteja bonita como ela est\u00e1 agora. Mas, de fato, ela tem alguns problemas que s\u00e3o problemas estruturais.<\/p>\n<p>Bel\u00e9m t\u00e1 num local literalmente enchacado. Ela t\u00e1 na jun\u00e7\u00e3o, t\u00e1 cercada por \u00e1gua. A gente tem o rio Guam\u00e1, temos a ba\u00eda do Guajar\u00e1 do outro lado, in\u00fameros igarap\u00e9s que atravessam a cidade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu n\u00e3o consigo pensar num futuro para Bel\u00e9m que n\u00e3o contemple essa dimens\u00e3o de ser uma cidade aqu\u00e1tica, de ser uma cidade que t\u00e1 em cima da \u00e1gua. Porque al\u00e9m da quest\u00e3o dos rios aqui, tem a quest\u00e3o das mar\u00e9s, que \u00e9 at\u00e9 mais importante. A mar\u00e9 varia todo dia aqui.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o uma cidade como Bel\u00e9m tem que encontrar um jeito de dialogar com essa sua voca\u00e7\u00e3o de ser uma cidade de esponja, uma cidade aqu\u00e1tica.<\/p>\n<p>Eu moro em S\u00e3o Paulo e eu posso falar sobre isso porque l\u00e1 em S\u00e3o Paulo a gente tem dois rios maravilhosos que est\u00e3o sendo assassinados pela cidade, que s\u00e3o os rios Pinheiros e os rios Tiet\u00ea. Os c\u00f3rregos de S\u00e3o Paulo est\u00e3o, na sua maioria, soterrados, enterrados. Eles resistem ainda e vira e mexe os rios alagam as suas v\u00e1rzeas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a gente herdou um conceito de urbanismo que vem de fora. Manaus \u00e9 um outro exemplo: Manaus t\u00e1 entre os rios Amazonas e Negro e t\u00e1 de costas para esses dois grandes rios e t\u00e1 matando seus igarap\u00e9s. Igarap\u00e9 do Mindu, igarap\u00e9 da Bol\u00edvia, igarap\u00e9s de Manaus. Hoje em dia ningu\u00e9m pode tomar banho neles.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu acho que existe uma li\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia sofisticada por um lado, mas \u00e9 muito simples por outro: a gente tem que entender, n\u00f3s que somos um pa\u00eds tropical, a gente tem que deixar as florestas entrarem nas cidades. As cidades aqu\u00e1ticas como Bel\u00e9m t\u00eam que se associar \u00e0 \u00e1gua e n\u00e3o tentar lutar incessantemente contra a \u00e1gua.<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o precisa ser nenhum g\u00eanio para falar uma coisa dessas. \u00c9 prestar aten\u00e7\u00e3o e situar, e fazer um exerc\u00edcio do que eu chamo de letramento paisag\u00edstico. Entender a paisagem.<\/p>\n<p>Voc\u00ea \u00e9 de Floripa. L\u00e1 em Floripa, os mangues\u2026 O aeroporto t\u00e1 no mangue, o shopping t\u00e1 no mangue. Quer dizer, os manguezais s\u00e3o ber\u00e7\u00e1rios de reprodu\u00e7\u00e3o da vida marinha. A gente tem que dar um reset. Reentronizar a nossa liga\u00e7\u00e3o com o nosso pa\u00eds, que \u00e9 um pa\u00eds tropical, e deixar a natureza entrar nessas cidades que a gente ocupa hoje.<\/p>\n<p><strong>Esse \u201creset\u201d tamb\u00e9m passa por discutir economia e forma de produzir, n\u00e9. Pensando no Brasil de hoje, tu achas que um modo de vida mais misturado com o ambiente, mais cooperativo, \u00e9 compat\u00edvel com a busca pelo lucro? Ou a crise est\u00e1 empurrando a gente para uma encruzilhada inevit\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p>Bom, acho que essa \u00e9 a grande quest\u00e3o que a gente tem pela frente. Por exemplo, aqui vamos pensar no Brasil hoje em dia: uma das principais atividades econ\u00f4micas \u00e9 o agroneg\u00f3cio. E o agroneg\u00f3cio gera riqueza pro pa\u00eds. Isso \u00e9 ineg\u00e1vel, mas \u00e9 uma riqueza que, na minha opini\u00e3o, \u00e9 muito mal distribu\u00edda e que tem um pre\u00e7o social e ambiental muito altos.<\/p>\n<p>O que dizem as pessoas do agroneg\u00f3cio? Que existe uma demanda de escala muito grande e s\u00f3 esse jeito de trabalhar baseado na monocultura e nas planta\u00e7\u00f5es em grande escala \u00e9 capaz de poder alimentar a humanidade, alimentar o nosso pa\u00eds e a humanidade.<\/p>\n<p>Eu tenho a impress\u00e3o\u2026 Eu n\u00e3o posso prever o futuro e eu posso estar enganado, mas eu sou arque\u00f3logo. Trabalho com uma escala de tempo diferente. Para mim, falar em coisas que aconteceram h\u00e1 2, 3, 4, 5, 6 mil anos faz parte da minha vida, como falar em algo que aconteceu no ano passado ou na d\u00e9cada passada.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o consigo ver esse sistema de produ\u00e7\u00e3o baseado na concentra\u00e7\u00e3o de renda e na grande escala da monocultura como algo que seja sustent\u00e1vel nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. O uso extensivo da \u00e1gua\u2026 A gente t\u00e1 perdendo os len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos. L\u00e1 no sul do Brasil est\u00e3o secando agora. Ent\u00e3o eu n\u00e3o consigo ver uma maneira de que isso seja sustent\u00e1vel no longo prazo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o essa quest\u00e3o de pensar em formas associativistas de produ\u00e7\u00e3o de comida, por exemplo, ela \u00e9 mais do que uma alternativa. Ela vai ser um imperativo para n\u00f3s. A gente vai ter que pensar\u2026 Para mim, esse \u00e9 o grande desafio econ\u00f4mico: como escalar, dar uma escala maior para sistemas que est\u00e3o baseados na cooperativa, na coopera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o necessariamente na obten\u00e7\u00e3o do lucro, que n\u00e3o olham pra natureza como recurso, como fonte de renda, como fonte de dinheiro e fonte de enriquecimento.<\/p>\n<p>A gente vai ter que aprender a dar escala para esses sistemas sem sacrificar a ess\u00eancia que eles t\u00eam, porque se a gente fizer isso, de certa maneira, a gente vai desvirtuando o princ\u00edpio fundamental que os organiza. Mas se a gente n\u00e3o fizer isso, a gente t\u00e1 condenado a esgotar os nossos solos, a \u00e1gua.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o consigo ver que esse agro que \u00e9 t\u00e3o potente pro Brasil hoje em dia \u2013 e que eu respeito de um certo modo, porque eu conhe\u00e7o gente que trabalha com ele, eu n\u00e3o quero desmerecer \u2013 mas a minha avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 objetiva: eu n\u00e3o consigo ver isso como sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o da soja t\u00e1 subindo, os pastos est\u00e3o virando \u00e1reas de soja na Amaz\u00f4nia. O uso da \u00e1gua\u2026 Al\u00e9m da polui\u00e7\u00e3o dos rios, da quest\u00e3o dos pesticidas, do impacto social, a coisa que mais me chama aten\u00e7\u00e3o, que mais me preocupa, \u00e9 a quest\u00e3o da \u00e1gua.<\/p>\n<p>E a \u00e1gua\u2026 A gente t\u00e1 vendo o que t\u00e1 acontecendo hoje nesse tornado que aconteceu l\u00e1 no Paran\u00e1, em Santa Catarina, anteontem. O planeta \u00e9 um sistema fechado. A \u00e1gua do planeta vai continuar sempre aqui, mas a \u00e1gua t\u00e1 muito louca. Ela evapora\u2026 A \u00e1gua que vem do len\u00e7ol fre\u00e1tico, que \u00e9 usada na irriga\u00e7\u00e3o, aqueles piv\u00f4s de irriga\u00e7\u00e3o imensos, ela evapora e ela n\u00e3o vai cair no mesmo lugar, vai cair em outro lugar, vai formar nuvem de outro jeito.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a \u00e1gua n\u00e3o vai desaparecer do planeta, mas o regime h\u00eddrico\u2026 Rio Grande do Sul, aquela trag\u00e9dia no ano passado. O que acontece? Uma massa de ar muito seca parada no Brasil central, por causa do desmatamento da Amaz\u00f4nia, menos evapora\u00e7\u00e3o, menos transpira\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores, menos chuva vindo do norte. Essa massa de ar seco bloqueia a chuva que vem da Amaz\u00f4nia, uma esp\u00e9cie de muro que se coloca ali.<\/p>\n<p>A\u00ed v\u00eam essas chuvas do sul, essas frentes frias que normalmente se espalhariam pro sudeste. Essa massa de ar seco n\u00e3o deixa essa frente fria continuar o seu caminho e aquela \u00e1gua toda cai com aquela intensidade absurda no Rio Grande do Sul, com as consequ\u00eancias que a gente viu.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, existe uma correla\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o acho que seja uma quest\u00e3o apenas pol\u00edtica, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de alternativa: a gente vai ter que fazer de outro jeito, sen\u00e3o essas trag\u00e9dias todas v\u00e3o se acumular cada vez mais.<\/p>\n<p>Infelizmente, o que a gente sabe \u00e9 que quem \u00e9 mais pobre sempre \u00e9 mais vulner\u00e1vel. E essas desigualdades sociais do nosso pa\u00eds ficam muito vis\u00edveis nesses exemplos que eu t\u00f4 mostrando agora para voc\u00eas.<\/p>\n<p>E o que a gente tem visto de apostas nesses certames de discuss\u00e3o, como \u00e9 a COP, por exemplo, \u00e9 muito incluindo a partir das vozes desses grandes atores econ\u00f4micos, pol\u00edticos, que prometem conciliar uma restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, um futuro poss\u00edvel, com a l\u00f3gica deles de crescer capital, de ganhar dinheiro.<\/p>\n<p><strong>Eu queria aprofundar esse ponto. Nesses espa\u00e7os de debate aparece muito a promessa de conciliar \u201crestaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d com a l\u00f3gica de transformar a natureza em ativo, em renda, em neg\u00f3cio. Para ti, isso tem futuro? D\u00e1 para construir sa\u00edda nesse terreno?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho, Rodrigo, que eu sou um cara que sempre tento ver o copo meio cheio. Eu sempre acho que a gente pode encontrar uma alternativa. E eu acho que essa alternativa tem\u2026<\/p>\n<p>Eu acho que a gente tem que encontrar um lugar para conseguir conversar. Eu acho que n\u00e3o vai existir uma\u2026 Eu n\u00e3o acho que o capitalismo sozinho \u2013 n\u00e3o tenho menor d\u00favida que o capitalismo sozinho n\u00e3o vai salvar o mundo \u2013 mas a gente precisa da ajuda. Eu tamb\u00e9m acho que uma perspectiva alternativa sozinha n\u00e3o vai ter for\u00e7a para fazer isso tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Talvez seja meio ing\u00eanuo essa minha maneira de pensar. A gente tem que encontrar um caminho, a gente tem que saber escolher as lutas que s\u00e3o importantes e definir quais s\u00e3o os advers\u00e1rios que a gente tem pela frente. A ind\u00fastria do petr\u00f3leo, a minera\u00e7\u00e3o que tem impactos muito grandes, a monocultura\u2026 s\u00e3o invi\u00e1veis, a meu ver.<\/p>\n<p>Minera\u00e7\u00e3o tem que existir de alguma maneira, mas ela tem que ser rediscutida. A ind\u00fastria do petr\u00f3leo t\u00e1 condenada, ela tem que desaparecer, mas ela \u00e9 muito poderosa. A monocultura do agroneg\u00f3cio, a meu ver, n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel e tem impactos sociais e ambientais muito negativos.<\/p>\n<p>Mas a gente tem que encontrar no meio do caminho. Porque tem gente que tem dinheiro e t\u00e1 de fato preocupado e quer ajudar e quer fazer as coisas acontecerem e tem uma vis\u00e3o de mundo que eu respeito. Eu conhe\u00e7o pessoas que pensam assim e eu respeito muito, que acham que s\u00f3 vai funcionar se gerar algum tipo de renda.<\/p>\n<p>A gente vive num mundo que \u00e9 capitalista ainda e a gente tem que, de alguma maneira, aprender a dialogar com essas regras tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu queria dar uma resposta mais bomb\u00e1stica para voc\u00ea, mas eu acho que a gente tem que encontrar um espa\u00e7o de di\u00e1logo. A gente tem que escolher aqueles agentes com os quais a conversa\u2026 Eu n\u00e3o diria que ela t\u00e1 interditada, mas ela \u00e9 muito mais dif\u00edcil. E olhar para esse espectro pol\u00edtico e pensar em maneiras de construir essas alian\u00e7as.<\/p>\n<p>Agora, eu concordo contigo: n\u00f3s estamos nessa encruzilhada. Por qu\u00ea? Porque a gente vive num mundo onde a busca pelo lucro virou uma religi\u00e3o. A raiz dos nossos problemas t\u00e1 em viver num mundo onde a pr\u00f3pria possibilidade de voc\u00ea pensar que algo n\u00e3o tenha nenhuma serventia econ\u00f4mica \u00e9 quase um pensamento radical, quase revolucion\u00e1rio. Foi essa maneira de pensar que colocou a gente nesse lugar.<\/p>\n<p>A gente tem que sair desse lugar fazendo muita press\u00e3o por um lado e brigando, mas tentando construir alian\u00e7as pelo outro lado tamb\u00e9m. Essa \u00e9 a minha perspectiva pessoal sobre essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ao longo desses anos de campo e de pesquisa, quais descobertas ou aprendizados foram mais revolucion\u00e1rios para ti, daqueles que mudam a maneira de olhar para a Amaz\u00f4nia?<\/strong><\/p>\n<p>Olha, para mim, eu sou uma pessoa que gosta muito de fazer trabalho de campo. At\u00e9 hoje sou um arque\u00f3logo\u2026 Eu dou aula. Eu tenho meus trabalhos l\u00e1, \u00e9 na Universidade de S\u00e3o Paulo. Eu sou diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia agora. Ent\u00e3o eu tenho muita tarefa administrativa tamb\u00e9m, administro projetos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, uma parte do meu trabalho hoje \u00e9 fazer a administra\u00e7\u00e3o de projetos, mas eu continuo muito focado na quest\u00e3o do ensino, formando gente na pesquisa de campo. E na pesquisa de campo\u2026 A primeira vez que eu fui pro campo aqui na Amaz\u00f4nia num campo de arqueologia foi em 1986. S\u00e3o 39 anos.<\/p>\n<p>Para mim, a grande escola\u2026 Fiz muitas descobertas cavando buraco, que \u00e9 maravilhoso, fazendo escava\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica. Mas eu fiz muita descoberta tamb\u00e9m olhando pros lugares onde eu trabalho, conversando com as pessoas, escutando as pessoas, aprendendo com as pessoas, que geralmente s\u00e3o grupos ind\u00edgenas, ribeirinhos.<\/p>\n<p>E voc\u00ea aprende que tem de tudo. Por exemplo, eu trabalho numa regi\u00e3o l\u00e1 em Rond\u00f4nia, numa comunidade, a Vila do Teot\u00f4nio, onde alguns dos nossos parceiros trabalharam anos no garimpo. Os garimpeiros s\u00e3o criminalizados. O garimpo \u00e9 criminalizado. Mas tem muito garimpeiro que vai l\u00e1 pra vida louca ou porque \u00e9 um jeito de ganhar um dinheiro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu aprendi, vivendo e trabalhando aqui na Amaz\u00f4nia, que a realidade, a hora que voc\u00ea t\u00e1 no ch\u00e3o, ela \u00e9 muito mais complexa e muito mais complicada e, por isso, ela \u00e9 muito mais interessante.<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que eu retorno, retomo o ponto que eu falei anteriormente: a gente tem que encontrar uma linguagem comum. Se a gente n\u00e3o encontrar essa linguagem com as pessoas que estejam dispostas a ter essa conversa\u2026 Obviamente tem gente que n\u00e3o d\u00e1 pra conversar, mas eu acredito muito em encontrar pontos de converg\u00eancia, uma linguagem comum.<\/p>\n<p>E eu acho que um jeito de encontrar essa linguagem \u00e9 olhar pro territ\u00f3rio, pros espa\u00e7os. N\u00e3o s\u00f3 pros s\u00edtios arqueol\u00f3gicos, mas pro entorno dos s\u00edtios arqueol\u00f3gicos. Ent\u00e3o, para mim, o grande aprendizado \u00e9 esse: estar nos lugares, conversar com as pessoas e aprender com elas.<\/p>\n<p><strong>E como \u00e9 quando tu encontras algo e precisa dialogar com quem vive naquele territ\u00f3rio, devolvendo o conhecimento e ajustando o rumo do trabalho? Queria que tu contasse algum epis\u00f3dio que te marcou nesse sentido.<\/strong><\/p>\n<p>Tem uma hist\u00f3ria maravilhosa para contar. Em 1999, eu tava trabalhando numa comunidade perto do rio Solim\u00f5es chamada Lago do Lim\u00e3o. E n\u00f3s ficamos o mesmo campo, uma equipe de 30 arque\u00f3logos, escavando terras pretas em propriedades de alguns moradores de l\u00e1.<\/p>\n<p>Um deles era o seu Osvaldo. O nome desse s\u00edtio \u00e9 S\u00edtio Osvaldo. At\u00e9 por causa disso eu falei para ele sobre o trabalho, achei que ele tinha concordado, ele tinha um pomar maravilhoso, uma terra preta.<\/p>\n<p>Chegou no \u00faltimo dia, alguns dias antes do final do trabalho, n\u00f3s chamamos uma reuni\u00e3o com o pessoal da comunidade para apresentar os resultados. E eu falei do trabalho da gente, apresentei os resultados. Ele levantou a m\u00e3o e falou assim: \u201cOlha, eu queria dizer obrigado por ter falado com a gente, mas eu queria que voc\u00eas fossem embora da minha terra. Quero que voc\u00eas parem de cavar buraco l\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>E eu falei: \u201cMas por qu\u00ea?\u201d Ele falou assim: \u201cPorque voc\u00eas est\u00e3o remexendo muito a minha terra preta.\u201d Eu falei: \u201cSim, n\u00f3s estamos remexendo. A gente t\u00e1 tirando, mas a gente t\u00e1 colocando de volta depois.\u201d<\/p>\n<p>Ele falou assim: \u201c\u00c9, mas voc\u00eas est\u00e3o colocando de volta sem o caco de cer\u00e2mica. E o que acontece? Ano que vem vai chover, ela vai ficar encharcada. Vai chegar o ver\u00e3o, a terra vai rachar porque a \u00e1gua vai evaporar muito r\u00e1pido, porque o caco de pote mant\u00e9m a umidade da \u00e1gua.\u201d<\/p>\n<p>E a\u00ed eu falei: \u201cCaramba.\u201d Pedi desculpas para ele, obviamente. Primeira coisa. \u00d3bvio que a gente parou o trabalho. Mas eu aprendi uma grande li\u00e7\u00e3o com ele.<\/p>\n<p>Qual que \u00e9 a quest\u00e3o da terra preta? Eles s\u00e3o solos muito f\u00e9rteis e muito est\u00e1veis. E ningu\u00e9m consegue entender direito porque as terras pretas mant\u00eam estabilidade durante tantos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>E com seu Osvaldo eu aprendi que um elemento fundamental para manter a estabilidade da terra preta \u00e9 a presen\u00e7a de cer\u00e2mica arqueol\u00f3gica, porque ela ret\u00e9m a evapora\u00e7\u00e3o da \u00e1gua na \u00e9poca da seca, que \u00e9 o ver\u00e3o, ret\u00e9m a umidade no solo. E esse solo vai funcionando como uma esponja ao longo dos s\u00e9culos e dos mil\u00eanios at\u00e9.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, isso \u00e9 um exemplo de uma li\u00e7\u00e3o que eu aprendi. Eu era muito novo. Faz 26 anos. E \u00e9 o tipo de coisa que a gente vai aprendendo na vida da gente: aprendi a escutar melhor, aprendi a procurar sempre ser mais respeitoso, e tamb\u00e9m prestar aten\u00e7\u00e3o no que as pessoas que vivem nos lugares falam pra gente.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Terra preta, solo escuro e f\u00e9rtil criado por povos ind\u00edgenas h\u00e1 mil\u00eanios, \u00e9 uma das principais evid\u00eancias de manejo ancestral da Amaz\u00f4nia. <span class=\"credit-separator\">|<\/span> <span class=\"image-credit\">Cr\u00e9dito: Fernando Almeida\/Universidade Federal do Sergipe<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Depois de toda essa trajet\u00f3ria, Eduardo, o que tu sonhas hoje para a Amaz\u00f4nia, para o pa\u00eds e para o futuro desse trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>Olha, eu sonho com\u2026 Eu acho que a gente no Brasil, apesar dos problemas que a gente tem, a gente conseguiu uma conquista muito grande: a gente derrotou o fascismo. Isso n\u00e3o \u00e9 pouca coisa se a gente olhar no entorno do que t\u00e1 acontecendo no mundo.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que n\u00f3s temos in\u00fameros problemas e eu tenho v\u00e1rias cr\u00edticas a decis\u00f5es que s\u00e3o tomadas hoje no \u00e2mbito governamental aqui no Brasil, mas \u00e9 maravilhoso viver, respirar.<\/p>\n<p>Tava conversando outro dia com um colega que t\u00e1 dizendo que a COP do Egito foi mais organizada que essa COP aqui de Bel\u00e9m. Melhor organizada. Eu falei: \u201cMas o Egito \u00e9 uma ditadura. A gente \u00e9 uma democracia. Eu prefiro viver numa democracia com uma COP que nem sei se t\u00e1 mal organizada \u2013 acho que talvez nem esteja \u2013 do que viver numa ditadura com uma coisa bem organizada.\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu sonho pro nosso pa\u00eds que a gente continue vivendo em sociedades que sejam democr\u00e1ticas, onde a participa\u00e7\u00e3o popular\u2026 Que n\u00f3s nos tornemos cada vez mais numa democracia de verdade mesmo, n\u00e3o s\u00f3 formal, n\u00e3o s\u00f3 atrav\u00e9s dos votos, mas da participa\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Eu sonho que a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia pare de acontecer, que a viol\u00eancia com os povos ind\u00edgenas e tradicionais cesse de acontecer. Eu sonho com uma Amaz\u00f4nia sem garimpo. Apesar de entender e n\u00e3o ter nada contra os garimpeiros em si que est\u00e3o l\u00e1, que est\u00e3o l\u00e1 na bucha. Mas o efeito do garimpo\u2026 E quem t\u00e1 por tr\u00e1s n\u00e3o t\u00e1 no garimpo. T\u00e1 l\u00e1 em S\u00e3o Paulo, ou t\u00e1 em Miami, ou t\u00e1 na Su\u00ed\u00e7a at\u00e9.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu sonho que esse garimpo ilegal acabe, porque ele s\u00f3 traz viol\u00eancia e destrui\u00e7\u00e3o ambiental. A Amaz\u00f4nia hoje t\u00e1 muito violenta. O narcotr\u00e1fico. Eu sonho numa Amaz\u00f4nia sem viol\u00eancia e sem narcotr\u00e1fico.<\/p>\n<p>E eu sonho como arque\u00f3logo para uma Amaz\u00f4nia onde a gente consiga cada vez mais fazer uma alian\u00e7a entre arque\u00f3logas e arque\u00f3logos aqui da Amaz\u00f4nia, de fora da Amaz\u00f4nia, popula\u00e7\u00f5es tradicionais, trabalhando juntos para buscar ampliar o nosso conhecimento sobre o passado e, de alguma maneira, usar esse conhecimento para tentar nos ajudar a encontrar maneiras interessantes, inteligentes de viver no presente tamb\u00e9m.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div class=\"td-all-devices\"><a href=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Google search engine\" src=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/anuncio_728x109px.jpg\" width=\"728\" height=\"90\"\/><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2026\/01\/31\/eduardo-neves-sonho-com-alianca-da-arqueologia-e-povos-da-amazonia-para-aprender-com-o-passado-a-viver-melhor-o-presente\/\">Fonte Original <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de quase 40 anos de pesquisa de campo na Amaz\u00f4nia, o arque\u00f3logo Eduardo G\u00f3es Neves afirma que a floresta que hoje chamamos de natureza, tamb\u00e9m \u00e9 hist\u00f3ria. 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