{"id":14823,"date":"2026-01-22T15:24:14","date_gmt":"2026-01-22T15:24:14","guid":{"rendered":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2026\/01\/22\/da-batalha-de-okinawa-a-nova-guerra-fria\/"},"modified":"2026-01-22T15:24:20","modified_gmt":"2026-01-22T15:24:20","slug":"da-batalha-de-okinawa-a-nova-guerra-fria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2026\/01\/22\/da-batalha-de-okinawa-a-nova-guerra-fria\/","title":{"rendered":"Da Batalha de Okinawa \u00e0 nova Guerra Fria"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>Chegamos at\u00e9 a caverna de Chibichiri, no sul de Okinawa, com a sensa\u00e7\u00e3o estranha de que aquele n\u00e3o era apenas o palco da hist\u00f3ria distante da ilha, e sim um alerta. A caverna tem sua entrada baixa, obrigando quem entra a se curvar. O ar \u00e9 \u00famido, a luz desaparece rapidamente e o ambiente se torna sufocante. Em abril de 1945, quando as for\u00e7as dos Estados Unidos desembarcaram na ilha, 140 civis okinawanos \u2013 em sua maioria idosos, mulheres e crian\u00e7as \u2013 se esconderam aqui. Oitenta e cinco deles morreram pelas pr\u00f3prias m\u00e3os. Pais mataram primeiro os filhos, depois a si mesmos.<\/p>\n<p>Aquilo n\u00e3o foi um ato de loucura coletiva nem a concretiza\u00e7\u00e3o de uma suposta predisposi\u00e7\u00e3o cultural ao suic\u00eddio. O que aconteceu ali foi produzido. Foi a consequ\u00eancia da desinforma\u00e7\u00e3o usada como arma de guerra.<\/p>\n<p>Em Chibichiri, civis okinawanos foram avisados pelo Ex\u00e9rcito Imperial Japon\u00eas que os soldados dos Estados Unidos eram \u201cdem\u00f4nios vermelhos\u201d prontos para estupr\u00e1-los e tortur\u00e1-los. Foram ensinados a acreditar que a captura era vergonhosa e que, como s\u00faditos do imperador, jamais deveriam se render. Aterrorizadas, isoladas e privadas de informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis, as fam\u00edlias agiram com base em mentiras que se provaram fatais. Em uma caverna vizinha, todos sobreviveram, j\u00e1 que duas pessoas haviam morado no Hava\u00ed e retinham conhecimento direto sobre os Estados Unidos que contradizia a educa\u00e7\u00e3o japonesa, e conseguiram se comunicar com os soldados norte-americanos.<\/p>\n<p>Takamatsu Gushiken, conhecido localmente como o \u201cescavador de ossos\u201d, nos guiou pela caverna. Ele \u00e9 tamb\u00e9m um dos principais integrantes do grupo ativista local <em>No More Battles<\/em> de Okinawa. H\u00e1 d\u00e9cadas, ajuda a recuperar os restos mortais de centenas de pessoas mortas durante a Batalha de Okinawa. Logo antes de entrarmos, ele nos fez uma pergunta simples: por que estamos entrando nesta caverna? E com uma resposta foi igualmente direta, nos disse: porque n\u00e3o queremos que isso volte a acontecer. Nem em Okinawa, nem na \u00c1sia, nem em lugar algum.<\/p>\n<p>Okinawa representa apenas 0,6% do territ\u00f3rio japon\u00eas, mas abriga cerca de 70% de todas as instala\u00e7\u00f5es militares dos Estados Unidos no Jap\u00e3o, tornando-se uma das col\u00f4nias mais militarizadas do imp\u00e9rio norte-americano. Ao ver isso de perto, fica claro que n\u00e3o se trata de bases isoladas, mas de um cerco militar esmagador. Cercas bloqueiam o acesso ao litoral, ca\u00e7as sobrevoam comunidades, e bairros inteiros s\u00e3o comprimidos por uma infraestrutura pensada para a guerra. Chamar essas instala\u00e7\u00f5es de \u201cbases\u201d \u00e9 um engano \u2014 elas funcionam como uma ocupa\u00e7\u00e3o permanente incorporada \u00e0 vida cotidiana.<\/p>\n<p>Atualmente, no contexto da nova Guerra Fria intensificada pelos Estados Unidos contra a China, vemos essa infraestrutura sendo ampliada. A mesma ilha sacrificada como campo de batalha em 1945 est\u00e1 sendo preparada para o sacrif\u00edcio novamente.<\/p>\n<p>Em Henoko, uma \u00e1rea costeira antes preservada, conhecida localmente como \u201cponto de esperan\u00e7a\u201d, uma nova base militar est\u00e1 sendo constru\u00edda sobre terra aterrada, apesar da oposi\u00e7\u00e3o reiterada da popula\u00e7\u00e3o local, registrada pelo governo da prov\u00edncia de Okinawa e por observadores internacionais. H\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas, okinawanos resistem a esse projeto por meio de elei\u00e7\u00f5es, referendos, a\u00e7\u00f5es judiciais e atos cotidianos de desobedi\u00eancia civil. Todos foram ignorados.<\/p>\n<p>Desde 2014, manifestantes idosos \u2014 muitos com mais de 70 ou 80 anos \u2014 se re\u00fanem todos os dias nos port\u00f5es do Campo Schwab, sustentando uma resist\u00eancia di\u00e1ria h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. Sentados em cadeiras de camping, bloqueiam caminh\u00f5es que transportam material de aterro e s\u00e3o removidos \u00e0 for\u00e7a por seguran\u00e7as e policiais. Enquanto s\u00e3o arrastados por membros da pr\u00f3pria comunidade, homens da idade de seus filhos, netos, estudantes e vizinhos, eles cantam: \u201cN\u00e3o \u00e0 guerra\u201d. \u201cProtejam a natureza\u201d. \u201cN\u00e3o entreguem o futuro de nossas crian\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>Centenas de caminh\u00f5es atravessam a regi\u00e3o diariamente, levando areia e pedras para preencher o mar. Parte desse material vem de \u00e1reas onde ainda est\u00e3o sendo encontrados restos mortais de v\u00edtimas da Batalha de Okinawa. \u201cIsso \u00e9 como matar os mortos pela segunda vez\u201d, nos diz Gushiken.<\/p>\n<p>Para entender por que Okinawa carrega esse fardo, \u00e9 preciso olhar al\u00e9m do presente. O antigo Reino de Ryukyu, que governou essas ilhas, manteve por s\u00e9culos rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e comerciais com o Leste e o Sudeste Asi\u00e1tico. Foi anexado \u00e0 for\u00e7a pelo Jap\u00e3o em 1879 e submetido a uma repress\u00e3o cultural sistem\u00e1tica. As l\u00ednguas okinawanas foram proibidas nas escolas, o desenvolvimento econ\u00f4mico foi deliberadamente limitado e a discrimina\u00e7\u00e3o tornou-se institucionalizada.<\/p>\n<p>Durante a Batalha de Okinawa, em 1945, cerca de um quarto da popula\u00e7\u00e3o civil foi morta \u2014 dado consolidado por pesquisas hist\u00f3ricas do p\u00f3s-guerra e registros oficiais de mem\u00f3ria da prov\u00edncia. Tropas japonesas usaram civis como escudos humanos e coagiram suic\u00eddios em massa, especialmente em Okinawa \u2014 um padr\u00e3o que n\u00e3o se repetiu no territ\u00f3rio continental japon\u00eas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a derrota do Jap\u00e3o, Okinawa permaneceu sob administra\u00e7\u00e3o direta do Ex\u00e9rcito dos Estados Unidos por 27 anos, at\u00e9 1972. Mesmo ap\u00f3s a chamada \u201crevers\u00e3o\u201d ao Jap\u00e3o, as bases permaneceram. Expropria\u00e7\u00f5es de terras, contamina\u00e7\u00e3o ambiental e crimes cometidos por militares estadunidenses \u2014 muitas vezes protegidos da justi\u00e7a local \u2014 tornaram-se caracter\u00edsticas permanentes da vida na ilha.<\/p>\n<p>Hoje, Okinawa volta a ser transformada em uma plataforma avan\u00e7ada de opera\u00e7\u00f5es militares, conforme documentos estrat\u00e9gicos e simula\u00e7\u00f5es de guerra dos Estados Unidos que dependem explicitamente das bases instaladas no arquip\u00e9lago. Novos m\u00edsseis, expans\u00e3o de instala\u00e7\u00f5es e exerc\u00edcios militares conjuntos s\u00e3o realizados em nome da \u201cseguran\u00e7a\u201d, enquanto a oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica local \u00e9 tratada como um inc\u00f4modo. Todos os canais poss\u00edveis \u2014 elei\u00e7\u00f5es, referendos, a\u00e7\u00f5es judiciais \u2014 j\u00e1 foram esgotados. Quando o voto de Okinawa entra em conflito com prioridades militares, ele simplesmente \u00e9 ignorado.<\/p>\n<p>Ainda assim, a resist\u00eancia okinawana permanece cont\u00ednua e profundamente enraizada. Organiza\u00e7\u00f5es de mulheres documentaram d\u00e9cadas de viol\u00eancia sexual associada \u00e0 presen\u00e7a militar, com destaque para o grupo Mulheres de Okinawa Contra a Viol\u00eancia Militar, que mant\u00e9m registros detalhados desde os anos 1990. Sindicatos de professores, agricultores, artistas e grupos religiosos tamb\u00e9m desempenham pap\u00e9is centrais no movimento contra as bases.<\/p>\n<p>O escultor Kinjo Minoru dedicou dez anos \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de obras que retratam a vida antes, durante e depois da guerra, insistindo que a mem\u00f3ria em si \u00e9 uma forma de resist\u00eancia. Artistas, m\u00fasicos e educadores seguem defendendo que a educa\u00e7\u00e3o para a paz n\u00e3o \u00e9 opcional \u2014 \u00e9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Um guia nos contou que, por 30 anos ap\u00f3s a guerra, fam\u00edlias de uma mesma vila n\u00e3o conseguiam falar entre si sobre o que aconteceu nas cavernas. O trauma era profundo demais. S\u00f3 mais tarde come\u00e7aram a fazer a pergunta mais dif\u00edcil: por que isso aconteceu aqui? A resposta leva, repetidamente, \u00e0 domina\u00e7\u00e3o colonial, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o militarizada e ao controle da informa\u00e7\u00e3o por aqueles que preparavam a guerra.<\/p>\n<p>A caverna de Chibichiri \u00e9 um alerta do passado. Ela nos lembra que os que morreram ali n\u00e3o eram irracionais, mas v\u00edtimas tr\u00e1gicas do medo fabricado. A desinforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi um elemento secund\u00e1rio da guerra \u2014 ela fez parte de sua engrenagem.<\/p>\n<p>Em um momento de escalada do hiperimperialismo militar dos Estados Unidos \u2014 de Okinawa a Gaza, do Ir\u00e3 \u00e0 Venezuela \u2014 a desinforma\u00e7\u00e3o volta a ocupar um papel central na constru\u00e7\u00e3o do consentimento para a guerra.<\/p>\n<p>Okinawa nos lembra que a guerra n\u00e3o come\u00e7a com bombas. Come\u00e7a com narrativas \u2014 sobre inimigos, amea\u00e7as, inevitabilidade. E nos ensina que resistir \u00e0 guerra exige mais do que palavras de ordem. Exige enfrentar campanhas de desinforma\u00e7\u00e3o na nova Guerra Fria com solidariedade, comunica\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis e recusa \u00e0s narrativas de desumaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao sair da caverna, a pergunta de Gushiken voltou \u00e0 tona: por que entramos ali? Entramos porque lembrar \u00e9 assumir responsabilidade. Okinawa \u00e9 pequena, como diz um ditado local, mas ningu\u00e9m consegue engolir uma agulha. Apesar de d\u00e9cadas de ocupa\u00e7\u00e3o e sacrif\u00edcios impostos por outros, os okinawanos seguem resistindo a serem usados como campo de batalha \u2014 da Segunda Guerra Mundial \u00e0 nova Guerra Fria.<\/p>\n<p>Lembrar Okinawa n\u00e3o \u00e9 olhar para o passado. \u00c9 recusar a prepara\u00e7\u00e3o da guerra no presente.<\/p>\n<p>Como disse Gushiken, de forma direta, antes de deixarmos a caverna: \u201cOs problemas que vemos hoje em Okinawa, envolvendo os Estados Unidos e o Jap\u00e3o, s\u00e3o resultado dos problemas n\u00e3o resolvidos de 1945 e da Batalha de Okinawa.\u201d<\/p>\n<p>Essa afirma\u00e7\u00e3o \u2014 de que a guerra nunca terminou de fato ali \u2014 \u00e9 o n\u00facleo pol\u00edtico e moral da reivindica\u00e7\u00e3o e do movimento do qual ele faz parte: <em>No More Battles<\/em> de Okinawa.<\/p>\n<p><em>*<strong>Tings Chak <\/strong>e <strong>Atul Chandra <\/strong>s\u00e3o co-coordenadores de conte\u00fados sobre \u00c1sia do Instituto Tricontinental de Pesquisa.<\/em><\/p>\n<p><em>**Este \u00e9 um artigo de opini\u00e3o e n\u00e3o necessariamente representa a linha editorial do\u00a0<strong>Brasil do Fato<\/strong><\/em>.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div class=\"td-all-devices\"><a href=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/\"><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2026\/01\/22\/da-batalha-de-okinawa-a-nova-guerra-fria\/\">Fonte Original <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chegamos at\u00e9 a caverna de Chibichiri, no sul de Okinawa, com a sensa\u00e7\u00e3o estranha de que aquele n\u00e3o era apenas o palco da hist\u00f3ria distante da ilha, e sim um alerta. 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