{"id":13462,"date":"2025-12-07T21:24:07","date_gmt":"2025-12-07T21:24:07","guid":{"rendered":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2025\/12\/07\/ufpe-supera-ataques-de-entidades-medicas-e-da-inicio-a-primeira-turma-de-medicina-do-pronera\/"},"modified":"2025-12-07T21:24:11","modified_gmt":"2025-12-07T21:24:11","slug":"ufpe-supera-ataques-de-entidades-medicas-e-da-inicio-a-primeira-turma-de-medicina-do-pronera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2025\/12\/07\/ufpe-supera-ataques-de-entidades-medicas-e-da-inicio-a-primeira-turma-de-medicina-do-pronera\/","title":{"rendered":"UFPE supera ataques de entidades m\u00e9dicas e d\u00e1 in\u00edcio \u00e0 primeira turma de medicina do Pronera"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>As l\u00e1grimas eram de felicidade e revolta de quem, mesmo tendo os direitos garantidos, s\u00f3 consegue acess\u00e1-los enfrentando muitas brigas e disputas judiciais. Eram quilombolas, camponeses, sem-terra, filhas e filhos de quem luta por um peda\u00e7o de ch\u00e3o que a Constitui\u00e7\u00e3o lhe assegura, mas que as elites e o Estado insistem em negar. Desde que a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) anunciou a abertura de um curso de medicina voltado para quilombolas e assentados rurais, eles se viram atacados no seu direito de acessar a educa\u00e7\u00e3o superior.<\/p>\n<p>Mas a tens\u00e3o deu lugar ao al\u00edvio e \u00e0 alegria, pois nesta primeira semana de dezembro as aulas come\u00e7aram para os 80 estudantes que, vindos de zonas rurais de diversos estados brasileiros, iniciaram a prepara\u00e7\u00e3o para se formarem m\u00e9dicas e m\u00e9dicos. A turma \u00e9 composta por 59 mulheres e 21 homens. <\/p>\n<p>\u201cSabemos como \u00e9 dif\u00edcil encontrar pessoas negras e quilombolas em cursos de medicina. Vi no TikTok pessoas dizendo que n\u00e3o temos capacidade, que n\u00f3s ser\u00edamos \u2018m\u00e9dicos de a\u00e7ougue\u2019 e outras coisas preconceituosas\u201d, recorda Milenna Ketlyn, de 21 anos, em entrevista ao <strong>Brasil de Fato<\/strong>.<\/p>\n<p>Nascida na comunidade quilombola-ind\u00edgena Tiririca dos Crioulos, em Carnaubeira da Penha (PE), sert\u00e3o do Itaparica, a caloura de medicina deseja poder aplicar na comunidade o aprendizado adquirido na universidade. \u201cA maioria dos m\u00e9dicos n\u00e3o retorna para o interior ap\u00f3s se formarem. Mas quero retribuir. Quando se \u00e9 da pr\u00f3pria comunidade, vemos as pessoas n\u00e3o como pacientes desconhecidos, mas de forma humanizada, s\u00e3o nossos parentes e amigos\u201d, vislumbra a estudante do primeiro curso de medicina na hist\u00f3ria do pa\u00eds realizado por meio do Programa Nacional de Educa\u00e7\u00e3o na Reforma Agr\u00e1ria (Pronera).<\/p>\n<p>Quem tamb\u00e9m tem esse olhar \u00e9 Gildson Amaro, de 29 anos, da zona rural de Capela, no agreste de Sergipe. \u201cTodos n\u00f3s aqui acreditamos que existe a possibilidade de, com o conhecimento adquirido na medicina, contribuirmos melhor para a sa\u00fade das pessoas das nossas comunidades. Senti na pele a dificuldade de n\u00e3o conseguir atendimento m\u00e9dico na comunidade. Sei da import\u00e2ncia de ter um profissional que entende aquele povo e olha com amor para ele\u201d, garante o jovem.<\/p>\n<p>Graduado em nutri\u00e7\u00e3o, Gildson Amaro se mostra tranquilo em rela\u00e7\u00e3o aos ataques pol\u00edticos e judiciais dirigidos ao curso que ele inicia agora. \u201cS\u00e3o falas pautadas em ideias que n\u00e3o s\u00e3o verdadeiras. O Pronera existe desde 1998 e \u00e9 um programa totalmente regulamentado pelo governo federal\u201d, pontua. <\/p>\n<p>Desde meados de setembro, pol\u00edticos da direita pernambucana, especialmente os ligados \u00e0s entidades m\u00e9dicas, adotaram discursos contra o curso de medicina do Pronera na UFPE, inclusive acionando a Justi\u00e7a. As acusa\u00e7\u00f5es s\u00e3o de favorecimento indevido, politiza\u00e7\u00e3o e incapacidade intelectual dos selecionados.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Pronera<\/h4>\n<p>Os cursos do Pronera s\u00e3o realizados com recursos do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio (MDA) e, no caso desta gradua\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. A turma \u201cextra\u201d n\u00e3o afeta o processo seletivo da gradua\u00e7\u00e3o de medicina via Sisu. <\/p>\n<p>Criado ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso, ao longo de 27 anos, o Pronera j\u00e1 formou mais de 200 mil estudantes em cursos de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, tecn\u00f3loga, gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o \u2013 com todas as vagas reservadas para residentes em \u00e1reas de reforma agr\u00e1ria. As universidades p\u00fablicas entram como parceiras, recebendo recursos e cedendo espa\u00e7os f\u00edsicos e professores.<\/p>\n<p>Dirigente do MST na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o, Rubneuza Leandro recorda a car\u00eancia de m\u00e9dicos nas zonas rurais e a frequente oposi\u00e7\u00e3o de entidades de classe \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o da medicina. \u201cPrecisaram vir m\u00e9dicos de outros pa\u00edses porque os daqui se recusaram a ir para os interiores atender o povo. E quando os estrangeiros vieram, os m\u00e9dicos brasileiros disseram que eles \u2018pareciam empregadas dom\u00e9sticas\u2019, porque eram pretos e a medicina brasileira \u00e9 branca. Por isso tanto \u00f3dio quando formamos uma turma de agricultores que ser\u00e3o m\u00e9dicos\u201d, avalia.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">M\u00e9dicos do campo<\/h4>\n<p>Representando o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade na cerim\u00f4nia de aula inaugural, L\u00edvia Milena M\u00e9llo lembrou que \u201co prop\u00f3sito do Pronera \u00e9 formar profissionais que entendam e atuem na realidade do campo\u201d. \u201cEssa turma reafirma que o SUS pertence igualmente \u00e0 cidade e ao campo\u201d, discursou a diretora da Secretaria de Gest\u00e3o do Trabalho e Educa\u00e7\u00e3o na Sa\u00fade do minist\u00e9rio. <\/p>\n<p>\u201cEssa \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma medicina que n\u00e3o abandona ningu\u00e9m. Que aqui se inaugure uma nova gera\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicas e m\u00e9dicos do povo, do Brasil profundo\u201d, afirmou visivelmente emocionada.<\/p>\n<p>Em entrevista ao <strong>Brasil de Fato<\/strong>, o reitor da UFPE, Alfredo Gomes, se disse \u201cmuito feliz e seguro\u201d por saber que \u201ca universidade est\u00e1 realizando sua miss\u00e3o social\u201d. \u201cQuem acredita na educa\u00e7\u00e3o e est\u00e1 comprometido em vencer as desigualdades sociais e econ\u00f4micas, precisa ver a educa\u00e7\u00e3o como um meio para essa necess\u00e1ria ruptura de ciclos\u201d. <\/p>\n<p>\u201cDesejo que tenhamos um aproveitamento de 100% da turma, para formar 80 m\u00e9dicas e m\u00e9dicos para atender a popula\u00e7\u00e3o nos interiores. E quero chamar outras universidades p\u00fablicas para que tamb\u00e9m ofertem cursos de medicina e outras \u00e1reas que precisam ser democratizadas\u201d, convocou Gomes.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Formada por 80 estudantes, sendo 59 mulheres e 21 homens, turma de medicina do Pronera ocorre no campus Agreste da UFPE <span class=\"credit-separator\">|<\/span> <span class=\"image-credit\">Cr\u00e9dito: Vin\u00edcius Sobreira\/Brasil de Fato<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>O diretor do Campus Agreste (CAA) da UFPE, Dilson Cavalcanti, exaltou todo o corpo docente da institui\u00e7\u00e3o e destacou que, desde o primeiro momento, n\u00e3o houve \u201cqualquer resist\u00eancia neste campus\u201d. \u201cTenho certeza de que este \u00e9 o primeiro, mas n\u00e3o ser\u00e1 o \u00faltimo curso de medicina do Pronera\u201d, celebrou. <\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 uma turma de excel\u00eancia porque esta \u00e9 uma universidade de excel\u00eancia, mas tamb\u00e9m porque quando o povo brasileiro tem uma oportunidade, ele agarra e faz valer\u201d, avaliou Cavalcanti. O diretor tamb\u00e9m destacou que a ideia do curso foi de Jaime Amorim, hist\u00f3rico militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), assentado em Caruaru.<\/p>\n<p>A deputada estadual Rosa Amorim (PT), militante sem terra nascida no Assentamento Normandia, em Caruaru, n\u00e3o conteve o choro ao afirmar que est\u00e1 \u201cvendo de perto a hist\u00f3ria acontecer\u201d. \u201cAs l\u00e1grimas s\u00e3o de felicidade e carregam s\u00e9culos de luta por repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica no Brasil. Aos que disseram que filho de agricultor, de empregada dom\u00e9stica e de gente pobre jamais deveria ocupar uma cadeira de medicina na universidade, estamos aqui para dizer que ocuparemos, porque esse lugar nos pertence e n\u00f3s contaremos uma nova hist\u00f3ria\u201d, discursou.<\/p>\n<p>Amorim pediu que a estudante Maria Eduarda ficasse de p\u00e9. \u201cEla \u00e9 filha de Sandro, sem-terra, da luta de d\u00e9cadas sob a lona preta para conquistar um peda\u00e7o de ch\u00e3o, a luta para mudar as hist\u00f3rias de sua fam\u00edlia e do Brasil\u201d, apresentou. <\/p>\n<p>\u201cEla tem a pele preta que construiu esse pa\u00eds e foi explorada por s\u00e9culos, mas agora, de cabe\u00e7a erguida, neste lugar que nos negaram, n\u00f3s dizemos que viemos para ficar. Essa ser\u00e1 a nova cara da medicina, queiram ou n\u00e3o queiram os ju\u00edzes\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio executivo adjunto do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, Rodolfo Cabral, que assim como L\u00edvia \u00e9 ex-aluno da UFPE, disse que a abertura do curso \u201c\u00e9 um gesto pol\u00edtico para as comunidades que mais precisam\u201d. \u201cQue essa turma nos traga mais esperan\u00e7a no futuro\u201d, desejou. <\/p>\n<p>A professora universit\u00e1ria Andreia Campigotto, que leciona para essa turma do Pronera, celebrou que a UFPE \u201cest\u00e1 cumprindo o seu dever, que \u00e9 abrir as portas para o povo\u201d. \u201cA institui\u00e7\u00e3o mostra que entende que a forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica precisa considerar tamb\u00e9m as dimens\u00f5es e pluralidades territoriais e culturais do Brasil.\u201d<\/p>\n<p>Campigotto se diz \u201cprofundamente atravessada\u201d pela nova turma justamente na universidade em que trabalha. \u201cSou filha de assentados da reforma agr\u00e1ria. Nasci e cresci num ch\u00e3o que foi uma conquista coletiva. Estudei em escolas do campo. Eu sei que a trajet\u00f3ria at\u00e9 aqui n\u00e3o foi f\u00e1cil\u201d, disse ela em entrevista do <strong>Brasil de Fato<\/strong>. Natural do Rio Grande do Sul, a m\u00e9dica cursou a gradua\u00e7\u00e3o em medicina em Cuba. \u201cHoje a universidade concretiza um direito que \u00e9 garantido \u00e0 popula\u00e7\u00e3o do campo\u201d, celebrou.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Frutos da luta<\/h4>\n<p>A professora e m\u00e9dica lamenta que grande parte da categoria m\u00e9dica esteja capturada ideologicamente. \u201cExiste uma disputa ideol\u00f3gica e infelizmente parte dos m\u00e9dicos nunca aceitar\u00e3o que trabalhadores do campo acessem esses espa\u00e7os. Historicamente, as entidades m\u00e9dicas s\u00e3o espa\u00e7os elitizados. Quando o povo d\u00e1 um passo adiante, elas se incomodam. Mas a universidade est\u00e1 cumprindo o seu papel de produzir ci\u00eancia e formar bons profissionais para atender a popula\u00e7\u00e3o\u201d, pontua.<\/p>\n<p>Rubneuza Leandro chamou aten\u00e7\u00e3o para que os estudantes se comprometam com os estudos. \u201cL\u00e1 fora muita gente est\u00e1 torcendo para que d\u00ea errado. Ent\u00e3o se empenhem, estudem para ser os bons profissionais que as nossas comunidades precisam. Viramos vitrine e espelho. Voc\u00eas j\u00e1 n\u00e3o representam mais a si pr\u00f3prios, mas suas comunidades quilombolas, movimentos sem terra e outros. Honrem essas bandeiras\u201d, convocou.<\/p>\n<p>\u201cForam muitas brigas e muitas m\u00e3os para esse curso acontecer. Disputas no Judici\u00e1rio, nos minist\u00e9rios, disputa por or\u00e7amento, nos territ\u00f3rios. Foi muita luta \u2013 e a gente conquistou. Voc\u00eas aqui representam essa batalha e essa vit\u00f3ria. Ent\u00e3o assumam esse compromisso de cuidar da nossa gente a quem sempre foi negado o acesso \u00e0 sa\u00fade\u201d, concluiu a deputada Rosa Amorim.<\/p>\n<p>Rubneuza Leandro tamb\u00e9m reconheceu o papel do reitor Alfredo Gomes no enfrentamento necess\u00e1rio para garantir o curso, que chegou a ser suspenso por liminares. \u201cOutros teriam se acovardado diante do acirramento, mas ele foi \u00e0 Justi\u00e7a e foi a p\u00fablico defender este curso. Parabenizo tamb\u00e9m os professores e reitores que sa\u00edram em defesa do curso de medicina no Pronera\u201d, agradeceu. <\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 formamos m\u00e9dicos da base do MST em Cuba e na Venezuela, mas esta turma \u00e9 hist\u00f3rica porque \u00e9 a primeira vez que a universidade brasileira faz isso. Espero que venham tamb\u00e9m cursos de odontologia e enfermagem\u201d, sugeriu a educadora.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div class=\"td-all-devices\"><a href=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Google search engine\" src=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/anuncio_728x109px.jpg\" width=\"728\" height=\"90\"\/><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/12\/07\/ufpe-supera-ataques-de-entidades-medicas-e-da-inicio-a-primeira-turma-de-medicina-do-pronera\/\">Fonte Original <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As l\u00e1grimas eram de felicidade e revolta de quem, mesmo tendo os direitos garantidos, s\u00f3 consegue acess\u00e1-los enfrentando muitas brigas e disputas judiciais. Eram quilombolas, camponeses, sem-terra, filhas e filhos de quem luta por um peda\u00e7o de ch\u00e3o que a Constitui\u00e7\u00e3o lhe assegura, mas que as elites e o Estado insistem em negar. 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