{"id":12371,"date":"2025-11-01T11:24:09","date_gmt":"2025-11-01T11:24:09","guid":{"rendered":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2025\/11\/01\/mulheres-negras-desafiam-apagamento-historico-e-mito-da-europa-brasileira-na-regiao-mais-branca-do-pais-brasil-de-fato\/"},"modified":"2025-11-01T11:24:10","modified_gmt":"2025-11-01T11:24:10","slug":"mulheres-negras-desafiam-apagamento-historico-e-mito-da-europa-brasileira-na-regiao-mais-branca-do-pais-brasil-de-fato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2025\/11\/01\/mulheres-negras-desafiam-apagamento-historico-e-mito-da-europa-brasileira-na-regiao-mais-branca-do-pais-brasil-de-fato\/","title":{"rendered":"mulheres negras desafiam apagamento hist\u00f3rico e mito da \u2018Europa brasileira\u2019 na regi\u00e3o mais branca do pa\u00eds\u00a0 \u2014 Brasil de Fato"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>Ser mulher negra no Brasil \u00e9 um desafio di\u00e1rio. Ser mulher negra na regi\u00e3o mais branca do pa\u00eds \u00e9 estar sujeita a enfrentar camadas extras de invisibilidade e apagamento. No Sul, onde o mito da \u201cEuropa brasileira\u201d foi cultivado como ideal de progresso, a tentativa de apagar a mem\u00f3ria negra foi sistem\u00e1tica e proposital. As pol\u00edticas de branqueamento promovidas pela Rep\u00fablica silenciaram hist\u00f3rias, deslocaram comunidades e negaram a contribui\u00e7\u00e3o do povo negro na constru\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda assim, a resist\u00eancia nunca deixou de existir. No s\u00e9culo 19, por exemplo, as irmandades criadas ap\u00f3s a Lei do Ventre Livre se tornaram espa\u00e7os de solidariedade e enfrentamento que garantiam enterros dignos, compravam alforrias e organizavam fugas e quilombos \u2013 redes fundamentais de prote\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gias coletivas de liberta\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Desse legado emergem personalidades como Antonieta de Barros, Enedina Alves Marques, Petronilha Gon\u00e7alves e Silva e Luiza Bairros, pioneiras em suas \u00e1reas e expoentes de movimentos que, ao longo do tempo, desafiaram o racismo, o sexismo e o mito da homogeneidade branca na regi\u00e3o. Em diferentes tempos e lugares, suas trajet\u00f3rias foram estruturantes para a cultura, a pol\u00edtica e o pensamento brasileiro.<\/p>\n<p>\u201cApesar de estarmos na terra de Luiza Bairros e de termos organiza\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas como o Maria Mulher, viver no Rio Grande do Sul enquanto pessoa negra \u2013 e especialmente enquanto mulher negra \u2013 ainda \u00e9 um desafio di\u00e1rio\u201d, afirma Luc\u00e9lia Gomes, diretora-presidente da organiza\u00e7\u00e3o Sempre Mulher, de Porto Alegre (RS).<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Em Santa Catarina, o coletivo Antonietas em Marcha reverenciam a primeira deputada negra eleita no pa\u00eds. | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o \/ Antonietas em Marcha <\/figcaption><\/figure>\n<p>A militante faz quest\u00e3o de lembrar o legado de mulheres que abriram caminhos no movimento negro ga\u00facho, como Vera Daisy Barcellos, jornalista e refer\u00eancia na luta antirracista; Concei\u00e7\u00e3o Lopes Fontoura, educadora, ativista e coordenadora adjunta do Maria Mulher, organiza\u00e7\u00e3o com mais de 30 anos de atua\u00e7\u00e3o; e Maria Noelci, bibliotec\u00e1ria cuja milit\u00e2ncia no movimento de mulheres negras remonta \u00e0 d\u00e9cada de 1980; e tantas outras, que constru\u00edram as bases do protagonismo das mulheres negras no estado.<\/p>\n<p>Hoje, essa resist\u00eancia se renova na mobiliza\u00e7\u00e3o das mulheres negras do Paran\u00e1, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, organizadas em comit\u00eas regionais e estaduais, para participar da 2\u00aa Marcha Nacional das Mulheres Negras por Repara\u00e7\u00e3o e Bem Viver, dia 25 de novembro, em Bras\u00edlia (DF). Entre rodas de conversa, forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e campanhas de arrecada\u00e7\u00e3o, elas reivindicam visibilidade, reconhecimento e justi\u00e7a. E reafirmam: o Sul tamb\u00e9m \u00e9 territ\u00f3rio negro.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Contribui\u00e7\u00e3o fundamental<\/h4>\n<p>O projeto de branqueamento no Brasil contou com o apoio direto do Estado. Desde o s\u00e9culo 19, pol\u00edticas de uniformiza\u00e7\u00e3o nacional proibiram povos ind\u00edgenas, africanos e at\u00e9 europeus de falarem suas pr\u00f3prias l\u00ednguas. Essa estrat\u00e9gia de silenciamento sustentou a narrativa do \u201cSul branco\u201d como s\u00edmbolo de civiliza\u00e7\u00e3o, negando a presen\u00e7a e a contribui\u00e7\u00e3o de comunidades negras e ind\u00edgenas que sempre existiram nesses territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul ilustra como esse processo se consolidou. A historiadora Fernanda Oliveira, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), explica que desde o s\u00e9culo 18, pessoas negras escravizadas e tamb\u00e9m negras livres participaram da constru\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio. Ela destaca que essa participa\u00e7\u00e3o foi essencial, lembrando, por exemplo, o casal de negros livres que fundou o munic\u00edpio de Santo Ant\u00f4nio da Patrulha \u2013 uma hist\u00f3ria ainda pouco conhecida.<\/p>\n<p>A partir da segunda metade do s\u00e9culo 19, um grupo de intelectuais brancos passou a moldar a identidade regional em torno da figura do \u201cga\u00facho branco\u201d. Esses homens das letras, reunidos no Partenon Liter\u00e1rio (Porto Alegre) e no Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico do Rio Grande do Sul, selecionaram quais tra\u00e7os seriam valorizados e decidiram que ind\u00edgenas e negros pertenciam ao passado.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEssa constru\u00e7\u00e3o exclui todos os outros tra\u00e7os, inclusive os europeus. Ela n\u00e3o refor\u00e7a uma identidade europeia, mas, ao narrar a forma\u00e7\u00e3o do povo, atribui sua origem aos germ\u00e2nicos e, posteriormente, aos teutos\u201d, explica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ela observa que \u201cas pol\u00edticas de imigra\u00e7\u00e3o europeia foram financiadas com recursos p\u00fablicos. E, ao mesmo tempo, o censo de 1890 suspendeu o uso da palavra \u2018negro\u2019. \u201cQuando n\u00e3o se produz dados, \u00e9 mais f\u00e1cil dizer que determinadas pessoas n\u00e3o existem\u201d, pontua.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, o Rio Grande do Sul \u00e9 o estado com maior propor\u00e7\u00e3o de adeptos de religi\u00f5es de matriz africana no Brasil, segundo o Censo de 2010, um reflexo da for\u00e7a e da perman\u00eancia das tradi\u00e7\u00f5es afro-ga\u00fachas, transmitidas por gera\u00e7\u00f5es que resistiram ao apagamento cultural.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"905\" height=\"508\" sizes=\"auto, (max-width: 905px) 100vw, 905px\" src=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/image-85.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-871830\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/image-85-300x168.jpg 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/image-85-768x431.jpg 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/image-85-750x508.jpg 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/image-85.jpg 905w\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Encontro de mobiliza\u00e7\u00e3o das mulheres negras do Rio Grande do Sul.  | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o \/ Marcha das Mulheres Negras RS<\/figcaption><\/figure>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Origens do apagamento contempor\u00e2neo\u00a0<\/h4>\n<p>Enquanto a branquitude sulista acessa suas origens com facilidade, reivindicando inclusive dupla nacionalidade, as pessoas racializadas precisam reconstruir mem\u00f3rias fragmentadas pela escravid\u00e3o e pela hierarquiza\u00e7\u00e3o racial.\u00a0<\/p>\n<p>A educadora e pesquisadora Jeruse Rom\u00e3o, bi\u00f3grafa de Antonieta de Barros \u2013 jornalista, professora e primeira mulher negra a assumir um mandato popular no Brasil \u2013, reflete sobre essa continuidade do apagamento.<\/p>\n<p>\u201cQuando comecei a militar no movimento negro, em 1986, e participava de encontros nacionais, as pessoas se surpreendiam: \u2018Nossa, tem negro em Santa Catarina?\u2019. Mas o que me incomoda profundamente hoje \u00e9 que, em 2025, ainda existam setores progressistas e negros brasileiros que compram a ideia de que todo mundo que vive em Santa Catarina \u00e9 racista, extremista ou neonazista. Voltamos a ser invisibilizados de novo\u201d, aponta.<\/p>\n<p>Para Rom\u00e3o, trata-se de um perigo hist\u00f3rico que se renova. Ela defende que os movimentos sociais contempor\u00e2neos, como a Marcha das Mulheres Negras de 2025, precisam acolher diferentes experi\u00eancias, reconhecendo tanto as hist\u00f3rias ancestrais quanto as realidades distintas vividas pelas mulheres negras hoje.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cComprar esse discurso de que n\u00f3s n\u00e3o existimos em Santa Catarina \u00e9 eliminar qualquer possibilidade de uma revolu\u00e7\u00e3o aut\u00eantica. Eu n\u00e3o vou aceitar ser deixada para tr\u00e1s, entende? Em um movimento nacional, como se a minha vida n\u00e3o importasse. Como se a vida das minhas irm\u00e3s n\u00e3o importasse. Todas n\u00f3s somos importantes.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">\u201cN\u00e3o tem preto aqui\u201d<\/h4>\n<p>No Paran\u00e1, os encontros promovidos pela Rede de Mulheres Negras do estado (RMN-PR) em prepara\u00e7\u00e3o para a marcha t\u00eam refor\u00e7ado a urg\u00eancia de enfrentar o racismo e o machismo, al\u00e9m de valorizar a cultura e a ancestralidade negras. As discuss\u00f5es t\u00eam se concentrado na escuta e no acolhimento das mulheres, no fortalecimento de coletivos que enfrentam dificuldades burocr\u00e1ticas e na defesa da dignidade e do direito de viver com respeito.\u00a0<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" src=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/Credito_-Reproducao-Rede-de-Mulheres-Negras-do-Parana-1024x576.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-871633\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/Credito_-Reproducao-Rede-de-Mulheres-Negras-do-Parana-300x169.webp 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/Credito_-Reproducao-Rede-de-Mulheres-Negras-do-Parana-1024x576.webp 1024w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/Credito_-Reproducao-Rede-de-Mulheres-Negras-do-Parana-768x432.webp 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/Credito_-Reproducao-Rede-de-Mulheres-Negras-do-Parana-1536x864.webp 1536w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/Credito_-Reproducao-Rede-de-Mulheres-Negras-do-Parana-2048x1152.webp 2048w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/Credito_-Reproducao-Rede-de-Mulheres-Negras-do-Parana-750x536.webp 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/Credito_-Reproducao-Rede-de-Mulheres-Negras-do-Parana-1140x815.webp 1140w\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Mulheres negras do Paran\u00e1 se organizam para marcha em Bras\u00edlia. | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o \/ Rede de Mulheres Negras do Paran\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cEssas quest\u00f5es ecoaram muito nos di\u00e1logos territoriais. Mas, para mim, a principal mensagem \u00e9 dizer que a gente existe aqui, sabe? Porque h\u00e1 uma aura no Paran\u00e1 de que n\u00e3o tem preto aqui, de que n\u00e3o existe trabalho de preto aqui e quando vamos para incid\u00eancias parece que est\u00e1 muito f\u00e1cil fazermos o nosso trabalho, mas h\u00e1 muita dificuldade e muita cobran\u00e7a, \u201d, afirma Ana Cl\u00e1udia Justino, jornalista e comunicadora da RMN-PR.\u00a0<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o de invisibilidade \u00e9 compartilhada por Alaerte Leandro Martins, uma das fundadoras da RMN-PR. \u201cNosso grande problema \u00e9 a invisibilidade enquanto povo negro. At\u00e9 amigas de outros estados brincam comigo, dizendo que achavam que no Paran\u00e1 s\u00f3 existia eu de mulher negra. Somos totalmente ignoradas, todos os governos que passaram por aqui simplesmente nos ignoraram\u201d, resume.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia tamb\u00e9m foi outro tema pautado nos encontros, principalmente aquela que tem como alvo as mulheres. Nesse sentido, o Paran\u00e1 est\u00e1 entre os estados mais letais no pa\u00eds. Segundo o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica 2025, foram registrados 81 casos de feminic\u00eddio em 2023 e 109 em 2024.\u00a0<\/p>\n<p>De janeiro a junho de 2025, o Laborat\u00f3rio de Estudos de Feminic\u00eddio (Lesfem), da Universidade Estadual de Londrina (UEL), contabilizou 73 feminic\u00eddios e 105 tentativas, totalizando 178 casos no estado. Ana Cl\u00e1udia observa que essa \u00e9 mais uma camada de viol\u00eancia contra as mulheres negras. \u201cA gente sabe qual \u00e9 a cor mais atingida\u201d, observa.<\/p>\n<p>Ainda de acordo com o Anu\u00e1rio de 2025, o Paran\u00e1 tamb\u00e9m se destaca nas den\u00fancias de racismo, com taxa de 15,9 casos por 100 mil habitantes. O levantamento mostra Santa Catarina com 4,9, enquanto o Rio Grande do Sul aparece entre os estados com os maiores \u00edndices em 2024, registrando 22,1 casos por 100 mil habitantes.<\/p>\n<p>A diretora-presidente da organiza\u00e7\u00e3o Sempre Mulher destaca que, embora o estado tenha sido palco de conquistas simb\u00f3licas \u2013 como a cria\u00e7\u00e3o do Dia da Consci\u00eancia Negra \u2013, o racismo segue presente em todas as esferas sociais e se manifesta cotidianamente, sobretudo por meio de ataques \u00e0 est\u00e9tica negra. \u201cAinda lidamos com ofensas que atacam o nosso cabelo, nossos tra\u00e7os, nossos corpos\u201d, denuncia.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Em meio \u00e0 neglig\u00eancia do Estado, cresce o extremismo<\/h4>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de que o apagamento da popula\u00e7\u00e3o negra no Sul tamb\u00e9m molda as din\u00e2micas de poder e o pr\u00f3prio debate p\u00fablico nacional \u00e9 compartilhada pelos estados da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO governo federal e at\u00e9 o Minist\u00e9rio da Igualdade Racial muitas vezes esquecem da popula\u00e7\u00e3o negra do Sul. A discuss\u00e3o racial no Brasil se concentra no Sudeste e no Nordeste, como se aqui n\u00e3o exist\u00edssemos. Mas existimos e temos nossas especificidades\u201d, afirma a professora e militante C\u00e1ssia Sant\u2019Anna, do Movimento Negro Maria Laura, em Joinville (SC).<\/p>\n<p>Sant\u2019Anna alerta que a neglig\u00eancia estatal se manifesta de forma alarmante no avan\u00e7o do extremismo. Santa Catarina \u00e9, proporcionalmente, o estado com maior n\u00famero de c\u00e9lulas neonazistas do pa\u00eds, um crescimento que impacta diretamente a popula\u00e7\u00e3o negra, especialmente as mulheres. \u201c\u00c9 um territ\u00f3rio hostil. A viol\u00eancia racial e de g\u00eanero andam juntas, e o Estado brasileiro n\u00e3o tem feito nada concreto para conter esse avan\u00e7o\u201d, critica.<\/p>\n<p>Em 2020, a pesquisadora Adriana Dias, refer\u00eancia nacional no estudo do neonazismo, identificou 69 c\u00e9lulas neonazistas em Santa Catarina, atr\u00e1s apenas de S\u00e3o Paulo, que registrou 99, embora a popula\u00e7\u00e3o paulista seja cerca de seis vezes maior.\u00a0<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Falta oportunidade para as mulheres negras<\/h4>\n<p>Essa hostilidade se traduz tamb\u00e9m na exclus\u00e3o das mulheres negras dos espa\u00e7os de decis\u00e3o, como aponta Maria Estela Costa da Silva, integrante do comit\u00ea impulsionador da Marcha em Santa Catarina e representante da ONG de Mulheres Negras Professora Maura Martins Vic\u00eancia, de Crici\u00fama (SC). \u201cMulher negra em Santa Catarina n\u00e3o tem oportunidade. Principalmente de estar nesses lugares de mando e decis\u00e3o. Mulheres n\u00e3o podem, \u00e9 proibido em Santa Catarina\u201d, constata.<\/p>\n<p>Para ela, romper esse ciclo exige investir na forma\u00e7\u00e3o e no fortalecimento das novas gera\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cPara formarmos novas Antonietas, precisamos fazer o que estamos fazendo: lutar por repara\u00e7\u00e3o, conscientiza\u00e7\u00e3o, incentivar a juventude. As nossas meninas s\u00e3o as futuras Antonietas. Essa \u00e9 a caminhada\u201d, defende.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Maria Estela tamb\u00e9m lembra o caso de Sonia Maria de Jesus, mulher negra e surda mantida por quatro d\u00e9cadas em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o na casa do desembargador do Tribunal de Justi\u00e7a de Santa Catarina, Jorge Luiz de Borba. O caso, amplamente denunciado por movimentos populares e sociais, transformou Sonia em s\u00edmbolo da luta feminista e antirracista no estado, mobilizando organiza\u00e7\u00f5es e familiares em defesa de sua liberta\u00e7\u00e3o e do direito a uma vida digna.<\/p>\n<p>\u201cQuando falamos em bem viver, trazemos essa triste realidade. Nos dias atuais, essa mulher ainda est\u00e1 l\u00e1, voltou para a casa desse desembargador. Por isso, pedimos que a sociedade amplie o olhar para a Marcha das Mulheres Negras e apoie de diversas formas\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A reportagem entrou em contato com a defesa de Jorge Luiz de Borba para solicitar um posicionamento sobre as mobiliza\u00e7\u00f5es pela liberta\u00e7\u00e3o de Sonia. O escrit\u00f3rio que representa a fam\u00edlia Borba informou que, por se tratar de um processo que tramita sob segredo de justi\u00e7a, n\u00e3o ir\u00e1 se manifestar neste momento. Mas ressaltou que a fam\u00edlia n\u00e3o concorda com as acusa\u00e7\u00f5es que lhe s\u00e3o imputadas.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Rota da Liberdade<\/h4>\n<p>Diante de um passado marcado pelo apagamento e pela exclus\u00e3o, novas iniciativas t\u00eam buscado recontar a hist\u00f3ria negra do Sul a partir de outras perspectivas. Uma delas \u00e9 o Projeto de Lei 276\/2024, que cria a Rota da Liberdade, de autoria da deputada estadual Laura Sito (PT-RS).<\/p>\n<p>A iniciativa prop\u00f5e recontar a hist\u00f3ria ga\u00facha a partir dos territ\u00f3rios negros, quilombolas, religiosos, culturais e urbanos, fortalecendo o afroturismo como instrumento de repara\u00e7\u00e3o e desenvolvimento.<\/p>\n<p>A proposta vem sendo constru\u00edda em parceria com comunidades quilombolas do litoral m\u00e9dio do Rio Grande do Sul e tem como objetivo transformar espa\u00e7os de resist\u00eancia em rotas de mem\u00f3ria e valoriza\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cAs mulheres negras t\u00eam papel central nesse processo, porque s\u00e3o guardi\u00e3s da mem\u00f3ria e da ancestralidade. Recuperar a hist\u00f3ria negra \u00e9 tamb\u00e9m afirmar a nossa presen\u00e7a no presente e projetar um futuro de reconhecimento, dignidade e justi\u00e7a\u201d, destaca Sito.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>De acordo com o Censo Demogr\u00e1fico de 2022, o Rio Grande do Sul \u00e9 o estado com maior presen\u00e7a quilombola da Regi\u00e3o Sul, abrigando 17.496 pessoas que se autodeclararam dessa forma. No Paran\u00e1, s\u00e3o 7.113 habitantes quilombolas, e em Santa Catarina, 4.447. Em n\u00fameros absolutos, o Rio Grande do Sul ocupa a 13\u00aa posi\u00e7\u00e3o nacional em popula\u00e7\u00e3o quilombola.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"534\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" src=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/image_processing20221028-25360-i5tmq3-750x534-1-750x375.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-871636\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/image_processing20221028-25360-i5tmq3-750x534-1-300x214.jpeg 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/image_processing20221028-25360-i5tmq3-750x534-1-750x375.jpeg 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/image_processing20221028-25360-i5tmq3-750x534-1-120x86.jpeg 120w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/10\/image_processing20221028-25360-i5tmq3-750x534-1-350x250.jpeg 350w\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O Quilombo dos Alpes, em Porto Alegre, \u00e9 o territ\u00f3rio  com a segunda maior popula\u00e7\u00e3o quilombola no Rio Grande do Sul.  | Foto: Clara Aguiar \/ Brasil de Fato RS<\/figcaption><\/figure>\n<p>O texto ainda est\u00e1 em tramita\u00e7\u00e3o nas comiss\u00f5es da Assembleia Legislativa, e a expectativa \u00e9 de que siga em breve para vota\u00e7\u00e3o em plen\u00e1rio. Enquanto isso, j\u00e1 mobiliza comunidades, lideran\u00e7as e organiza\u00e7\u00f5es negras do estado, conectando-se diretamente \u00e0 for\u00e7a das mulheres ga\u00fachas que marcham em 2025.<\/p>\n<p>\u201cEstaremos na Marcha das Mulheres Negras com uma mobiliza\u00e7\u00e3o enorme. S\u00e3o dezenas de \u00f4nibus saindo de v\u00e1rias regi\u00f5es do estado. Esperamos que o Rio Grande do Sul esteja representado por cerca de mil mulheres negras nessa marcha hist\u00f3rica \u2014 reafirmando que t\u00eam pretas no Sul, e que estamos vivas, organizadas e construindo o futuro com coragem e esperan\u00e7a\u201d, conclui a parlamentar.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Marchar \u00e9 o pr\u00f3prio caminho<\/h4>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras da Marcha das Mulheres Negras, a mobiliza\u00e7\u00e3o se revela muito al\u00e9m do ato em Bras\u00edlia: \u00e9 um processo vivo de reconstru\u00e7\u00e3o, afeto e resist\u00eancia. As mulheres t\u00eam se reunido, compartilhado hist\u00f3rias e reafirmado o sentido da coletividade, valor que sustenta a luta h\u00e1 s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Luc\u00e9lia Gomes refor\u00e7a que o movimento \u00e9 coletivo e interseccional, comprometido com a repara\u00e7\u00e3o, o bem viver e a visibilidade de todas: mulheres trans, com defici\u00eancia, quilombolas, urbanas, do campo e das periferias.<\/p>\n<p>C\u00e1ssia Sant\u2019Anna lembra que marchar \u00e9 reencontrar-se na outra. \u201cA gente sozinha cai. Juntas, ficamos de p\u00e9\u201d, diz. Para ela, o processo de mobiliza\u00e7\u00e3o resgata a autoestima e a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria que o cotidiano individualista tende a apagar.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p> \u201cQuando marchamos e constru\u00edmos coletivamente, ampliamos o olhar para diversas realidades e experi\u00eancias, reconhecendo nas pessoas ao nosso redor fontes de inspira\u00e7\u00e3o e for\u00e7a.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>J\u00e1 Fabiana Oliveira lembra que o Rio Grande do Sul ainda carrega as marcas das enchentes de 2024, que afetaram profundamente as mulheres \u2014 especialmente as negras e em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. Ainda assim, ela enxerga no processo de organiza\u00e7\u00e3o da Marcha um s\u00edmbolo de esperan\u00e7a e renascimento. Muitas mulheres, mesmo sem condi\u00e7\u00f5es de estar presentes no encontro, seguem mobilizando a juventude, articulando coletivos e contribuindo de diferentes formas.<\/p>\n<p>\u201cEu tenho dito que a nossa for\u00e7a reside nessa coletividade negra. \u00c9 efetivamente uma constru\u00e7\u00e3o do \u2018Eu sou porque n\u00f3s somos\u2019\u201d, afirma a historiadora, fazendo refer\u00eancia ao conceito africano Ubuntu, que valoriza a comunidade como base da exist\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p>Nas palavras dessas mulheres, a marcha \u00e9 mais do que um destino, \u00e9 o pr\u00f3prio caminho. \u00c9 a continuidade de uma hist\u00f3ria ancestral que acredita no futuro, mesmo quando o presente insiste em negar. Como ensinam as que vieram antes, a liberdade \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o permanente e a marcha segue justamente nesse prop\u00f3sito, por repara\u00e7\u00e3o e bem viver.<\/p>\n<p><em>*Reportagem produzida no \u00e2mbito do programa de microbolsas de jornalismo Marcha das Mulheres Negras 2025, promovido pelo <strong>Brasil de Fato<\/strong> e pela Funda\u00e7\u00e3o Rosa Luxemburgo.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"td-all-devices\"><a href=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Google search engine\" src=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/anuncio_728x109px.jpg\" width=\"728\" height=\"90\"\/><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/11\/01\/tem-pretas-no-sul-mulheres-negras-desafiam-apagamento-e-mito-da-europa-brasileira-na-regiao-mais-branca-do-pais\/\">Fonte Original <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser mulher negra no Brasil \u00e9 um desafio di\u00e1rio. 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