{"id":12086,"date":"2025-10-23T17:24:16","date_gmt":"2025-10-23T17:24:16","guid":{"rendered":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2025\/10\/23\/o-acolhimento-nao-vem-da-moral-conservadora-brasil-de-fato\/"},"modified":"2025-10-23T17:24:19","modified_gmt":"2025-10-23T17:24:19","slug":"o-acolhimento-nao-vem-da-moral-conservadora-brasil-de-fato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2025\/10\/23\/o-acolhimento-nao-vem-da-moral-conservadora-brasil-de-fato\/","title":{"rendered":"o acolhimento n\u00e3o vem da moral conservadora \u2014 Brasil de Fato"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>A entrevista entre C\u00edntia Chagas, influenciadora digital conhecida por seu discurso conservador e cr\u00edticas ao feminismo, e Manuela d\u2019\u00c1vila, ativista feminista e pol\u00edtica de esquerda, evidencia as fissuras do\u00a0antifeminismo\u00a0contempor\u00e2neo. O epis\u00f3dio, aliado \u00e0 trajet\u00f3ria p\u00fablica de C\u00edntia e de outras influenciadoras, como, por exemplo, Gabriella Jacinto, revela como o discurso da \u201cmulher tradicional\u201d se fragiliza diante da materialidade da viol\u00eancia de g\u00eanero. O fato \u00e9: essa entrevista \u00e9 rica em contradi\u00e7\u00f5es e revela\u00e7\u00f5es que nos ajuda a entender alguns pontos do\u00a0antifeminismo.\u00a0<\/p>\n<p>A partir do di\u00e1logo entre feminismo e teoria cr\u00edtica, argumenta-se que o\u00a0antifeminismo\u00a0digital, ao estetizar a submiss\u00e3o feminina e a domesticidade, transforma a opress\u00e3o em valor simb\u00f3lico. Contudo, as rupturas discursivas e vivenciais dessas influenciadoras revelam o colapso do projeto neoconservador de feminilidade, reafirmando o papel indispens\u00e1vel do feminismo como rede concreta de prote\u00e7\u00e3o, solidariedade e emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como analisa Melinda Cooper (2017), o neoconservadorismo reatualiza a fam\u00edlia tradicional como mecanismo de conten\u00e7\u00e3o das crises geradas pelo neoliberalismo, deslocando \u00e0s mulheres a responsabilidade pela reprodu\u00e7\u00e3o social. No Brasil, essa\u00a0pedagogia da submiss\u00e3o<strong>\u00a0<\/strong>reaparece nas narrativas de influenciadoras digitais como C\u00edntia Chagas, que muitas vezes combinam religiosidade, luxo e disciplina moral para compor o ideal da \u201cesposa-trof\u00e9u\u201d. <\/p>\n<p>Contudo, a entrevista de C\u00edntia Chagas com Manuela d\u2019\u00c1vila, realizada ap\u00f3s C\u00edntia ter denunciado o ex-marido por\u00a0viol\u00eancia dom\u00e9stica, revela a fal\u00eancia simb\u00f3lica desse projeto. Ao declarar ter\u00a0\u201cfeito as pazes com o feminismo\u201d\u00a0e recebido\u00a0<em>\u201c<\/em>mais apoio da esquerda do que da direita\u201d, C\u00edntia rompe (ainda que parcialmente) com a gram\u00e1tica antifeminista que antes defendia. Essa virada exp\u00f5e as contradi\u00e7\u00f5es do discurso neoconservador, cuja promessa de seguran\u00e7a e felicidade conjugal colapsa diante da materialidade da viol\u00eancia e das rela\u00e7\u00f5es de poder.\u00a0E tamb\u00e9m\u00a0da falta de informa\u00e7\u00f5es de como lidar com as in\u00fameras viol\u00eancias de g\u00eanero.\u00a0<\/p>\n<p>A entrevista entre C\u00edntia Chagas e Manuela d\u2019\u00c1vila \u00e9 paradigm\u00e1tica por revelar o limite do\u00a0antifeminismo\u00a0quando confrontado com a realidade da viol\u00eancia de g\u00eanero. C\u00edntia, que antes exaltava a submiss\u00e3o e criticava o feminismo, reconhece.\u00a0Essas afirma\u00e7\u00f5es deslocam o\u00a0antifeminismo\u00a0de um terreno abstrato para o campo da experi\u00eancia. <\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O que se sustenta como ideologia, a ideia de que o feminismo \u201cvitimiza as mulheres\u201d, entra em colapso diante da viv\u00eancia concreta da viol\u00eancia dom\u00e9stica.\u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 evidente: quem de fato acolhe, orienta e protege mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia s\u00e3o as redes feministas e as pol\u00edticas p\u00fablicas resultantes da luta de movimentos de mulheres. O discurso de que a viol\u00eancia \u201ctranscende partidos\u201d funciona como tentativa de neutraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas ignora que a pr\u00f3pria exist\u00eancia da Lei Maria da Penha, das casas de acolhimento e dos servi\u00e7os de prote\u00e7\u00e3o \u00e9 produto direto da mobiliza\u00e7\u00e3o feminista.\u00a0<\/p>\n<p>O\u00a0antifeminismo, portanto, se mostra como constru\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil, incapaz de oferecer resposta material \u00e0 viol\u00eancia. Ele opera como discurso moralizador e\u00a0despolitizador, enquanto o feminismo se mant\u00e9m como ferramenta concreta de sobreviv\u00eancia e solidariedade. Nesse sentido, o caso de C\u00edntia Chagas ilustra o que bell\u00a0hooks\u00a0(2013) denomina de \u201cpol\u00edtica do amor e do cuidado\u201d: o feminismo n\u00e3o \u00e9 ideologia de esquerda, mas uma pr\u00e1tica de reconstru\u00e7\u00e3o da dignidade e da seguran\u00e7a das mulheres.\u00a0<\/p>\n<p>Ao afirmar que \u201ca pauta da viol\u00eancia transcende ideologias\u201d, C\u00edntia busca despolitizar a pr\u00f3pria experi\u00eancia. Essa opera\u00e7\u00e3o de neutraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00edpica do\u00a0antifeminismo\u00a0contempor\u00e2neo: transformar quest\u00f5es estruturais e latentes como viol\u00eancia e desigualdade em dilemas individuais ou morais. No entanto, como argumenta o pr\u00f3prio di\u00e1logo com Manuela d\u2019\u00c1vila, n\u00e3o h\u00e1 neutralidade poss\u00edvel diante da viol\u00eancia de g\u00eanero. As pol\u00edticas p\u00fablicas de prote\u00e7\u00e3o, o acolhimento coletivo e a possibilidade de den\u00fancia s\u00e3o frutos de disputas pol\u00edticas, de enfrentamentos diretos entre projetos de sociedade. <\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Submiss\u00e3o perform\u00e1tica<\/h4>\n<p>A gram\u00e1tica da feminilidade, nesse contexto, torna-se um campo de batalha simb\u00f3lico. De um lado, o\u00a0antifeminismo\u00a0reivindica a \u201cmulher de verdade\u201d, d\u00f3cil e devota ao lar; de outro, o feminismo interseccional afirma a pluralidade das experi\u00eancias e a autonomia dos corpos. Quando C\u00edntia rompe publicamente com parte de seu discurso anterior, essa fissura abre espa\u00e7o para visibilizar o colapso da \u201cfeminilidade disciplinada\u201d que o neoconservadorismo tenta reimpor juntamente com a ascens\u00e3o da extrema direita nos \u00faltimos anos pelo mundo.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>A promessa da \u201cesposa-trof\u00e9u\u201d ou das\u00a0<em>tradwives<\/em>\u00a0\u00e9 apresentada nas redes como escolha individual e empoderadora: cuidar do lar, servir ao marido e abdicar da vida p\u00fablica em nome da harmonia familiar. Contudo, como mostra Cooper (2017), esse retorno ao lar n\u00e3o \u00e9 espont\u00e2neo: \u00e9 um dispositivo de governamentalidade que privatiza o cuidado e transfere \u00e0s mulheres o \u00f4nus da crise da reprodu\u00e7\u00e3o social. Nas redes, essas influenciadoras transformam a domesticidade em espet\u00e1culo. A beleza, a devo\u00e7\u00e3o e a vida conjugal tornam-se produtos monetiz\u00e1veis, convertendo a submiss\u00e3o em capital simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>A feminilidade \u00e9 gerida como um empreendimento, no qual o corpo, o tempo e o afeto s\u00e3o recursos econ\u00f4micos. Entretanto, a contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 central: enquanto pregam a depend\u00eancia financeira como caminho de \u201cseguran\u00e7a emocional\u201d, essas influenciadoras lucram com o pr\u00f3prio discurso, convertendo a submiss\u00e3o em fonte de renda. A figura da \u201cesposa-trof\u00e9u\u201d sintetiza, portanto, a fus\u00e3o entre moral neoconservadora e racionalidade neoliberal: um ideal de docilidade mercantilizada e que produz in\u00fameras viol\u00eancias. Como afirma Brown (2015), o neoliberalismo transforma sujeitos em empreendedores de si mesmos; nesse caso, mulheres empreendedoras de sua feminilidade. A submiss\u00e3o torna-se performativa, calculada e rent\u00e1vel.\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o\u00a0ideal da \u201cmulher tradicional\u201d \u00e9\u00a0racializado\u00a0e classista. As influenciadoras que ocupam esse espa\u00e7o, em sua maioria mulheres brancas e de classe m\u00e9dia, performam uma feminilidade euroc\u00eantrica, inacess\u00edvel \u00e0 maioria das mulheres. O\u00a0antifeminismo, nesse sentido, oferece uma ilus\u00e3o elitista de estabilidade, uma promessa de pertencimento que se sustenta sobre a explora\u00e7\u00e3o de outras mulheres. Ele refor\u00e7a as hierarquias raciais e de classe, travestindo a desigualdade em virtude moral.\u00a0<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Ponto de ruptura<\/h4>\n<p>O\u00a0antifeminismo\u00a0digital e o ideal da \u201cesposa-trof\u00e9u\u201d n\u00e3o representam um simples retorno \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, mas uma muta\u00e7\u00e3o do conservadorismo em sintonia com o neoliberalismo. Ao transformar a submiss\u00e3o em performance e a domesticidade em mercadoria, esse projeto reconfigura o controle sobre os corpos femininos, mantendo a ordem patriarcal sob o verniz da escolha individual. O caso de C\u00edntia Chagas, contudo, mostra o ponto de ruptura desse discurso. Diante da viol\u00eancia, o\u00a0antifeminismo\u00a0se desfaz: o acolhimento vem\u00a0do feminismo, n\u00e3o da moral conservadora. <\/p>\n<p>Essa fissura revela que, por tr\u00e1s da est\u00e9tica do lar e da obedi\u00eancia, h\u00e1 uma estrutura de domina\u00e7\u00e3o que s\u00f3 pode ser enfrentada coletivamente. A narrativa de C\u00edntia Chagas exp\u00f5e o colapso das promessas neoconservadoras: a submiss\u00e3o n\u00e3o protege, o amor heteronormativo n\u00e3o salva, e a fam\u00edlia idealizada n\u00e3o impede a viol\u00eancia. O feminismo, por sua vez, se reafirma como pr\u00e1tica de vida: um movimento que, mais do que ideologia, \u00e9 rede de apoio, \u00e9tica do cuidado e horizonte de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez seja poss\u00edvel afirmar que\u00a0o antifeminismo\u00a0cai quando a vida real entra em cena.\u00a0<\/p>\n<p>::\u00a0Receba not\u00edcias do Brasil de Fato DF no seu Whatsapp\u00a0::<\/p>\n<p><em>*Camila Galetti \u00e9 p\u00f3s-doutoranda em sociologia pela Universidade de Bras\u00edlia (UnB), doutora pela mesma institui\u00e7\u00e3o e professora de sociologia no Instituto Federal\u00a0de\u00a0Bras\u00edlia.<\/em><\/p>\n<p>**<em>Este \u00e9 um artigo de opini\u00e3o. A vis\u00e3o da autora n\u00e3o necessariamente expressa a linha editorial\u00a0do jornal Brasil de Fato \u2013 DF.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"td-all-devices\"><a href=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/\"><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/10\/23\/diante-da-violencia-o-antifeminismo-se-desfaz-o-acolhimento-nao-vem-da-moral-conservadora\/\">Fonte Original <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A entrevista entre C\u00edntia Chagas, influenciadora digital conhecida por seu discurso conservador e cr\u00edticas ao feminismo, e Manuela d\u2019\u00c1vila, ativista feminista e pol\u00edtica de esquerda, evidencia as fissuras do\u00a0antifeminismo\u00a0contempor\u00e2neo. 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