{"id":11340,"date":"2025-09-29T11:24:16","date_gmt":"2025-09-29T11:24:16","guid":{"rendered":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2025\/09\/29\/caatinga-e-um-dos-biomas-mais-eficientes-na-captura-de-carbono-mas-sofre-com-avanco-da-energia-renovavel\/"},"modified":"2025-09-29T11:24:19","modified_gmt":"2025-09-29T11:24:19","slug":"caatinga-e-um-dos-biomas-mais-eficientes-na-captura-de-carbono-mas-sofre-com-avanco-da-energia-renovavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoraouja.com.br\/index.php\/2025\/09\/29\/caatinga-e-um-dos-biomas-mais-eficientes-na-captura-de-carbono-mas-sofre-com-avanco-da-energia-renovavel\/","title":{"rendered":"Caatinga \u00e9 um dos biomas mais eficientes na captura de carbono, mas sofre com avan\u00e7o da energia renov\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>A Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, \u00e9 um dos mais eficazes no chamado sequestro dos gases do efeito estufa. Em compensa\u00e7\u00e3o, o bioma tem sido um dos mais atacados por empreendimentos de energia renov\u00e1vel, considerada uma fonte limpa. A contradi\u00e7\u00e3o verde demonstra que estes modelos alternativos, organizados em torno de grandes empreendimentos, t\u00eam contribu\u00eddo para destruir um dos biomas mais importantes para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de S\u00e3o Paulo (Unesp) das Ci\u00eancias Agr\u00e1rias comparou duas bases de dados sobre emiss\u00f5es e remo\u00e7\u00f5es de gases do efeito estufa nacionais e comprovou que a Caatinga foi respons\u00e1vel, em alguns anos, pela captura de 50% de todo g\u00e1s carb\u00f4nico do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O desempenho da vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 melhor em per\u00edodos de chuva, que s\u00e3o poucos na regi\u00e3o semi\u00e1rida. Nas temporadas de chuva acima da m\u00e9dia para a regi\u00e3o, a vegeta\u00e7\u00e3o responde com muito mais intensidade o processo de captura. Nas temporadas de estiagem, o bioma diminui a capacidade, mas ainda consegue atingir um desempenho surpreendente e, dessa forma, se destaca na fun\u00e7\u00e3o de capturar os gases poluentes da atmosfera, com uma performance at\u00e9 melhor do que a de biomas mais celebrados nestes servi\u00e7os ambientais, como a Amaz\u00f4nia, por exemplo.<\/p>\n<p>O levantamento, realizado pelo pesquisador e mestrando em Agronomia Lu\u00eds Miguel da Costa em parceria com o professor e doutor em F\u00edsica Newton La Scala Jr., analisou o per\u00edodo de 2015 a 2022 e foi publicado na revista<em> Science of the Total Environment<\/em>. Os autores afirmam que o diferencial da Caatinga est\u00e1 na forte resposta ao aumento da disponibilidade de \u00e1gua durante per\u00edodos de chuvas mais intensas.<\/p>\n<p>A pesquisa levou em considera\u00e7\u00e3o a chamada fluoresc\u00eancia da clorofila. Ela \u00e9 um importante indicador que atesta a atividade fotossint\u00e9tica das vegeta\u00e7\u00f5es. Quanto mais elevado este indicador, segundo os pesquisadores, maior \u00e9 a capacidade de sequestro de carbono pela vegeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A emiss\u00e3o de gases do efeito estufa por causa das a\u00e7\u00f5es humanas tem sido a principal respons\u00e1vel pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no mundo. No Brasil, ao contr\u00e1rio das tend\u00eancias dos pa\u00edses do Norte Global, a principal fonte de emiss\u00e3o est\u00e1 na chamada mudan\u00e7a no uso da Terra ou no desmatamento, queimadas e a\u00e7\u00f5es humanas, que alteram o uso daquela regi\u00e3o. O avan\u00e7o da agropecu\u00e1ria corresponde a 70% das emiss\u00f5es nacionais, combinando desmatamento e emiss\u00e3o do g\u00e1s metano.<\/p>\n<p>O professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), na Bahia, Washington Rocha acompanha o trabalho de duas doutorandas que examinam a performance da Caatinga no sequestro do carbono. A pesquisa ainda n\u00e3o foi conclu\u00edda, mas ele antecipa, de forma ainda preliminar, que as evid\u00eancias at\u00e9 aqui confirmam esse comportamento da vegeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO que a gente vem comprovando \u00e9 que, ao contr\u00e1rio do que se pensava antes, a Caatinga tem, sim, essa capacidade de interagir na captura de carbono, especialmente em condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas mais favor\u00e1veis. Quando voc\u00ea tem per\u00edodos com maior umidade, os processos ecossist\u00eamicos no bioma s\u00e3o muito ativos e acelerados, chegando a se comparar com biomas mais protegidos, como a Amaz\u00f4nia. J\u00e1 em per\u00edodos de seca, a Caatinga, se ela tem prote\u00e7\u00e3o natural, adota estrat\u00e9gias para se manter viva.\u201d, explica<\/p>\n<p>Outro estudo, elaborado por uma equipe de pesquisadores do Observat\u00f3rio da Caatinga, vinculado \u00e0 Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), na Para\u00edba, concluiu que \u00e1reas preservadas da vegeta\u00e7\u00e3o conseguem devolver mais vapor de \u00e1gua para a atmosfera e capturar mais g\u00e1s carb\u00f4nico ao longo do ano. O estudo afirma que a preserva\u00e7\u00e3o da Caatinga \u00e9 fundamental para assegurar procedimentos essenciais da natureza, como a oferta de \u00e1gua, a regula\u00e7\u00e3o do clima e o sequestro de carbono.<\/p>\n<p>\u201cPor muito tempo, as pessoas achavam que a Caatinga era \u2018morta\u2019. Temos um per\u00edodo chuvoso, em que vemos tudo verdinho, p\u00e1ssaros cantando, animais circulando e, depois, um per\u00edodo de seca. Isso faz parte da sua din\u00e2mica biol\u00f3gica, da alta depend\u00eancia da pluviosidade. Esse estudo da equipe da Unesp veio para corroborar o que j\u00e1 era certo: a alta produtividade desses ambientes e a sua enorme capacidade de reten\u00e7\u00e3o de gases do efeito estufa, especialmente o g\u00e1s carb\u00f4nico\u201d, explicou o bi\u00f3logo Jo\u00e3o Damasceno, que integra o comit\u00ea t\u00e9cnico-cient\u00edfico do projeto Serid\u00f3 Vivo.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><figcaption class=\"wp-element-caption\">Empreendimentos de energia e\u00f3licas s\u00e3o acusados de afetar o meio ambiente e comunidades vizinhas | Ari Versiani<\/figcaption><\/figure>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Monocultura da \u201cenergia limpa\u201d<\/h4>\n<p>Apesar de ser um excelente sumidouro de carbono, a Caatinga vem sendo alvo constante de devasta\u00e7\u00e3o. De acordo com os dados de relat\u00f3rio do MapBiomas, o bioma perdeu, nos \u00faltimos 40 anos, 9,25 milh\u00f5es de hectares. A Caatinga ocupa uma \u00e1rea de 86,2 milh\u00f5es de hectares, o que corresponde a pouco mais de 10% do territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>O principal agente causador do desmatamento da Caatinga segue sendo a agropecu\u00e1ria. Mas outro vetor tem se destacado na \u00faltima d\u00e9cada de forma contradit\u00f3ria: o avan\u00e7o da energia renov\u00e1vel, considerada uma fonte limpa. Grandes empresas multinacionais t\u00eam acelerado a constru\u00e7\u00e3o de parques e\u00f3licos e usina solar na regi\u00e3o, alterando condi\u00e7\u00f5es ambientais e gerando impactos sociais severos.<\/p>\n<p>\u201cHistoricamente, os principais vetores eram a extra\u00e7\u00e3o de lenha e carv\u00e3o para polos cer\u00e2micos [Pernambuco, Cear\u00e1, Bahia] e para as metal\u00fargicas de Minas Gerais. Hoje, o que identificamos \u00e9 a press\u00e3o da agropecu\u00e1ria \u2014 especialmente na fronteira oeste, pr\u00f3xima ao Matopiba \u2014 e das \u00e1reas irrigadas, como o Vale do S\u00e3o Francisco. Nos \u00faltimos tr\u00eas, quatro anos, come\u00e7amos a detectar outro padr\u00e3o: o avan\u00e7o da infraestrutura para energias renov\u00e1veis, como parques e\u00f3licos e, mais recentemente, usinas fotovoltaicas. No MapBiomas, conseguimos mapear essas \u00e1reas com intelig\u00eancia artificial e identificamos casos em que houve desmatamento de vegeta\u00e7\u00e3o nativa para instalar placas solares. Uma contradi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que poderiam ter sido escolhidas \u00e1reas j\u00e1 degradadas.\u201d, explicou o professor Washington Rocha.<\/p>\n<p>De acordo com dados do MapBiomas, 62% das usinas fotovoltaicas (energia solar) do Brasil est\u00e3o instaladas na Caatinga. Mais de 21 mil hectares do bioma estavam ocupados, em 2024, por esse tipo de empreendimento. O estado da Caatinga com mais usinas solares no pa\u00eds \u00e9 Minas Gerais, seguido por Bahia e Rio Grande do Norte. As \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o sav\u00e2nica s\u00e3o as mais convertidas para a instala\u00e7\u00e3o das grandes usinas.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-od-replaced-sizes=\"(max-width: 729px) 100vw, 729px\" data-od-unknown-tag=\"\" data-od-xpath=\"\/HTML\/BODY\/DIV[@class='jeg_viewport']\/*[5][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[2][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[2][self::DIV]\/*[2][self::DIV]\/*[5][self::DIV]\/*[2][self::DIV]\/*[20][self::FIGURE]\/*[1][self::IMG]\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"729\" height=\"384\" sizes=\"auto, (max-width: 729px) 100vw, 729px\" src=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/Captura-de-tela-2025-09-25-142521-729x375.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-757268\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/Captura-de-tela-2025-09-25-142521-300x158.png 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/Captura-de-tela-2025-09-25-142521-729x375.png 729w\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Gr\u00e1fico do MapBiomas mostra o crescimento do setor de energia solar em \u00e1reas de Caatinga em quase uma d\u00e9cada. Fonte: MapBiomas<\/figcaption><\/figure>\n<p>Esse avan\u00e7o tem sido criticado por pesquisadores e movimentos populares, diante do impacto social e ambiental desses grandes empreendimentos. No caso da energia solar, a instala\u00e7\u00e3o das usinas, segundo estudiosos, demanda desmatamento e at\u00e9 contamina\u00e7\u00e3o do solo para evitar o renascimento da vegeta\u00e7\u00e3o, com o objetivo de facilitar a instala\u00e7\u00e3o das placas solares.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea desmata a floresta que, mesmo em \u00e9poca de seca, sequestra duas toneladas e meia de carbono por hectare\/ano. Voc\u00ea tira, joga veneno, contamina nascentes, para colocar uma tecnologia com o discurso hegem\u00f4nico da descarboniza\u00e7\u00e3o da economia. \u00c9 uma contradi\u00e7\u00e3o\u201d, aponta a turism\u00f3loga Moema Hofstaetter, integrante do Observat\u00f3rio da Energia E\u00f3lica da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC).<\/p>\n<p>\u201cNo caso das usinas solares, al\u00e9m do desmatamento, temos eros\u00e3o do solo acentuada, que pode afetar \u00e1reas vizinhas, como lagoas e unidades de conserva\u00e7\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m o chamado \u2018efeito lago\u2019: algumas aves confundem as placas com l\u00e2minas d\u2019\u00e1gua e colidem ao tentar pousar. Outras sofrem queimaduras ao encostar nas placas superaquecidas. Temos tamb\u00e9m o aumento da presen\u00e7a de abelhas africanas em detrimento de esp\u00e9cies nativas. Isso muda toda a din\u00e2mica ecol\u00f3gica\u201d, aprofunda o bi\u00f3logo Jo\u00e3o Damasceno.<\/p>\n<p>J\u00e1 o professor Washington Rocha, do MapBiomas, relembra o risco de desertifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea desmata, j\u00e1 h\u00e1 um impacto direto no ecossistema. E lembremos que a Caatinga \u00e9 um bioma com baixo percentual de \u00e1reas protegidas. Al\u00e9m disso, ela \u00e9 fr\u00e1gil: solos com vulnerabilidades naturais, regime de chuvas irregular. Se a superf\u00edcie est\u00e1 exposta, aumentam os processos erosivos, a perda de nutrientes e at\u00e9 riscos de desertifica\u00e7\u00e3o\u201d, conclui.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img data-od-replaced-sizes=\"(max-width: 804px) 100vw, 804px\" data-od-unknown-tag=\"\" data-od-xpath=\"\/HTML\/BODY\/DIV[@class='jeg_viewport']\/*[5][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[2][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[2][self::DIV]\/*[2][self::DIV]\/*[5][self::DIV]\/*[2][self::DIV]\/*[26][self::FIGURE]\/*[1][self::IMG]\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"804\" height=\"551\" sizes=\"auto, (max-width: 804px) 100vw, 804px\" src=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/Captura-de-tela-2025-09-25-142632.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-757271\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/Captura-de-tela-2025-09-25-142632-300x206.png 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/Captura-de-tela-2025-09-25-142632-768x526.png 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/Captura-de-tela-2025-09-25-142632-750x536.png 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/Captura-de-tela-2025-09-25-142632.png 804w\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Gr\u00e1fico  mostra que \u00e1rea da Caatinga \u00e9 mais afetada pelos projetos de energia solar. Fonte: MapBiomas<\/figcaption><\/figure>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Excesso de energia e adoecimento<\/h4>\n<p>Al\u00e9m do impacto ambiental, o avan\u00e7o da energia renov\u00e1vel no Nordeste, em especial em \u00e1reas de Caatinga, tamb\u00e9m promove impacto social. Pesquisadores e movimentos populares denunciam casos de adoecimento, ass\u00e9dio financeiro e acidentes em \u00e1reas pr\u00f3ximas aos parques de energia.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma grande contradi\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea devasta um bioma exclusivamente brasileiro, que j\u00e1 tem s\u00f3 metade ou menos da metade preservado, para botar um empreendimento que, na grande maioria, tem gerado muitas contradi\u00e7\u00f5es nos territ\u00f3rios. Por qu\u00ea? Porque os contratos s\u00e3o abusivos, porque n\u00e3o tem di\u00e1logo na constru\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o respeita, n\u00e3o faz consulta livre, pr\u00e9via e informada, apesar de ser um requerimento da OIT\u201d, critica Carlos Magno, do Centro Sabi\u00e1, entidade que atua com comunidades da Caatinga. <\/p>\n<p>Ele ressalta que os novos empreendimentos t\u00eam sido feitos com algumas exig\u00eancias, mas os anteriores foram constru\u00eddos sem qualquer controle. \u201cIsso gera problema de sa\u00fade mental nas fam\u00edlias, problema de todo tipo que voc\u00ea possa imaginar\u201d, denuncia Magno.<\/p>\n<p>Todo esse investimento nas chamadas fontes limpas tem sido colocado em d\u00favida nas \u00faltimas semanas. Isso porque o Operador Nacional do Sistema El\u00e9trico(ONS) tem desligado alguns parques porque h\u00e1 um excesso de produ\u00e7\u00e3o e pouca demanda de energia. Esse excesso, segundo a ONS, pode sobrecarregar o sistema e causar acidentes.<\/p>\n<p>\u201cEsses parques devastam o ambiente para gerar uma energia \u2018limpa\u2019, mas que agora, nesse momento, nem est\u00e1 sendo necess\u00e1ria. Os caras est\u00e3o desligando os parques porque n\u00e3o precisam da energia. \u00c9 uma contradi\u00e7\u00e3o imensa\u201d, aponta Magno.<\/p>\n<p>\u201cO discurso \u00e9 de progresso, de energia limpa, mas o resultado \u00e9 perda de biodiversidade, perda de modos de vida, de cultura, de \u00e1gua, de comida\u201d. conclui a pesquisadora Moema Hofstaette.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img data-od-replaced-sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" data-od-unknown-tag=\"\" data-od-xpath=\"\/HTML\/BODY\/DIV[@class='jeg_viewport']\/*[5][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[2][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[1][self::DIV]\/*[2][self::DIV]\/*[2][self::DIV]\/*[5][self::DIV]\/*[2][self::DIV]\/*[34][self::FIGURE]\/*[1][self::IMG]\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"493\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" src=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/Captura-de-tela-2025-09-25-142614-1024x493.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-757272\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/Captura-de-tela-2025-09-25-142614-300x144.png 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/Captura-de-tela-2025-09-25-142614-1024x493.png 1024w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/Captura-de-tela-2025-09-25-142614-768x370.png 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/Captura-de-tela-2025-09-25-142614-750x515.png 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/09\/Captura-de-tela-2025-09-25-142614.png 1070w\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">\u00c1rea de Caatinga do estado de Minas Gerais \u00e9 o territ\u00f3rio mais impactado por empreendimentos de energia solar no bioma. Fonte: MapBiomas<\/figcaption><\/figure>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">S\u00edndrome da turbina e\u00f3lica<\/h4>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o que vive pr\u00f3xima aos parques e\u00f3licos t\u00eam relatado graves problemas de sa\u00fade. De acordo com estudo feito pela Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a Universidade de Pernambuco, os moradores dessas comunidades t\u00eam desenvolvido a chamada \u201cSindrome da Turbina E\u00f3lica\u201d. Ela est\u00e1 associada a sintomas como ins\u00f4nia, irritabilidade, dores de cabe\u00e7a e ansiedade, provocados pelo ru\u00eddo constante e pelos infrassons das torres.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisa, em 2023, 70% dos 105 entrevistados afirmaram querer se mudar devido aos problemas. O estudo aponta ainda que 66% usam medicamentos para dormir, 54% relataram perda auditiva e 31% sofrem com o inc\u00f4modo visual das p\u00e1s girando, o chamado efeito estrobosc\u00f3pico. Al\u00e9m disso, 41% mencionaram alergias e dermatites causadas pela poeira espalhada pelas h\u00e9lices.<\/p>\n<p>\u201cUma agricultora me disse: \u2018Carlos, quando eu vou a Caruaru ou a Garanhuns, eu saio daqui, mas continuo escutando o barulho dentro da minha cabe\u00e7a. Demoro meses para isso sumir\u2019. N\u00e3o h\u00e1 um estudo ainda nesse sentido, mas o impacto pode ser compar\u00e1vel ao do cigarro. Quando se comprovar, j\u00e1 ter\u00e1 feito um estrago enorme. Vi essa agricultora com a filha pequena no colo e pensei: \u2018Essa crian\u00e7a j\u00e1 est\u00e1 crescendo sob esse efeito\u2019. \u00c9 uma desumanidade tremenda\u201d, relata Carlos Magno, do Centro Sabi\u00e1.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O que dizem as empresas <\/h4>\n<p>As associa\u00e7\u00f5es de representa\u00e7\u00e3o das empresas de energia renov\u00e1vel no Brasil afirmam que o impacto ambiental das atividades \u00e9 muito baixo e que o setor j\u00e1 aplica iniciativas de compensa\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>A presidenta-executiva da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Empresas de Energia E\u00f3lica (ABEE\u00f3lica), Elbia Gannoum, explicou que a ind\u00fastria de energia renov\u00e1vel, especificamente a e\u00f3lica, tem baixo impacto no meio ambiente e zero emiss\u00e3o de carbono, se posicionando como uma importante frente na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o existe nenhuma atividade econ\u00f4mica que n\u00e3o tenha impacto ambiental. A grande discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se h\u00e1 impacto ou se n\u00e3o h\u00e1 impacto. A discuss\u00e3o \u00e9 qual \u00e9 o grau de impacto que n\u00f3s temos para determinadas atividades. E, no caso das energias renov\u00e1veis, elas t\u00eam zero emiss\u00e3o. Portanto, ela n\u00e3o tem esse impacto de CO2, mas elas t\u00eam a quest\u00e3o de uso das \u00e1reas que s\u00e3o determinadas para produ\u00e7\u00e3o de energia\u201d, apontou.<\/p>\n<p>\u201cA energia e\u00f3lica \u00e9 a fonte de menor impacto de toda a cadeia de produ\u00e7\u00e3o e quando instalamos esses parques eventualmente em regi\u00f5es que tenham algum bioma \u2014 e a\u00ed cita-se a Catinga, que talvez seja mais comum \u2014 n\u00f3s temos trabalhos de redu\u00e7\u00e3o de impacto, seja na hora que a gente t\u00e1 construindo o parque, seja depois\u201d, completou.<\/p>\n<p>Sobre o avan\u00e7o dos empreendimentos sobre \u00e1reas de Caatinga preservadas, a presidenta-executiva afirmou que o impacto da e\u00f3lica \u00e9 menor do que o da usina solar.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea observar os estudos, a preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito maior com a energia solar do que com a energia e\u00f3lica, porque a energia solar \u00e9 um painel que fica em cima ali do solo. Quando voc\u00ea coloca aquele painel, voc\u00ea realmente neutraliza aquela \u00e1rea, aquela \u00e1rea n\u00e3o pode mais ser recuperada. Ela vai ficar degradada. Aquela \u00e1rea que a energia e\u00f3lica utiliza \u00e9 uma \u00e1rea muito pequena. Ent\u00e3o, em geral, a gente faz as compensa\u00e7\u00f5es ambientais que s\u00e3o muito menores e nosso impacto acaba sendo muito reduzido.\u201d<\/p>\n<p>Questionada sobre os epis\u00f3dios de desligamento dos parques, Gannoum afirmou que estes casos ocorrem por causa da superoferta de energia produzida pelas usinas solares individualizadas, a chamada Gera\u00e7\u00e3o Distribu\u00edda (GD), instaladas em telhados de empresas e resid\u00eancias. Ela explica que este segmento, por ter pouca regula\u00e7\u00e3o, \u00e9 o respons\u00e1vel por essa sobrecarga e que o pa\u00eds ainda precisa da energia gerada pelos grandes parques e\u00f3licos ap\u00f3s os hor\u00e1rios de desligamento.<\/p>\n<p>\u201cHouve um crescimento descontrolado da energia solar de telhado. E isso est\u00e1 trazendo impacto, inclusive, na opera\u00e7\u00e3o do sistema em termos de seguran\u00e7a. Ent\u00e3o, esse \u00e9 um aspecto preocupante que o governo j\u00e1 tomou para si, j\u00e1 compreendeu que \u00e9 um grande problema e que precisa buscar solu\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, embora a gente esteja vivendo esse problema agora, esse excesso de energia, ele s\u00f3 acontece das 10 \u00e0s 16 horas. Depois, o sistema precisa dos nossos parques, ele precisa de energia. Eu entendo que essa conjuntura \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o conjuntural, deve ser resolvida nos pr\u00f3ximos tempos por quest\u00f5es muito mais regulat\u00f3ria.\u201d<\/p>\n<p>Sobre o impacto dos parques e\u00f3licos na sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o que reside em comunidades vizinhas, Gannoum afirmou que ainda n\u00e3o h\u00e1 estudos que comprovem esses impactos e que, hoje, as torres est\u00e3o sendo instaladas a uma dist\u00e2ncia de 400 metros das casas. Ela citou casos em que as empresas ofertam isolamento ac\u00fastico para as resid\u00eancias ou mudam o local das casas ainda dentro do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Por sua vez, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Energia Solar Fotovotaica (Absolar) afirmou, em nota, que \u201ca ampla maioria destes empreendimentos \u00e9 constru\u00edda em locais com menor densidade demogr\u00e1fica, em \u00e1reas degradadas, improdutivas, subutilizadas e em terrenos j\u00e1 antropizados e de baixa produtividade, que normalmente n\u00e3o seriam aproveitados para outras atividades.\u201d<\/p>\n<p>Afirmou ainda que \u201co fato de algumas constru\u00e7\u00f5es terem ocorrido em uma \u00e1rea que era de vegeta\u00e7\u00e3o n\u00e3o representa uma irregularidade ambiental em si. A implanta\u00e7\u00e3o destes empreendimentos fotovoltaicos atende a rigorosos requisitos legais, regulat\u00f3rios e ambientais, inclusive quanto ao seu licenciamento, mitiga\u00e7\u00e3o e compensa\u00e7\u00e3o de eventuais impactos ao entorno.\u201d<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o citou os benef\u00edcios do setor para o desenvolvimento do pa\u00eds. \u201cVale destacar que o avan\u00e7o das grandes usinas solares tem sido essencial para acelerar a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica no Brasil, ajudando o pa\u00eds no cumprimento das metas estabelecidas para redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, al\u00e9m de contribuir de forma significativa para a redu\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia dos recursos h\u00eddricos, aliviando a press\u00e3o sobre os reservat\u00f3rios hidrel\u00e9tricos e sobre a \u00e1gua com seus usos m\u00faltiplos pela sociedade\u201d<\/p>\n<p>Por fim, a respeito do excesso de energia n\u00e3o utilizado, a Absolar informa que \u201cmais da metade do problema hist\u00f3rico dos cortes de gera\u00e7\u00e3o renov\u00e1vel (solares e e\u00f3licos) \u00e9 causada por falta de infraestrutura el\u00e9trica (linhas de transmiss\u00e3o, subesta\u00e7\u00f5es, equipamentos de prote\u00e7\u00e3o, compensadores s\u00edncronos, entre outros), seja por conta de atrasos em novas linhas de transmiss\u00e3o, problemas enfrentados em linhas existentes (como, por exemplo, danos e interrup\u00e7\u00f5es causadas por eventos clim\u00e1ticos extremos), dificuldades com licenciamento ambiental, entre outros fatores.\u201d<\/p>\n<p>Na nota, a associa\u00e7\u00e3o informa que \u201cmais de 39% da energia renov\u00e1vel solar e e\u00f3lica gerada no ano de 2025 foi cortada\u201d. Sobre a influ\u00eancia da chamada Gera\u00e7\u00e3o Distribu\u00edda, que s\u00e3o os geradores individualizados e instalados em resid\u00eancias, a Absolar explica que este tipo de gera\u00e7\u00e3o \u201cal\u00e9m de ser uma fonte limpa, renov\u00e1vel e acess\u00edvel, traz muitos benef\u00edcios \u00e0 sociedade brasileira, tanto em termos econ\u00f4micos quanto sociais e ambientais.\u201d<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Caminhos poss\u00edveis<\/h4>\n<p>O caminho de preserva\u00e7\u00e3o pensado pelos pesquisadores e movimentos populares \u00e9 apoiar o pequeno agricultor, que conserva a biodiversidade da regi\u00e3o, e criar regras mais s\u00f3lidas para a instala\u00e7\u00e3o desses projetos.<\/p>\n<p>\u201cQuando a gente fala em descarbonizar a economia, eu sempre digo que n\u00e3o se trata s\u00f3 de trocar energia f\u00f3ssil por energia renov\u00e1vel. \u00c9 pensar em justi\u00e7a social, \u00e9 pensar em justi\u00e7a ambiental, \u00e9 pensar em como valorizar os territ\u00f3rios e as popula\u00e7\u00f5es que j\u00e1 cumprem esse papel de preservar e de produzir vida\u201d, aponta Hofstaetter.<\/p>\n<p>Para o bi\u00f3logo Jo\u00e3o Damasceno, um processo cont\u00ednuo de escuta ativa junto \u00e0s comunidades seria fundamental. \u201cPara ter uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa, socialmente e ambientalmente equilibrada, precisamos pensar em in\u00fameros fatores e garantir que o desenvolvimento n\u00e3o seja constru\u00eddo \u00e0s custas da biodiversidade nem das pessoas\u201d, conclui Damasceno.<\/p>\n<p>J\u00e1 o professor Washington Rocha sugere dois caminhos: o planejamento espacial e a ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas compensat\u00f3rias. No primeiro caso, ele afirma que hoje j\u00e1 existe tecnologia dispon\u00edvel para oferecer um servi\u00e7o de precis\u00e3o. \u201cUsar an\u00e1lises geogr\u00e1ficas para identificar \u00e1reas menos fr\u00e1geis. Pernambuco, por exemplo, tem uma plataforma desenvolvida com a CPRH, que ajuda na gest\u00e3o e no licenciamento ambiental\u201d, explica. <\/p>\n<p>No segundo caso, a sugest\u00e3o dele \u00e9 apoiar iniciativas de restaura\u00e7\u00e3o. \u201cRestaurar \u00e9 estrat\u00e9gico n\u00e3o s\u00f3 para o bioma, mas at\u00e9 para a agricultura, que se beneficia da presen\u00e7a de polinizadores em \u00e1reas naturais pr\u00f3ximas. Ent\u00e3o, se h\u00e1 necessidade de desmatar, que haja compensa\u00e7\u00e3o proporcional ou maior em outras \u00e1reas\u201d, avalia.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"td-all-devices\"><a href=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Google search engine\" src=\"https:\/\/agoraouja.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/anuncio_728x109px.jpg\" width=\"728\" height=\"90\"\/><\/a><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/09\/29\/caatinga-e-um-dos-biomas-mais-eficientes-na-captura-de-carbono-mas-sofre-com-avanco-da-energia-renovavel\/\">Fonte Original <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, \u00e9 um dos mais eficazes no chamado sequestro dos gases do efeito estufa. Em compensa\u00e7\u00e3o, o bioma tem sido um dos mais atacados por empreendimentos de energia renov\u00e1vel, considerada uma fonte limpa. 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